Quando há a abertura do processo de canonização de uma pessoa, o primeiro estágio é o de “servo de Deus”. Se se apresenta virtudes necessárias, é proclamado “venerável”. Caso se prove um milagre por sua graça, é beatificado. A canonização acontece com a comprovação de um segundo milagre. A querida Madre Escolástica já recebeu o título de “Venerável” e isto é gratificante para todas nós Pias Discípulas do Divino Mestre e toda a Família Paulina. Assim sentimos que com o modo de vida inspirado ao Bem-Aventurado Tiago Alberione é fonte de santificação para todos os membros.

Mas você conhece a Venerável Madre Escolástica? Ela foi a primeira irmã convocada a ser Pia Discípula do Divino Mestre.

Abaixo, trazemos a bonita história contada pela ir. M. Gemma Oberto:

Um “sim” para a vida

16 de Abril de 1896. Da Igreja paroquial de S. Martino di La Mora, que se  debruça sobre o largo Belvedere, dominando a bacia de Langhe, sai um jovem casal de  esposos: Lúcia Alessandria e António Rivata. Não têm a viagem de núpcias programada  e, depois do almoço, frugal mas festivo, preparado em casa da esposa, no vale do  povoado, para os lados de Santa Maria, percorrem os poucos quilómetros, passando  por Alba, que os levarão à sua casa em Guarene, rua Luccio, nº 24.

Passou pouco mais de um ano de matrimónio quando, a 12 de Julho de 1897, nasce a sua filha primogênita que no Batismo, celebrado no dia logo a seguir ao seu  nascimento, recebe o nome de Úrsula, para recordar tanto a avó paterna como a avó  materna.

Úrsula começa a vida no ano da morte de Teresa de Lisieux (30 de Setembro).  Misteriosamente estas duas vidas entrelaçam-se. Santa Teresa exercerá uma força  atrativa sobre Úrsula através da leitura de “História de uma alma” e será uma figura  de referência nos inícios da Congregação das Pias Discípulas do Divino Mestre. 1897 é  também o ano do nascimento de João Batista Montini (26 de Setembro), futuro Papa  Paulo VI, fato que Madre Escolástica lhe recordará orgulhosamente numa audiência  em 1974.

Guarene: um sugestivo lugar do Piemonte

O ambiente em Guarene oferece à pequena Úrsula imagens sugestivas: sobre  a rocha mais elevada ergue-se a imponente e harmoniosa construção do castelo,  evocando a nobreza que através dos séculos exerce a sua influência na vida da região.  A capela do castelo, dedicada a Santa Teresa d’Ávila, será meta frequente para os  passeios e momentos de oração da jovem Úrsula. A existência de numerosos  campanários testemunha uma religiosidade inculcada no ânimo das pessoas que não  se rendeu nem mesmo perante as incursões sarracenas. A vista desde Roero a Langhe  empurra o olhar até à cadeia dos Alpes; em baixo contempla-se o vale fértil do Tanaro  e avistam-se as torres de Alba.

A terra, trabalhada com o suor do rosto, não é avara e oferece às pessoas trabalhadoras de Guarene as fontes para viver com dignidade, ainda que sobriamente.  O asilo infantil, confiado às irmãs do Cottolengo, e as escolas até ao quinto ano  asseguram o cuidado e a alfabetização das novas gerações.

Por dois anos Úrsula tem só para si as atenções do pai e da mãe; em seguida  chegam Giuseppina (1899), Clotilde (1900) e Tiago (1903). A família aumenta e tudo  parece decorrer na sóbria felicidade das famílias unidas e abertas à vida.

A primeira grande dor

A alegria pelo nascimento de Tiago depressa é ofuscada pelo que Úrsula  recordará sempre como “a primeira grande dor da vida”. A 3 de Julho de 1903, Lúcia, a mãe, morre; Úrsula, que já não terá o seu beijo no seu sexto aniversário, encontra-se no papel de filha e de irmã mais velha. Os jogos,  as canções e os trilos de alegria que enchiam a casa apagam-se e o pai António tem de  enfrentar a dura prova. Tem a ajuda dos familiares, mas a responsabilidade dos quatro  filhos que Lúcia lhe deixa é toda sua.

Ainda estava na infância – escreverá Madre Escolástica em 1941 – e parecia-  me que a vida fosse somente rosas e flores. Amada por bons pais, cercada pelos seus  cuidados primorosos, os dias decorriam felizes. Com a minha voz límpida, enchia a  casa de trilos festivos e atormentava a minha mãe com mil perguntas. Oh, cara mãe!  Demasiado belos eram esses dias, era necessário que a provação viesse visitar este  pequeno ser despreocupado. E chegou a primeira grande dor!… Depois de uma breve  doença, morre a mãe dilecta! Que dor! Quem a pode compreender? Só quem a  experimentou é que entende esta dor intensa, esta desventura, que é perder este ser  assim tão caro! Esta é uma ferida que não sara, através de todas as vicissitudes da  vida com o acumular dos anos. E o Senhor assim quis, na sua infinita bondade e  sabedoria, que eu fosse bem cedo visitada pela dura prova da dor…”.

Úrsula, que em Outubro deve começar a escola primária, regressa cedo a casa  com o pai, consolidando com ele um relacionamento especial. O irmãozinho Tiago  está na ama-de-leite e as irmãs em casa da avó materna. Criança vivaz e inteligente,  Úrsula gosta de aprender a ler e a escrever e isto atenua a sua dor e prepara-a para  olhar o futuro com serenidade. Como a mãe lhe tinha ensinado, recorre com confiança  a Nossa Senhora que, na igreja paroquial, tem o seu belo altar e, também em casa, lhe  sorri a partir de um grande quadro.

