Catecumenato e Quaresma: um caminho de fé vivido na liturgia

O catecumenato é um caminho de preparação para quem deseja se tornar cristão, especialmente adultos que vão receber o Batismo, a Crisma e a Eucaristia. Mas ele é muito mais do que um “curso”: trata-se de um verdadeiro itinerário de fé, no qual a pessoa vai conhecendo Cristo, participando da vida da Igreja e transformando sua própria vida à luz do Evangelho.

Essa prática é muito antiga. Nos primeiros séculos do cristianismo, ninguém era batizado sem antes passar por um tempo de preparação, marcado por ensinamentos, oração e convivência com a comunidade. Com o passar do tempo, isso foi se perdendo, sobretudo com o costume do batismo de crianças. No entanto, o Concílio Vaticano II recuperou essa riqueza, mostrando que a iniciação cristã deve ser vivida como um caminho progressivo, feito de etapas e experiências concretas de fé.

Um caminho dentro da própria liturgia

Hoje, o catecumenato não acontece à parte da vida da Igreja, mas está profundamente ligado à liturgia. O Missal Romano traz indicações claras de como esse processo deve acontecer, especialmente durante a Quaresma que é o tempo de preparação para a Páscoa.

O catecumenato está profundamente ligado à Quaresma porque esse tempo litúrgico prepara toda a Igreja para a Páscoa, que é o centro da fé cristã. E é justamente na Vigília Pascal que, desde os primeiros séculos, os catecúmenos recebem os sacramentos do Batismo, da Crisma e da Eucaristia.

A Quaresma é um tempo de conversão, de escuta da Palavra e de renovação da vida. Esse caminho corresponde exatamente ao que o catecumenato propõe: uma transformação interior, um “passar” de uma vida antiga para uma vida nova em Cristo.

O Batismo, por sua vez, não é apenas um rito, mas uma participação no mistério pascal — isto é, na morte e ressurreição de Jesus. Por isso, celebrá-lo na Páscoa tem um sentido muito profundo: quem é batizado entra sacramentalmente nesse mistério de vida nova.

Foi justamente essa ligação que o Concílio Vaticano II quis recuperar, ao restaurar o catecumenato como um caminho progressivo e integrado à liturgia. A Constituição Sacrosanctum Concilium destaca que a iniciação cristã deve estar unida ao ritmo do ano litúrgico.

Isso significa que toda a comunidade participa desse caminho. Os fiéis não são apenas espectadores, mas acompanham, rezam e caminham junto com aqueles que se preparam para os sacramentos.

É importante entender que o catecumenato não acontece só na Quaresma.

Na verdade, ele é um processo mais longo, que pode durar meses ou até anos. Esse caminho inclui:

  • o primeiro anúncio da fé;
  • a catequese;
  • a inserção na vida da comunidade;
  • e a prática da oração e da caridade.

A Quaresma corresponde apenas à etapa final, chamada de tempo de purificação e iluminação. É nesse período que acontecem ritos importantes, como a eleição e os escrutínios, celebrados nos domingos quaresmais.

O catecumenato pode (e normalmente deve) começar em qualquer tempo do ano. A Igreja não limita o início desse caminho à Quaresma. Pelo contrário, ela incentiva que as pessoas sejam acolhidas e iniciem sua formação quando manifestarem o desejo de conhecer a fé.

No entanto, há um ponto central: a celebração dos sacramentos da iniciação cristã tem, como lugar privilegiado, a Vigília Pascal.

Isso não é uma regra absoluta (em alguns casos pastorais pode ser diferente), mas é a forma mais plena e expressiva de viver esse mistério.

Organizar o catecumenato em torno da Quaresma e da Páscoa não é apenas uma tradição antiga, mas uma pedagogia espiritual muito rica. A Igreja ensina, com isso, que a fé cristã não é algo abstrato: ela se vive no tempo, no corpo, na comunidade e na liturgia.

Assim, enquanto os catecúmenos se preparam para “nascer” para a vida cristã na Páscoa, toda a comunidade também é chamada a fazer o mesmo caminho: rever a vida, renovar a fé e redescobrir a graça do próprio Batismo.

