1º DOMINGO DA QUARESMA: “ENTÃO JESUS FOI CONDUZIDO PELO ESPÍRITO AO DESERTO”.

1º Domingo da Quaresma – Ano A (Domingo, 22 de fevereiro de 2026)
“Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto” (Mt 4,1)

Hoje, omite-se a Festa de Cátedra de São Pedro, Apóstolo

Leituras: Gn 2,7-9.3,1-7 | Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a) | Rm 5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19 | Mt 4,1-11

A liturgia deste primeiro domingo da Quaresma coloca-nos, de modo muito direto, aos pés do Evangelho: Jesus no deserto, tentado, faminto, vulnerável e profundamente unido ao Pai. É a partir daqui que a Igreja nos propõe um caminho de fé e de vida para este tempo santo.

O deserto não é apenas um lugar geográfico. No Evangelho, ele é espaço de verdade. Longe das distrações, caem as máscaras, revelam-se as tentações mais profundas: transformar pedras em pão, usar Deus em proveito próprio, trocar a fidelidade por poder e glória. São tentações antigas, mas muito atuais. Também nós, neste início da Quaresma, somos convidados a reconhecer onde colocamos a nossa segurança, de que “pão” vivemos e que voz realmente escutamos.

As leituras dialogam entre si de forma impressionante. No Gênesis, a escuta distorcida da palavra leva à ruptura; no Salmo 50, brota o grito humilde de quem reconhece o próprio pecado; São Paulo recorda que, onde abundou o pecado, superabundou a graça; e, no Evangelho, Cristo mostra que a obediência confiante à Palavra gera vida. A Quaresma nasce exatamente neste cruzamento: entre a fragilidade humana e a fidelidade de Deus.

Neste horizonte, ganha especial força a mensagem quaresmal do Papa Papa Leão XIV, que nos propõe dois eixos simples e exigentes: escutar e jejuar. Escutar, antes de tudo, a Palavra de Deus, deixando que ela nos alcance e nos converta. Jesus vence as tentações não com argumentos brilhantes, mas com a Palavra acolhida, guardada e vivida. Também nós somos chamados a dar espaço à escuta: na liturgia, na oração pessoal, mas também no clamor dos pobres, dos feridos, dos esquecidos.

O jejum, por sua vez, aparece como uma prática concreta que educa o desejo. Não apenas a abstinência de alimentos, mas um estilo de sobriedade que nos devolve o essencial. O Papa propõe um gesto muito concreto e profundamente evangélico: jejuar das palavras que ferem. Num mundo marcado por discursos agressivos, julgamentos rápidos e linguagem que exclui, este jejum torna-se um verdadeiro exercício de conversão. No deserto do silêncio e da mansidão, aprendemos a falar como Jesus e a escutar como Deus escuta.

A Quaresma, porém, não é um caminho solitário. A liturgia e a mensagem do Papa insistem na dimensão comunitária: escutar juntos, jejuar juntos, converter-nos juntos. As nossas comunidades são chamadas a tornar-se espaços onde a Palavra gera discernimento, o jejum produz justiça e a escuta abre caminhos de libertação.

Neste primeiro domingo da Quaresma, peçamos a graça de caminhar com Cristo no deserto, não para nos perdermos, mas para reencontrar o essencial. Que este tempo seja, para todos nós, uma escola de escuta, um treino do coração e um passo firme no caminho da conversão que conduz à Páscoa.



Da escuta à fraternidade: a Quaresma que se traduz em compromisso

O caminho quaresmal iniciado com Jesus no deserto não se encerra numa experiência intimista ou apenas espiritual. A escuta da Palavra e o jejum que educa o desejo conduzem necessariamente a uma fé encarnada, que toca a realidade e se expressa em gestos concretos de fraternidade. É neste horizonte que se insere, de modo muito oportuno, a Campanha da Fraternidade 2026.

A liturgia deste domingo ensina que a verdadeira fidelidade a Deus passa pela escolha do essencial. Jesus recusa o pão fácil, o espetáculo religioso e o poder dominador, permanecendo fiel à Palavra do Pai. Essa mesma lógica ilumina a Campanha da Fraternidade, que convida a Igreja no Brasil a olhar para a realidade com os olhos de Cristo e a reconhecer que Deus “veio morar entre nós”, fazendo-se próximo das fragilidades humanas e das feridas sociais.

Em sintonia com a mensagem quaresmal do Papa Papa Leão XIV, a Campanha recorda que escutar a Palavra de Deus implica escutar o clamor dos pobres. A Palavra proclamada na liturgia abre os nossos ouvidos para perceber as vozes silenciadas, as situações de exclusão e as formas de indignidade que atingem tantos irmãos e irmãs. Não se trata de um acréscimo à fé, mas de uma consequência direta da conversão quaresmal.