Em 1904, António decide levar para casa uma nova mãe para os seus filhos.  No mês de abril casa-se com Giuseppa Bertolotto, mulher forte, de sólidos princípios  cristãos, ainda que na aparência e no carácter seja muito diferente de Lúcia. O pequeno Tiago morre aos 10 meses e, sem filhos das segundas núpcias, em  casa permanecem as três irmãs.

Úrsula tem dificuldade em aceitar a “mãe Giuseppa” que toma o lugar da sua mãe,  mas empenha-se em seguir o seu exemplo, em admirar a sua dedicação para que ela e  as suas irmãs cresçam, cuidando não só do físico, mas também do espiritual.

Anjinho e pimentinha

Na escola, recordam as suas contemporâneas, estava entre as melhores,  estudava, estava sempre bem preparada e muitas vezes recebia o prêmio de trazer  sobre o avental, por sete dias consecutivos, a medalha com a esfinge do rei e a fita  tricolor.

A menina bonita que parecia um anjinho, aos olhos dos colegas mostra-se  também muito esperta, vivaz, habitualmente alegre, ativa, que sabia estar bem em  grupo, que moldava no canto a sua bela voz, uma jovem sincera, franca, de uma  “simplicidade que não admitia descontos”.

Paróquia e caminho espiritual

O encontro com Jesus Eucarístico na primeira comunhão, em maio de 1904,  dá “novas asas” à vida de Úrsula. O sacramento da Confirmação que recebe em 1909  das mãos de Monsenhor Giuseppe Re, bispo de Alba, fortifica-a no empenho cristão.

A paróquia dos Santos Pedro e Bartolomeu é muito activa e os sacerdotes  que, no florescente seminário de Alba, assimilaram um grande amor à Eucaristia,  transmitem-no com o incentivo à Comunhão frequente, com a catequese e o cuidado  pastoral para com todas as idades e condições.

Organizam-se acuradamente as festas dos padroeiros com a pregação  confiada aos sacerdotes do seminário de Alba, entre os quais, Padre Tiago Alberione.

Úrsula marca também presença ativa na schola cantorum que ajuda a  saborear a beleza das celebrações. Também o edifício da igreja, sobretudo no seu  interior, é bem cuidado. O pároco, padre João Agnello, empreende um restauro atento  e manda executar sobre a abóbada, por Lourenço e Constantino Mossello de Montà, a  pintura dos anjos que adoram a Santíssima Eucaristia, os Santos Pedro e Bartolomeu e S. Lourenço. Naturalmente também Úrsula, ao olhar para o alto, terá seguido a criação  das imagens que depois alimentaram a sua oração. Muitas vezes terá fixado o olhar  sobre  a  pequena  porta  do  sacrário  onde  está  representado  Jesus  que  diz  aos discípulos: “Venite ad Me omnes / Vinde a Mim todos”, sentindo-se atraída por este  convite do Divino Mestre.

Trabalho e amizades

Úrsula cresce e, neste clima de harmonia entre natureza e graça, forma a sua  personalidade. Guarene é um pequeno povoado, mas é aberto à experiência e  vivacidade espiritual, e também cultural, da cidade vizinha de Alba.

Não obstante a sua sede de saber e de conhecimento, depois da escola primária não é oferecida a Úrsula a possibilidade do estudo, mas pela leitura continua  a sua autoformação e não só no campo religioso. O tempo disponível para ler  restringe-se às horas noturnas e ela tem de valer-se da luz do azeite, sujeitando-se  por vezes à reprovação da madrasta: “Lês toda a noite, até o teu nariz fica  chamuscado”.

Na adolescência e juventude experimenta o trabalho em vários âmbitos, para  além do doméstico, o que a põe em contato com as diversas realidades sociais e  contribui para o seu crescimento e maturidade. O trabalho nos campos em contato com os ciclos e a beleza da natureza imprime nela um timbre “ecológico” afinado,  alimentado até aos últimos anos da vida. Experimenta também a fadiga e a constância  que requer a terra para que dê os seus frutos e, não por último lugar, o abandono à  providência do Senhor quando, por calamidades naturais, como a queda de granizo, se  perdem em poucos minutos todas as colheitas. O emprego sazonal na fábrica de seda  De Fernex em Alba, leva-a a tomar contato com os problemas do relacionamento  entre patrões e operários, numa estrutura onde os fermentos sociais do início do  século XX eram acentuados, como é documentado nas crónicas de Alba do tempo. No  tempo de trabalho na fiação, que sazonalmente contratava jovens provenientes dos  arredores com oferta de um internato para as refeições e as dormidas, encontra  Eufrosina Binello, uma jovem que a precederá na entrada entre as fileiras do padre  Alberione e, sobre as pegadas dos primeiros discípulos chamados por Jesus, fará lhe ressoar o convite: “Vem e vê”. O serviço numa família burguesa de Alba leva-a a  viver a condição de colaboradora doméstica, ocupação bastante comum para muitas  jovens de então e que a aproxima de tantas outras dos dias de hoje.

Opção de vida

Antônio orgulha-se das suas três filhas que crescem e começam a ser  notadas pelos jovens da região. Depois do empenho econômico para a sua nova casa  na rua Luccio nº 22, começa a pôr a parte as poupanças para preparar os seus dotes.  O seu desejo é que encontrem um bom partido e que sejam felizes. Está atento a  quem pousa os olhos sobre elas e um dia chama Úrsula, a filha mais velha que,  segundo o costume, devia ser a primeira a casar, e diz-lhe que um tal André pediu a  sua mão.

