A Epifania do Senhor, celebrada em 6 de janeiro, tem origem muito antiga na tradição cristã e está ligada ao sentido da palavra epifania, que vem do grego epipháneia e significa manifestação, revelação.
No cristianismo, a Epifania celebra a manifestação de Jesus Cristo como Salvador não apenas de Israel, mas de todos os povos. Essa revelação é simbolizada, sobretudo, pela visita dos Magos, popularmente chamados de Santos Reis, narrada no Evangelho segundo Mateus (Mt 2,1-12).
Os Magos não pertenciam ao povo judeu; eram sábios vindos do Oriente, atentos aos sinais do céu. Ao seguirem a estrela e encontrarem o Menino Jesus, eles representam as nações pagãs que reconhecem em Cristo o Rei e o Salvador. Por isso, a Epifania é, desde o início, uma festa profundamente missionária e universal: Deus se revela a todos.
Quem eram estes magos mesmo?
Os Magos mencionados no Evangelho da Epifania não são personagens lendários, mas figuras reais dentro do imaginário histórico e religioso do mundo antigo. Ao mesmo tempo, o evangelista Mateus os apresenta com um forte valor simbólico e teológico.
A palavra magos vem do grego mágoi e designava, na Antiguidade, sábios do Oriente, especialmente ligados à astronomia/astrologia (observação dos astros), ao estudo das ciências naturais, à interpretação de sinais, e, em alguns casos, a funções religiosas ou sacerdotais.
Eles provavelmente vinham de regiões como a Pérsia, Babilônia ou Arábia, áreas conhecidas por seu saber astronômico. Eram pessoas cultas, estudiosas, atentas aos sinais do cosmos, algo muito respeitado naquele contexto histórico.
Eram reis?
O Evangelho não diz que eram reis. Essa imagem surgiu mais tarde, a partir da leitura cristã do Antigo Testamento, sobretudo:
- Isaías 60,1-6: “nações caminharão à tua luz… trarão ouro e incenso”;
- Salmo 72(71): “os reis de Társis… oferecerão dons”.
Esses textos proféticos foram interpretados pela Igreja como cumpridos na visita dos Magos, e assim, a tradição passou a chamá-los de reis, para sublinhar que até os poderosos da terra se inclinam diante de Cristo.
Quantos eram?
Mateus não informa o número. A tradição fixou em três, por causa dos três presentes:
- ouro,
- incenso,
- mirra.
Em outras tradições antigas, especialmente no Oriente cristão, fala-se até em doze magos, o que mostra que o número nunca foi o essencial.
Seus nomes
Os nomes Gaspar, Melquior e Baltasar surgem apenas séculos depois, em textos e tradições populares do cristianismo ocidental. Eles não fazem parte do relato bíblico, mas ajudaram na catequese e na arte cristã, tornando os Magos figuras mais próximas do povo.
O sentido teológico dos Magos
Para Mateus, o mais importante não é quem eles eram em termos biográficos, mas o que representam:
- São estrangeiros, não judeus → simbolizam todos os povos;
- Buscam a verdade com sinceridade → representam a humanidade em busca de Deus;
- Sabem ler os sinais, mas precisam da Escritura (em Jerusalém) → mostram que a razão e a fé caminham juntas;
- Ajoelham-se diante do Menino → reconhecem em Jesus o verdadeiro Rei e Salvador.
Enquanto isso, os que tinham a Lei e os profetas (Herodes e os doutores da Lei) não se movem. Mateus faz, assim, um contraste forte: quem está longe se aproxima; quem está perto não reconhece.
Assim, os Magos eram sábios do Oriente, estudiosos dos astros, estrangeiros à fé de Israel, que se tornam os primeiros a reconhecer Cristo como luz para todas as nações. Na liturgia da Epifania, eles não são celebrados por seu poder ou saber, mas porque souberam colocar seu conhecimento a serviço da busca de Deus e se deixaram conduzir até o encontro com Jesus.
Por que exatamente 6 de janeiro?
A escolha do 6 de janeiro está ligada às origens do calendário litúrgico cristão no Oriente. Nos primeiros séculos, especialmente nas Igrejas orientais, essa data celebrava simultaneamente vários aspectos da manifestação de Cristo:
- o Nascimento do Senhor,
- a visita dos Magos,
- o Batismo de Jesus no Jordão,
- e, em algumas tradições, o primeiro milagre nas Bodas de Caná.
Todos esses eventos têm algo em comum: são momentos em que a identidade de Jesus se torna visível, revelada.
Somente mais tarde, no Ocidente, a celebração do Natal foi fixada em 25 de dezembro, e o dia 6 de janeiro passou a ser dedicado especificamente à Epifania, com foco na visita dos Magos.
A festa dos Santos Reis
A tradição popular chamou a Epifania de Festa dos Santos Reis porque o episódio dos Magos ganhou grande força simbólica e catequética. Embora o Evangelho não diga que eram reis nem quantos eram, a tradição cristã:
- associou-os a reis a partir de textos proféticos do Antigo Testamento (como Is 60,1-6 e Sl 72),
- fixou o número em três, em razão dos presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra.
Esses dons também têm significado teológico:
- ouro: reconhece Jesus como Rei;
- incenso: proclama sua divindade;
- mirra: antecipa sua humanidade sofredora e sua morte.

A Folia de Reis é muito comum ainda no Brasil. Inclusive a foto acima é a visita da Folia de Reis na Comunidade Divino Mestre das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre em Cabreúva/SP. Eles vão todos os anos lá.
