LITURGIA DO DIA: RECONHECER O TEMPO DA VISITA DE DEUS

Reflexão para quinta-feira, 20 de novembro de 2025

33ª Semana do Tempo Comum – Ano Ímpar
Leituras:

1Mc 2,15-29
Sl 49(50),1-2.5-6.14-15 (R. 23b)
Lc 19,41-44

O Evangelho de hoje nos apresenta uma das cenas mais comoventes da vida de Jesus: ao aproximar-se de Jerusalém, Ele contempla a cidade e chora. Não se trata de um simples lamento humano, mas de um choro profundamente teológico, que revela a dolorosa distância entre o coração de Deus e a resposta do seu povo.

Jesus chora porque Jerusalém “não reconheceu o tempo em que foi visitada”. O verbo “visitar”, na tradição bíblica, é carregado de significado: indica a intervenção de Deus na história, seja para salvar, seja para julgar. Em Cristo, a visita de Deus alcança seu ápice: o próprio Filho entra na cidade santa como o rosto visível da misericórdia divina. Entretanto, a recusa de Jerusalém fecha o coração da cidade ao dom da paz. Por isso, o pranto de Jesus é, ao mesmo tempo, expressão de amor e anúncio profético das consequências da rejeição.

A cena nos revela algo essencial sobre Deus: Ele não é indiferente à nossa resistência; sofre com o nosso fechamento. O julgamento anunciado por Jesus — “virão dias em que teus inimigos te cercarão…” — não é uma vingança divina, mas a consequência inevitável da escolha humana de afastar-se da fonte da vida. O amor de Deus respeita nossa liberdade, até quando ela se torna autodestrutiva.

A primeira leitura (1Mc 2,15-29) apresenta um cenário semelhante: a tentativa de impor uma religião estranha à fé de Israel provoca a resistência de Matatias e de seus filhos. Aqui também se constata o drama da liberdade humana. Há quem prefere a fidelidade a Deus, mesmo sob ameaça, e há quem se entrega à sedução de caminhos aparentemente mais fáceis. O confronto entre fidelidade e infidelidade percorre toda a história da salvação — e se manifesta de modo supremo no pranto de Cristo sobre Jerusalém.

O Salmo reforça essa perspectiva ao recordar que o verdadeiro culto não está nas aparências, mas na retidão interior: “Oferece a Deus um sacrifício de louvor… invoca-me no dia da angústia e eu te livrarei”. Deus deseja corações abertos, não ritos vazios; relações vivas, não formalidades.

Talvez o grande apelo seja: reconhecer o tempo da visita de Deus. Ele nos visita constantemente — pela Palavra, pelos sacramentos, pelos acontecimentos, pelas pessoas. Mas podemos correr o risco de viver distraídos, ocupados demais, endurecidos demais, e deixar passar a graça.

A paz que Jesus oferece não é mera ausência de conflitos, mas a reconciliação profunda com Deus, consigo mesmo e com os outros. Quando rejeitamos essa paz — pela indiferença, pelo pecado, pela autossuficiência — construímos nossos próprios muros, e eles acabam por nos sufocar.

Hoje, diante do Cristo que chora, somos convidados a perguntar: Tenho reconhecido os momentos em que Deus passa pela minha vida? Ou permaneço fechado, à espera de sinais que já me foram dados?

Como a humanidade pode reconher o tempo da visita de Deus hoje?

Hoje, como ontem, Deus continua visitando a humanidade, mas essa visita exige sensibilidade espiritual, abertura interior e discernimento. Eis alguns caminhos concretos pelos quais a humanidade pode reconhecer essa visita:

1. Pela escuta atenta da Palavra: a Palavra de Deus continua sendo o principal “lugar” de visita.
Não se trata apenas de ler a Bíblia, mas de permitir que ela ilumine escolhas, cure feridas, converta atitudes e inspire novas práticas. Onde a Palavra é acolhida com sinceridade, Deus visita.

2. Pela realidade dos pobres e sofredores: os pobres são, desde os profetas até Jesus, o lugar privilegiado da visita divina. Cristo continua dizendo: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes.” A humanidade reconhece a visita de Deus quando percebe que Ele se aproxima no rosto ferido, na dor dos marginalizados, nas vítimas de violência, fome, guerra e abandono.

3. Pelos sinais do Espírito na história: a visita de Deus não acontece apenas no interior da Igreja, mas também nos processos que promovem dignidade humana: gestos de reconciliação, movimentos de justiça, iniciativas de paz, ações ecológicas responsáveis, trabalhos em favor da vida. Onde há sementes do Reino, ali o Espírito está agindo.

