LER O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS A PARTIR DA LITURGIA: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA PARA O ANO A

Ir. Julia Almeida, pddm

Com o Primeiro Domingo do Advento, a Igreja inaugura um novo ciclo litúrgico e, com ele, um novo percurso de escuta do Evangelho nas celebrações dominicais. No Ano A, essa escuta é marcada, de modo privilegiado, pela proclamação do Evangelho segundo Mateus, que acompanha a assembleia ao longo do ano, moldando sua percepção do mistério de Cristo e do Reino anunciado.

Na liturgia, a importância do Evangelho segundo Mateus é estrutural, teológica e pedagógica. Ele não ocupa apenas um lugar quantitativamente privilegiado no Ano A, mas exerce uma função decisiva na formação da consciência litúrgica e eclesial da assembleia. Pode-se compreender essa importância a partir de alguns eixos fundamentais.

O primeiro eixo, poderíamos apontar, é que Mateus é o Evangelho da Igreja reunida. Entre os quatro evangelhos, Mateus é aquele que mais explicitamente se dirige a uma comunidade estruturada, consciente de sua identidade e de sua missão. Termos como ekklesía (Mt 16,18; 18,17), ausentes em Marcos e Lucas, revelam um horizonte claramente eclesial. Na liturgia, isso se traduz no fato de que o Evangelho de Mateus é proclamado a uma assembleia, fala da vida comunitária, do perdão, da correção fraterna, educa para relações marcadas pela justiça, pela misericórdia e pela responsabilidade.

Assim, quando Mateus é proclamado na celebração, não se trata apenas de ouvir palavras sobre Jesus, mas de reconhecer-se como Igreja em formação.

O segundo eixo diz a respeiro do tema central do evangelista Mateus: o Reino dos Céus. Na liturgia, esse Reino não é apresentado como ideia abstrata, mas como realidade que se anuncia na Palavra, se torna presente na ação ritual, exige conversão e prática. Por exemplo, as parábolas do Reino (Mt 13), amplamente proclamadas no Tempo Comum do Ano A, revelam uma pedagogia própria da liturgia: o Reino cresce no tempo, de modo discreto, entre ambiguidades, exigindo discernimento. A assembleia litúrgica torna-se, assim, espaço simbólico onde o Reino é escutado, acolhido e antecipado.

A centralidade do ensinamento: a Palavra que forma, é o terceiro eixo. Mateus organiza o ministério de Jesus em grandes discursos (cf. Mt 5–7; 10; 13; 18; 24–25). Na liturgia, esses discursos aparecem de forma distribuída e progressiva, permitindo que a Palavra forme o discípulo ao longo do tempo, eduque a consciência ética, molde a identidade cristã.

O Sermão da Montanha, proclamado ao longo de vários domingos, assume particular importância: na assembleia reunida, ele funciona como palavra normativa, não no sentido legalista, mas como orientação de vida para quem escuta e celebra.

O quatro eixo é a relação entre Escritura e liturgia. Mateus é o evangelista que mais explicitamente articula o evento de Jesus com o Antigo Testamento. Suas frequentes citações: “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”, encontram na liturgia um lugar privilegiado de ressonância.

A liturgia dominical, ao colocar o Evangelho de Mateus em diálogo com a Primeira Leitura, evidencia a unidade da história da salvação, a continuidade entre promessa e cumprimento, a leitura tipológica própria da tradição litúrgica. Assim, Mateus ajuda a assembleia a aprender a ler as Escrituras na Igreja, e não de modo isolado.

O quinto eixo é a dimensão ética e performativa da Palavra. Na liturgia, o Evangelho não é apenas escutado, mas proclamado como Palavra viva, que interpela e exige resposta. Mateus, com sua ênfase no “fazer” a vontade do Pai (Mt 7,21; 25,31-46), reforça essa dimensão performativa.