É um bom rapaz – sublinha o pai – que tem posses, com ele poderás ter uma  vida feliz”. Como bom patriarca aconselha e pede que reflita. Propõe, mas não impõe. Deseja o melhor para as filhas e, com particular sensibilidade, para Úrsula que, no  aspecto físico, lhe recordava muito Lúcia. A proposta do pai Antônio é como um  relâmpago que rasga as nuvens e provoca uma primeira grande decisão. De fato,  depois da Missa Dominical, ao sair da Igreja, olha para André, que não lhe era  desconhecido, mas que agora deve avaliar como a pessoa a quem poderia ligar a sua  vida. É verdadeiramente um belo rapaz e muito bom. Mas, subitamente sente-se  profundamente desnorteada e corre pela descida que a leva à rua Luccio, nº 22.  Eloquente a recordação daquele momento, escrita quarenta anos depois:

Depois da Missa, regressando a casa, tomou-me uma espécie de medo e,  entrando em casa fui imediatamente para o meu quarto onde estava uma estátua  bonita do Sagrado Coração… Pus-me diante do Sagrado Coração e disse-lhe: Senhor,  só Tu e basta.

Desci a escada e fui ter com o meu pai para lhe dizer: não, não aceito a sua mão.”

Senhor, só Tu e basta! Disse o seu Sim Àquele que por primeiro a chamou e que a partir deste momento lhe pedirá para ser “só, o único” da sua vida, “na alegria e  na dor, na saúde e na doença, na pátria e no exílio…”. A partir daqui o seu caminho  desenha-se com maior clareza e o seu estilo de vida assume novas conotações.

“A partir daquele momento mudei muito a minha maneira de atuar e não me  saciava em mortificar-me, orar constantemente, a Missa todas as manhãs, confissão  semanal e comunhão. Descobri debaixo de um vão de escadas o livro “Prática de amar  Jesus Cristo” e este ajudou-me muito a orientar bem a minha vida de piedade. Li  também a “História de uma alma” e também me fez muito bem, em particular deu-me  o forte desejo de me tornar religiosa”.

Sente que a sua vida deverá ser toda entregue ao Senhor, mesmo que não  saiba ainda como ou onde. É já maior de idade, mas a sua decisão provoca um certo contraste na família, acolhido como uma prova que a reforça ainda mais na decisão e  no exercício do quarto mandamento.

O encontro com padre Alberione

Continua a formar-se lendo muito e a paixão pela leitura, na busca de bons  livros, leva-a ao encontro com um grande apóstolo dos tempos modernos: padre Tiago  Alberione que, sem rodeios, enquanto procura o livro pedido e depois de um breve  diálogo lhe diz: “Quando vens para S. Paulo?”

Para além disso, naquele sábado, entre as bancas do mercado de Alba,  encontra novamente Eufrosina, a amiga do tempo da fábrica, que já faz parte do  grupo feminino da fundação do padre Tiago Alberione, que a convida com entusiasmo  contagiante para ir ver onde se encontra.

Uma outra luz se acende no caminho de Úrsula. Nos seus 24 anos sente-se  impelida a ir para além das expectativas e oposições familiares, que porém se  intensificam quando manifesta a sua vontade de ir para S. Paulo, pelo facto da obra do padre Alberione estar a principiar e ainda não se vislumbrarem claros horizontes e  garantias para o futuro.

Seguir o Mestre

Úrsula tinha fixado um tempo: o fim dos trabalhos de Verão nos campos.  Aplanadas as dificuldades, a 29 de Julho de 1922, acompanhada pelo pai, entra na  aventura que a levará pelos caminhos imperscrutáveis do Senhor.

Em Alba, na primeira casa própria, depois de muitas mudanças nos primeiros  anos, padre Tiago Alberione, que em 1914 dera início à Pia Sociedade de S. Paulo com  dois jovens, tem agora um bom número de apóstolos da boa imprensa. Desde 1915  existe também um grupo de jovens mulheres que, apenas uma semana antes, a 22 de  Julho, com os votos privados e a nomeação de Tecla Merlo como Superiora Geral, são  constituídas oficialmente com o nome de Filhas de S. Paulo.

Úrsula tem diante de si o programa dado pelo fundador a toda a obra: “Glória  a Deus, paz aos homens”, levar o Evangelho com os meios modernos, que então consistiam sobretudo na imprensa. É certo que na “Casa” qualquer ocupação, mesmo  limpar verdura, preparar as refeições, lavar e engomar a roupa, é direcionada para  este objetivo. Ser o único Corpo de Cristo leva a que todos alcancem o mesmo fim.

Uma nova família

Talvez desde o encontro na livraria com Úrsula, o padre Tiago Alberione  sentisse, sob moção do Espírito Santo, que chegara o momento de ampliar a família.

Quando esta jovem, na maturidade dos seus 25 anos, entra em S. Paulo, ele  põe-lhe entre mãos o livro “As mulheres do Evangelho”, como instrumento para a  sintonizar com a futura missão. O Padre Alberione quer difundir o Evangelho com a  imprensa e com os meios que virão no futuro, mas está convicto que são necessárias  pessoas que, com a vida, sejam anúncio e contágio da Boa Notícia, como as mulheres  que seguiram Jesus no seu peregrinar e que estavam presentes na manhã da  ressurreição, mulheres que com a riqueza da sua feminilidade e doação sustentem e  acompanhem os apóstolos de hoje. Ecoam também as palavras do seu diretor  espiritual, o Cónego Francisco Chiesa: “Antes de executar as obras assegura-te de um  grupo proporcional de almas que rezem e, se necessário, se imolem por essas obras,  se queres que sejam vitais”.

