3º DOMINGO DA PÁSCOA: FICA CONOSCO, SENHOR!

3º Domingo da Páscoa – Ano A (19 de abril de 2026)
“Fica conosco, Senhor” (Lc 24,29)

Leituras: At 2,14.22-33 | Sl 15(16) | 1Pd 1,17-21 | Lc 24,13-35

Neste 3º Domingo da Páscoa, a Palavra de Deus nos conduz pelo caminho de Emaús, onde dois discípulos, feridos pela dor e pela desilusão, redescobrem a esperança ao reconhecerem o Senhor Ressuscitado na partilha do pão. Também nós, em meio às sombras do nosso tempo, somos convidados a perceber a presença viva de Cristo que caminha conosco, escuta nossas angústias e reacende em nossos corações a chama da fé.

Vivemos dias marcados por conflitos, guerras e divisões profundas entre povos e nações. A humanidade experimenta, mais uma vez, o peso da violência que destrói vidas, famílias e sonhos. Diante desse cenário, a Igreja eleva sua voz em comunhão com o Santo Padre, o Papa Leão XIV, que tem insistido com firmeza evangélica: a paz não é utopia, mas caminho urgente e necessário, que passa pela conversão dos corações, pelo diálogo sincero e pela justiça.

Assim como Pedro, na primeira leitura, proclama com coragem a ressurreição de Cristo, também nós somos chamados a testemunhar que a vida é mais forte que a morte, que o amor vence o ódio, e que a reconciliação é sempre possível. A fé pascal não nos afasta da realidade, mas nos compromete ainda mais com ela, tornando-nos construtores da paz onde estivermos.

No Evangelho, os discípulos reconhecem Jesus ao partir o pão. É na Eucaristia que encontramos a força para continuar o caminho, mesmo quando o peso da cruz parece insuportável. É ali que o Ressuscitado nos reúne, nos alimenta e nos envia como mensageiros da esperança.

Que neste domingo, unidos ao clamor da Igreja inteira, rezemos intensamente pela paz no mundo. Que nossas comunidades sejam espaços de acolhida, escuta e reconciliação. E que, ao final de cada Eucaristia, possamos partir apressadamente, como os discípulos de Emaús, para anunciar: o Senhor está vivo e caminha conosco!

Fica conosco, Senhor, e faze de nós instrumentos da tua paz.

O caminho de Emaús: da desilusão ao reconhecimento do Ressuscitado

O relato dos discípulos de Emaús é uma das mais densas catequeses pascais do Evangelho de Lucas Evangelista. Trata-se de um itinerário espiritual que revela como o Ressuscitado se faz presente na história humana, especialmente nos momentos de crise, dúvida e perda de sentido.

Jesus se aproxima dos discípulos sem se impor. Ele caminha com eles, escuta suas frustrações e acolhe sua dor: “Nós esperávamos…” (Lc 24,21). Esse detalhe revela um traço fundamental da revelação cristã: Deus não age de forma violenta ou impositiva, mas respeita o ritmo e a liberdade humana. A presença do Ressuscitado se manifesta, antes de tudo, como companhia no caminho.

Teologicamente, isso expressa a lógica da Encarnação levada à plenitude pascal: o Cristo glorificado continua solidário com a condição humana. Ele entra na história concreta, marcada por cruzes e esperanças frustradas.

O ponto de virada do texto acontece quando Jesus “explica as Escrituras”. Ele relê a Lei e os Profetas à luz do mistério pascal. Aqui encontramos um princípio fundamental da teologia cristã: a unidade entre Antigo e Novo Testamento só se compreende plenamente a partir da morte e ressurreição de Cristo.

O escândalo da cruz é reinterpretado como caminho de glória. A aparente derrota torna-se revelação do amor fiel de Deus. Por isso, o coração dos discípulos “ardia” não apenas por emoção, mas porque a verdade divina iluminava a experiência humana.

O momento culminante ocorre no gesto de “partir o pão”. Este não é um detalhe casual, mas uma clara referência à Eucaristia na vida da Igreja primitiva. O Ressuscitado é reconhecido sacramentalmente: não pelos olhos da carne, mas pela fé alimentada pelo sinal.

Há aqui uma profunda dimensão teológica: a presença de Cristo continua real e eficaz na comunidade reunida, especialmente na Palavra proclamada e no Pão partilhado. A estrutura do relato (caminho, escuta da Palavra e fração do pão) reflete a própria dinâmica da celebração eucarística.

Após reconhecerem Jesus, os discípulos retornam imediatamente a Jerusalém. A experiência pascal gera missão. Não é possível encontrar verdadeiramente o Ressuscitado e permanecer imóvel.

Esse movimento revela que a fé cristã não é intimista, mas essencialmente missionária. O encontro com Cristo transforma a tristeza em anúncio, o medo em coragem, e o isolamento em comunhão.

O caminho de Emaús é paradigma da vida cristã em todos os tempos. Também hoje, em meio às crises pessoais e coletivas como as guerras, as injustiças e as rupturas sociais. Nelas, Cristo se faz presente, muitas vezes não reconhecido.

A Igreja é chamada a prolongar essa pedagogia do Ressuscitado: escutar, iluminar com a Palavra e celebrar a Eucaristia como fonte de discernimento e esperança. Nesse sentido, o relato de Emaús não é apenas memória, mas atualidade permanente da ação de Deus na história.

O texto de Emaús revela que o Ressuscitado se dá a conhecer no caminho da vida, na interpretação das Escrituras e na fração do pão, transformando discípulos desanimados em testemunhas ardorosas da esperança pascal.

Emaús: o caminho da dispersão ao reencontro que transforma

O caminho dos discípulos de Emaús revela não apenas uma crise de fé, mas uma experiência profundamente humana de esvaziamento interior. Eles caminham, mas sem direção verdadeira; falam, mas presos a uma narrativa de frustração; lembram-se de Jesus, mas já não conseguem reconhecer sua presença. Trata-se de uma existência marcada pela perda de sentido, onde a esperança foi substituída por um cansaço silencioso.

