Em tempos de forte polarização, é compreensível que algumas pessoas olhem para as cores e, quase automaticamente, façam associações políticas. No Brasil, o vermelho costuma ser identificado com determinados partidos ou correntes ideológicas. No entanto, ao entrar na igreja no Domingo de Ramos e ver o vermelho nos paramentos, é essencial recordar: ali não se trata de política, mas de fé.

A liturgia da Igreja possui uma linguagem própria, construída ao longo de séculos, na qual as cores desempenham um papel profundamente simbólico. Elas não expressam preferências humanas, mas comunicam mistérios da fé. Por isso, o vermelho usado no Domingo de Ramos tem um significado muito específico: ele remete à Paixão de Cristo.

O Domingo de Ramos, que abre a Semana Santa, une dois movimentos em uma única celebração. De um lado, recordamos a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelo povo com ramos e cantos de “Hosana”. De outro, proclamamos a narrativa da sua Paixão, como aparece nos Evangelhos, por exemplo no Evangelho segundo São Lucas. Aquele que é acolhido como rei é o mesmo que será conduzido à cruz.

É justamente essa unidade que o vermelho expressa. Na tradição litúrgica, essa cor está associada ao sangue derramado, ao martírio e ao amor levado até o fim. Ao usá-la, a Igreja não faz qualquer referência a ideologias, mas anuncia um mistério central da fé cristã: Cristo reina não pelo poder, mas pela entrega total de si.

Esse mesmo vermelho reaparece alguns dias depois, na celebração da Sexta-feira Santa. Nesse dia, a Igreja não celebra a Eucaristia, mas se reúne para contemplar a Paixão e adorar a cruz. Novamente, a cor vermelha manifesta o sentido profundo daquele momento: o sangue de Cristo derramado por amor, a entrega total que revela a salvação.

Percebe-se, assim, uma coerência litúrgica: o vermelho que aparece no início da semana, no Domingo de Ramos, aponta para o desfecho da cruz na Sexta-feira Santa. Não são dois momentos desconectados, mas um único mistério celebrado progressivamente. A cor, portanto, funciona como uma verdadeira pedagogia visual, conduzindo os fiéis ao centro da fé.

Essa compreensão está em sintonia com a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, especialmente na Sacrosanctum Concilium, que destaca a liturgia como atualização do mistério pascal. Ou seja, não se trata apenas de recordar um acontecimento do passado, mas de participar, aqui e agora, da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

Diante disso, é importante evitar leituras reducionistas. Quando se confunde o simbolismo litúrgico com disputas políticas, corre-se o risco de empobrecer a experiência da fé e desviar o olhar do essencial. A Igreja, ao celebrar, não se alinha a partidos: ela anuncia o Evangelho.

O vermelho do Domingo de Ramos, portanto, não divide, ao contrário, convida à unidade. Ele nos lembra que todos somos chamados a seguir o mesmo Cristo, que entra em Jerusalém montado em um jumento e que entrega a própria vida por amor. É uma cor que fala de doação, de sacrifício e, sobretudo, de um amor que não conhece fronteiras.

Num mundo marcado por tensões e disputas, a liturgia oferece uma pedagogia diferente. Ela nos educa a ver além das aparências, a escutar mais profundamente e a reconhecer que há uma verdade que não se reduz às categorias políticas. Ao contemplar o vermelho neste dia, somos convidados a entrar no mistério da cruz, não como ideologia, mas como caminho de vida.

Assim, ao participar da celebração do Domingo de Ramos, vale a pena fazer um exercício interior: deixar de lado as associações imediatas e permitir que a linguagem simbólica da liturgia fale ao coração. Porque, ali, o vermelho é um anúncio de amor.



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