A Quaresma: tempo de preparação mais intensa

Durante a Quaresma, o catecumenato entra em sua fase final, chamada de tempo de purificação e iluminação. É um período mais intenso, em que os catecúmenos (agora chamados “eleitos”) se preparam diretamente para receber os sacramentos na Vigília Pascal.

A própria liturgia dos domingos marca esse caminho:

  • Primeiro Domingo da Quaresma: acontece o rito da eleição (ou inscrição do nome). A Igreja reconhece que aqueles catecúmenos estão prontos para dar o passo decisivo rumo aos sacramentos.
  • Terceiro, Quarto e Quinto Domingos: celebram-se os chamados escrutínios. São ritos de oração e reflexão profunda, que pedem a Deus a purificação do coração e o fortalecimento da fé dos eleitos.

Esses momentos não são “provas”, mas experiências espirituais. A Igreja reza para que cada pessoa seja libertada do mal e cresça na luz de Cristo.

Por que esses domingos são tão importantes?

Os Evangelhos proclamados nesses domingos — especialmente no Ano A — ajudam a entender o sentido desse caminho. São textos do Evangelho de João que falam de transformação:

  • a samaritana, que encontra a “água viva”;
  • o cego de nascença, que passa das trevas à luz;
  • Lázaro, que é chamado da morte para a vida.

Essas histórias não são apenas lembranças do passado. Elas mostram o que acontece com cada pessoa que se prepara para o Batismo: Deus sacia a sede mais profunda, ilumina o coração e oferece uma vida nova.

Um convite para toda a comunidade

Mesmo sendo um caminho próprio de quem vai receber os sacramentos, o catecumenato é também um convite para todos os cristãos. Ao acompanhar os eleitos, toda a comunidade é chamada a renovar a própria fé.

Por isso, a Quaresma não é apenas um tempo de penitência, mas também de redescoberta: recordar o próprio Batismo, rever a vida, recomeçar com Deus.

O catecumenato nos lembra de algo essencial: ninguém nasce cristão pronto. A fé é um caminho, feito passo a passo, dentro da comunidade, iluminado pela Palavra de Deus e celebrado na liturgia. É assim que a Igreja continua, ainda hoje, gerando novos filhos para a vida em Cristo.




Veja na REVISTA DE LITURGIA revistas sobre o CATECUMENATO:

https://revistadeliturgia.com.br/produto/revista-de-liturgia-ed-171-a-constituicao-conciliar-sobre-a-sagrada-liturgia-meditacao-liturgica-do-sl-95-entrada-no-catecumenato/
https://revistadeliturgia.com.br/produto/revista-de-liturgia-ed-170-celebrar-a-pascoa-a-celebracao-de-entrada-no-catecumenato-at-2-36-a-celebracao-do-senhorio-e-messianidade-de-jesus/

Leia mais:

A QUARESMA NO ANO LITÚRGICO: SOBRIEDADE, CONVERSÃO E VIDA SACRAMENTAL

A Quaresma é um tempo privilegiado do Ano Litúrgico, no qual a Igreja Católica convida os fiéis a um caminho mais intenso de conversão, por meio da oração, do jejum e da caridade. Não se trata apenas de um período de preparação externa, mas de um verdadeiro itinerário espiritual rumo à celebração da Páscoa do Senhor.

Esse espírito quaresmal deve refletir-se tanto na ambientação do espaço litúrgico quanto na celebração dos sacramentos, ajudando toda a comunidade a viver este tempo com profundidade e sentido.

A decoração da igreja no tempo da Quaresma

De acordo com a tradição litúrgica da Igreja, a Quaresma é marcada por uma estética sóbria e discreta, que favoreça o recolhimento e a escuta da Palavra de Deus.

A cor roxa assume lugar central na liturgia, expressando penitência, vigilância e esperança. As flores, sinal de festa e exultação, são normalmente omitidas, conforme indica a Instrução Geral do Missal Romano, para que o ambiente não antecipe a alegria pascal.

A cruz ganha especial destaque, ajudando os fiéis a contemplarem o caminho de Cristo rumo à sua Paixão. Elementos simples e simbólicos como a Bíblia, tecidos rústicos ou sinais do deserto, podem ser utilizados com moderação, sempre evitando excessos ou enfeites que desviem do sentido espiritual deste tempo.

A Quaresma nos ensina que a verdadeira beleza do espaço litúrgico está na simplicidade que conduz à oração.