A proclamação de Mateus na liturgia não se encerra no momento da escuta, projeta-se na vida cotidiana, orienta a ação cristã no mundo. O famoso critério do juízo final em Mt 25, proclamado liturgicamente, revela que a celebração autêntica desemboca na prática da caridade e da justiça.

O sexto e último eixo: Mateus é um Evangelho profundamente litúrgico. Pode-se afirmar que Mateus possui uma afinidade profunda com a liturgia porque valoriza a escuta comunitária, articula palavra, gesto e tempo, culmina no envio missionário (“Ide, portanto…”). Na celebração, o Evangelho de Mateus não apenas recorda a história de Jesus, mas estrutura a vida celebrativa da Igreja, formando discípulos que escutam, celebram e vivem o que foi proclamado.

Em síntese, na liturgia, o Evangelho segundo Mateus é importante porque forma a Igreja como comunidade discipular; educa para o Reino de Deus vivido no tempo; integra Escritura, celebração e vida; transforma a escuta em compromisso. Por isso, no Ano A, Mateus não é apenas o evangelho “lido”, mas o evangelho que configura a assembleia no ritmo da Palavra celebrada.

Essa escolha não responde a um critério meramente organizacional nem a uma simples alternância de textos. Trata-se de uma verdadeira pedagogia eclesial da Palavra, na qual o Evangelho é proclamado, interpretado e assimilado no ritmo do ano litúrgico, em diálogo com os tempos, as festas e as orações da Igreja. Diante disso, impõe-se uma questão metodológica fundamental: como estudar o Evangelho segundo Mateus respeitando o modo próprio como a liturgia o oferece à comunidade cristã?

Queremos propor uma leitura de Mateus a partir da liturgia, e não apenas aplicada à liturgia. Trata-se de assumir o espaço celebrativo como lugar hermenêutico, onde o texto bíblico não é apenas explicado, mas performado, escutado comunitariamente e integrado à experiência de fé.

1. A liturgia como chave hermenêutica da Escritura

A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que “Cristo está presente na sua Palavra, pois é Ele quem fala quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja” (SC 7), e recorda que a Escritura ocupa um lugar essencial na ação litúrgica (SC 24). Assim, a liturgia não é um simples contexto externo da Palavra, mas o ambiente vital no qual o texto bíblico se torna evento.

Ler Mateus a partir da liturgia implica reconhecer que o Evangelho chega à assembleia em trechos selecionados, organizados segundo uma intencionalidade teológica, em diálogo com o Antigo Testamento, os salmos e as orações da Igreja, orientados para a formação do sujeito cristão.

Essa perspectiva desloca o estudo bíblico de uma leitura linear e exclusivamente exegética para uma leitura mistagógica, narrativa e eclesial.

2. O Ano Litúrgico como estrutura de leitura

A proposta metodológica aqui apresentada organiza o estudo do Evangelho segundo Mateus a partir dos tempos litúrgicos, acompanhando o percurso espiritual que a Igreja propõe ao longo do Ano A. Não se lê Mateus “do começo ao fim”, mas segundo a lógica da celebração do mistério de Cristo.

2.1 Advento: promessa, espera e vigilância

No Advento, a liturgia seleciona textos de Mateus que articulam promessa e cumprimento, expectativa messiânica e vigilância escatológica. O evangelista aparece como o teólogo do “cumprimento das Escrituras”, mas também como aquele que educa a comunidade na tensão entre o “já” e o “ainda não”.

A leitura litúrgica evidencia que o Messias esperado não corresponde a expectativas triunfalistas, mas inaugura um Reino que exige discernimento, conversão e vigilância ativa.

2.2 Natal e Epifania: encarnação e revelação em contexto de conflito

Os relatos da infância em Mateus, proclamados no Tempo do Natal, revelam uma cristologia densa e nada ingênua. A encarnação é apresentada como acontecimento histórico marcado por deslocamentos, rejeições e tensões políticas. A Epifania, com a figura dos magos, introduz desde o início o tema da abertura universal do Reino e da ambiguidade das respostas humanas ao Cristo.