Essa condição não é estranha ao nosso tempo. Em meio a tantas informações, conflitos e exigências, o ser humano frequentemente se vê fechado em si mesmo, incapaz de abertura real ao outro e ao transcendente. Os discípulos estão juntos, mas não estão em comunhão; caminham lado a lado, mas permanecem isolados em sua decepção.

É nesse contexto que o Ressuscitado se aproxima. Sua presença não rompe de imediato o fechamento dos discípulos, mas inicia um processo paciente: Ele escuta, provoca, questiona e, sobretudo, reabre o horizonte do sentido. Ao interpretar as Escrituras, não oferece apenas explicações, mas devolve aos acontecimentos uma profundidade que havia sido perdida. O coração volta a arder porque a existência reencontra uma direção.

O reconhecimento, porém, não acontece no discurso, mas no gesto: o partir do pão. Isso indica que a superação do fechamento humano não se dá apenas no nível da compreensão, mas na experiência concreta da relação e da partilha. O Ressuscitado se deixa reconhecer em um ato que rompe o isolamento e recria a comunhão.

Aqui se revela um ponto decisivo: o ser humano só se reencontra verdadeiramente quando sai de si mesmo e entra numa dinâmica de relação. A autossuficiência, mesmo quando disfarçada de controle ou clareza, conduz ao esvaziamento; é no encontro, na escuta e na partilha que a vida recupera sua densidade.

Ao reconhecer Jesus, os discípulos deixam para trás a inércia e retornam. O movimento é imediato: quem reencontra o sentido não permanece paralisado. A experiência autêntica gera deslocamento, compromisso e testemunho. A noite já não os impede, porque a luz agora vem de dentro — reacendida pelo encontro.

Assim, o caminho de Emaús revela que a fé pascal não elimina a crise, mas a atravessa e a transforma. O Ressuscitado não nos retira do mundo marcado por cansaço, dispersão e conflito, mas entra nele para reabrir caminhos de sentido, restaurar vínculos e reacender a esperança.




Feliz Páscoa!

Queridos amigos e amigas que frequentam o nosso site,

Neste tempo sagrado de Páscoa, somos convidados a renovar em nossos corações a esperança que nasce da Ressurreição. A vida vence a morte, a luz dissipa as trevas, e o amor se revela mais forte que tudo aquilo que tenta nos desanimar.

Que a alegria do Cristo Ressuscitado alcance cada um de vocês, suas famílias e comunidades, fortalecendo a fé, reacendendo a esperança e inspirando gestos concretos de fraternidade e cuidado com a vida.

Vivamos esta Páscoa como um tempo de recomeço, permitindo que o Senhor transforme nossas dores em caminhos de vida nova e nos envie como testemunhas da sua paz.

Com carinho e bênção,

Ir. Cidinha
Provincial



Nascimento do Pe. Tiago Alberione: inspiração para evangelizar na comunicação

O dia 4 de abril marca o nascimento de Tiago Alberione, presbítero italiano e fundador da Família Paulina, uma das mais importantes obras da Igreja voltadas à evangelização por meio da comunicação.

Nascido em 1884, em San Lorenzo di Fossano, na Itália, o jovem Tiago Alberione desde cedo demonstrou sensibilidade espiritual e grande atenção aos sinais do seu tempo. Viveu em uma época de profundas transformações sociais e tecnológicas, e percebeu que os novos meios de comunicação poderiam se tornar instrumentos poderosos para anunciar o Evangelho.

Movido por essa inspiração, dedicou sua vida à missão de levar a mensagem de Cristo a todos, utilizando a imprensa, o cinema, o rádio e, posteriormente, outros meios modernos. Assim, deu origem à Família Paulina, composta por diversas congregações e institutos que continuam, até hoje, essa missão evangelizadora em todo o mundo.

Recordar o nascimento do Pe. Tiago Alberione é renovar o compromisso com uma comunicação que promove a vida, a verdade e o bem. Seu legado permanece atual, especialmente em um mundo cada vez mais conectado, onde a presença cristã nos meios de comunicação é essencial.

Que sua vida e missão inspirem todos aqueles que trabalham na evangelização a comunicar com criatividade, responsabilidade e profundo amor ao Evangelho.




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Tempo de escuta e comunhão marca Encontro das Coordenadoras

O Encontro das Coordenadoras das Pias Discípulas do Divino Mestre, realizado nos dias 29 e 30 de março de 2026, teve início com um momento profundamente significativo: a Celebração do Domingo de Ramos, que marca a entrada na Semana Santa, o tempo mais importante da espiritualidade cristã.

Celebrar a abertura do encontro nesse contexto litúrgico conferiu um sentido ainda mais profundo à reunião, situando-a no mistério pascal de Cristo e iluminando, desde o início, cada partilha e reflexão vivida ao longo dos dois dias.

Realizado na Comunidade Madre Escolástica, na Casa Provincial, em São Paulo, o encontro reuniu coordenadoras de diversas comunidades do Brasil, em um clima de escuta, comunhão e corresponsabilidade na missão.

A programação integrou momentos de oração, como o Ofício da manhã e da tarde, com espaços formativos e de partilha. Entre os destaques, esteve a partilha das coordenadoras sobre a realidade atual de suas comunidades, favorecendo a troca de experiências e o discernimento conjunto dos desafios vividos na missão.

A dimensão formativa também esteve presente com a assessoria da neuropsicóloga Matildes, que abordou a gestão de conflitos, oferecendo contribuições importantes para a vida comunitária. O encontro contou ainda com orientações nas áreas trabalhista e financeira, fortalecendo a organização e a gestão das comunidades.

Outro momento significativo foi a partilha sobre o Conselho de Instituto, que contribuiu para reforçar a unidade e a corresponsabilidade na condução da missão.

Como expresso na convocação, o encontro foi pensado como “um tempo bonito de partilha, escuta e fortalecimento da nossa missão”, objetivo que se concretizou na vivência fraterna e na profundidade dos momentos compartilhados.

Encerrado na segunda-feira com o Ofício da tarde, o encontro reafirmou a importância de cultivar espaços de encontro e discernimento, especialmente em um tempo tão significativo como a Semana Santa, fonte e centro da vida cristã.






Domingo de Ramos: por que se usa o vermelho neste dia?