4. Pela inquietação interior: Deus visita através de perguntas profundas: “É isso mesmo que estou fazendo da minha vida?” “Por que esta saudade de algo maior?” O coração inquieto muitas vezes é o primeiro sinal de que Deus se aproxima para “desinstalar” e orientar. A humanidade reconhece Deus quando leva a sério essa sede de sentido que Ele próprio acende.

5. Pela vida comunitária e sacramental: a presença de Deus é especial na celebração da fé. A Eucaristia, a reconciliação, a vida fraterna, tudo isso é visita de Deus. Onde há perdão, partilha, cuidado e fidelidade à fé, Deus passa.

6. Pela criação: a beleza, a harmonia e a vulnerabilidade da natureza são também sinais de Deus. A humanidade reconhece a visita divina quando percebe na criação não apenas um recurso, mas um dom. A crise ecológica atual pode ser vista como um apelo de Deus para despertar nossa responsabilidade.

7. Pelo clamor da consciência: a consciência não é apenas uma voz interior, mas um espaço onde Deus fala. Quando a humanidade se sensibiliza diante da injustiça, quando se indigna com a violência, quando busca a verdade, ali há visita divina provocando despertar moral.

8. Pelos acontecimentos que quebram expectativas: muitas vezes Deus visita através de rupturas: mudanças inesperadas, crises, perdas, surpresas que desestabilizam. A visita não vem sempre revestida de suavidade; às vezes vem como um convite à conversão profunda. É preciso ler os acontecimentos com olhar espiritual.

9. Pela capacidade de amar: onde há amor verdadeiro, gratuito, sacrificado, perseverante, ali Deus passou. A humanidade reconhece a visita divina quando se deixa transformar pelo amor: no lar, no trabalho, nas relações, na caridade concreta.

Reconhecer a visita de Deus hoje é viver desperto, de olhos e coração abertos. Jerusalém não reconheceu a visita porque estava distraída, endurecida, ocupada consigo mesma. O perigo é o mesmo para nós. A humanidade reconhecerá o tempo da visita de Deus quando escutar antes de reagir, discernir antes de julgar, acolher antes de rejeitar, servir antes de exigir, amar antes de acusar.

Que o Senhor nos conceda um coração sensível, capaz de perceber sua presença e acolher sua paz. E que o seu pranto sobre Jerusalém se transforme, em nós, em lágrimas de conversão e de esperança.



LITURGIA DO DIA: A CORAGEM DE SERVIR COM FIDELIDADE

Liturgia do Dia – 19 de Novembro de 2025

Memória de Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castillo, presbíteros e mártires
33ª Semana do Tempo Comum

No Evangelho de hoje (Lc 19,11-28), Jesus conta a parábola dos servos que recebem moedas para administrar enquanto o senhor parte em viagem. A narrativa revela o desejo profundo de Deus: que cada pessoa faça frutificar os dons recebidos, colocando-os a serviço do Reino. O senhor da parábola não exige dos servos aquilo que não lhes foi dado, mas espera fidelidade, coragem e disposição em assumir responsabilidades, mesmo diante de riscos e incertezas.

O contraste entre os servos que trabalham e aquele que esconde a moeda expressa duas posturas espirituais. A primeira é a da confiança: reconhecer que tudo vem de Deus e pode ser devolvido multiplicado em forma de amor, justiça, serviço e compromisso. A segunda é a do medo: paralisia, fechamento em si mesmo e incapacidade de permitir que o dom se torne vida para outros. A censura dirigida ao servo que nada fez lembra-nos que a omissão também tem peso no caminho de fé; não basta “não fazer o mal”, é preciso fazer o bem possível.

O Evangelho de Lc 19,11-28 termina de forma bastante forte. Depois de elogiar os servos que fizeram render as moedas e de repreender o que a escondeu, Jesus conclui a parábola dizendo: “Quanto aos meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente.” (Lc 19,27)

Esse desfecho duro cumpre duas funções fundamentais na mensagem de Jesus: a primeira, revela a seriedade da escolha pelo Reino. Esse final deixa claro que rejeitar o Reino de Deus não é algo neutro.
A parábola não fala apenas da omissão do servo medroso, mas também da resistência ativa daqueles que “não querem que Ele reine”. A cena simboliza o juízo final: Deus respeita a liberdade humana, mas essa liberdade tem consequências. A recusa do reinado de Deus é, ao mesmo tempo, recusa da vida.

Ele adverte sobre a responsabilidade de quem recebe dons. O servo que não faz render a moeda é contrastado não só com os servos fiéis, mas também com os inimigos do rei. Isso funciona como um alerta: não basta não fazer o mal; é preciso fazer o bem possível, utilizando os dons recebidos para a construção do Reino. A parábola liga omissão e rejeição: quem se fecha sobre si mesmo, mesmo sem atacar, acaba colaborando com a lógica do “não-reinado” de Deus.