Lidos na liturgia, esses textos formam a assembleia para reconhecer que a revelação de Deus acontece no interior da história concreta, e não à margem dela.

2.3 Tempo Comum: o Reino anunciado, ensinado e vivido

É sobretudo no Tempo Comum que Mateus se torna o grande evangelista do Ano A. O Sermão da Montanha (Mt 5–7), proclamado ao longo de vários domingos, ocupa um lugar central. Na lógica litúrgica, ele não funciona como um tratado moral abstrato, mas como palavra performativa, dirigida a uma assembleia reunida, chamada a ouvir e a praticar.

A liturgia transforma o “monte” de Mateus em espaço simbólico da própria celebração: ali se escuta a Torá do Reino, ali se delineia a identidade do discípulo, ali se forma uma ética enraizada na justiça maior, na misericórdia e na confiança em Deus.

2.4 Quaresma: conversão e decisão

Durante a Quaresma, Mateus é proclamado como evangelho da decisão. As tentações, a transfiguração e as parábolas quaresmais revelam uma pedagogia que conduz a assembleia a confrontar-se com a própria escuta: ouvir ou não ouvir, seguir ou não seguir, converter-se ou permanecer na lógica antiga.

A conversão, em Mateus, não é apenas moral, mas mudança de mentalidade, reorientação profunda do olhar e das relações. A liturgia, ao articular Palavra, gesto e tempo, torna essa exigência concreta e existencial.

2.5 Páscoa: paixão, ressurreição e envio

A proclamação da Paixão segundo Mateus, especialmente no Domingo de Ramos, manifesta com força o caráter ritual da narrativa: o texto é escutado em clima de silêncio, dramaticidade e participação corporal. Não se trata apenas de recordar, mas de fazer memória.

O Evangelho culmina, no Tempo Pascal, com o mandato missionário: “Ide, portanto…” (Mt 28,19). Na liturgia, esse final não encerra o relato, mas o prolonga na vida da assembleia, agora enviada como corpo eclesial.

3. Uma metodologia de leitura litúrgica

Cada etapa do estudo pode ser organizada a partir de um mesmo núcleo metodológico:

  1. contextualização do tempo litúrgico;
  2. proclamação atenta do Evangelho;
  3. análise narrativa e simbólica do texto;
  4. diálogo com a Primeira Leitura e a oração da coleta;
  5. pergunta final sobre o efeito do texto na assembleia hoje.

Essa metodologia permite compreender o Evangelho não apenas como texto antigo, mas como palavra que age, que forma, que convoca.

4. A Lectio Divina como método de leitura litúrgica

Para que essa leitura de Mateus não se reduza a um exercício meramente informativo ou exegético, propõe-se a Lectio Divina como método privilegiado. Enraizada na tradição da Igreja, a Lectio Divina se harmoniza profundamente com a estrutura da liturgia da Palavra, prolongando, na vida pessoal e comunitária, a experiência celebrativa.

Lectio: escutar o Evangelho proclamado

O primeiro passo consiste em uma escuta atenta do texto, preferencialmente em sintonia com o domingo e o tempo litúrgico correspondente. Em Mateus, essa escuta permite perceber a estrutura narrativa, as imagens do Reino, os destinatários da palavra de Jesus e o diálogo constante com o Antigo Testamento.

A lectio educa para reconhecer que é o próprio Cristo quem fala quando o Evangelho é proclamado na assembleia.

Meditatio: deixar-se interpelar pela Palavra

Na meditatio, a Palavra começa a ressoar na vida. Os discursos e parábolas de Mateus revelam sua força formativa: não apenas informam, mas confrontam, questionam e orientam. Em chave litúrgica, a meditação se pergunta pelo efeito do texto na comunidade que o escuta hoje.