Em tempos de forte polarização, é compreensível que algumas pessoas olhem para as cores e, quase automaticamente, façam associações políticas. No Brasil, o vermelho costuma ser identificado com determinados partidos ou correntes ideológicas. No entanto, ao entrar na igreja no Domingo de Ramos e ver o vermelho nos paramentos, é essencial recordar: ali não se trata de política, mas de fé.

A liturgia da Igreja possui uma linguagem própria, construída ao longo de séculos, na qual as cores desempenham um papel profundamente simbólico. Elas não expressam preferências humanas, mas comunicam mistérios da fé. Por isso, o vermelho usado no Domingo de Ramos tem um significado muito específico: ele remete à Paixão de Cristo.

O Domingo de Ramos, que abre a Semana Santa, une dois movimentos em uma única celebração. De um lado, recordamos a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelo povo com ramos e cantos de “Hosana”. De outro, proclamamos a narrativa da sua Paixão, como aparece nos Evangelhos, por exemplo no Evangelho segundo São Lucas. Aquele que é acolhido como rei é o mesmo que será conduzido à cruz.

É justamente essa unidade que o vermelho expressa. Na tradição litúrgica, essa cor está associada ao sangue derramado, ao martírio e ao amor levado até o fim. Ao usá-la, a Igreja não faz qualquer referência a ideologias, mas anuncia um mistério central da fé cristã: Cristo reina não pelo poder, mas pela entrega total de si.

Esse mesmo vermelho reaparece alguns dias depois, na celebração da Sexta-feira Santa. Nesse dia, a Igreja não celebra a Eucaristia, mas se reúne para contemplar a Paixão e adorar a cruz. Novamente, a cor vermelha manifesta o sentido profundo daquele momento: o sangue de Cristo derramado por amor, a entrega total que revela a salvação.

Percebe-se, assim, uma coerência litúrgica: o vermelho que aparece no início da semana, no Domingo de Ramos, aponta para o desfecho da cruz na Sexta-feira Santa. Não são dois momentos desconectados, mas um único mistério celebrado progressivamente. A cor, portanto, funciona como uma verdadeira pedagogia visual, conduzindo os fiéis ao centro da fé.

Essa compreensão está em sintonia com a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, especialmente na Sacrosanctum Concilium, que destaca a liturgia como atualização do mistério pascal. Ou seja, não se trata apenas de recordar um acontecimento do passado, mas de participar, aqui e agora, da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

Diante disso, é importante evitar leituras reducionistas. Quando se confunde o simbolismo litúrgico com disputas políticas, corre-se o risco de empobrecer a experiência da fé e desviar o olhar do essencial. A Igreja, ao celebrar, não se alinha a partidos: ela anuncia o Evangelho.

O vermelho do Domingo de Ramos, portanto, não divide, ao contrário, convida à unidade. Ele nos lembra que todos somos chamados a seguir o mesmo Cristo, que entra em Jerusalém montado em um jumento e que entrega a própria vida por amor. É uma cor que fala de doação, de sacrifício e, sobretudo, de um amor que não conhece fronteiras.

Num mundo marcado por tensões e disputas, a liturgia oferece uma pedagogia diferente. Ela nos educa a ver além das aparências, a escutar mais profundamente e a reconhecer que há uma verdade que não se reduz às categorias políticas. Ao contemplar o vermelho neste dia, somos convidados a entrar no mistério da cruz, não como ideologia, mas como caminho de vida.

Assim, ao participar da celebração do Domingo de Ramos, vale a pena fazer um exercício interior: deixar de lado as associações imediatas e permitir que a linguagem simbólica da liturgia fale ao coração. Porque, ali, o vermelho é um anúncio de amor.



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DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR: A EPIFANIA DO REI HUMILDE

O Domingo de Ramos abre a grande Semana Santa, na qual a Igreja entra, pela liturgia, no coração do mistério pascal de Cristo. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de participar sacramentalmente deles. Por isso, a celebração deste dia possui uma estrutura singular: inicia-se com a procissão dos ramos, marcada pelo Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-11), e culmina na proclamação solene da Paixão (Mt 26–27). Entre esses dois momentos, a liturgia nos conduz por um caminho espiritual denso, que vai da aclamação festiva ao silêncio da cruz.

Frequentemente, porém, passamos rapidamente da procissão ao relato da Paixão, sem nos deter na profundidade teológica da entrada de Jesus em Jerusalém. No entanto, este episódio não é apenas uma introdução narrativa, mas uma verdadeira epifania: uma manifestação do modo como Cristo se revela como Messias e Rei. É precisamente nesse gesto que se inaugura, de forma simbólica e profética, o mistério que será consumado na cruz e na ressurreição.

O relato de Mateus (Mt 21,1-11) é cuidadosamente construído. Jesus envia dois discípulos para buscar uma jumenta e seu filhote, cumprindo assim a profecia de Zacarias: “Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento”. Este detalhe não é secundário. Na tradição bíblica, o rei que entra montado em um jumento não é um guerreiro que vem impor sua força, mas um soberano que traz a paz. Jesus rejeita explicitamente qualquer imagem de messianismo político ou violento. Sua realeza se manifesta na mansidão.

A multidão, por sua vez, estende mantos pelo caminho e agita ramos, enquanto aclama: “Hosana ao Filho de Davi!”. Trata-se de um reconhecimento messiânico. No entanto, essa aclamação é ambígua. Como recorda o Pe. Adroaldo Palaoro, muitos esperavam um Messias triunfante, um novo Davi poderoso, capaz de restaurar a soberania de Israel, impor-se sobre as nações e instaurar um reinado visível de glória e domínio. Era o sonho de um êxito retumbante, de uma vitória segundo os critérios humanos.

Mas Jesus frustra radicalmente essas expectativas. Ao longo de toda a sua vida pública, evitou a fama fácil, recusou instrumentalizar seus milagres como propaganda e afastou-se de qualquer tentativa de fazê-lo rei. Sua subida a Jerusalém não é a marcha de um conquistador, mas o caminho exigente de quem permanece fiel ao projeto do Pai. Seus próprios discípulos, muitas vezes, não compreendiam essa lógica, presos ainda à ambição de lugares de honra.

