A CONVERSÃO DE SÃO PAULO: UMA TRANSFORMAÇÃO RADICAL DE VIDA

A Conversão de São Paulo é um dos episódios mais fascinantes e significativos da história cristã. Sua trajetória, que vai da feroz perseguição aos cristãos à fundação de comunidades cristãs por toda a região do Império Romano, revela um profundo processo de transformação e a graça de Deus capaz de mudar até os corações mais endurecidos. Este evento, relatado principalmente nos Atos dos Apóstolos, é comemorado pela Igreja no dia 25 de janeiro, e é visto como um símbolo de que a misericórdia divina pode alcançar qualquer pessoa, não importa o quão distante esteja da fé cristã.

O Homem antes da Conversão: Saulo de Tarso

Paulo Apóstolo Cláudio Pastro pintado na capela da casa provincial das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre

O homem que se tornaria São Paulo começou sua jornada com o nome de Saulo. Nascido em Tarso, cidade da região da Cilícia, em torno do ano 10 d.C., ele era judeu, fariseu de nascimento e educação, e, segundo ele mesmo, um “fariseu dos fariseus” (Filipenses 3,5). Saulo se dedicava intensamente à observância da lei judaica e à defesa das tradições do judaísmo. Ele estudou sob a orientação de Gamaliel, um dos maiores mestres da Lei, e, com isso, se tornou uma das figuras mais respeitadas entre os líderes religiosos de sua época.

Entretanto, sua fé fervorosa na tradição judaica o levou a um grande erro: ele via o cristianismo como uma ameaça à integridade do judaísmo. Os seguidores de Jesus de Nazaré eram vistos como hereges, pregando uma nova doutrina que poderia destruir a aliança de Deus com o povo de Israel. Por isso, Saulo se tornou um perseguidor implacável dos cristãos. Ele estava presente e aprovou a morte de Estêvão, o primeiro mártir cristão (Atos 8,1), e em sua busca para erradicar o cristianismo, obteve cartas autorizando-o a prender cristãos em Damasco, uma cidade situada a cerca de 230 quilômetros de Jerusalém.

Saulo estava completamente convencido de que estava fazendo a vontade de Deus, protegendo a fé judaica e combatendo o que ele considerava ser uma heresia. Porém, o que ele não sabia é que Deus tinha um plano muito diferente para sua vida.

O Encontro com Cristo: a conversão de Saulo

O momento da conversão de Saulo acontece no caminho para Damasco, quando ele se depara com uma experiência sobrenatural que mudaria completamente sua vida. Enquanto viajava para cumprir sua missão de capturar cristãos, uma luz intensa, vinda do céu, o envolveu. Saulo caiu ao chão, cegado pela luz, e ouviu uma voz que o chamava pelo nome: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9,4).

Atônito e confuso, Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A resposta que ele ouviu foi: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Levanta-te, entra na cidade, e lá te será dito o que deves fazer” (Atos 9,5-6). Este encontro com Cristo foi uma experiência avassaladora. A luz, que o cegou temporariamente, simbolizava a cegueira espiritual de Saulo, que não conseguia ver a verdade sobre quem era Jesus e o significado de sua missão. A voz de Jesus o confrontou diretamente, revelando a gravidade de sua perseguição aos cristãos, mas também lhe oferecendo a oportunidade de um novo começo.

Saulo, agora cego e imobilizado pela experiência, foi conduzido até Damasco por seus companheiros de viagem. Durante três dias, ele permaneceu cego, sem comer nem beber, em um estado de profunda reflexão. Nesse período, ele deve ter começado a compreender a magnitude de sua vida anterior e de sua jornada de fé equivocada.

A intervenção de Ananias: a cura espiritual e física

Em Damasco, enquanto Saulo ainda se encontrava em oração e reflexão, Deus se revelou a um discípulo cristão chamado Ananias, que foi instruído a ir até Saulo e impor-lhe as mãos para que ele recuperasse a visão. Ananias, apesar de relutante e temeroso devido à fama de Saulo como perseguidor, obedeceu à ordem divina. Chegando à casa de Saulo, Ananias disse: “Saulo, irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vens, enviou-me para que recuperes a vista e sejas cheio do Espírito Santo” (Atos 9,17).

Imediatamente, algo como escamas caiu dos olhos de Saulo, e ele recobrou a visão. Após esse milagre, Saulo foi batizado, simbolizando sua nova vida em Cristo. Ele recebeu força, alimentou-se e, imediatamente, começou a pregar nas sinagogas de Damasco, proclamando que Jesus era o Filho de Deus. Essa mudança repentina, de perseguidor a pregador, foi tão impressionante que os habitantes de Damasco ficaram perplexos, perguntando: “Não é este o homem que, em Jerusalém, devastava os que invocavam esse nome?” (Atos 9,21).

