Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 3,1-6
Naquele tempo, Jesus entrou de novo na sinagoga.
Havia ali um homem com a mão seca.
Alguns o observavam
para ver se haveria de curar em dia de sábado,
para poderem acusá-lo.
Jesus disse ao homem da mão seca:
“Levanta-te e fica aqui no meio!”
E perguntou-lhes:
“É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal?
Salvar uma vida ou deixá-la morrer?”
Mas eles nada disseram.
Jesus, então, olhou ao seu redor,
cheio de ira e tristeza,
porque eram duros de coração;
e disse ao homem:
“Estende a mão”.
Ele a estendeu e a mão ficou curada.
Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes,
imediatamente tramaram, contra Jesus,
a maneira como haveriam de matá-lo.
Palavra da Salvação.

Este episódio pertence ao conjunto de controvérsias sabáticas no início do Evangelho de Marcos (cf. Mc 2,1–3,6). Trata-se de uma perícope de conflito, em que o sábado (sinal da Aliança e da fidelidade a Deus) torna-se o espaço de revelação do verdadeiro rosto de Deus e, ao mesmo tempo, de radical oposição a Jesus. O texto culmina, significativamente, com a primeira decisão explícita de matar Jesus em Marcos (v. 6). Assim, uma cura, que é um gesto de vida, desencadeia um projeto de morte.

“Jesus entrou de novo na sinagoga” (v. 1): a sinagoga é o lugar da Palavra, da escuta da Lei, da formação da consciência religiosa de Israel. Jesus não atua à margem da tradição, mas no seu interior. O advérbio “de novo” indica continuidade e insistência: Jesus retorna ao espaço onde a Palavra é proclamada, mesmo sabendo que ali encontrará resistência. A revelação acontece dentro da instituição, não fora dela.

“Havia ali um homem com a mão seca” (v. 1): a “mão seca” não é apenas um dado clínico, mas um símbolo antropológico e teológico: a mão é o órgão da ação, do trabalho, da relação; e uma mão seca é uma existência impedida de agir, de participar plenamente da vida social e religiosa. Trata-se de alguém presente, mas marginalizado; visível, mas sem voz. O texto não lhe dá nome. Ele representa todos os corpos feridos pela rigidez de sistemas que excluem.

“Alguns o observavam…” (v. 2): o olhar dos opositores não é contemplativo, mas acusatório. Eles não observam o homem ferido, mas Jesus; não esperam salvação, mas um erro. Aqui emerge uma tensão fundamental: Jesus vê a necessidade humana; os adversários veem a possibilidade de acusação. O sábado, dom de Deus para a vida, torna-se instrumento de vigilância e controle.

“Levanta-te e fica aqui no meio!” (v. 3): este é um gesto decisivo. Jesus chama o homem a levantar-se (movimento de dignidade, quase pascal), e a colocar-se “no meio” (no centro da assembleia). Aquilo que estava à margem é trazido ao centro do espaço litúrgico. A pergunta sobre o sábado não será abstrata, mas encarnada no corpo ferido daquele homem.

A pergunta central: o sábado e a vida (v. 4): “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Jesus não contrapõe ação e repouso, mas bem e mal, vida e morte. Não agir, quando se pode salvar, torna-se cumplicidade com a morte. O silêncio dos adversários não é neutralidade, mas fechamento. É a incapacidade de reconhecer que a Lei existe para servir à vida.

“Cheio de ira e tristeza” (v. 5): este é um dos versículos mais densos de Marcos. Ira: não explosiva, mas profética, é reação diante da injustiça. Tristeza: expressão de um coração ferido pela recusa do outro. A causa não é ignorância, mas dureza de coração: incapacidade de deixar-se afetar pelo sofrimento alheio. Aqui aparece um traço decisivo da cristologia marcana: Jesus revela um Deus que se comove, sofre e reage diante da negação da vida.

“Estende a mão” (v. 5): Jesus não toca o homem, não realiza gesto mágico. A cura acontece mediante a obediência confiante à Palavra. Estender a mão é um ato de fé, um risco (expor aquilo que estava oculto), um gesto de cooperação humana com a ação salvífica de Deus. A restauração é imediata: a vida retorna onde havia paralisia.

A ironia trágica do final (v. 6): enquanto Jesus salva uma vida no sábado, seus opositores tramam a morte, também em dia de sábado. A aliança entre fariseus (rigor religioso) e herodianos (poder político) revela que a defesa da Lei pode tornar-se instrumento de violência, quando perde sua referência à misericórdia. Este versículo antecipa a paixão: a cruz nasce, paradoxalmente, de um gesto de cura.

Fazer o bem no sábado: a vida no centro

O Evangelho de Marcos nos apresenta Jesus entrando novamente na sinagoga, lugar onde o povo se reunia para escutar a Palavra de Deus. Ali, Ele encontra um homem com a mão seca, alguém marcado por uma limitação que o impedia de agir plenamente e de participar com liberdade da vida da comunidade. Desde o início, o texto nos convida a olhar para essa pessoa e para sua necessidade concreta.

Ao mesmo tempo, alguns observam Jesus com intenção de acusá-lo. Eles querem saber se Ele vai curar em dia de sábado. O sábado era um dia sagrado, reservado ao repouso e à memória da Aliança com Deus. No entanto, a pergunta que o Evangelho nos coloca é simples e profunda: para que Deus nos deu o sábado?

Jesus chama o homem para o centro e o faz ficar de pé diante de todos. Com isso, ensina que a pessoa humana deve estar sempre no centro da vida religiosa. A Lei não existe para excluir ou paralisar, mas para ajudar a viver melhor. Por isso, Jesus pergunta: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?”

O silêncio daqueles que o observavam revela um coração fechado. Quando a religião se torna apenas regra, sem compaixão, ela perde seu verdadeiro sentido. Jesus se entristece com essa dureza, porque Deus não se alegra com uma fé que ignora o sofrimento do outro.

Ao homem, Jesus pede apenas um gesto: “Estende a mão”. Ao obedecer, o homem confia na Palavra de Jesus e permite que Deus aja em sua vida. A mão é curada, e com ela é restaurada a dignidade daquela pessoa. Assim, aprendemos que Deus quer sempre curar, libertar e devolver vida plena.

No final do Evangelho, vemos uma atitude contrária ao gesto de Jesus: enquanto Ele salva uma vida, alguns começam a planejar a sua morte. Isso nos mostra que escolher o bem e a vida nem sempre é fácil, mas é o caminho que Jesus nos ensina.

Este Evangelho nos ajuda a compreender que seguir Jesus é aprender a colocar o amor acima de qualquer regra. A verdadeira fé se manifesta quando cuidamos das pessoas, especialmente das que mais sofrem. Celebrar, rezar e escutar a Palavra só fazem sentido quando nos levam a fazer o bem e a promover a vida, todos os dias.



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