A vida sacramental durante a Quaresma

A Igreja recorda que a Quaresma é, por excelência, um tempo penitencial. O Catecismo da Igreja Católica afirma que este período prepara os fiéis para a renovação das promessas batismais, especialmente por meio da penitência e da conversão do coração (cf. CIC, nº 1438).

Por isso, a Igreja recomenda que seja dada atenção especial ao Sacramento da Reconciliação, incentivando os fiéis a se aproximarem da misericórdia de Deus e a restaurarem sua comunhão com Ele e com a comunidade.

Na celebração da Celebração Eucarística, alguns sinais reforçam o caráter próprio da Quaresma: a omissão do hino do Glória (exceto nas solenidades) e a substituição do Aleluia por uma aclamação mais sóbria antes do Evangelho. Esses gestos ajudam a assembleia a viver o tempo da espera e da conversão.

Batismo e Matrimônio na Quaresma

Quanto aos sacramentos do Batismo e do Matrimônio, é importante esclarecer que não existe uma norma canônica ou litúrgica que proíba a sua celebração durante a Quaresma. Ambos podem ser validamente celebrados neste tempo.

O Código de Direito Canônico não proíbe a celebração de nenhum dos dois sacramentos na Quaresma. Do ponto de vista do Direito, ambos são sempre lícitos na Quaresma. Sobre o Batismo, Cân. 856: recomenda que o Batismo seja celebrado no domingo ou, se possível, na Vigília Pascal, mas não impede sua celebração em outros tempos do ano, incluindo a Quaresma. Sobre o Matrimônio, o Cân. 1118 §2 diz que permite a celebração do Matrimônio na igreja ou em outro lugar adequado, sem restrição ligada ao tempo litúrgico.

Quanto ao Catecismo da Igreja Católica (CIC) também não estabelece esta proibição. Ao falar da Quaresma, o CIC a define como tempo penitencial e de preparação para a renovação das promessas batismais (cf. CIC 1438). Ao tratar do Batismo e do Matrimônio, não vincula a validade ou liceidade desses sacramentos a épocas do Ano Litúrgico. Portanto, o CIC explica o sentido espiritual da Quaresma, mas não cria normas proibitivas.

A Instrução Geral do Missal Romano trata principalmente da Eucaristia, não da proibição de sacramentos. Ela determina, por exemplo, uso da cor roxa, omissão do Glória (exceto solenidades), omissão do Aleluia, sobriedade do ambiente. Mas também nele não existe uma nota proibitiva dizendo “É proibido celebrar Batismo ou Matrimônio na Quaresma.” O que o missal traz são orientações litúrgicas e pastorais sobre simplicidade, adequação ao tempo penitencial, coerência entre celebração e Ano Litúrgico.

Uai, então, de onde vem a ideia de “não celebrar”? Ela vem de tradição litúrgica, bom senso pastoral e documentos locais (CNBB, dioceses, paróquias). Isto devido especialmente no caso do Matrimônio, por seu caráter festivo, jubiloso, comunitário, a Igreja recomenda evitar, mas nunca proíbe.

Já o Batismo é até teologicamente ligado à Quaresma, porém, pastoralmente, costuma-se incentivar sua celebração na Vigília Pascal, sem negar o Batismo quando há necessidade.

Resumidamente, não existe norma canônica nem litúrgica universal que proíba a celebração do Batismo ou do Matrimônio durante a Quaresma, seja no Código de Direito Canônico, no Catecismo da Igreja Católica ou no Missal Romano. Contudo, por razões litúrgicas e pastorais, a Igreja recomenda discernimento e, de preferência, que essas celebrações ocorram fora do tempo quaresmal, ou que sejam realizadas com sobriedade, respeitando o caráter penitencial deste período.

Esses sacramentos, especialmente o Matrimônio, possuem caráter marcadamente festivo e jubiloso. Quando, por necessidade pastoral, o Batismo ou o Matrimônio forem celebrados na Quaresma, orienta-se que a celebração aconteça com maior simplicidade, respeitando o espírito penitencial do tempo litúrgico, tanto na ornamentação quanto na música e nos demais elementos celebrativos.