Assim, sua entrada em Jerusalém é profundamente desconcertante. Trata-se de um gesto simbólico e provocativo: Jesus aceita ser aclamado, mas redefine completamente o sentido dessa aclamação. Seu “êxito” não consiste em triunfar segundo os critérios do mundo, mas em ser fiel até o fim. Ele não vem dominar, mas entregar-se. Como sublinha Palaoro, o verdadeiro êxito de Jesus é sua coerência, sua fidelidade à vontade do Pai, mesmo quando isso o conduz à cruz.

Aqui emerge um dos paradoxos centrais do mistério cristão: no horizonte da Paixão, o fracasso torna-se a outra face do êxito. A cruz, vista externamente, é o sinal do fracasso. No entanto, é precisamente nela que se manifesta o amor levado até o extremo. Esta inversão de lógica interpela profundamente também a nossa vida. Muitas vezes, medimos nossa existência por critérios de sucesso, reconhecimento e eficácia. No entanto, à luz de Cristo, os fracassos podem tornar-se lugares de verdade, de purificação e de abertura ao essencial. Eles nos libertam das ilusões e podem nos tornar mais humildes, mais compassivos, mais humanos.

A liturgia deste dia nos convida, portanto, a rever nossas expectativas. Que Messias buscamos? Um que confirme nossos projetos de êxito ou um que nos introduza na lógica do dom?

Essa mesma tensão aparece sob outra luz na reflexão do Pe. Enrique Bikkesbakke, que nos convida a contemplar a entrada em Jerusalém como um “duplo testemunho” realizado na própria procissão dos ramos. Ao levarmos ramos de oliveira, confessamos Cristo como o Ungido, o Messias, pois da oliveira vem o óleo da unção. Ao agitarmos palmas, proclamamos sua vitória. No entanto, esta vitória só pode ser compreendida à luz de um sinal decisivo: a ressurreição de Lázaro, que aponta para o mistério da vida que vence a morte.

Assim, entramos na Semana Santa por dois pórticos simbólicos: a unção e a vitória. Mas o caminho que se abre diante de nós é marcado por acontecimentos paradoxais e, muitas vezes, desconcertantes. Jesus entra como rei, mas montado num jumento; é aclamado, mas caminha para a rejeição; é reconhecido publicamente, mas sua glória se manifestará na solidão da cruz.

À luz do Evangelho de João, esta tensão se aprofunda ainda mais: “Se o grão de trigo, caído na terra, não morre, fica só; mas se morre, dá muito fruto” (Jo 12,24). A glorificação de Jesus não está separada de sua morte, mas acontece precisamente através dela. Este é o grande escândalo e, ao mesmo tempo, a grande revelação da fé cristã: a vida nasce da entrega.

As outras leituras do dia iluminam esse mesmo mistério. O Servo Sofredor de Isaías (Is 50,4-7) permanece fiel mesmo diante da violência, sustentado pela confiança em Deus. O Salmo 21(22) dá voz ao clamor do justo abandonado. E o hino da carta aos Filipenses (Fl 2,6-11) revela o movimento profundo de Cristo: ele se esvazia, assume a condição de servo e se torna obediente até a morte de cruz — e por isso é exaltado.

Do ponto de vista litúrgico, a força deste dia está justamente na unidade entre aclamação e Paixão. A Igreja não nos permite permanecer numa alegria superficial, nem nos introduz abruptamente na dor. Ela nos faz percorrer um caminho, no qual somos educados a reconhecer que a glória de Deus passa pelo amor que se doa até o fim.

No final do Evangelho da entrada em Jerusalém, Jesus começa a se retirar da multidão. Este detalhe, muitas vezes esquecido, é profundamente significativo. Aquele que foi aclamado publicamente caminha agora para um ocultamento progressivo. Sua vida pública se encerra, e a hora decisiva será vivida na intimidade do mistério, entre poucos. A maioria que hoje o aclama, amanhã pedirá sua condenação.

Diante disso, a liturgia nos propõe uma atitude espiritual concreta para esta Semana Santa: entrar com Cristo, mas também permanecer com Ele. Não apenas segui-lo exteriormente, mas deixar-se conduzir por sua lógica. Isso exige silêncio, escuta, disponibilidade interior. Como sugere Bikkesbakke, trata-se de fazer um “silêncio receptivo”, deixando de lado nossas expectativas, nossos esquemas e até mesmo nossa necessidade de compreender tudo.

Neste início da Semana Santa, somos convidados a acolher este Rei humilde, cuja glória passa pela cruz. A entrada em Jerusalém não é um momento passageiro, mas a chave de leitura de todo o mistério pascal. Nela já está contido o caminho que conduz da aclamação à entrega, do aparente êxito ao aparente fracasso, e deste à verdadeira vitória.

Que possamos, ao longo destes dias, caminhar com Cristo com um coração mais livre, mais silencioso e mais disponível, deixando que sua forma de amar transforme também a nossa maneira de viver. Afinal, é na lógica do grão de trigo que morre que se revela a plenitude da vida.

Entre ramos e cruz: a verdadeira vitória de Cristo e o clamor por uma paz desarmada

Neste contexto, o Domingo de Ramos adquire também uma forte ressonância para o nosso tempo. Vivemos em uma humanidade marcada por guerras, divisões e uma crescente “indústria da guerra” que ameaça a fraternidade entre os povos. Diante disso, o Papa Leão XIV tem elevado um insistente apelo à paz, recordando que ela não é uma palavra vazia, mas um caminho que exige “oração, compromisso, perseverança, encontro e escolha” (Vatican News). Em um mundo onde os conflitos se multiplicam, o Papa convida a humanidade a rejeitar a lógica da violência e a escolher o diálogo, a justiça e a fraternidade como fundamentos de uma paz verdadeira. Sua proposta de uma paz “desarmada e desarmante” recorda que a verdadeira transformação não nasce da força, mas do amor que reconcilia.