Oratio: responder à Palavra

A resposta orante nasce naturalmente da escuta e da meditação. A liturgia já oferece essa resposta nos salmos e orações; a Lectio Divina prolonga esse movimento, transformando a Palavra escutada em súplica, louvor, pedido de conversão e compromisso.

Contemplatio: permanecer no mistério

A contemplatio corresponde ao silêncio fecundo que segue a proclamação do Evangelho. Aqui, não se busca compreender mais, mas habitar o mistério. Mateus conduz frequentemente a esse lugar de permanência, no qual o discípulo se reconhece parte da assembleia reunida em torno da Palavra.

Actio: da escuta à vida

Como desdobramento natural, a actio explicita a dimensão performativa do Evangelho segundo Mateus. A escuta autêntica conduz à prática: a justiça do Reino se traduz em gestos concretos de misericórdia, responsabilidade comunitária e compromisso com os mais frágeis.

4. Horizontes teológicos e formativos

Ler o Evangelho segundo Mateus a partir da liturgia é reconhecer que a Escritura encontra sua plena inteligibilidade na celebração da fé. A liturgia aparece, assim, como lugar privilegiado de recepção, interpretação e atualização do texto bíblico.

E integrar a Lectio Divina à leitura do Evangelho segundo Mateus no Ano A significa reconhecer que a liturgia é o lugar originário da Palavra. Toda leitura pessoal ou comunitária nasce da celebração e a ela retorna, formando discípulos que aprendem a escutar, orar e agir no ritmo do ano litúrgico.

Mais do que oferecer um método de estudo, esta proposta convida a uma mudança de perspectiva: não se trata apenas de compreender Mateus, mas de deixar-se configurar por ele, no ritmo do ano litúrgico, no interior da assembleia, na escuta partilhada da Palavra que se faz acontecimento.

Nesse sentido, o Evangelho de Mateus, proclamado no Ano A, revela-se não apenas como narrativa sobre Jesus, mas como forma de vida celebrada, ensinada e vivida pela Igreja.



3º DOMINGO DO ADVENTO: A ALEGRIA QUE DESARMA O DESERTO

Domingo, 14 de Dezembro de 2025
3º Domingo do Advento, Ano A
Hoje, omite-se a Memória de São João da Cruz, presbítero e doutor da Igreja

Leituras: Is 35,1-6a.10 | Sl 145(146),7.8-9a.9bc-lO (R. cf. Is 35,4) | Tg 5,7-10 | Mt 11,2-11

O terceiro domingo do Advento é marcado por uma palavra insistente: alegria. Trata-se, porém, de uma alegria que não ignora a dureza da vida, nem a complexidade dos caminhos humanos; antes, nasce exatamente aí, no entrelaçamento das incertezas e da esperança. As leituras deste domingo desenham esse movimento: o deserto floresce (Is 35), a paciência se torna virtude ativa (Tg 5), e João Batista, no cárcere, procura discernir a presença de Deus naquilo que ainda não está completo (Mt 11).

Vivemos um tempo em que os acontecimentos se sobrepõem, a atenção é fragmentada e o mundo parece girar rápido demais. As teorias que analisam esse excesso de estímulos, de exigências, de desgaste, ajudam a perceber como muitas pessoas chegam ao Advento esgotadas, com a sensibilidade cansada e o coração disperso. É quase como um deserto interior: árido, ruidoso, acelerado e, muitas vezes, desabitado de sentido.

Mas é precisamente nesse cenário que as leituras anunciam: “Coragem! Não temais!” (Is 35,4).

O deserto que floresce, apesar de tudo

O profeta Isaías oferece uma das imagens mais belas da Escritura: “O deserto e a terra seca exultarão; a estepe vai florescer.” O deserto, símbolo de dureza e esterilidade, torna-se lugar de vida nova. Essa imagem não é ingênua; ela não decorre de um otimismo superficial. Ao contrário, parte de uma visão realista da condição humana: caminhamos em terrenos complexos, onde certezas desmoronam e a fragilidade nos acompanha. A vida não se organiza de forma linear. Há tensões, rupturas, contradições, buscas não resolvidas.