A Missão de São Paulo: A Expansão do Cristianismo

A conversão de Saulo marcou o início de uma nova fase de sua vida. Ele, que antes combatia ferozmente os cristãos, agora se tornava um dos maiores defensores da fé cristã. Depois de um tempo em Damasco, Paulo foi a Jerusalém, onde encontrou os apóstolos, e passou a viajar por várias regiões, pregando o evangelho de Jesus e estabelecendo comunidades cristãs. Sua mensagem era clara: a salvação não era apenas para os judeus, mas também para os gentios, um princípio revolucionário para a época.

São Paulo escreveu diversas cartas que formam parte fundamental do Novo Testamento, nas quais ele explicou e consolidou a teologia cristã. Sua obra missionária foi fundamental para a expansão do cristianismo, e ele se tornou conhecido como o “Apóstolo dos Gentios”. Sua vida foi marcada por viagens, dificuldades, perseguições e uma profunda dedicação à missão de pregar o evangelho de Cristo.

O legado de São Paulo

A Conversão de São Paulo, portanto, não foi apenas um evento pessoal, mas um marco na história da Igreja. Sua transformação de Saulo, o perseguidor, para Paulo, o apóstolo, ilustra a capacidade de Deus de mudar a vida de qualquer pessoa, independentemente de seu passado. São Paulo não foi apenas convertido espiritualmente; ele passou a ser um mensageiro da boa nova, proclamando a graça e a misericórdia de Deus a todos.

Hoje, a festa da Conversão de São Paulo é celebrada como um lembrete de que ninguém está além do alcance da graça divina. Sua vida nos ensina sobre a importância do arrependimento, da abertura ao chamado de Deus e da disposição para seguir o caminho que Ele nos propõe, por mais desafiador que possa parecer. A conversão de Paulo continua a inspirar cristãos de todas as gerações, mostrando que, com fé e humildade, é possível recomeçar e viver uma vida nova em Cristo.

Por Ir. Julia Almeida, pddm, publicado 20 de janeiro de 2025.

Semana pela Unidade dos Cristãos 2020: o drama dos migrantes

“Trataram-nos com gentileza”: este versículo dos Atos dos Apóstolos (28,2) é o tema do subsídio da Semana de Oração pela Unidade de Cristãos 2020. O texto foi redigido pelas Igrejas cristãs de Malta e Gozo.

A Europa, diferentemente do hemisfério sul, celebra a Semana de Unidade dos Cristão de 18 a 25 de janeiro. Neste ano de 2020, os materiais para a Semana de Oração pela Unidade Cristã foram preparados pelas Igrejas cristãs em Malta e Gozo (Cristãos Unidos em Malta).

Em 10 de fevereiro, muitos cristãos em Malta celebram a festa do naufrágio de São Paulo, destacando e agradecendo a chegada da fé cristã nessas ilhas. Por isso, está sendo proposto a leitura de Atos dos Apóstolos usada na festa. A história começa com Paulo sendo levado a Roma como prisioneiro (At 27,1ss). Paulo está preso, mas mesmo numa viagem que se torna perigosa, a missão de Deus continua através dele.

Essa narrativa é um clássico drama da humanidade confrontada com o aterrorizante poder dos elementos. Os passageiros do navio estão expostos às forças dos mares abaixo e das poderosas tempestades que se erguem ao seu redor. Essas forças os levam a um território desconhecido, onde estão perdidos e sem esperança.

As 276 pessoas a bordo do navio são divididas em grupos distintos. O centurião e seus soldados têm poder e autoridade mas dependem da perícia e da experiência dos marinheiros. Embora todos estejam assustados e vulneráveis, os prisioneiros são os mais vulneráveis de todos. Suas vidas são consideradas dispensáveis, eles estão em risco de uma execução sumária (cf 27,42).

À medida que a história se desenvolve, sob pressão e temendo por suas vidas, vemos desconfiança e suspeita ampliando as divisões entre os diferentes grupos. Notavelmente, porém, Paulo se ergue como um centro de paz no tumulto. Ele sabe que sua vida não é governada por forças indiferentes ao seu destino, mas está segura nas mãos do Deus a quem ele pertence e serve (cf 27,23).