Essa orientação não diminui a importância nem a alegria própria dos sacramentos, mas ajuda a preservar a harmonia entre a celebração sacramental e o mistério do tempo litúrgico vivido pela Igreja.

Um caminho que conduz à Páscoa

Viver a Quaresma é aceitar o convite de Deus a retomar o essencial, a purificar o coração e a fortalecer a fé. A sobriedade do espaço litúrgico e o cuidado com a vida sacramental ajudam a comunidade a caminhar unida, preparando-se para celebrar com alegria renovada a Ressurreição do Senhor.

Que este tempo santo seja, para todos nós, uma verdadeira experiência de conversão e esperança.


Papa Leão XIV convida fiéis a “escutar e jejuar” e propõe jejum de palavras ofensivas na Quaresma

O Papa Leão XIV divulgou, no dia 5 de fevereiro de 2026, a sua Mensagem para a Quaresma intitulada “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão”. Nela ele convida os fiéis a reencontrar o mistério de Deus no centro da vida e a viver a temporada quaresmal como um verdadeiro tempo de transformação espiritual.

A Quaresma, que terá início na Quarta-feira de Cinzas, em 18 de fevereiro, é apresentada pelo Pontífice como um período privilegiado para renovar a fé, abrir o coração à Palavra de Deus e aprofundar o compromisso de seguir Jesus no caminho que leva à Páscoa.

Na mensagem, o Papa destaca que a escuta da Palavra deve ser a base da vida espiritual quaresmal. Segundo o texto, ouvir a Deus e ao próximo é essencial para compreender melhor a realidade e responder ao sofrimento e às injustiças que marcam a vida das pessoas. Ele recorda que Deus mesmo, ao revelar-se a Moisés, manifesta a importância da escuta nesse diálogo de amor e libertação.

O Pontífice ressaltou que o jejum tradicional não deve ser visto apenas como abstinência de alimentos, mas como um meio para descobrir aquilo que realmente nos alimenta: a sede de justiça, a responsabilidade para com o outro e o desejo de vivenciar mais profundamente a fé.

Desafiando os fiéis a repensar a própria forma de jejuar, Leão XIV propôs uma perspectiva inédita: o jejum de palavras que ferem o próximo. Em vez de comentários ofensivos, calúnias ou julgamentos precipitados, o Papa pede que os cristãos cultivem a gentileza e o respeito — tanto nas relações pessoais quanto nas redes sociais, nos debates públicos e na convivência comunitária.

“Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário e ao falar mal de quem está ausente” — escreve o Pontífice, sugerindo que palavras de ódio cedam lugar a palavras de esperança e de paz.

A mensagem aponta também para a dimensão comunitária da Quaresma: mais do que um empenho individual, o tempo quaresmal é visto como um caminho a ser trilhado em conjunto — em paróquias, famílias e comunidades cristãs. A escuta da Palavra e o jejum tornam-se, assim, práticas que fortalecem relações, promovem o diálogo e abrem os corações à solidariedade com os mais necessitados.

O Papa conclui a mensagem pedindo graça para que este tempo seja vivido com mais atenção a Deus e aos “últimos”, fazendo das comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido com respeito e amor.


Leia a mensagem na íntegra: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/lent/documents/20260205-messaggio-quaresima.html



AONDE ESTÁ O CRISTO NESTAS CAMPANHAS DA FRATERNIDADE?

A Campanha da Fraternidade de 2025, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), traz como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Essa escolha reflete a preocupação da Igreja com a preservação do meio ambiente e a construção de relações mais fraternas entre os seres humanos.

A ecologia integral é um conceito que busca valorizar a interdependência entre todos os elementos da criação: seres humanos, natureza e Deus. Ao abordar esse tema, a Campanha da Fraternidade nos convida a refletir sobre a urgência de cuidar da nossa Casa Comum, promovendo uma ecologia integral que conecta a fé cristã com a responsabilidade socioambiental.

O Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, enfatiza a necessidade de uma conversão ecológica que una a dimensão espiritual à prática cotidiana de cuidado com o meio ambiente. Ele nos lembra que “tudo está interligado” e que o clamor da terra é inseparável do clamor dos pobres. Assim, ao promover a ecologia integral, a Campanha da Fraternidade de 2025 nos chama a reconhecer a presença de Cristo em toda a criação e a agir em conformidade com esse reconhecimento.