Também o jejum, tão central neste tempo, ganha densidade à luz da Campanha da Fraternidade. Jejuar não é apenas abster-se de algo, mas rever estilos de vida, atitudes e relações. Jejuar do egoísmo, da indiferença e das palavras que ferem cria espaço para a solidariedade, para o cuidado e para o compromisso com a dignidade humana. Assim, o jejum torna-se uma prática que educa o coração para a justiça e para a fraternidade.

Desta forma, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade caminham juntas como um único itinerário: conversão pessoal e transformação social, oração e ação, escuta de Deus e cuidado com o próximo. As nossas comunidades são chamadas a viver este tempo como oportunidade de amadurecimento da fé, tornando-se sinais vivos de um Deus que não permanece distante, mas habita no meio do seu povo.

Que este tempo quaresmal nos ajude a unir o deserto interior ao compromisso fraterno, para que, caminhando rumo à Páscoa, possamos testemunhar com a vida que a Palavra escutada gera comunhão, justiça e esperança.




CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026: IGREJA DO BRASIL CONVOCA REFLEXÃO SOBRE MORADIA DIGNA

Com o início da Quaresma de 2026, a Igreja Católica no Brasil lança oficialmente a Campanha da Fraternidade (CF) 2026, que este ano traz como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14). A iniciativa, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida comunidades, paróquias e a sociedade em geral a olhar para a questão da moradia como um direito humano fundamental e expressão concreta da fé cristã.

A escolha do tema foi motivada pela Pastoral da Moradia e Favela e acolhida pelo Conselho Episcopal Pastoral da CNBB. Segundo o padre Jean Poul Hansen, assessor do Setor de Campanhas, o lema, inspirado no mistério da Encarnação, ilumina o debate social e espiritual: “Deus veio morar entre nós, e isso fundamenta a dimensão social da nossa fé”, recordando que a presença de Cristo entre os mais pobres pede um compromisso de atenção e cuidado com quem vive na vulnerabilidade.

No Brasil, milhões de famílias enfrentam o desafio de não ter acesso a uma moradia adequada, seja por déficit habitacional, condições precárias de infraestrutura ou exclusão social. A CF 2026 coloca essa realidade no centro da reflexão quaresmal, articulando fé, justiça e cidadania. A escolha do tema não é apenas simbólica: ela chama a atenção para a urgência de políticas públicas, ações comunitárias e compromisso pessoal com a dignidade humana, promovendo respostas concretas às necessidades mais básicas da população.

A Campanha da Fraternidade é tradição da Igreja no Brasil desde 1964 e ocorre todos os anos durante a Quaresma, um tempo litúrgico de conversão, solidariedade e compromisso com o próximo. A cada edição, a campanha propõe um tema que ajude a comunidade cristã a ver realidades sociais importantes à luz do Evangelho, julgar com valores cristãos e agir no mundo para promover mudanças concretas.

Em 2026, refletir sobre moradia digna é falar de uma necessidade humana básica — que acolhe a vida, protege as famílias e garante condições essenciais para que pessoas possam viver com segurança, saúde e esperança. Para a Igreja, essa reflexão não é externa à fé: ela está profundamente ligada ao mandamento do amor ao próximo e ao exemplo de Jesus, que se fez presença entre os pobres e excluídos.

Faça o download de materiais da CF 2026: CLIQUE AQUI

Site da CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026

A Campanha da Fraternidade e a Quaresma

A Quaresma é um tempo litúrgico marcado por conversão, escuta da Palavra, oração, jejum e caridade. Desde 1964, a Igreja no Brasil escolheu viver esse tempo também como um período de compromisso comunitário, no qual a fé se traduz em atitudes concretas de amor ao próximo. É nesse contexto que nasce e se desenvolve a Campanha da Fraternidade.

A CF ajuda os fiéis a perceber que a conversão quaresmal não é apenas interior ou individual, mas também social e comunitária. Ao propor um tema concreto a cada ano, a Campanha convida a Igreja a olhar para uma realidade específica da sociedade, à luz do Evangelho, e a perguntar: o que Deus nos pede diante dessa situação?