Por causa de sua fé, ele está confiante de que se erguerá diante do imperador em Roma, e na força da sua fé pode se erguer diante de seus companheiros de viagem e dar graças a Deus. Todos estão encorajados. Seguindo o exemplo de Paulo, eles partilham pão, unidos numa nova esperança e confiando em suas palavras. Isso indica o tema principal dessa passagem: a providência divina. Foi decisão do centurião navegar em tempo ruim, mas ao longo da tempestade os marinheiros tomam decisões sobre como lidar com o navio. Mas ao final seus próprios planos são alterados e, somente permanecendo juntos e permitindo que o navio naufrague, eles chegam a ser salvos pela divina providência.

O navio e toda a sua valiosa carga se perderão, mas todas as vidas serão salvas, “nenhum de vós perderá um cabelo sequer de sua cabeça” (cf 27,34; Lc 21,18). Em nossa busca da unidade cristã, entregar-nos à divina providência vai exigir deixar de lado muitas coisas a que estamos profundamente ligados. O que importa para Deus é a salvação de todas as pessoas. Esse grupo de pessoas diversas e em conflito desembarca em uma ilha (cf 27,26).

Tendo sido jogados juntos no mesmo navio, chegam ao mesmo destino, onde a sua unidade humana se manifesta na hospitalidade que recebem dos nativos da ilha. Ao se unirem ao redor do fogo, cercados por um povo que nem os conhece nem os compreende, diferenças de poder e posição social se esvaem. Os 276 não estão mais na dependência de forças indiferentes, mas envolvidos pela amorosa previdência de Deus, que se mostra presente através de um povo que lhes demonstra uma “benevolência fora do comum” (Cf 28,2).

Com frio e molhados, eles podem se aquecer e secar perto do fogo. Com fome, recebem comida. São abrigados até que seja seguro para eles continuar a viagem.

Hoje muitas pessoas estão enfrentando terrores semelhantes nesses mesmos mares. Os mesmos lugares mencionados no texto lido (cf 27,1; 28,1) também fazem parte das histórias de migrantes de tempos modernos. Em outras partes do mundo muitos outros estão fazendo jornadas igualmente perigosas por terra e pelo mar para escapar de desastres naturais, guerra e pobreza. Suas vidas também estão expostas a imensas e friamente indiferentes forças – não apenas naturais, mas também políticas, econômicas e humanas.

Essa indiferença humana assume várias formas: a indiferença dos que vendem lugares em barcos inadequados para pessoas desesperadas; a indiferença que leva à decisão de não enviar barcos de socorro; a indiferença que faz mandar embora barcos de imigrantes. Isso são apenas alguns exemplos.

Como cristãos unidos encarando as crises da migração essa história nos desafia: apoiamos as frias forças da indiferença, ou mostramos “benevolência fora do comum” e nos tornamos testemunhas da amorosa providência de Deus para todas as pessoas? A hospitalidade é uma virtude muito necessária em nossa busca da unidade cristã. É uma prática que nos leva a uma maior generosidade para os necessitados.

As pessoas que mostraram benevolência fora do comum a Paulo e seus companheiros não conheciam ainda Cristo, mas mesmo assim é através de sua benevolência fora do comum que um povo dividido vai ficando unido. Nossa própria unidade cristã será descoberta não apenas mostrando hospitalidade de uns para os outros, embora isso seja muito importante, mas também através de encontros amigáveis com aqueles que não partilham nossa língua, cultura ou fé. Em tais viagens tempestuosas e encontros casuais, a vontade de Deus para a Igreja e para todas as pessoas será cumprida. Como Paulo proclamará em Roma, a salvação de Deus foi enviada a todos os povos (cf At 28,28).

As reflexões para os oito dias e a celebração serão baseadas no texto de Atos dos Apóstolos.

Os temas para os oito dias são:

Dia 1: Reconciliação: Atirando a carga ao mar

Dia 2: Iluminação: Buscando e apresentando a luz de Cristo

Dia 3: Esperança: Mensagem de Paulo

Dia 4: Confiança: Não tenha medo, creia

Dia 5: Fortalecimento: Partilhando pão para a viagem

Dia 6: Hospitalidade: Demonstre benevolência fora do comum

Dia 7: Conversão: Mudando nossos corações e mentes

Dia 8: Generosidade: Recebendo e dando

Para baixar os textos, clique no link: http://www.christianunity.va/content/dam/unitacristiani/Settimana%20di%20preghiera%20per%20unit%C3%A0/2020/PORT%202020%20Libretto.pdf

Fonte da Notícia: Vatican News