A Folia de Reis, embora bastante comum no Brasil, não tem uma manifestação homogênea em todo o país. Trata-se de uma das manifestações religiosas populares mais difundidas ligadas à Epifania do Senhor e à devoção aos Santos Reis, especialmente entre os dias 25 de dezembro e 6 de janeiro (ou até 20 de janeiro, em algumas regiões).
A Folia de Reis é particularmente forte no Brasil nas regiões do Sudeste (Minas Gerais, interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo); do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul); e em partes do Nordeste, com variações locais. Em Minas Gerais, por exemplo, ela é considerada um patrimônio cultural imaterial em muitos municípios, com grupos ativos há gerações.
A tradição da folia dos Reis veio com os portugueses, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, como uma forma de catequese popular. No Brasil, ela se misturou a elementos indígenas, a influências africanas e à religiosidade do interior rural. Por isso, não existe uma única Folia de Reis, mas muitas folias, cada uma com estilo, instrumentos, cantos e rituais próprios.
Estrutura da Folia
Apesar das variações, alguns elementos são comuns:
- o grupo de foliões, que percorre casas e comunidades;
- a bandeira ou estandarte dos Santos Reis, objeto central de devoção;
- os instrumentos (viola, sanfona, caixa, pandeiro, reco-reco);
- os cantos que narram a viagem dos Magos até Belém;
- a figura do embaixador ou mestre, que conduz a cantoria;
- e os palhaços, com função simbólica e ritual (proteção do grupo, distração, vigilância).
Sentido religioso e comunitário
Mais do que uma apresentação folclórica, a Folia de Reis é:
- uma peregrinação cantada,
- uma forma de oração em movimento,
- um gesto de bênção das casas e das famílias.
Ao receber a Folia, a família acolhe simbolicamente os Santos Reis em sua casa, partilha alimentos e fortalece os laços comunitários. A festa mistura fé, música, convivência e memória.
Embora tenha perdido força em alguns centros urbanos, a Folia de Reis continua viva em muitas cidades do interior; vem sendo retomada por jovens e grupos culturais; é valorizada por políticas de preservação da cultura popular. Em muitas paróquias, ela também foi integrada à pastoral popular, ajudando a manter viva a ligação entre liturgia, devoção e cultura do povo.
A Folia de Reis é, sim, muito comum no Brasil, sobretudo fora dos grandes centros, e constitui uma expressão riquíssima da fé cristã inculturada: une Epifania, música, caminhada, hospitalidade e anúncio, fazendo da casa do povo um lugar onde Cristo continua a se manifestar.
Um significado que permanece atual
Celebrar a Epifania em 6 de janeiro é afirmar que Deus não se esconde, mas se dá a conhecer; que a fé cristã não é fechada em si mesma, mas aberta ao mundo; e que todos os povos, culturas, famílias são convidados a reconhecer a luz que brilha em Cristo.
Por isso, a Epifania é mais do que uma lembrança histórica: é um convite permanente a acolher a revelação de Deus e a caminhar, como os Magos, guiados pela luz da fé, até o encontro com Jesus.
Por que no Brasil celebramos esta solenidade no Domingo?
No Brasil, a Epifania do Senhor não é celebrada no dia 6 de janeiro, mas transferida para o domingo mais próximo, por uma decisão pastoral e litúrgica da Igreja, aprovada pela Santa Sé e prevista nas normas do calendário litúrgico.
O motivo central é garantir a participação do povo. O dia 6 de janeiro não é feriado civil no Brasil; quando cai em dia de semana, grande parte dos fiéis trabalha, estuda ou não consegue participar da celebração eucarística. Ao transferir a solenidade para o domingo, a Igreja assegura maior presença da comunidade, preserva o caráter solene da festa, favorece a catequese e a vivência litúrgica do mistério celebrado.
Essa prática segue um princípio pastoral importante: as grandes solenidades ligadas ao mistério de Cristo devem ser celebradas quando o povo pode realmente participar.
Fundamento litúrgico
A possibilidade de transferência está prevista nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário, especialmente nos números que tratam das solenidades do Senhor. A Epifania está entre as festas que, em alguns países, podem ser celebradas no próprio dia 6 de janeiro ou no domingo entre 2 e 8 de janeiro.
Cada Conferência Episcopal, como a CNBB, pode optar pela transferência, desde que haja aprovação da Sé Apostólica — o que acontece no caso do Brasil.
Outro aspecto importante é a organização do Tempo do Natal. No Brasil, a celebração dominical da Epifania mantém o ritmo das celebrações dominicais e ajuda a comunidade a compreender melhor a progressão do mistério: Natal → Epifania → Batismo do Senhor. Assim, a Epifania não “perde” seu valor, mas é integrada de modo mais claro ao caminho litúrgico do povo.
E em outros países?
Em muitos países da Europa e da América Latina, como Espanha, Itália, Alemanha e Portugal, o dia 6 de janeiro é feriado civil; por isso, a Epifania é celebrada na data fixa. Onde isso não acontece, como no Brasil, a transferência para o domingo é uma adaptação legítima, não uma mudança do sentido da festa.
Portanto, no Brasil, a Epifania é celebrada no domingo e não em 6 de janeiro porque:
- o dia não é feriado civil;
- a Igreja prioriza a participação do povo;
- a transferência é permitida pelas normas litúrgicas;
- a decisão foi tomada pela CNBB com aprovação da Santa Sé.
Trata-se, portanto, de uma escolha pastoral que busca tornar a celebração mais acessível, sem perder sua profundidade teológica: a manifestação de Cristo como luz para todos os povos.

Texto de Ir. Julia Almeida que é Irmã Pia Discípula do Divino Mestre. Escreve neste site desde 2015. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.