À luz do Domingo de Ramos, esse apelo ganha uma profundidade ainda maior. Cristo entra em Jerusalém não como um líder militar, mas como o Príncipe da Paz, desmontando toda lógica de dominação. Sua vitória não será a imposição sobre os inimigos, mas a entrega da própria vida. Assim, a liturgia nos revela que a paz que tanto buscamos não será fruto do poder, mas da conversão do coração. Seguir Jesus nesta Semana Santa é, portanto, acolher esse caminho: passar da lógica da violência à lógica do dom, do fechamento à fraternidade, do medo à confiança. Somente assim o “Hosana” que proclamamos com os ramos poderá tornar-se, ao longo da semana, uma verdadeira adesão ao Reino de Deus que se manifesta na cruz e floresce na ressurreição.



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Memória e testemunho: 39 anos da Páscoa de Escolástica Rivata

Hoje celebramos o 39º ano da Páscoa da Venerável Escolástica Rivata, em sintonia com a liturgia desta terça-feira, 24 de março de 2026, da 5ª Semana da Quaresma. À luz das leituras (Nm 21,4-9; Sl 101(102); Jo 8,21-30), recordamos com gratidão o testemunho daquela que se configurou profundamente a Cristo em sua peregrinação rumo a Jerusalém.

Neste mesmo dia, a Igreja na América Latina e no Caribe também faz memória de Dom Oscar Romero, pastor dos indefesos e mártir da justiça. Em comunhão com toda a Igreja, elevamos nossa ação de graças ao Pai pelo testemunho luminoso dessas vidas entregues ao Evangelho.

Nascida como Úrsula Rivata, em Guarene, no dia 12 de julho de 1897, foi a primogênita de quatro filhos de Antonio Rivata e Lúcia Alessandria. Desde cedo, enfrentou a dor da perda de sua mãe, falecida quando tinha apenas seis anos, sendo educada pelo pai em um ambiente familiar marcado por sólidos valores humanos e cristãos.

Ainda criança, destacou-se pela sensibilidade, inteligência e iniciativa. Aos sete anos recebeu a Primeira Comunhão e, em 1909, a Confirmação. Participativa na vida paroquial, integrou o coral e, ao longo da juventude, experimentou diversas atividades de trabalho — da lavoura à fábrica de seda —, o que contribuiu para sua maturidade humana e espiritual.

Diante da proposta de casamento apresentada por seu pai, Úrsula fez uma escolha decisiva que marcaria toda a sua existência. Em oração, diante do Sagrado Coração de Jesus, respondeu com firmeza: “Senhor, só Tu e basta”. Com esse “sim”, consagrou-se inteiramente Àquele que a havia chamado, abraçando uma vida de total entrega, mesmo diante das incompreensões familiares.

Sua busca por formação a levou ao encontro do Beato Tiago Alberione, figura central em seu caminho vocacional. A partir desse encontro, sentiu-se impulsionada a dar passos concretos rumo à vida consagrada.

No dia 29 de julho de 1922, ingressou na Casa São Paulo, iniciando sua jornada na missão paulina. Pouco tempo depois, em 21 de novembro de 1923, foi escolhida para integrar a nova fundação desejada por Padre Alberione. Em 10 de fevereiro de 1924, memória de Santa Escolástica, teve início oficialmente essa nova obra, que se consolidaria em 25 de março do mesmo ano, festa da Anunciação, com a profissão religiosa de oito jovens. Nesse momento, Úrsula recebeu o nome de Irmã Escolástica da Divina Providência.

Desde então, sua vida foi marcada pela Adoração Eucarística e pelo serviço como irmã e mãe junto aos sacerdotes e discípulos da Sociedade São Paulo. Como primeira entre as Pias Discípulas do Divino Mestre, tornou-se colaboradora direta na concretização do carisma paulino, assumindo com apenas 28 anos a responsabilidade pela nova comunidade.

No dia 24 de março de 1987, Madre Escolástica concluiu seu peregrinar terreno, deixando um legado de fé, entrega e profunda união com Cristo. Seu testemunho continua a inspirar a missão da Igreja. O processo de sua causa foi iniciado em 13 de março de 1993, em Alba, e, em 9 de dezembro de 2013, foi proclamada Venerável pelo Papa Francisco, permanecendo em caminho rumo à beatificação.

Neste dia, rendemos graças a Deus por sua vida e renovamos nosso compromisso de seguir o Mestre, à luz de exemplos tão fecundos de santidade e dedicação ao Evangelho.

Ó Trindade divina,
Pai e Filho e Espírito Santo,
Nós te adoramos e te agradecemos
Porque na tua infinita sabedoria
Suscitaste no tempo
MADRE ESCOLÁSTICA RIVATA,
Piedosa e fiel discípula
De Jesus Mestre Caminho, Verdade e Vida.
Ela foi a primeira, entre muitas,
A realizar a particular vocação e missão,
A serviço da Eucaristia, do Sacerdócio e da Liturgia.
Segundo o teu divino querer,
Te pedimos que ela seja glorificada,
A fim de que tenhamos no céu uma protetora
Que nos estimule a ser “em Cristo membros vivos e operantes na Igreja”.
Por sua intercessão, concedei-nos a graça que agora te pedimos (pedir a graça…

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Com aprovação eclesiástica
Para informações dirigir-se a:

Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre
Rua Dr. José de Moura Resende, 323 – Jardim Caxingui
CEP 05517-000   São Paulo/SP
E-mail: secretaria@piasdiscipulas.org.br





5º Domingo da Quaresma: “Eu sou a ressurreição e a vida”, a esperança que vence a morte

Domingo, 22 de Março de 2026
5º Domingo da Quaresma, Ano A

Leituras: Ez 37,12-14 | Sl 129(130) | Rm 8,8-11 | Jo 11,1-45

No coração do 5º Domingo da Quaresma, a liturgia nos conduz ao ápice do itinerário quaresmal: o encontro com o mistério da vida que brota no meio da morte. O Evangelho de hoje (Jo 11,1-45), com a narrativa da ressurreição de Lázaro, não é apenas um relato de milagre, mas uma verdadeira revelação do ser de Cristo e daquilo que Ele realiza na existência humana. Trata-se de um texto profundamente pascal, que antecipa o drama e a glória da Páscoa.