Além disso, a identidade visual da Campanha deste ano foi cuidadosamente elaborada para refletir essa mensagem. O cartaz apresenta elementos que simbolizam a harmonia entre a humanidade e a natureza, ressaltando a beleza da criação divina e a responsabilidade humana em preservá-la.

Portanto, ao questionarmos “Aonde está o Cristo nestas Campanhas da Fraternidade?”, especialmente na de 2025, encontramos a resposta na centralidade de Cristo como fundamento e inspiração para o cuidado com a criação. Ele está presente no chamado à conversão ecológica, na promoção da justiça socioambiental e na vivência concreta do amor ao próximo e à natureza. Assim, a Campanha da Fraternidade nos convida a reconhecer e a responder ao chamado de Cristo para sermos guardiões responsáveis e amorosos da obra criada por Deus.

Aonde está o Cristo nestas Campanhas da Fraternidade?

É uma pergunta que ecoa com força, especialmente nos tempos atuais, quando tantos questionam as intenções por trás de ações e movimentos da Igreja. Ao longo dos anos, a Campanha da Fraternidade tem sido alvo de críticas, incompreensões e, às vezes, desconfianças. Muitos se perguntam: “Onde está o Cristo nesta campanha?” A resposta, porém, é clara para aqueles que se permitem olhar com o coração atento ao Evangelho: Cristo está no centro de cada Campanha da Fraternidade. Ele está presente em cada tema, em cada gesto concreto, em cada chamado à conversão, à justiça e ao amor ao próximo.

Para entender onde está o Cristo nas Campanhas da Fraternidade, é preciso antes lembrar quem é esse Cristo a quem seguimos. Não é um Cristo apenas espiritualizado, distante das dores humanas, mas o Cristo encarnado, que andou com os pobres, tocou os doentes, defendeu os excluídos, enfrentou as estruturas injustas de seu tempo e nos ensinou a amar não com palavras, mas com gestos concretos de compaixão e justiça. O Cristo do Evangelho não é um conceito, mas uma pessoa viva que age na história — especialmente por meio da sua Igreja.

Desde 1964, quando foi lançada a primeira Campanha da Fraternidade, a proposta sempre foi inspirar a vivência do tempo da Quaresma com profundidade: oração, jejum e esmola, sim, mas também compromisso com a transformação da sociedade à luz do Evangelho. A cada ano, um tema nos convida a olhar com mais atenção para uma dimensão concreta da vida que precisa ser iluminada pela Palavra de Deus. E é exatamente aí que Cristo se revela: onde há sofrimento humano, onde há injustiça, ali está o Cristo crucificado; e onde há ações de amor, justiça, escuta, solidariedade, ali está o Cristo ressuscitado.

As campanhas não têm por objetivo substituir a fé pelo ativismo, mas tornar a fé operante pelo amor, como nos ensina São Paulo (Gl 5,6). Elas são um chamado à coerência entre aquilo que professamos aos domingos e aquilo que vivemos de segunda a sábado. São um convite a transformar nossa oração em ação, e nossa devoção em compromisso. Em outras palavras: a Campanha da Fraternidade nos desafia a viver um cristianismo encarnado.

Quando a campanha trata da fome, por exemplo, Cristo está ali — porque Ele mesmo disse: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35). Quando o tema é o cuidado com a casa comum, Cristo está ali — pois Ele é o Verbo por quem todas as coisas foram criadas, e nos chama a sermos bons administradores da criação. Quando a campanha fala sobre políticas públicas, fraternidade, superação da violência, diálogo e cultura de paz, Cristo está presente — porque foi Ele quem disse: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Cada tema pode parecer, à primeira vista, “social demais” para alguns, mas todos são profundamente evangélicos, pois tocam na dignidade da vida humana e no mandamento do amor.

É importante também recordar que Cristo nos deixou um mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). E esse amor não é apenas sentimental. É um amor que age, que se compromete, que serve. A Campanha da Fraternidade é um exercício quaresmal de viver esse amor de maneira concreta e transformadora. É o esforço da Igreja no Brasil para ajudar os fiéis a verem os rostos sofredores de Cristo hoje, em cada irmão e irmã feridos pelas estruturas do pecado social.

