O costume de cobrir cruzes e imagens a partir do 5º Domingo da Quaresma é uma prática antiga da tradição litúrgica da Igreja, cuja origem remonta à Idade Média e está profundamente ligada ao modo como se compreendia e se vivia o caminho quaresmal.
Na forma mais antiga do calendário litúrgico, as duas últimas semanas da Quaresma constituíam um tempo específico chamado “Tempo da Paixão”. Esse período marcava uma intensificação da preparação para a Páscoa, com maior ênfase no sofrimento de Cristo e na dimensão dramática de sua entrega. Foi nesse contexto que surgiu o costume de velar as imagens: um gesto que acompanhava a progressiva concentração da liturgia no mistério da cruz.
Uma das explicações mais conhecidas para essa prática encontra-se na tradição germânica medieval. Em várias regiões da Europa, era comum a utilização de um grande véu, chamado Hungertuch (“pano da fome”), que cobria o altar ou partes significativas da igreja durante a Quaresma. Inicialmente, esse pano tinha também uma função pedagógica: em um contexto de baixa alfabetização, ele ajudava a marcar visualmente o caráter penitencial do tempo litúrgico. Com o passar do tempo, essa prática evoluiu e se diversificou, dando origem ao costume mais específico de cobrir cruzes e imagens nas últimas semanas antes da Páscoa.
Além de suas raízes históricas, o gesto também foi interpretado à luz da Sagrada Escritura. O Evangelho proclamado nesse período narra momentos em que Cristo se retira ou se oculta diante da hostilidade crescente (cf. Jo 8,59). Esse “esconder-se” de Cristo foi compreendido simbolicamente na liturgia como um convite ao recolhimento e à contemplação mais profunda de seu mistério.
Ao longo dos séculos, o costume se consolidou como uma expressão sensível do caminho espiritual da Quaresma: à medida que se aproxima a celebração da Paixão, a liturgia reduz os elementos visuais, criando um ambiente mais austero e silencioso. O que está em jogo não é a negação das imagens, mas a criação de um tempo de espera, no qual a ausência prepara para uma revelação mais intensa.
Com a reforma litúrgica promovida após o Concílio Vaticano II, a estrutura do “Tempo da Paixão” foi incorporada à própria Quaresma, e várias práticas foram simplificadas. No entanto, a Igreja optou por deixar esse costume como possibilidade. Por isso, o Missal Romano indica que “pode-se conservar o costume de cobrir as cruzes e imagens”, deixando claro que não se trata de uma obrigação.
Assim, hoje, o velamento é uma prática facultativa. Sua adoção depende das orientações das Conferências Episcopais e do discernimento das comunidades locais. Algumas paróquias mantêm o costume, reconhecendo sua força simbólica; outras optam por não utilizá-lo, sem que isso comprometa a vivência litúrgica da Quaresma.
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