O Advento, então, aparece como um tempo de sensibilidade recuperada, em que somos convidados a perceber que, mesmo em zonas secas, a vida pulsa de modo discreto, subterrâneo, às vezes imperceptível. Em muitos momentos, nossas rotinas são tão dominadas pelo imediatismo e pelas urgências que não percebemos os germes da graça. A imagem do deserto florido é um convite a reaprender a ver.

Num mundo que vive entre saturação e apatia, esta é uma espiritualidade necessária: uma espiritualidade da atenção, capaz de reencontrar o extraordinário no habitual, o sagrado no cotidiano, o símbolo no real.

Paciência ativa: entre o “ainda não” e o “já”

A carta de São Tiago insiste: “Sede pacientes até a vinda do Senhor.” Não se trata de uma paciência passiva, resignada, mas de uma paciência que cultiva, que prepara a terra, que espera trabalhando. É a paciência do agricultor: ele não controla o tempo, mas colabora com ele.

Em uma cultura marcada pela pressa, pela produtividade incessante e pelo desejo de resultados imediatos, essa virtude parece quase contracultural. A paciência torna-se uma forma de resistência: uma recusa de deixar-se arrastar pela lógica do desgaste; um gesto espiritual que rompe com a ansiedade contínua que fragiliza o sentido da vida.

A paciência do Advento também é um modo de sustentar a esperança dentro da complexidade: nem tudo pode ser compreendido ou solucionado de imediato. A realidade humana não cabe em sistemas simples; ela é tecida por camadas, encontros, processos e tempos diversos.

Esperar, neste domingo, não é cruzar os braços: é manter o coração desperto, mesmo quando ainda não enxergamos o horizonte.

João Batista: a fé que pergunta

O Evangelho apresenta João Batista na prisão. Aquele que proclamou a chegada do Messias agora experimenta dúvida. Ele envia discípulos para perguntar: “És tu aquele que há de vir?”

A cena é comovente. João, o profeta firme, agora busca confirmação. É um momento de vulnerabilidade espiritual e é exatamente isso que o torna tão humano. Ele nos revela que a fé não é um bloco fechado de certezas, mas um movimento vivo que, diante das mudanças e crises, precisa perguntar, discernir, reorientar-se.

Há aqui um eco direto das inquietações do nosso tempo: um tempo que, com seu excesso de informação, sua multiplicidade de vozes e sua instabilidade, frequentemente nos deixa desorientados. A travessia espiritual também se dá em meio à complexidade da vida real: prisões internas, incertezas, silêncios, contrastes entre o que esperamos e o que vemos.

A resposta de Jesus não é uma definição, mas um convite à percepção: “Ide contar o que vedes e ouvis.”

O Reino se reconhece pelos sinais discretos: os cegos veem, os coxos andam e os pobres são evangelizados. É nesse cotidiano transformado, nesses gestos de cura e dignidade, que Deus se revela. Não na espetacularidade, mas na proximidade. Não na lógica do espetáculo, mas no cuidado silencioso.

Alegria que brota do encontro com o real

O terceiro domingo do Advento é chamado Gaudete, “Alegrai-vos”. Mas que alegria é essa? Não é euforia. Não é consumo. Não é remédio para tapar buracos. É alegria pascal (e quem estranhar este termo no aqui, veja este vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=2BKFoRq_GcA) , que nasce do encontro com um Deus que se faz próximo, que caminha conosco na complexidade de nossas vidas. É a alegria que não escapa do real, mas o habita com profundidade. É uma alegria serena, madura, humilde que desarma o deserto e abre espaço para o florescimento.

