O 4º Domingo da Quaresma (Ano A) é tradicionalmente chamado de Domingo Laetare, um convite à alegria no meio do caminho quaresmal. A liturgia deste dia articula um grande tema: a passagem das trevas para a luz, que se realiza quando Deus olha o coração humano e o conduz a uma nova visão da vida.
O Evangelho do dia, do Evangelho de João (Jo 9,1-41), apresenta o longo relato da cura do cego de nascença. Mais do que um milagre físico, trata-se de um itinerário espiritual. O homem curado passa por um verdadeiro processo de descoberta:
- No início, ele conhece Jesus apenas como “um homem chamado Jesus”.
- Depois o reconhece como profeta.
- Por fim, encontra-se com Ele e proclama: “Eu creio, Senhor.”
Enquanto isso, os fariseus, que supostamente veem, tornam-se cada vez mais incapazes de reconhecer a ação de Deus. O paradoxo é claro: o cego passa a ver, e os que julgavam ver permanecem na cegueira.
O Evangelho revela, portanto, que a verdadeira cegueira não é física, mas espiritual: é a incapacidade de reconhecer a presença de Deus na história.
Na tradição da Igreja antiga, este Evangelho era proclamado durante o catecumenato, quando os que se preparavam para o Batismo percorriam um caminho chamado “iluminação”. Receber a fé significava abrir os olhos para a luz de Cristo.
Assim, a liturgia deste domingo recorda que Cristo é a luz que ilumina a existência humana. Afirma que a fé é um processo de aprendizado do olhar e que a conversão consiste em passar da cegueira da autossuficiência para a visão humilde da fé.
As outras leituras reforçam esta proposta de mudança de vida. A primeira leitura, do Primeiro Livro de Samuel (1Sm 16,1b.6-7.10-13a), narra a escolha de Davi como rei. O profeta Samuel, ao ver os filhos fortes e imponentes de Jessé, pensa imediatamente que um deles será o escolhido. Mas Deus o corrige: “O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.”
Este é um princípio profundamente teológico. A eleição de Davi revela que a lógica de Deus não coincide com os critérios humanos de poder, prestígio ou aparência. Deus escolhe aquele que está escondido, o menor, aquele que o olhar humano não percebe.
A Quaresma é justamente um tempo em que somos convidados a permitir que Deus purifique nosso olhar: deixar de julgar segundo aparências e aprender a ver como Ele vê.
O salmo responsorial, o Salmo 23, é uma das expressões mais belas da confiança bíblica: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará.” A imagem do pastor revela um Deus que conduz, acompanha e protege. Mesmo “no vale escuro”, o fiel não está sozinho.
Este salmo cria uma ponte com o Evangelho: aquele que guia o rebanho é também aquele que abre os olhos do ser humano para a luz. Deus não apenas conduz externamente; Ele transforma interiormente a nossa visão da realidade.
Na segunda leitura, da Carta aos Efésios (Ef 5,8-14), aparece explicitamente o tema central da liturgia: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor.” A conversão cristã é descrita como uma mudança de condição existencial. Não se trata apenas de melhorar comportamentos, mas de passar da obscuridade para a luz.
A luz, na tradição bíblica, simboliza verdade, vida e comunhão com Deus. Quem vive na luz aprende a discernir aquilo que realmente agrada ao Senhor.
Uma pergunta para a vida
No final do Evangelho, Jesus afirma: “Eu vim a este mundo para um julgamento: para que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.”
A liturgia deste domingo nos convida a perguntar:
- O que em minha vida ainda permanece na sombra?
- Quais cegueiras me impedem de reconhecer a ação de Deus?
- Deixo Cristo iluminar verdadeiramente o meu olhar?
A Quaresma é um caminho de cura do olhar. Como o cego do Evangelho, somos convidados a deixar que Cristo toque nossos olhos para que possamos ver o mundo, os outros e a nós mesmos na luz de Deus.
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