Há quem diga que certas campanhas parecem políticas, ideológicas ou “progressistas”. Mas é necessário discernir: a caridade cristã é necessariamente política, no sentido mais nobre da palavra — ou seja, relacionada à vida da polis, da cidade, da sociedade. O Papa Francisco nos lembra constantemente que a fé sem compromisso social é uma fé estéril. Ele mesmo afirma, na Evangelii Gaudium: “Nenhum cristão pode pensar que a preocupação com os pobres é uma missão reservada a alguns. Todos somos chamados a cuidar dos mais frágeis da terra.” E é exatamente isso que a Campanha da Fraternidade tenta despertar.

Portanto, ao perguntarmos “Onde está o Cristo?”, precisamos nos abrir para perceber que Ele está na ação concreta da Igreja que se movimenta com compaixão pelos dramas do povo. Cristo está nas comunidades que se organizam para debater soluções para os problemas sociais. Está nos jovens que são sensibilizados a fazer o bem. Está nos padres e leigos que se doam para formar consciências críticas e solidárias. Está no gesto da criança que compartilha o pouco que tem com o coleguinha da escola. Está no olhar da idosa que reza o terço e depois participa das reuniões para pensar a realidade do bairro.

Cristo está na proposta da Campanha da Fraternidade não como um adereço, mas como o centro. Porque Ele mesmo disse: “O que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). A campanha é, assim, um reflexo da presença de Cristo em meio ao povo, um convite para que não celebremos a Páscoa sem antes termos passado pela cruz do compromisso com os irmãos.

Em resumo, o Cristo está na Campanha da Fraternidade porque Ele é a fonte, o caminho e o objetivo de tudo que ela propõe. Que possamos, então, abrir os olhos e o coração para reconhecê-Lo, assim como os discípulos de Emaús, que só perceberam a presença do Ressuscitado ao partir do pão. Que também nós possamos reconhecê-Lo no partir do pão da solidariedade, no partir do pão da justiça e no partir do pão do amor ao próximo.

A Campanha da Fraternidade acaba com o espírito da Quaresma?

Entre tantos comentários que circulam nas comunidades e nas redes sociais durante o período quaresmal, uma dúvida tem ganhado espaço: “A Campanha da Fraternidade acaba com o espírito da Quaresma?” A resposta, com serenidade e clareza, é não. Pelo contrário: a Campanha da Fraternidade aprofunda, amplia e dá carne ao espírito da Quaresma, fazendo com que esse tempo litúrgico se torne ainda mais autêntico, mais encarnado e verdadeiramente cristão.

Mas para compreender essa afirmação, de novo, é preciso, antes, entender o que é a Quaresma e qual o seu verdadeiro espírito.

A Quaresma é o tempo litúrgico de preparação para a Páscoa. São quarenta dias de oração, penitência e caridade. É um convite à conversão, à mudança de vida e à renovação da fé. A Igreja propõe a todos os fiéis três práticas fundamentais: oração, jejum e esmola. Ou seja, não se trata apenas de um tempo de espiritualidade interior, mas também de um tempo de abertura ao outro, de solidariedade, de escuta e reconciliação com Deus, consigo mesmo e com os irmãos.

Mais uma vez, retomando a história da Campanha da Fraternidade que nasce em 1964, vemos que ela surge numa iniciativa da Igreja no Brasil que, longe de esvaziar a Quaresma, foi pensada como um instrumento para viver a Quaresma com profundidade e coerência. Ela é uma proposta concreta de conversão que nos ajuda a ver, julgar e agir à luz da fé. A cada ano, a campanha propõe um tema que toca alguma realidade sofrida ou desafiadora da sociedade e nos convida a refletir, rezar e agir de forma comprometida com o Evangelho.

Em 2025, por exemplo, a Campanha da Fraternidade tem como tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Esse tema não é algo “fora da fé”, mas profundamente bíblico e espiritual. Cuidar da criação é cuidar da obra de Deus. A destruição do meio ambiente, a poluição, o desmatamento e a exploração desenfreada da natureza afetam diretamente os mais pobres e vulneráveis, e ferem o projeto divino de harmonia entre todas as criaturas.

Logo, a pergunta se inverte: como poderíamos viver a Quaresma ignorando essas realidades? Como rezar, jejuar e dar esmola sem nos importar com o clamor da terra e o clamor dos pobres? Como preparar o coração para a Páscoa sem olhar para os irmãos que sofrem e para a criação ferida?