Essa alegria tem a ver com uma experiência de presença. Em uma sociedade marcada pela dispersão, pelo excesso e pela exaustão, reencontrar a presença é reencontrar a si mesmo e reencontrar Deus. Advento é esse exercício: reduzir ruídos internos e externos para perceber que algo já está chegando, já está nascendo, já está acontecendo.

A alegria evangélica floresce quando deixamos de viver na superfície das coisas e retomamos contato com aquilo que nos sustenta, que nos humaniza, que nos devolve a profundidade.

Advento: tempo de reencantar a vida

Se o primeiro domingo falou da vigilância, e o segundo do caminho a ser preparado, este terceiro nos convida ao reencontro com o sentido. Um sentido que não se impõe, mas se oferece; que não grita, mas sussurra; que não se encontra na aceleração, mas na escuta, na atenção e na delicadeza.

O Advento nos chama a habitar o tempo com sabedoria. A desacelerar por dentro. A enxergar o invisível dos pequenos gestos. A permitir que a graça floresça onde menos esperamos.

No Evangelho, Jesus afirma que entre os nascidos de mulher, “ninguém é maior que João Batista”, mas acrescenta: “o menor no Reino é maior do que ele”. Isso significa que o Reino não se mede por grandezas humanas, mas pela abertura à novidade de Deus. Quem se coloca disponível, ainda que pequeno, participa de uma alegria maior do que qualquer força humana pode alcançar.

O deserto ainda pode florescer

O 3º Domingo do Advento nos pede coragem para confiar, mesmo quando o caminho é árido; para esperar, mesmo quando o tempo parece lento; para alegrar-se, mesmo quando a realidade é complexa.

E sobretudo, coragem para acreditar que o deserto (o nosso, o do mundo) não é o fim. Ele é o lugar onde Deus gosta de começar.

Que este domingo nos ajude a reencontrar a alegria profunda, aquela que nasce não da fuga da vida, mas do encontro com ela.

Texto de Ir. Julia Almeida, mestra em Comunicação e Semiótica






2º DOMINGO DO ADVENTO: TEMPO DE TRANSFORMAÇÃO INTERIOR

Reflexão para o 2º Domingo do Advento – Ano A
7 de dezembro de 2025

Hoje, omite-se a Memória de Santo Ambrósio, bispo e doutor da Igreja

Leituras: Is 11,1-10 | Sl 71(72),1-2.7-8.12-13.17 (R. cf. 7) | Rm 15,4-9 | Mt 3,1-12

As leituras deste 2º Domingo do Advento nos convidam a perceber que a obra de Deus não se realiza por linhas retas, mas por processos vivos, tecidos em múltiplas conexões. Advento é tempo de vigiar o que está surgindo, às vezes silencioso, quase imperceptível. E de reconhecer que a esperança nasce muitas vezes em terrenos improváveis.

A profecia de Isaías abre diante de nós a imagem de um rebento que brota de um tronco já cortado (Is 11,1-10). O que parecia estéril revela potencial. No interior de histórias marcadas por limitações, rupturas e fracassos, a vida encontra frestas para ressurgir. O Espírito repousa sobre esse rebento e o transforma em sinal de justiça, reconciliação e paz. Aqui, o profeta nos ensina que Deus age dentro da realidade concreta, atravessando suas tensões, sem ignorar sua complexidade. A harmonia anunciada (o lobo e o cordeiro, o leão e o boi, a criança e os animais do campo) não é uma fuga da realidade, mas a visão de um mundo reconciliado por dentro, em que opostos encontram novas formas de coexistência.

O salmo retoma esse horizonte de justiça que faz florescer a paz (Sl 71). Quando a justiça não é apenas uma norma externa, mas algo que brota do coração das relações humanas, a paz deixa de ser imposição e se torna fruto. Onde os pobres são defendidos, onde os frágeis são escutados, ali nasce um futuro diferente. É sempre a partir dos pequenos que os processos de renovação se revelam.