Úrsula e Matilde

A 21 de Novembro de 1923, com um gesto que se reveste de certa solenidade  e que evoca o gesto da comunidade de Antioquia para Paulo e Barnabé (cfr. Act 13,2),  mesmo se em Alba o lugar e os meios parecem muito pobres (de facto estamos na  cozinha e o púlpito do anúncio é uma rudimentar caixa de madeira), padre Alberione  diz:

“Ponde de parte Úrsula e Matilde para uma missão que lhes confiarei”. Ainda não é  um projeto claro, mas sabe que se deve dar andamento à obra do Espírito. À pergunta lógica de Matilde: “O que iremos fazer?”, responde com um tríplice  imperativo: “Fareis silêncio, silêncio, silêncio”, quase como quem diz: deveis escutar,  escutar, escutar aquilo que o Senhor vos comunicar e a Presença que nos fala não está  no terramoto, não está no fogo, mas no passar de uma brisa ligeira, no silêncio (cfr  1Reis 19, 11-12).

Úrsula sente-se apartada com Matilde Gerlotto do grupo das jovens  presentes na única casa de Alba, para uma nova obra, na qual é preciso abandonar-se  ao projeto de Deus que se manifestará através do Fundador. É escolhida como “cabeça” e, em Janeiro de 1924, padre Alberione encarrega-a de escolher entre as  jovens aspirantes, em comunhão com Mestra Tecla, algumas companheiras, aquelas  que são “mais inclinadas à piedade especialmente eucarística”, delineando assim a  característica fundamental do novo grupo.

Uma vela viva

Enquanto se forma o grupo das oito primeiras, padre Alberione inicia a  “pastoral vocacional” em favor das futuras Pias Discípulas e a 24 de Janeiro de 1924  envia uma carta a todos os párocos de Itália nestes termos:

“Permito-me enviar-lhe um esboço do regulamento para um instituto de jovens para a  Adoração contínua ao Santíssimo Sacramento. Espero de si uma adoradora! Isto é,  uma vocação da sua paróquia. Será como uma vela viva que arderá e se consumirá  diante do Bom Pastor, por si e pela sua paróquia. Deo gratias. Humildes obséquios.

Devotíssimo in Domino. Sacerdote Alberione Giacomo.”

E muitos párocos partiram para acompanhar a Alba a sua “vela viva”.

Um nome novo, uma missão nova

O dia 10 de Fevereiro de 1924, dia de Santa Escolástica, é escolhido pelo  padre Alberione para dar início à nova fundação com o primeiro núcleo de oito, que a  25 de Março terá a sua manifestação oficial com a tomada do hábito religioso e a  profissão dos votos. As oito recebem um nome novo e Úrsula torna-se Irmã Escolástica  da Divina Providência. Começa naquele mesmo dia o que será o seu “trabalho  principal”: a Adoração Eucarística com turnos de duas horas, que, alguns meses  depois, precisamente no dia da Assunção, com as novas que chegaram, cobrirá  também as horas da noite.

Devem “ter cuidado do Divino Mestre e dos seus ministros”: o amor a Jesus  Mestre leva a Irmã Escolástica a viver como irmã e mãe ao lado dos Sacerdotes e  Discípulos da Sociedade de S. Paulo numa doação sem reservas que se alarga depois aos sacerdotes de toda a Igreja.

Irmã Escolástica tem 28 anos, não lhe falta o entusiasmo e a luz que recebe  quotidianamente na escola do Mestre Eucarístico acompanha-a no papel que pedirá  um crescendo de pureza e espírito empreendedor. É a responsável da nova família que  surge ao lado das já consolidadas Filhas de S. Paulo, guiadas pela Venerável Tecla  Merlo que constantemente estará lado a lado para acolher, interpretar e atuar o  projeto do Fundador e levar, num caminho que de fácil não tem nada, as Pias  Discípulas do Divino Mestre até à aprovação da Igreja.

A primeira Madre

A partir deste momento a história de Escolástica pode ler-se ao seguir a par e  passo o caminho das Pias Discípulas. Se cada pessoa se colhe no ambiente em que  vive, para aquela que é escolhida para começar uma nova congregação, ao lado da  extraordinária figura carismática do Beato Tiago Alberione, é de obrigação uma leitura  em contínua dissolução, sem apagar a identidade da pessoa, mas que a torna  encarnação e comunicação daquela particular forma de vida.

Não por acaso, a qualquer jovem que nos primeiros anos, quando ainda não havia uma regra escrita, perguntava ao padre Alberione como ser Pia Discípula, ele  respondia: “Olhai Madre Escolástica”.

As Pias Discípulas desenvolvem-se e, guiadas por Madre Escolástica,  conseguem superar não poucas dificuldades e manter viva a identidade inclusive no  período em que juridicamente, do fim de 1929 e até 1947, mesmo continuando a ter a  sua formação específica, estão sob a única aprovação das Filhas de S. Paulo. São anos  em que o diálogo entre carisma e instituição escreve páginas que fazem tocar com a  mão a ação do Espírito que conduz e corrige decisões em si mesmas boas, mas às  vezes sugeridas pela sabedoria humana. As regras canónicas são observadas para os  atos oficiais, mas Madre Escolástica em docilidade criativa às diretrizes do Fundador,  continua a fazer crescer as Pias Discípulas, segundo a vocação e missão específicas,  centrada na Eucaristia, no Sacerdócio e na Liturgia, na espera da sua plena  manifestação, também a nível externo.