A cena começa com uma ausência: Jesus não está presente quando Lázaro adoece. Esse dado é teologicamente significativo. A demora de Cristo (que chega apenas após a morte) não indica indiferença, mas revela um tempo divino, um modo de agir que ultrapassa a urgência humana. Como Ele mesmo afirma: “Essa doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus”. A morte, portanto, não é o ponto final, mas o lugar onde Deus se manifesta de modo decisivo.

O encontro de Jesus com Marta é central. Diante da dor concreta da perda, Marta expressa uma fé ainda marcada pela expectativa futura: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição do último dia”. É então que Jesus desloca radicalmente essa compreensão: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Não se trata apenas de um evento futuro, mas de uma presença atual. A ressurreição não é apenas algo que acontecerá; ela é alguém que está diante dela. Aqui, o Evangelho atinge uma densidade teológica extraordinária: a vida plena não é uma ideia, mas uma relação com Cristo.

Marta é, assim, conduzida a uma fé mais profunda: não apenas crer em algo, mas crer em Alguém. Sua profissão de fé: “Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus”, ecoa como resposta da Igreja ao longo dos séculos. É a fé que permite atravessar o escândalo da morte.

O momento mais comovente da narrativa ocorre quando Jesus se encontra com Maria e com os que choravam. O versículo “Jesus chorou” revela, com impressionante sobriedade, a humanidade de Cristo. Ele não é indiferente à dor humana; Ele a assume. Esse dado é essencial para a teologia litúrgica: o Deus que a liturgia celebra não é distante, mas profundamente solidário com a condição humana. Na encarnação, Deus entra no drama da morte para transformá-lo desde dentro.

Ao chegar ao túmulo, Jesus ordena: “Tirai a pedra”. Esse gesto envolve a colaboração humana. Antes do milagre, há uma ação que a comunidade deve realizar. A liturgia, como ação de Cristo e da Igreja, também se insere nessa dinâmica: Deus age, mas convoca a participação humana.

O grito de Jesus: “Lázaro, vem para fora!”, é palavra eficaz, palavra que cria aquilo que diz. É a mesma palavra que, na liturgia, realiza o que anuncia. Lázaro sai do túmulo, ainda envolto em faixas. Por isso, Jesus acrescenta: “Desatai-o e deixai-o caminhar”. A vida nova recebida precisa ser plenamente libertada. A ressurreição é dom, mas também caminho.

Ícone com a Ressurreição de Lázaro, século XII, têmpera a ovo sobre madeira; dimensões totais: 21,5 × 24 cm (8 7/16 × 9 7/16 pol.); Museu Bizantino e Cristão, Atenas.

Este Evangelho, proclamado às portas da Semana Santa, nos convida a reconhecer que a vida cristã é uma contínua passagem da morte para a vida. Não apenas no fim dos tempos, mas já agora, na história concreta de cada fiel.

A primeira leitura, de Ez 37,12-14, ilumina profundamente este Evangelho. O profeta anuncia a abertura dos túmulos e a restituição da vida ao povo de Israel. Trata-se de uma imagem poderosa: Deus não apenas consola, mas recria. “Porei em vós o meu espírito e vivereis.” A ressurreição de Lázaro aparece, assim, como sinal concreto dessa promessa. O Espírito de Deus é princípio de vida, capaz de transformar a morte em existência renovada. Aquilo que era anunciado simbolicamente pelo profeta torna-se visível na ação de Cristo.

O Salmo 129(130) aprofunda essa experiência no registro da oração: “Das profundezas eu clamo a vós, Senhor”. A liturgia dá voz ao clamor humano diante da morte, do pecado, do sofrimento. Mas esse clamor não é desespero: é espera confiante. “No Senhor se encontra toda graça e copiosa redenção.” A ressurreição de Lázaro é, nesse sentido, resposta concreta ao grito do salmista. Deus escuta e responde, não apenas com palavras, mas com vida.

A segunda leitura (Rm 8,8-11) oferece a chave pneumatológica dessa dinâmica. São Paulo contrapõe a “carne” ao “Espírito”, não no sentido material, mas como dois modos de existência: um fechado em si mesmo, outro aberto à ação de Deus. “Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, então aquele que ressuscitou Cristo dará também a vida a vossos corpos mortais.” A ressurreição, portanto, não é apenas um acontecimento externo, mas uma realidade que habita o fiel. A vida nova começa já agora, pela ação do Espírito.

A unidade das leituras revela uma profunda coerência litúrgica: a promessa (Ezequiel), o clamor esperançoso (Salmo), a interiorização da vida nova (Romanos) e a manifestação concreta em Cristo (Evangelho). A liturgia não apenas recorda esses eventos, mas os torna presentes. Como ensina a Sacrosanctum Concilium, Cristo está presente em sua Palavra e age na celebração, comunicando a vida que proclama.

Neste 5º Domingo da Quaresma, a Igreja já contempla, de modo antecipado, o mistério pascal. A ressurreição de Lázaro aponta para a ressurreição de Cristo e, ao mesmo tempo, para a vida nova oferecida a todos os fiéis. A liturgia nos convida a identificar as “mortes” presentes em nossa vida (o pecado, o desânimo, a desesperança) e a escutar a voz de Cristo que chama: “Vem para fora”.

Mais do que uma reflexão sobre a morte física, este Evangelho é um chamado à conversão. Sair do túmulo é deixar para trás tudo aquilo que impede a vida plena. E, como Lázaro, permitir que a comunidade nos ajude a “desatar” os vínculos que ainda nos prendem.

À medida que nos aproximamos da Páscoa, a liturgia intensifica esse apelo: acolher a vida que Cristo oferece. Ele não apenas promete a ressurreição; Ele é a ressurreição. Crer nisso é já começar a viver de modo novo.




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São José na liturgia: presença silenciosa, missão decisiva

No dia 19 de março, a Igreja celebra com solenidade São José, esposo da Virgem Maria e padroeiro da Igreja Universal. Inserida no tempo da Quaresma, essa celebração possui um caráter singular: mesmo em um período marcado pela sobriedade, a liturgia se abre à alegria para contemplar aquele que, no silêncio, participou de modo decisivo do mistério da salvação.

