Epifania do Senhor – Domingo, 4 de janeiro de 2026 (Ano A)
Mt 2,1-12

A Solenidade da Epifania do Senhor nos coloca diante de um Evangelho conhecido, mas sempre novo: a visita dos Magos ao Menino Jesus. São poucos versículos, mas cheios de movimento, perguntas, contrastes e decisões. É a partir desse Evangelho que toda a liturgia de hoje se organiza, e é a partir dele que somos convidados a refletir sobre a vida concreta das famílias brasileiras, com suas buscas, cansaços, alegrias e esperanças.

O texto de Mateus começa com um detalhe aparentemente simples: “Jesus nasceu em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes”. A boa notícia não surge num cenário ideal, mas num contexto político tenso, marcado pelo medo do poder e pela violência. Isso já nos diz muito: Deus não espera que o mundo esteja organizado ou pacificado para se manifestar. Ele entra na história real, como ela é. Também hoje, em meio às inseguranças econômicas, às preocupações com o trabalho, à violência urbana e às dificuldades que atravessam tantas famílias brasileiras, Deus continua nascendo e se revelando.

Os Magos chegam do Oriente guiados por uma estrela. Eles não pertencem ao povo de Israel, não conhecem a Lei, não frequentam o Templo. São estrangeiros, estudiosos do céu, homens que observam os sinais e se deixam interpelar por eles. A Epifania nos lembra que Deus não se revela apenas aos “de dentro”, aos que já estão organizados religiosamente, mas também e muitas vezes primeiro aos que estão em busca. Quantas famílias hoje vivem assim: buscando, tentando acertar, perguntando-se sobre o sentido da vida, do sofrimento, da fé, da educação dos filhos. A estrela continua brilhando para quem se dispõe a levantar os olhos.

Quando os Magos chegam a Jerusalém e perguntam: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?”, o Evangelho mostra dois tipos de reação. Herodes se perturba, e com ele toda a cidade. O nascimento de Jesus incomoda quem está apegado ao poder, ao controle, à própria segurança. Quantas vezes, também em nossas casas, a presença de Deus nos inquieta porque exige mudança, conversão, deslocamento? A Epifania não é uma festa confortável: ela desinstala.

Os chefes dos sacerdotes e os escribas sabem exatamente onde o Messias deveria nascer. Conhecem as Escrituras, citam o profeta, mas não se movem. Sabem, mas não caminham. Aqui o Evangelho toca um ponto sensível da vida cristã: não basta conhecer a fé, é preciso deixar-se mover por ela. Muitas famílias brasileiras têm uma fé herdada, tradicional, mas cansada, que sabe “onde fica Belém”, mas não sai de Jerusalém. A Epifania nos provoca a passar do saber ao caminhar, do hábito à experiência viva.

Os Magos, ao contrário, retomam o caminho. E então a estrela reaparece. Isso é profundamente humano e espiritual: quando escolhemos avançar, mesmo sem todas as respostas, Deus renova os sinais. “Ao verem de novo a estrela, encheram-se de grande alegria.” A alegria nasce do reencontro com o sentido. Em meio à rotina pesada, às contas a pagar, às preocupações com os filhos e com o futuro, quantas famílias experimentam essa alegria simples quando percebem que Deus não as abandonou no caminho?

Ao entrarem na casa, os Magos não encontram um palácio, mas “o Menino com Maria, sua mãe”. A Epifania acontece no espaço doméstico, no cotidiano de uma família pobre. Deus se revela na fragilidade de um bebê, nos braços de uma mãe. Isso tem um valor imenso para a realidade das famílias brasileiras: Deus não se manifesta apenas nos grandes eventos ou nos momentos perfeitos, mas no chão da casa, na mesa simples, no cuidado diário, na presença silenciosa.

Os Magos se prostram e oferecem ouro, incenso e mirra. Não entregam apenas objetos preciosos, mas aquilo que são e representam. A Epifania nos convida a perguntar: o que nossas famílias oferecem a Deus? Talvez não ouro, mas tempo; não incenso, mas oração feita entre uma tarefa e outra; não mirra, mas a entrega dos sofrimentos, das dores e das perdas. Deus acolhe tudo isso.

Por fim, o Evangelho diz que os Magos “voltaram por outro caminho”. Esse é o sinal de que o encontro com Cristo transforma. A Epifania não termina na contemplação, mas na mudança de rota. Quem encontra Jesus não pode continuar vivendo da mesma forma. Para as famílias, isso significa rever prioridades, modos de se relacionar, escolhas educativas, consumo, uso do tempo. Não se trata de perfeição, mas de direção.

As outras leituras deste domingo iluminam essa experiência. Isaías anuncia que a luz resplandece e atrai povos e nações. Paulo afirma que o mistério agora foi revelado: todos são chamados à mesma promessa. A Epifania é a festa de um Deus que se mostra para todos, sem distinção. Um Deus que entra na casa, na estrada, na história concreta.

Celebrar a Epifania do Senhor é renovar a certeza de que, mesmo em tempos difíceis, Deus continua se manifestando. Cabe a nós levantar os olhos, seguir os sinais, entrar na casa, adorar o Menino e voltar por outro caminho. Que as nossas famílias, com suas lutas e esperanças, possam reconhecer a estrela que Deus acende no meio da noite e encontrar, nela, motivo de alegria e de vida nova.


Ir. Julia de Almeida é Irmã Pia Discípula do Divino Mestre e escreve no site institucional das Pias Discipulas desde 2015. É mestre em comunicação e semiótica pela PUC/SP.



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