Missão em África

As provas, quando se vivem na luz de Deus, levam sempre à abertura de  horizontes. Humanamente aparece inexplicável a decisão do padre Alberione de pedir,  em 1936, a Madre Escolástica que deixasse a direção das Pias Discípulas e que se  transferisse primeiro para Roma como vice mestra das noviças e depois que se fizesse  ao largo rumo a África.

Em Novembro de 1936, na companhia da irmã Elia Ferrero, parte para  Alexandria, no Egito, com a perspectiva de explorar possíveis presenças na África  oriental e na Terra Santa. No Egito encontra-se na condição de minoria étnica no meio da população muçulmana com a qual procura, no dia-a-dia, viver lado a lado  caminhos concretos de diálogo.

O seu modo de agir, acompanhado sempre por um sorriso, é bem aceite no bairro  onde se estabelecem e é conhecida por todos como “a boa senhora”.

Para a difusão do Evangelho não hesita, num certo período, em vestir os  hábitos seculares para obter a autorização de aceder aos navios de lazer e levar aos  passageiros a boa imprensa.

Regresso do “Egito”

O grupo das Pias Discípulas do Divino Mestre, já consistente, sem a condução  da madre, sofre; mas com determinação dá provas de que a semente do carisma  cresceu, tornou-se forte e não se confunde com o carisma grande e belo das Filhas de S. Paulo. O Fundador, decorridos menos de dois anos, chama do Egito Madre  Escolástica para que retome o seu ministério de guia e de presença materna também  para os irmãos da Sociedade de S. Paulo e para que prepare o terreno para obter a  aprovação do instituto na Igreja.

Para o padre Alberione é ainda tempo de criatividade fundacional. A partir de  1936 abrem-se novos horizontes na pastoral paroquial e ele dá vida às Irmãs de Jesus  Bom Pastor (conhecidas por  Pastorinhas).  Ao mesmo tempo toma consciência  de que as Pias Discípulas e as Pastorinhas, institutos em rápido desenvolvimento de pessoas e de obras, requerem também uma sistematização jurídica apropriada. Mais uma vez,  pelo menos para a parte feminina, não quer renunciar à ideia de “uma família” com  uma única aprovação para os três ramos empenhados nas várias expressões  apostólicas. Não é fácil harmonizar o sentimento de um fundador com as regras  canónicas. Neste caso emerge a força dos carismas que não conseguem fundir-se num só. As dificuldades do caminho ajudam a apressar a manifestação do projeto de Deus.  Nos anos da segunda guerra mundial a Família Paulista recebe dois  importantes sigilos da Igreja com a aprovação pontifícia da Sociedade de S. Paulo  (1941) e das Filhas de S. Paulo (1943), enquanto não chega a bom porto o projeto das três congregações femininas com uma única aprovação.

Olhar em direção ao futuro

Madre Escolástica, desde o dia em que regressou do Egito, com os olhos do  discernimento, preocupa-se sobretudo em dar uma sólida formação às novas  gerações, reconhecendo na irmã Maria Lúcia Ricci, que tem apenas 25 anos, a pessoa  adequada para guiar o noviciado. Também a formação cultural tem a sua importância e com a colaboração do Beato Timóteo Giaccardo, o primeiro sacerdote da Sociedade  de S. Paulo, que recebeu do fundador o encargo de seguir de perto o caminho das Pias  Discípulas, organiza estudos de vários níveis.

A partir de 1938 ganha vida uma obra particular que faz parte da missão e  que deve também assegurar o necessário sustento económico, isto é, o conjunto de  atividades para a liturgia, denominado “Domus Dei”. Madre Escolástica promove com  entusiasmo o trabalho das imagens, pintura, arte sacra, bordado, confecção de  paramentos… orientando também as irmãs para a formação artística e técnica nos  vários sectores.

As obras externas são úteis e necessárias, mas Escolástica tem a consciência  de que aquilo que dá estabilidade é uma vida entregue. É neste período que Jesus  Mestre começa a conduzi-la pelo caminho de uma oferta que a marcará  profundamente para o resto da vida. Na festa da Transfiguração de 1941, dia em que  se contempla Jesus a caminho da sua Hora, escreve:

“Hoje, 6 de Agosto, festa da Transfiguração de Jesus, fiz a oferta da minha  vida em favor da Congregação das Pias Discípulas. Aceitarei do Senhor tudo o que Lhe  aprouver enviar-me para este fim e para descontar nesta vida todas as minhas faltas e obter a graça de morrer num ato de perfeito amor a Deus. Tudo isto com o auxílio de  Jesus e de Maria”.

Ser na Igreja

Embora haja outras irmãs mais preparadas cultamente, em 1945, quando se  trata de escrever as Constituições e, em particular, o texto das diretrizes práticas para  as Pias Discípulas, o padre Alberione chama junto a si Madre Escolástica que, antes de  sentar-se à secretária, visita todas as comunidades e se põe na escuta de cada irmã  para depois fazer uma relação detalhada.