A liturgia não apresenta São José como alguém de muitas palavras, mas como um homem de escuta e obediência. Sua grandeza não está no discurso, mas na ação fiel. Por isso, sua presença nas celebrações é profundamente simbólica: ele representa o justo que acolhe o plano de Deus sem reservas.

Ao longo do ano litúrgico, São José aparece de modo especial em dois momentos: na solenidade de 19 de março e também na memória de São José Operário, em 1º de maio. No entanto, sua presença é constante, sobretudo nas Orações Eucarísticas e na espiritualidade da Igreja, que o reconhece como guardião do Redentor e protetor do povo de Deus.

São José nas Escrituras: o justo que escuta e age

O Evangelho proposto para a solenidade (Evangelho segundo Mateus 1,16.18-21.24a ou Evangelho segundo Lucas 2,41-51) revela traços fundamentais da identidade de José.

Em Mateus, ele é chamado de “justo”. Diante de uma situação que humanamente parecia incompreensível, José escolhe não agir segundo a lógica da suspeita ou da condenação, mas se abre à ação de Deus. Ao acolher Jesus Cristo como filho, ele assume uma paternidade que não nasce do sangue, mas da fé e da obediência.

A perícope de Evangelho segundo Mateus 1,16.18-21.24a oferece uma das mais densas sínteses teológicas sobre a figura de São José, revelando sua missão no interior do mistério da Encarnação.

Logo no início, a genealogia culmina em uma formulação surpreendente: Jesus Cristo não é apresentado como “filho de José”, mas como aquele que “nasceu de Maria”. Essa ruptura na lógica genealógica indica que estamos diante de uma origem que ultrapassa a história humana: trata-se de uma iniciativa divina. Ainda assim, José não é excluído — ao contrário, ele é inserido de modo único como mediador legal dessa linhagem.

O texto afirma que José era “justo”. Na tradição bíblica, a justiça não se reduz ao cumprimento da Lei, mas expressa uma relação reta com Deus, marcada pela escuta e pela abertura à sua vontade. Diante da gravidez de Maria, José se vê em uma situação de tensão entre a Lei e a misericórdia. Sua decisão inicial de afastar-se em segredo revela não apenas prudência, mas também compaixão: ele não quer expor Maria à condenação.

É precisamente nesse momento de discernimento que Deus intervém. O sonho, linguagem típica das revelações no Evangelho de Mateus, manifesta que a ação de Deus se dá no interior da vida concreta. O anjo o chama de “filho de Davi”, recordando sua identidade e missão: é por meio dele que Jesus será inserido na descendência davídica, em cumprimento às promessas messiânicas.

A ordem “não tenhas medo de receber Maria” revela o núcleo da vocação de José: acolher. Ele é chamado a acolher Maria, a acolher o mistério que nela se realiza e, sobretudo, a acolher o próprio Deus que vem ao encontro da humanidade. Sua paternidade não é biológica, mas é real e eficaz, pois se concretiza na responsabilidade assumida.

O gesto de “dar o nome” ao menino é teologicamente decisivo. Na tradição bíblica, nomear é exercer autoridade e reconhecer uma missão. Ao dar o nome de Jesus (“Deus salva”), José assume juridicamente a paternidade e insere o menino na história de Israel. Assim, ele se torna cooperador direto no desígnio salvífico.

O versículo final é talvez o mais eloquente: “José fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado”. Não há discursos, apenas ação. Aqui se revela a espiritualidade de José: uma fé obediente, concreta, que se traduz em gestos. Ele não compreende tudo, mas confia; não controla a situação, mas se entrega.

Teologicamente, José aparece como o homem da mediação silenciosa. Ele está no limiar entre a promessa e o cumprimento, entre o Antigo e o Novo. Sua figura garante que a novidade de Deus não rompe com a história, mas a assume e a leva à plenitude.

Por isso, essa perícope não fala apenas sobre José, mas sobre o modo como Deus age: discretamente, no interior das relações humanas, pedindo acolhida e confiança. E revela também o caminho do discípulo: como José, crer é escutar, acolher e agir, mesmo quando o mistério ultrapassa toda compreensão.

Já em Lucas, José aparece no cotidiano da Nazaré, acompanhando o crescimento de Jesus. É a imagem de uma presença silenciosa, mas formadora, daquele que educa, protege e introduz o Filho de Deus na história humana concreta.

A perícope de Evangelho segundo Lucas 2,41-51, conhecida como o episódio de Jesus Cristo entre os doutores, é o único relato da infância de Jesus que rompe o silêncio entre o nascimento e o início da vida pública. Trata-se de um texto denso, no qual se entrelaçam cristologia, espiritualidade familiar e revelação progressiva do mistério de Cristo.

O texto começa situando a família de Jesus Cristo na prática fiel da tradição: “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa”. Maria e São José aparecem como israelitas piedosos, inseridos plenamente na vida litúrgica do povo. A subida a Jerusalém indica não apenas um deslocamento geográfico, mas uma peregrinação espiritual.

Aqui já se delineia um ponto teológico importante: o mistério da Encarnação não acontece fora da história religiosa de Israel, mas dentro dela. Jesus cresce em um ambiente de fé, no qual a liturgia estrutura o tempo e a vida.

O episódio da “perda” de Jesus é, na verdade, uma narrativa teológica de busca. Após três dias (número carregado de significado pascal), ele é encontrado no Templo de Jerusalém.

Esse detalhe não é acidental: o Templo é o lugar da presença de Deus. Assim, Lucas sugere que encontrar Jesus é reencontrar o próprio centro da relação com Deus. A angústia de Maria e José expressa a experiência humana diante do mistério: mesmo aqueles que estão mais próximos de Jesus não o compreendem plenamente.

Jesus é descrito “sentado no meio dos mestres, ouvindo-os e fazendo perguntas”. Essa atitude revela uma pedagogia dialógica: ele não se impõe, mas se insere na tradição, ao mesmo tempo em que a transcende. Sua sabedoria causa admiração, indicando que sua identidade ultrapassa a de um simples menino.