A Campanha da Fraternidade dialoga diretamente com os três pilares tradicionais da Quaresma:

  • Oração: o tema da CF é incorporado às celebrações, preces, momentos de reflexão e vias-sacras, ajudando a comunidade a rezar a partir das dores, esperanças e desafios do povo.
  • Jejum: entendido não apenas como abstinência, mas como mudança de mentalidade, sobriedade de vida e abertura ao outro, questionando estruturas de pecado e indiferença.
  • Caridade: vivida de modo concreto, especialmente por meio da Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, que expressa liturgicamente o compromisso com os mais pobres.

A CF não substitui a liturgia nem cria um “tema paralelo” ao ano litúrgico. Pelo contrário, ela brota da liturgia quaresmal e a ajuda a dialogar com a vida. As leituras bíblicas da Quaresma, que falam de conversão, justiça, misericórdia e reconciliação, encontram eco nos temas da Campanha. Por isso, a CF pode ser integrada à vida litúrgica por meio de preces dos fiéis, das homilias, símbolos discretos e pedagógicos, cantos e momentos orantes, sempre respeitando as normas litúrgicas e a centralidade do Mistério Pascal.

A Campanha da Fraternidade recorda que não existe separação entre fé e vida. Celebrar a Quaresma é preparar o coração para a Páscoa, mas também assumir um compromisso com a transformação do mundo, começando pelas realidades mais feridas da sociedade. Assim, ao unir espiritualidade, liturgia e compromisso social, a Campanha da Fraternidade ajuda a Igreja a viver a Quaresma como um verdadeiro caminho de conversão pessoal, comunitária e social, em sintonia com o Evangelho e com a missão de Jesus.

Para além da reflexão: gestos e ações concretas

A Campanha da Fraternidade não se limita à reflexão teológica ou pastoral. Ela convida comunidades e fiéis a assumirem compromissos concretos, por meio de iniciativas que promovem a solidariedade, fortalecem vínculos comunitários e incentivam a participação social. Entre essas ações estão o apoio a projetos sociais, a promoção de debates locais e o engajamento em políticas públicas voltadas à superação da pobreza e da exclusão. Trata-se de uma oportunidade para viver, de modo concreto, o espírito da fraternidade cristã, traduzindo a fé em gestos que transformam realidades.

Nesse contexto, destaca-se o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), cuja principal fonte de recursos é a Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos. Criado em 1998, o FNS tornou-se um importante instrumento de apoio a iniciativas que enfrentam situações de pobreza e miséria em todo o país. Do total arrecadado, 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela CNBB, enquanto 60% permanecem nas dioceses de origem, constituindo os Fundos Diocesanos de Solidariedade (FDS), voltados ao apoio de projetos locais de enfrentamento da exclusão social.

A animação e a gestão do FNS estiveram sob a responsabilidade da Cáritas Brasileira entre 1999 e 2014. Atualmente, essa missão é assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que também é a promotora da Campanha da Fraternidade e da Coleta da Solidariedade. Cabe ao Departamento Social da CNBB, em conjunto com o Conselho Gestor do FNS-CNBB, a responsabilidade pelos processos de recebimento, análise, aprovação e acompanhamento dos projetos apoiados.

As instituições interessadas em submeter projetos devem estar em conformidade com o Edital do Fundo Nacional de Solidariedade, disponível no site fns.cnbb.org.br. O cadastro é realizado de forma eletrônica, por meio do sistema indicado, com o preenchimento de todas as informações solicitadas. Após o envio, os projetos passam pela avaliação do Conselho Gestor, e as instituições proponentes podem acompanhar, pelo próprio sistema, todas as etapas do trâmite.



Referências para o texto:

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL.
CNBB lança cartaz da Campanha da Fraternidade 2026 com foco na moradia digna. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/cnbb-lanca-cartaz-da-campanha-da-fraternidade-2026-com-foco-na-moradia-digna/. Acesso em: 29 jan. 2026.

VATICAN NEWS.
Campanha da Fraternidade 2026 propõe reflexão sobre moradia digna no Brasil. Vaticano, 2025. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-12/maristas-brasil-acao-campanha-fraternidade-2026.html. Acesso em: 29 jan. 2026.

PASTORAL NACIONAL DO SOLO E DA MORADIA.
Conheça a Campanha da Fraternidade 2026. Brasília, 2025. Disponível em: https://pnsg.org.br/conheca-a-campanha-da-fraternidade-para-2026/. Acesso em: 29 jan. 2026.

PARÓQUIA SÃO JOÃO BATISTA.
Campanha da Fraternidade 2026. [S.l.], 2025. Disponível em: https://www.paroquiasaojoaobatista.org/igreja-em-acao/campanhas/campanha-da-fraternidade/campanha-da-fraternidade-2026. Acesso em: 29 jan. 2026.