O reconhecimento da Igreja é o sonho que nunca foi posto de parte por  Madre Escolástica. Está ciente de que, com a expansão geográfica e numérica, se  torna sempre mais difícil harmonizar a vida sobre dois planos: juridicamente serem  chamadas Filhas de S. Paulo e, de facto, no concreto da vida quotidiana e nas obras,  serem Pias Discípulas. A clareza da pertença, a identidade, deve ter também um rosto  jurídico. A situação “de direito” e “de facto”, que não trazia problemas às primeiras  gerações, torna-se de dia para dia mais insustentável e ela, como Madre, na escuta da  palavra do fundador, sustentada sempre pela sabedoria materna da Mestra Tecla Merlo, sente o dever de empenhar-se para dar estabilidade ao caminho traçado. Para manter a unidade e favorecer o desenvolvimento, agora que as Pias Discípulas são  mais de trezentas e as casas se estendem a várias regiões da Itália e a diversos  continentes, é necessária uma Regra de Vida própria, escrita e aprovada e não só  transmitida oralmente na vida.

A 9 de Julho de 1945 é apresentado ao Santo Padre o pedido para a  aprovação da Pias Discípulas, anexando a este pedido as Constituições, preparadas  pelo padre Alberione com a inspiração concreta de Madre Escolástica.

Tudo parece decorrer regularmente segundo os ritmos que estas práticas  requerem e o padre Alberione, no fim de Dezembro de 1945, parte com a Mestra Tecla Merlo para uma longa visita às casas do Norte e do Sul da América.

Em Roma estão o padre Timóteo Giaccardo e o padre Frederico Muzzarelli  que olham pelas relações com a Santa Sé. Mas sobretudo está Madre Escolástica com  o coração e o olhar atentos a este nascimento jurídico, para ter o sigilo da Igreja sobre  tudo quanto o fundador tinha delineado desde o início e como uma semente  depositada nela para que acompanhasse a sua germinação e crescimento.

Esperança de vida e tempestade

Estamos na Primavera de 1946 e quem examina o processo está perplexo  porque não se pede, como habitualmente, a aprovação de um novo instituto, mas que  se considere o grupo das Pias Discípulas na condição jurídica atual das Filhas de São Paulo, isto é, com aprovação pontifícia. O direito não contempla esta solução para uma situação “de facto” que é lida  como uma tentativa cismática, e estão inclinados para arquivar o pedido.

Madre Escolástica percebe isto e, na ausência do fundador, sentindo-se  responsável na primeira pessoa, depois de orar e jejuar, de ter pedido conselho e oração às irmãs, decide subir a colina do Vaticano para favorecer a causa das Pias   Discípulas do Divino Mestre.

Pensa que nas cartas depositadas talvez não estivesse bem explicado, e quem  mais do que ela pode esclarecer as dúvidas, quem mais do que ela, que desde o início  acolheu a semente de vida das Pias Discípulas e a fez crescer, guardada até no meio de  graves dificuldades, pode manifestá-lo? Está consciente da sua pequenez, de não  possuir a ciência das leis canónicas, de não ter a linguagem da diplomacia, mas está  confiante que ao expor as razões do coração e da vida, os peritos saberão traduzi-las na norma.

Certamente, não é fácil comunicar… e a sua quente e apaixonada suplica de  não soterrar o pedido de aprovação das Pias Discípulas não causa boa impressão às  autoridades da Santa Sé. A sua linguagem soa como a de uma pessoa que fomenta  uma divisão, que se rebela, que quase pretende afirmar que aquilo que expõe é  claramente  vontade  de  Deus e que só o padre Alberione, neste caso, é o homem de Deus que pode  pronunciar a palavra decisiva.

Para Madre Escolástica é o início de uma particular conformação a Cristo no  seu Mistério Pascal, precisamente no tempo em que a liturgia vive a Paixão do Senhor. A ela e às Pias Discípulas será pedida uma espera de um ano antes de ver a luz da  ressurreição.

Madre Escolástica tem 49 anos e, no seu caminho de configuração a Cristo é  como uma espiga de trigo maduro: para que a vida continue é necessário que a  semente caia na terra e morra.

Exílio

15 de Abril de 1946, segunda-feira da semana santa. É o dia em que a liturgia  contempla Maria que, em Betânia, unge com o perfumado nardo Jesus de Nazaré. É  também o dia em que Madre Escolástica parte o seu vaso de alabastro, dizendo sim a  uma providência que lhe dilacera o ser. De facto, por disposição da Congregação dos  Religiosos, é afastada do governo das Pias Discípulas. Lemos nas suas memórias:

“…Quando fiquei sozinha, no meu solilóquio com o Senhor, no tumulto dos  pensamentos e com uma angústia capaz de despedaçar-me o coração, ofereci tudo ao

Senhor por amor. Era amor verdadeiramente puro, nascido de um coração que sangra,  quase agonizante como o de Jesus no horto do Getsémani, mas acompanhado de uma  paz e serenidade e de uma esperança que aceitava tudo e oferecia em agradecimento  a Deus quanto lhe fosse agradável pela perseverança das Pias Discípulas na sua  vocação.”

Ao início, em 1923, foi “posta de parte” para ser a raiz da Congregação, agora  é “posta à parte” para continuar a ser o fundamento do edifício já crescido, para viver  como o Mestre Divino o amor até ao sinal supremo do dom da vida. Uma palavra eloquente, vinda do fundador, chega-lhe nesta circunstância:

“Deves ser como o material que se usa nos alicerces da casa: não se vê, mas o  valor do edifício está na solidez dos alicerces. Outras irão parecer melhores como os  muros caiados e pintados e parecerá que o mérito seja seu, mas diante de Deus contará muito mais quem, escondida nos alicerces, sustentar todo o edifício e o tornar  sólido com as suas virtudes e humildade”.

