Domingo, 18 de janeiro de 2026
2º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Jo 1,29-34
Com o encerramento do Tempo do Natal e a entrada no Tempo Comum, a liturgia nos conduz a uma etapa discreta, porém decisiva, do ano litúrgico. Não se trata de um “tempo menor”, mas de um período em que a vida pública de Jesus começa a ser contemplada passo a passo, gesto a gesto, palavra a palavra. É um tempo de amadurecimento da fé, de escuta atenta e de assimilação progressiva do mistério de Cristo, antes de entrarmos na intensidade penitencial e catecumenal da Quaresma.
Neste segundo domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo João nos apresenta uma cena de forte densidade teológica: o testemunho de João Batista sobre Jesus (Jo 1,29-34). Não se trata de um relato do batismo propriamente dito, mas de sua interpretação. João Batista olha para Jesus que vem ao seu encontro e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Essa afirmação inaugura, no Quarto Evangelho, a revelação pública da identidade de Jesus e orienta toda a leitura litúrgica deste início de tempo.
A expressão “Cordeiro de Deus” carrega uma profunda memória bíblica. Ela evoca o cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue libertou o povo da escravidão e marcou o início de uma nova história (cf. Ex 12). Evoca também o Servo sofredor de Isaías, que “como cordeiro levado ao matadouro” assume sobre si as dores do povo (cf. Is 53,7). Ao unir essas imagens, o evangelista João apresenta Jesus como aquele que realiza uma libertação definitiva: não apenas de uma opressão histórica, mas do pecado que fere a relação entre Deus e a humanidade.
Nesse sentido, o tempo litúrgico que agora vivemos é um verdadeiro tempo de revelação progressiva. O Natal nos mostrou quem é Jesus: o Verbo feito carne, Deus que entra na história humana. O Tempo Comum começa a nos mostrar para que Ele veio e como realiza sua missão. Antes de caminhar para a cruz na Quaresma e na Páscoa, a liturgia nos convida a contemplar o sentido profundo dessa entrega: Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo porque assume a condição humana até as últimas consequências, inaugurando uma nova forma de relação com Deus.
O testemunho de João Batista também é marcado por um movimento de humildade e de discernimento espiritual. Ele afirma claramente: “Eu não o conhecia”. Essa frase, repetida duas vezes no texto, não indica ignorância, mas revela que o reconhecimento de Jesus não nasce de vínculos humanos, mas de uma experiência espiritual. João reconhece Jesus porque vê o Espírito descer e permanecer sobre Ele. O sinal decisivo não é exterior, mas teológico: a presença permanente do Espírito revela que Jesus é o Filho, aquele que batiza no Espírito Santo.
Aqui se abre uma dimensão importante para a vivência litúrgica deste tempo. Reconhecer Jesus como Cordeiro de Deus e Filho de Deus não é resultado de um conhecimento automático ou superficial. É fruto de uma experiência de escuta, de observação, de permanência. A liturgia do Tempo Comum educa o olhar da fé para reconhecer o Senhor presente na história, nos sinais simples, na Palavra proclamada, nos sacramentos celebrados.
As demais leituras deste domingo são iluminadas por essa chave de leitura. O cântico do Servo em Isaías (Is 49,3.5-6) amplia o horizonte da missão: aquele que é chamado desde o ventre materno não é enviado apenas a Israel, mas é “luz para as nações”. O Cordeiro que tira o pecado do mundo inaugura uma salvação universal, que ultrapassa fronteiras religiosas e culturais. O salmo responsorial coloca nos lábios da assembleia uma atitude fundamental para este tempo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. A vida cristã nasce da escuta e da adesão confiante ao projeto de Deus.
Já a saudação inicial da Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 1,1-3) recorda que essa identidade cristã se concretiza na vida da comunidade. Somos chamados a ser santos não por mérito próprio, mas porque fomos alcançados por Cristo. O Tempo Comum é também tempo de aprender a viver a fé no cotidiano, na comunhão e na corresponsabilidade eclesial.
Liturgicamente, este domingo nos ajuda a compreender que estamos numa passagem: do mistério contemplado no Natal para o mistério que será celebrado na Páscoa. É um tempo de travessia, de aprofundamento, de preparação interior. Ao proclamarmos, em cada Eucaristia, “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo”, retomamos esse testemunho de João Batista e o tornamos oração da Igreja. Não é apenas uma fórmula ritual, mas uma profissão de fé que nos compromete.
Neste início do Tempo Comum, a liturgia nos convida a olhar para Jesus com atenção renovada, a escutar seu testemunho silencioso e a permitir que o Espírito nos conduza ao reconhecimento profundo de quem Ele é. Antes de seguir seus passos rumo à cruz, somos chamados a permanecer com Ele, a deixar-nos revelar por sua presença e a aprender, dia após dia, a viver como discípulos daquele que é o Cordeiro de Deus.


