6º Domingo do Tempo Comum – Ano A (15 de fevereiro de 2026)

Leituras: Sf 2,3;3,12-13 | Sl 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5,3) | 1Cor 1,26-31 | Mt 5,1-12a

A liturgia deste 6º Domingo do Tempo Comum continua nos conduzindo, com pedagogia paciente, ao coração do Sermão da Montanha. Não se trata de uma simples sequência de textos, mas de um itinerário espiritual progressivo, que a Igreja nos propõe como verdadeiro caminho de conversão.

No 4º Domingo do Tempo Comum (01/02), contemplamos as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a): o anúncio de uma felicidade paradoxal, que nasce da mansidão, da misericórdia, da fome de justiça e da construção da paz. No domingo passado, ouvimos que esses discípulos bem-aventurados são chamados a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16): uma fé que não pode ficar escondida, mas que precisa ganhar forma concreta na história.

Hoje, Jesus dá mais um passo decisivo: Ele nos convida a ir além da observância exterior da Lei, entrando na lógica profunda do Reino. “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20).

Não abolir, mas levar à plenitude

Jesus é claro: Ele não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude. E essa plenitude não se mede pelo rigor das normas, mas pela transformação do coração. No Evangelho de hoje (Mt 5,17-37), Jesus relê os mandamentos fundamentais — não matar, não cometer adultério, não jurar falsamente — e os aprofunda, deslocando o foco da ação externa para a intenção interior.

Não basta não matar: a violência começa no desprezo, na palavra agressiva, no ódio cultivado. Não basta não cometer adultério: a infidelidade nasce no olhar que reduz o outro a objeto. Não basta jurar corretamente: o discípulo do Reino é chamado à verdade simples, ao “sim” que é sim e ao “não” que é não.

É um Evangelho exigente, que não permite uma fé superficial. Ele nos desinstala e justamente por isso nos humaniza.

A primeira leitura, do Eclesiástico (15,16-21), ilumina essa exigência de Jesus: Deus coloca diante de nós o fogo e a água, a vida e a morte. Ele respeita profundamente a nossa liberdade, mas nunca nos dispensa da responsabilidade. A fidelidade aos mandamentos não é opressão, mas caminho de vida.

O Salmo 118 (119) ecoa essa mesma convicção: feliz quem anda na lei do Senhor, não como quem cumpre regras friamente, mas como quem encontrou um sentido para viver.

Já São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (2,6-10), nos lembra que essa lógica do Reino não se entende apenas com inteligência humana. Trata-se de uma sabedoria que vem do Espírito, capaz de revelar aquilo que “olho nenhum viu e ouvido nenhum ouviu”. Sem essa abertura ao Espírito, o Evangelho se torna moralismo; com Ele, torna-se caminho de libertação.

Evangelho, Carnaval e verdade interior

Celebramos este domingo em mio ao Carnaval, tempo de festa, criatividade, corpo, música e expressão popular tão marcante no Brasil. O Evangelho de hoje não condena a alegria, nem a festa em si. Pelo contrário: ele nos provoca a perguntar que alegria buscamos e que verdade carregamos por dentro.

Num contexto em que máscaras são usadas (literal e simbolicamente) Jesus nos chama a uma vida sem duplicidade. O problema não é festejar, mas viver desconectados do coração, anestesiados, fugindo de nós mesmos e dos outros. O “sim, sim; não, não” de Jesus soa como um convite à inteireza, à coerência entre o que mostramos e o que somos.

O Carnaval pode ser vivido como espaço de encontro, beleza e partilha, mas também pode revelar vazios, excessos e violências. O Evangelho não impõe culpas, mas oferece discernimento: que justiça maior estamos construindo também nesses espaços?

Num cenário mundial marcado por guerras, genocídios e a banalização da vida, as palavras de Jesus ganham uma força quase desconcertante. Ele não se limita a condenar o assassinato; Ele vai à raiz da violência. O desprezo, o ódio, a desumanização do outro são sementes de guerra.

Antes de bombas e exércitos, há palavras que ferem, discursos que incitam, sistemas que legitimam a exclusão. O Evangelho de hoje nos lembra que a paz começa no coração convertido, mas não termina nele: ela se traduz em relações justas, em escolhas éticas, em compromisso com a dignidade humana.

Um caminho que se desenha

O caminho litúrgico destas últimas três semanas no Tempo Comum nos revela uma pedagogia espiritual cuidadosa, com a qual a Igreja nos educa para o discipulado autêntico.

Nas Bem-aventuranças, somos colocados diante do sonho de Deus para a humanidade. Jesus proclama felizes aqueles que o mundo costuma considerar fracassados: os pobres, os mansos, os que choram, os misericordiosos, os que promovem a paz. Não se trata de um ideal ingênuo, mas da revelação de uma lógica nova, capaz de curar relações feridas e devolver dignidade aos descartados da história.

Ao afirmar que os discípulos são sal da terra e luz do mundo, o Evangelho dá um passo adiante: esse sonho não pode permanecer apenas como bela utopia. Ele precisa ganhar corpo na vida concreta dos que se deixam tocar pelas Bem-aventuranças. Ser sal e luz é aceitar a missão de preservar o que é humano, iluminar caminhos obscuros e dar sabor à vida comum, mesmo quando isso exige exposição, risco e coerência.

Por fim, ao falar de uma justiça maior, Jesus aprofunda ainda mais o chamado. Não basta pertencer exteriormente ao povo de Deus ou cumprir normas religiosas. A fé que nasce do Evangelho precisa descer ao coração, purificar intenções, transformar palavras, olhares e escolhas. É essa justiça interior (silenciosa e exigente) que tem força para transformar a história, desarmar violências e abrir caminhos de reconciliação.

Esse itinerário revela que seguir Jesus não é acumular práticas religiosas, mas deixar-se conduzir por um processo de conversão contínua, no qual o sonho de Deus se torna missão e a missão se enraíza numa fé verdadeira, vivida com inteireza.

Que este domingo nos ajude a escolher a vida, a verdade e a paz, não como slogans, mas como decisões cotidianas. E que, em meio às festas, aos conflitos e às ambiguidades do nosso tempo, sejamos sinais humildes, mas reais, de um Reino que já está no meio de nós.




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