Num primeiro  momento parece que o “pequenino rebanho” das Pias Discípulas, deixado sem guia, se dispersa, se desorienta, mas é questão de pouco… Madre Escolástica, ao  transmitir aquilo que o fundador lhe inculcava, tinha formado pessoas nas quais ficara  impressa uma forte identidade e o “pequenino rebanho” une-se, mais forte do que  nunca. Diante do padre Angélico d’Alessandrio, o padre capuchinho enviado como  Visitador Apostólico para tirar todas as fantasias de autonomia ao grupo das Pias  Discípulas, as irmãs mostram-se tão decididas e determinadas que o hábil diplomático  se vê obrigado a mudar de rota. O seu decidido “vim fazer o funeral das Pias  Discípulas”, pronunciado em meados de Outubro de 1946, em Dezembro tem de ser  traduzido num itinerário de ressurreição, que empreende com a ajuda do Beato  Timóteo Giaccardo e do perito canonista padre Frederico Muzzarelli.

Madre Escolástica não se curva sobre si mesma, perdoa e reza por quem lhe  “procurou este castigo”, vive na esperança e no abandono que se põe na escuta mais  atenta e contínua da voz do seu Mestre e Esposo. Brama pelas suas filhas que sofrem  e continua a oferecer o seu suporte com a escrita e a palavra quando tem essa  possibilidade. Teria necessidade de consolação, mas é ela que consola. Vive um  silêncio que sabe encontrar os caminhos da comunicação sem infringir o que lhe foi  imposto.

Sobre os passos de Maria, Mãe de Jesus, a discípula Escolástica partilha a  sorte do seu Mestre na Hora da prova e repete: “Senhor, só Tu e basta.”

Luz de vida

Na segunda-feira da semana santa de 1946, Madre Escolástica tinha acolhido  o exílio como perfume para ungir os pés do Mestre e é agora segunda-feira santa, um  ano depois, quando, quase numa dança de alegria deixa Nizza para alcançar, não sem  um pouco de aventura, a casa de Bordighera e daí prosseguir até Alba, onde estão a  começar a brilhar as primeiras luzes de ressurreição para as Pias Discípulas. No dia 3 de Abril de 1947, Quinta-feira Santa, as Pias Discípulas do Divino  Mestre são aprovadas na Igreja pelo decreto assinado pelo bispo de Alba, Monsenhor  Luís M. Grassi.

Madre Escolástica é reconhecida como primeira ex-Superiora Geral e o  fundador pede que para com ela se tenha reconhecimento filial, respeito, devoção,  amor, e se tome em máxima consideração o seu ensinamento, conselho, diretrizes, oração.

Na Igreja de S. Paulo, em Alba, será a primeira das irmãs a chegar (quase de  corrida e com o rosto iluminado como testemunham as presentes) ao lugar onde,  diante do delegado do bispo e de Madre M. Lúcia Ricci, nomeada Superiora Geral,  Escolástica pronunciará a fórmula da profissão “segundo as Constituições das Pias  Discípulas do Divino Mestre”. Finalmente! Madre Escolástica vive a alegria da mulher  que esquece o sofrimento porque a vida nova desabrochou (cfr Jo 16, 21).

O que se passa no seu coração neste dia? Confidencia alguns fragmentos num  escrito dirigido ao fundador:

“… Agora não tenho senão um único desejo, viver esquecida na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, cumprindo no silêncio e na penumbra o meu dever  quotidiano e esperando ansiosamente a chegada do Esposo das núpcias eternas!…  Parece-me que já dei tudo a Jesus… Todos os dias, com o auxílio da sua graça, quero  dar-lhe generosamente e com perfeito amor tudo aquilo que Ele quiser da sua  miserabilíssima criatura…”

O ano de 1948 assinala para as Pias Discípulas outro passo importante:  apenas decorridos 9 meses da aprovação diocesana, a 12 de Janeiro, chega a  aprovação pontifícia, acolhida por Madre Escolástica com particular exultação:

“…Comunicaram-nos a boa notícia da aprovação. Pensa na explosão de  alegria que irrompia no peito de cada uma! Parecia-nos viver um sonho. Ainda hoje  oferecia a adoração para obter esta graça. Que graça! Não parece verdade. Esta tarde  cantámos o Te Deum com todo o coração e com quanta voz tínhamos. O Senhor  demonstrou-nos verdadeiramente o seu amor de predileção…”

A segunda pátria

A Congregação tem todas as cartas regularizadas para caminhar sem entraves  e é este o momento em que Madre Escolástica deixa a terra das suas origens para  levantar tendas na América latina, mais precisamente na Argentina, onde chega a 2 de  Outubro de 1948.

Deixar a pátria, o velhinho e amado pai que não tornará a ver, as irmãs, a  proximidade do fundador, custou-lhe muito, mas padre Alberione dizia que mudar de  casa, de nação, é como mudar de quarto e, neste espírito, Madre Escolástica acolhe a nova obediência.

Numa situação sócio-política complicada põe mãos à obra, cuidando antes de  mais das vocações e das jovens para as quais se preocupa até em preparar lugares acolhedores. Provê com grande zelo ao desenvolvimento das obras apostólicas  valorizando para isso os recursos locais. A Argentina logo se transforma na sua segunda pátria. Contagia tudo e todos  com o seu fervor, o amor pela Congregação, o amor pelas muitas almas a salvar.