Este desfecho também prepara a entrada de Jesus em Jerusalém. Ou seja, este bramo antecede diretamente a entrada triunfal de Jesus na cidade (Lc 19,28ss). Assim, Jesus se apresenta como o Rei que vem, mas não um rei dominador, e sim o Rei que oferece salvação. No entanto, sua realeza exige decisão: acolher ou rejeitar.

E por fim, este desfecho reforça o chamado à fé corajosa. A dureza do final não pretende inspirar medo, mas responsabilidade e seriedade espiritual. A parábola inteira gira em torno da confiança: quem confia, arrisca; quem teme, paralisa-se; quem rejeita, fecha-se à vida. O final sublinha que o tempo de Jesus é momento de decisão: a fé verdadeira transforma a vida e a vida transformada testemunha o Reino.

A leitura deste Evangelho na 33ª Semana do Tempo Comum, imediatamente antes do Advento, tem um valor espiritual muito profundo. A Igreja, nesses últimos dias do ano litúrgico, orienta nossa atenção para o sentido último da vida, para o juízo, para a vinda do Senhor e para a responsabilidade cristã. A parábola das moedas, com sua forte conclusão, encaixa-se perfeitamente nesse contexto.

Ele nos prepara o coração para a vinda do Senhor. O Advento é tempo de esperança e vigilância, e a liturgia das últimas semanas do Tempo Comum nos ajuda a ajustar essa vigilância. A parábola dos servos que devem administrar o que receberam até o retorno do Senhor é um convite direto a despertar do comodismo, revisar o próprio caminho, reavivar o desejo pela vinda de Cristo. A Igreja quer que entremos no Advento não adormecidos, mas alertas e desejosos de Deus.

Ele também recorda que somos administradores, não donos. A proximidade do novo ano litúrgico é um chamado a avaliar como usamos o tempo, os dons, a fé e as oportunidades que Deus nos deu ao longo do ano que termina. A parábola mostra que não se trata de “guardar” a fé, mas de fazê-la frutificar. Assim, antes do Advento, ela nos ajuda a perguntar:

  • Como vivi a fé este ano?
  • O que Deus me confiou e como respondi?
  • Em que preciso crescer antes de começar um novo tempo de graça?

Também nos ajuda a reacender a responsabilidade: vigiar é agir. O servo que esconde a moeda representa quem vive a fé de forma estática, paralisada. Às portas do Advento, esse Evangelho ensina que esperar o Senhor não é cruzar os braços, mas servir, amar, construir, multiplicar. O Advento é expectativa, mas uma expectativa ativa, missionária.

Portanto, nos convida à conversão, antes que comece o novo ciclo. O final da parábola, com o juízo sobre os servos e os inimigos do rei, lembra a dimensão escatológica da fé: Cristo virá. Essa memória conduz à conversão imediata, preparando interiormente o fiel para viver o Advento como tempo de purificação, de esperança, de reencontro com Deus, de reorientação da vida. É como fazer uma limpeza espiritual antes da chegada do hóspede esperado.

Nos últimos domingos do ano litúrgico celebramos Cristo Rei. Este Evangelho apresenta Jesus justamente como esse Rei que entrega dons, se ausenta por um tempo, volta para pedir contas. À luz disso, o Advento não é apenas preparação para o Natal, mas para a segunda vinda de Cristo, quando Ele reinará plenamente.

A leitura deste Evangelho na semana que antecede o Advento:

  • nos desperta,
  • nos responsabiliza,
  • nos convida a rever nossa vida,
  • nos prepara para acolher Cristo com o coração ativo e fecundo.

A primeira leitura (2Mc 7,1.20-31) apresenta o testemunho heroico da mãe e de seus filhos, que permanecem fiéis à Lei de Deus diante da perseguição. A coragem deles ecoa o chamado do Evangelho: viver a fé de modo coerente, mesmo quando somos pressionados a escondê-la ou silenciá-la. Assim como os mártires de hoje — Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castillo — testemunharam Cristo com a própria vida, também nós somos convidados a fazer render a graça que recebemos, oferecendo-nos diariamente no serviço e na verdade.

O salmo responsorial proclama: “Eu, por minha justiça, contemplarei a vossa face; ao despertar me saciará a vossa presença” (Sl 16). Essa promessa ilumina todo o sentido de nossa entrega: no fim, não buscamos recompensas, mas a alegria plena de viver diante de Deus e com Ele.

Que a liturgia de hoje nos inspire a assumir com coragem as moedas, isto é, os dons que nos foram confiados: nossas capacidades, nossa fé, nossas oportunidades, e a fazê-los frutificar em favor dos irmãos. E que, sustentados pelo exemplo dos mártires, possamos viver uma vida transparente, generosa e fiel ao Evangelho.