No último domingo (3º Domingo do Tempo Comum – 25/01/2026), a Igreja celebrou o Domingo da Palavra de Deus, uma data relativamente recente no calendário litúrgico, mas profundamente enraizada na tradição cristã. Instituído pelo Papa Francisco por meio da Carta Apostólica Aperuit illis (2019), esse domingo convida toda a comunidade eclesial a redescobrir o lugar central da Palavra de Deus na vida da Igreja, na liturgia e no cotidiano dos fiéis.
Mais do que uma comemoração simbólica, trata-se de um chamado à conversão pastoral e espiritual: voltar a colocar a Palavra no centro, não como objeto de estudo isolado ou leitura ocasional, mas como voz viva de Deus que continua a falar ao seu povo hoje.
O título do documento — Aperuit illis (“Abriu-lhes o entendimento”) — é retirado do Evangelho de Lucas (24,45), no episódio dos discípulos de Emaús. O Papa Francisco parte desse texto para lembrar que é o próprio Cristo quem abre as Escrituras e permite que elas sejam compreendidas em profundidade. Sem Ele, a Bíblia corre o risco de se tornar apenas um livro do passado; com Ele, torna-se Palavra viva, atual e transformadora.
O Papa afirma logo no início do documento:
“A relação entre o Ressuscitado, a comunidade dos crentes e a Sagrada Escritura é extremamente vital para a nossa identidade cristã” (Aperuit illis, n. 1).
Celebrar o Domingo da Palavra de Deus é, portanto, reafirmar essa relação vital entre Cristo, a Igreja e as Escrituras.
Um dos aspectos mais importantes ressaltados pelo Papa Francisco é a relação intrínseca entre Palavra e liturgia. A Bíblia não foi entregue à Igreja para ser apenas lida individualmente, mas proclamada e escutada no seio da assembleia. É na liturgia que a Palavra manifesta plenamente seu caráter de evento: Deus fala, o povo escuta, responde e é transformado.
O Papa recorda que:
“A Bíblia não pode ser entendida como uma coleção de livros de história, nem como um conjunto de textos morais, mas é o livro do povo de Deus” (Aperuit illis, n. 5).
Por isso, a proclamação da Palavra na liturgia exige cuidado, preparação, silêncio e escuta atenta. Não se trata de um momento secundário da celebração, mas de uma verdadeira ação sacramental, na qual Cristo se faz presente e fala à sua Igreja.
O Domingo da Palavra de Deus também recorda que escutar a Palavra nunca é um gesto individualista. A escuta é sempre eclesial e comunitária. A Palavra convoca, forma e envia. Como afirma o Papa:
“Escutar a Sagrada Escritura cria comunhão com Deus e com os irmãos” (Aperuit illis, n. 4).
Essa comunhão, porém, não se fecha em si mesma. A Palavra escutada gera compromisso e missão. Quem acolhe a Palavra é chamado a traduzi-la em gestos concretos de amor, justiça, misericórdia e serviço, especialmente aos pobres e sofredores. Não por acaso, o Papa insiste que a Bíblia deve estar sempre ligada à vida real do povo.
Outro objetivo fundamental do Domingo da Palavra de Deus é educar o povo cristão para uma relação madura e constante com as Escrituras. Isso implica formação bíblica, catequese contínua e iniciação à leitura orante da Bíblia (Lectio Divina).
O Papa Francisco alerta que o desconhecimento das Escrituras empobrece a fé:
“Sem a Sagrada Escritura, os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo permanecem incompreensíveis” (Aperuit illis, n. 7).
Por isso, esse domingo é também um convite às comunidades para investirem na formação de leitores, catequistas, ministros ordenados e agentes de pastoral, para que todos saibam escutar, interpretar e anunciar a Palavra com fidelidade e profundidade.
Dentro da celebração litúrgica, o Domingo da Palavra de Deus valoriza de modo especial o ministério do leitor. O leitor não é alguém que “apenas lê”, mas alguém que empresta sua voz para que Deus fale ao seu povo. Sua postura, preparação, vestes e modo de proclamar fazem parte da pedagogia simbólica da liturgia. Como recorda o Papa Francisco, a Palavra exige respeito, dignidade e amor:
“A proclamação da Palavra de Deus requer uma atenção especial à sua preparação e à sua execução” (Aperuit illis, n. 9).
Isso ajuda a assembleia a compreender que, quando a Palavra é proclamada, é o próprio Cristo quem fala.
Celebrar o Domingo da Palavra de Deus não se limita ao espaço da igreja. O Papa insiste que a Bíblia deve acompanhar a vida diária dos cristãos: nas famílias, nos grupos, nas decisões pessoais e comunitárias. A Palavra ilumina a realidade, consola nas dificuldades, corrige os caminhos e sustenta a esperança.
Nesse sentido, o Papa afirma:
“A Palavra de Deus une os crentes e faz deles um único povo” (Aperuit illis, n. 3).
Essa unidade se constrói quando a Palavra é acolhida, meditada e vivida.
O Domingo da Palavra de Deus é, em última análise, um convite a reaprender a escutar. Num mundo marcado pelo excesso de palavras e ruídos, a Igreja é chamada a criar espaços de silêncio, escuta e acolhida da Palavra que salva.
Celebrar esse domingo é reconhecer que a Palavra de Deus não pertence ao passado, mas continua a agir no presente; não é letra morta, mas voz viva do Espírito; não é propriedade de alguns, mas dom oferecido a todo o povo de Deus.
Como nos recorda o Papa Francisco, a Palavra “não passa”, porque é o próprio Deus que continua a falar. Cabe à Igreja — e a cada fiel — abrir o coração, como os discípulos de Emaús, e deixar-se transformar por essa Palavra que gera vida, comunhão e missão.
Ler na íntegra: Carta Apostólica Aperuit illis