Na segunda leitura, São Paulo recorda à comunidade de Roma que a Escritura foi escrita “para nos instruir, a fim de que tenhamos esperança” (Rm 15,4). A esperança não é um ideal abstrato: ela se alimenta da memória, dos sinais de Deus já inscritos na história, e se projeta para um futuro que excede nossas previsões. Paulo insiste na acolhida mútua: judeus e pagãos, diferentes sensibilidades e tradições, reunidos num mesmo louvor. É como se dissesse que, quando olhamos só para nós mesmos, nada realmente novo surge; mas quando abrimos espaço para o outro, algo inesperado acontece. A comunhão é sempre mais criativa do que a soma das partes.

O Evangelho apresenta João Batista no deserto, chamando à conversão (Mt 3,1-12). O deserto, espaço de aparente vazio, torna-se lugar de revelação. João fala de “preparar o caminho”, não como quem deseja organizar tudo de antemão, mas como quem indica a urgência de alinhar o coração ao movimento de Deus. E seu apelo à conversão não é mera correção moral: é transformação profunda das atitudes, dos vínculos, do modo como habitamos o mundo. O julgamento anunciado (o fogo que queima a palha) não deve ser lido com medo, mas como purificação do que está morto, para que o que é vivo possa crescer.

Ler João Batista hoje nos convida a reconhecer que a voz que irrompe do deserto não é apenas um chamado duro, mas um gesto de lucidez. Ele vive na fronteira (entre cidade e deserto, tradição e novidade) e é justamente dessa borda que sua palavra ganha força. No meio de um mundo acelerado, saturado de discursos que suavizam tudo ou escondem o essencial, João recupera o valor do silêncio, do vazio e da consciência desperta.

Sua dureza não é condenação, mas abertura: ele toca aquilo em nós que precisa ser despido para renascer. Sua presença desloca, rompe a repetição, desinstala as comodidades que impedem a vida de florescer. João aponta para o que está chegando, mas que só pode ser percebido por quem desacelera, por quem aceita olhar para dentro e deixar cair as defesas. Ele é sentinela de uma esperança que nasce frágil, discreta e inesperada. Preparar o caminho do Senhor, à maneira de João, é permitir que essa novidade encontre espaço em nós.

O Advento nos convida a ler a realidade assim: como uma trama viva, onde Deus faz surgir caminhos inesperados; como um campo fértil em que pequenas mudanças podem gerar grandes transformações; como um tempo de escuta sensível, que reconhece que algo novo está emergindo no silêncio do mundo e no interior de cada pessoa.

Em um mundo que nos empurra para a velocidade, para o desempenho incessante e para a sensação de que tudo precisa ser imediato, o Advento oferece um caminho diferente: o da espera que amadurece no silêncio. É nesse espaço desarmado, livre da exigência de produzir e de controlar tudo, que a esperança encontra condições para nascer.

A promessa de Isaías, o apelo de João Batista e a exortação de Paulo só podem ser compreendidos por quem se permite reduzir o ritmo, reaprender a olhar, a escutar e a acolher o que chega sem fazer barulho. A vinda do Senhor não acontece no território ruidoso da produtividade, mas na delicadeza do que cresce devagar. Por isso, preparar o caminho é também recuperar a capacidade de maravilhar-se, de reconhecer o outro, de permitir que algo novo, frágil, discreto e inesperado transforme o nosso interior. No Advento, Deus não rompe a porta; Ele a toca suavemente. E apenas quem desacelera pode ouvir.

Que este domingo nos ajude a perceber o “rebento” que já desponta: na comunidade, nos gestos de justiça, nas escolhas cotidianas, nas relações que cultivamos. E que possamos preparar o caminho do Senhor não por ansiedade ou pressa, mas por disponibilidade, confiando que Deus age, mesmo quando tudo parece pequeno, lento ou escondido. Porque é assim que a esperança cresce: discretamente, mas de maneira capaz de transformar todo o horizonte.