Sem distinções

Depois de uma permanência de 15 anos na Argentina, em 1963, recebe o  convite para regressar a Itália. A Congregação está às portas de celebrar 40 anos de  fundação e, para responder às novas gerações que desejam conhecer as riquezas das  origens, a Superiora Geral, Madre M. Lúcia Ricci, pede a Madre Escolástica que escreva  as “memórias”.

Em Itália vive como irmã entre irmãs sem se destacar, deixando-se às vezes  até humilhar, continuando assim a alimentar a raiz. Confecciona paramentos e alfaias  litúrgicas, perfumando-as com uma contínua oração enquanto trabalha. O seu sorriso,  a sua amabilidade tornam-se penetrantes e comunicativos, como o sol que a todos  chega sem esperar um “obrigado”, feliz por oferecer a sua luz e o seu calor.

Vive a época do Concílio Ecuménico Vaticano II com alegria e participação,  apercebendo-se dele, juntamente com o fundador, como um selo do Espírito Santo  sobre a Congregação.

Olhar e coração para o mundo

Está muito viva em Madre Escolástica a participação nos eventos da  sociedade para levá-los ao Mestre Divino na Adoração Eucarística. Num apontamento  escreve:

“Ler jornais, escutar a rádio e a televisão para conhecer as necessidades das  almas e rezar por todas as necessidades do país, da Igreja, das almas da humanidade  inteira.”

O teólogo Bruno Forte, ao falar da contemplação cristã que se desenrola aos pés da Eucaristia e da palavra, isto é, de mediações históricas, densas, fortes e bem  precisas e sublinhando que precisamente quem é mais contemplativo por vocação deve ser mais enraizado na história, evocava, como “ícone denso e belo, Madre  Escolástica que vai para a Adoração Eucarística com o jornal debaixo do braço,…  levando assim a história à glória…”

Na oração, em circunstâncias especiais, amadurece também acontecimentos  vistos. Por exemplo, no tempo das leis sobre o aborto e o divórcio, em 1976, escreverá  ao Deputado italiano Fortuna e em 1978 ao Presidente da República Italiana Leone.

Investir nos jovens

Estre 1973 e 1981, vivendo em Roma no centro da Congregação, enquanto na  sociedade se tornam mais perversas as contestações a vários níveis, Madre Escolástica  tece uma especial relação epistolar e de diálogo com as jovens em formação. Faz-se  pequena com os pequenos para poder espalhar uma palavra boa, acautelar dos  perigos. Comunica e exorta a viver não as coisas que se aprendem nos livros, mas na  experiência de vida com Jesus, o Livro da Vida. Ressoa sempre mais que “só Ele é o  Tudo”, que “o único sonho seja amar Jesus, único amor, único Tudo”.

Manifesta-se sempre mais vivo o desejo do encontro com o Esposo amado  pelo qual se sente amada e o repetir constante de “ganhar méritos… fazer-se santas”  não é mais do que traduzir na vida quotidiana o convite de Jesus a “acumular tesouros  para o reino dos céus” e não ter outro tesouro para além d’Ele (cf Mt 6, 21; Lc 12, 34).

Nostalgia do paraíso

Madre Escolástica já viu partir para a última viagem muitas das irmãs com  quem tinha iniciado o caminho, mas a 26 de Novembro de 1971, a morte do fundador  marca particularmente a sua vida. O pai, o guia, o homem de Deus que a tinha  acolhido e acompanhado por mais de 50 anos nos imperscrutáveis caminhos do  Mestre Divino, encerra o seu caminho e nela se acentua a nostalgia do paraíso.

A partir de 1981, a parábola da sua vida encaminha-se para a conclusão terrena. Participa ainda no III Capítulo Geral e no dia 8 de Abril de 1981 encontra João  Paulo II, recebendo dele o “beijo dos pequenos”. Depois, pelo progressivo declínio das  forças, é transferida para a casa de Sanfrè, onde decorrerão os últimos 6 anos da sua  vida.

Silêncio e cumprimento

Mesmo se o físico de Madre Escolástica se deteriora, a chama interior  permanece sempre viva, ou melhor, parece aumentar cada vez mais. A partir de 1984 vê-se privada também do uso da palavra, mas esta ausência  de som revela-se como uma vivíssima comunicação não-verbal com o brilho do olhar e  o movimento da mão.

São os anos em que o seu pequeno quarto se torna o lugar do encontro, lugar  onde a primeira Pia Discípula do Divino Mestre põe no coração de numerosas filhas dos cinco continentes que passam junto dela, a herança mais preciosa, que resume  todo o arco da sua existência: “Senhor, só Tu e basta!”.

Foi a primeira que o Beato Tiago Alberione escolheu para dar vida à nova  fundação e é a última do primeiro núcleo de oito a fechar, se assim se pode dizer, o  arco fundacional.

A 24 de Março de 1987, enquanto se cantam as primeiras vésperas  contemplando o Sim de Maria, a discípula Escolástica diz o seu último Sim terreno,  “pronta e adornada para celebrar com o Divino Mestre as núpcias eternas”.

O dom continua

A 13 de Março de 1993, em Alba, começa o processo diocesano para a  beatificação e canonização da Serva de Deus Madre Escolástica Rivata, que agora  continua o seu percurso na Congregação para a Causa dos Santos. Desde o dia 3 de Abril de 2008, após a transladação do cemitério de Alba, os  restos mortais de Madre Escolástica Rivata repousam na Igreja de Jesus Mestre, em Roma, via Portuense 741.

Com o decreto sobre as virtudes heroicas foi proclamada venerável a 9 de  Dezembro de 2013.

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