A resposta de Jesus — “Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?” — é o ponto culminante da perícope. Pela primeira vez em Lucas, Jesus manifesta explicitamente sua filiação divina. O termo “devo” (em grego, dei) indica necessidade teológica: sua vida está orientada por um desígnio divino.

Aqui se revela uma tensão fundamental: Jesus pertence à sua família humana, mas sua origem e missão estão enraizadas em uma relação única com Deus, a quem chama de Pai.

O texto afirma que eles “não compreenderam” o que Jesus disse. Essa incompreensão não é falha, mas parte do caminho da revelação. O mistério de Cristo não se impõe de imediato; ele se desvela progressivamente.

Diante disso, Maria “guardava todas essas coisas no coração”. Essa atitude é profundamente teológica: ela representa a Igreja que medita, acolhe e contempla o mistério ao longo do tempo. O coração torna-se lugar de memória e interpretação.

Após o episódio, Jesus “desceu com eles para Nazaré e era-lhes obediente”. Esse retorno à vida oculta revela que a missão divina não elimina a experiência humana ordinária. Pelo contrário, é nela que o mistério se aprofunda.

A obediência de Jesus à sua família não contradiz sua filiação divina; antes, manifesta que a vontade do Pai se realiza também nas relações concretas da vida cotidiana.

O versículo final sintetiza o processo: Jesus “crescia em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens”. Trata-se de uma afirmação decisiva para a cristologia: o Filho de Deus assume plenamente a condição humana, crescendo de modo real e progressivo.

Lucas 2,41-51 revela um Cristo que já é consciente de sua identidade divina, mas que vive essa consciência no interior de um processo humano e histórico. Ao mesmo tempo, apresenta São José e Maria como participantes de um caminho de fé que passa pela busca, pela incompreensão e pela contemplação.

Essa perícope ilumina também a experiência do discípulo: encontrar Cristo exige buscá-lo no lugar certo (na “casa do Pai”), mas também aceitar que seu mistério ultrapassa nossas categorias. Como Maria, o caminho da fé é guardar, meditar e permanecer aberto ao sentido que se revela aos poucos.

Na perspectiva litúrgica, o texto recorda que Deus se deixa encontrar nos espaços da fé vivida, especialmente na assembleia, na Palavra e na presença que habita o “Templo”, conduzindo o crente a uma relação cada vez mais profunda com o mistério de Cristo.

A liturgia da solenidade: promessa, fé e cumprimento

As leituras desta celebração revelam como a missão de São José está inserida no grande plano de Deus:

  • Em Segundo Livro de Samuel (2Sm 7), Deus promete a Davi uma descendência eterna. José, descendente de Davi, torna-se o elo histórico que insere Jesus nessa promessa.
  • O Salmo 89 canta a fidelidade de Deus às suas promessas, recordando que sua aliança permanece para sempre.
  • Na Carta aos Romanos (Rm 4), Abraão é apresentado como modelo de fé. Essa mesma fé se reconhece em José, que acredita mesmo sem ver plenamente.
  • No Evangelho, vemos o cumprimento concreto dessas promessas na vida simples e fiel de José.

Celebrar São José em plena Quaresma é um convite a redescobrir dimensões essenciais da vida cristã: o silêncio, a escuta e a confiança. Ele não ocupa o centro da cena, mas é indispensável para que o mistério da Encarnação se realize na história.

Sua figura dialoga profundamente com o caminho quaresmal: assim como ele, o cristão é chamado a confiar em Deus mesmo quando não compreende tudo, a agir com justiça e a acolher a vontade divina com generosidade.

Um modelo para a Igreja de hoje

Reconhecido como padroeiro da Igreja Universal, São José continua sendo um modelo atual. Em um mundo marcado pelo ruído e pela pressa, sua vida recorda o valor da interioridade e da fidelidade cotidiana.

Na liturgia, ele permanece como presença discreta, mas constante, daquele que, sem palavras, ensina que a verdadeira fé se manifesta na escuta atenta e na resposta concreta ao chamado de Deus.

Celebrar São José é, portanto, contemplar o mistério de Deus que age no escondimento e reconhecer que, muitas vezes, é no silêncio que a salvação se torna visível.

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Segunda meditação quaresmal destaca conversão e humildade no caminho cristão

Fonte: Vatican News

Na presença do Papa Leão XIV e de membros da Cúria Romana, o pregador da Casa Pontifícia, Roberto Pasolini, conduziu no Vaticano a segunda meditação das pregações da Quaresma. A reflexão integra a série de encontros espirituais realizados nas sextas-feiras do tempo quaresmal e tem como tema central a frase de São Paulo Apóstolo: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura” (2Cor 5,17).

Durante a meditação, Pasolini ressaltou que a conversão cristã não se limita a uma mudança moral ou a um esforço individual de melhorar comportamentos. Segundo ele, trata-se прежде de acolher a iniciativa da graça de Deus, capaz de transformar profundamente o coração humano e renovar o modo de viver as relações.

O pregador também destacou que o tema da conversão precisa ser compreendido em sua profundidade. Em sua reflexão, observou que, na cultura contemporânea, a noção de pecado muitas vezes é reduzida a simples fragilidade ou erro. Essa visão, afirmou, pode levar a perder de vista tanto a responsabilidade humana quanto a possibilidade de uma verdadeira transformação espiritual.

Inspirando-se na experiência de São Francisco de Assis, Pasolini indicou a humildade como um dos caminhos essenciais para a conversão. Para ele, a pequenez evangélica não diminui o ser humano, mas o reconduz à sua verdadeira identidade diante de Deus. Nesse sentido, a humildade é vista não apenas como esforço ascético, mas como dom do Espírito que permite redimensionar a própria imagem e abrir espaço para a ação divina.

O pregador lembrou ainda que o caminho de conversão é contínuo e acompanha toda a vida cristã. Mesmo após experimentar a graça de Deus, o fiel é chamado a recomeçar constantemente esse processo, permitindo que sua fragilidade se abra à ação transformadora do Espírito.

As meditações quaresmais dirigidas ao Papa e à Cúria Romana prosseguem ao longo das semanas que antecedem a Semana Santa, propondo reflexões espirituais inspiradas no Evangelho e na tradição franciscana.