A espiritualidade quaresmal nos convida à conversão integral, e isso inclui uma conversão social e ecológica. O Papa Francisco nos lembra, na encíclica Laudato Si’, que tudo está interligado. Cuidar do meio ambiente é uma forma concreta de amar o próximo e de obedecer ao mandamento de Deus. Portanto, a Campanha da Fraternidade nos oferece uma oportunidade de tornar visível e operante nossa fé.

Infelizmente, algumas críticas surgem por falta de compreensão ou por uma visão reducionista da espiritualidade. A espiritualidade cristã não é fuga do mundo, mas presença transformadora nele. Jesus nos ensinou a ir ao encontro dos que sofrem, a agir com misericórdia, a denunciar o pecado — não só o individual, mas também o social e estrutural. A verdadeira espiritualidade não se fecha em si mesma: ela se torna amor ativo.

A Campanha da Fraternidade, nesse sentido, não concorre com a Quaresma — ela a encarna. Ela traduz em linguagem contemporânea aquilo que os profetas já anunciavam no Antigo Testamento: Deus não se agrada de sacrifícios vazios, mas de um coração convertido, que pratica a justiça, defende os oprimidos e cuida dos necessitados (cf. Is 1,11-17; Am 5,21-24).

Ao participar da Campanha da Fraternidade, o fiel é chamado a viver um jejum mais profundo: não apenas o jejum de alimentos, mas o jejum da indiferença, do egoísmo e da omissão. A oração se amplia: não é só súplica individual, mas intercessão por todos que sofrem. E a esmola se concretiza não apenas na oferta material, mas na doação do tempo, do cuidado e do compromisso.

Em nível comunitário, a Campanha da Fraternidade ajuda as paróquias a viverem a Quaresma em comunhão, debatendo realidades que precisam ser evangelizadas. Ela forma a consciência social dos cristãos e fortalece o laço entre fé e vida. Muitas vezes, desperta vocações para o serviço, inspira projetos sociais e transforma realidades locais — tudo isso como fruto do tempo de conversão.

Por isso, é injusto e equivocado dizer que a Campanha da Fraternidade “acaba” com o espírito da Quaresma. Na verdade, ela o amplia, o concretiza e o renova. É um instrumento precioso da Igreja do Brasil para que não celebremos uma Páscoa abstrata, mas a Páscoa da vida que vence a morte em todas as suas formas — inclusive a morte causada pela injustiça, pela exclusão e pela destruição da criação.

Portanto, acolher a Campanha da Fraternidade é acolher o chamado de Cristo à conversão. É caminhar com Ele pelo deserto da Quaresma, atentos às dores do povo e dispostos a sermos sinais de esperança. É preparar o coração para a verdadeira alegria pascal, aquela que brota de uma vida transformada pelo amor.

Que possamos viver esta Quaresma com profundidade, sabendo que oração e ação caminham juntas, e que a espiritualidade cristã verdadeira não se fecha nas práticas internas, mas se abre ao mundo como luz, sal e fermento do Reino de Deus.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: tradução da CNBB. Brasília: Edições CNBB, 2008.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Campanha da Fraternidade 2025: conheça o tema, a identidade visual e a oração. Brasília: CNBB, 2024. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/campanha-da-fraternidade-2025-conheca-o-tema-a-identidade-visual-e-a-oracao/. Acesso em: 5 abr. 2025.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Campanha da Fraternidade 2025: Fraternidade e Ecologia Integral. “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Brasília: CNBB, 2024. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/campanha-da-fraternidade-2025-conheca-o-tema-a-identidade-visual-e-a-oracao/. Acesso em: 5 abr. 2025.

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CATÓLICA DO BRASIL (ANEC). Campanha da Fraternidade 2025. Brasília: ANEC, 2024. Disponível em: https://anec.org.br/acao/campanha-da-fraternidade-2025/. Acesso em: 5 abr. 2025.

FRANCISCO. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 5 abr. 2025.

A RECONCILIAÇÃO QUE LIBERTA: UM CAMINHO PARA A NOVA VIDA

Domingo, 30 de Março de 2025 | 4º Domingo da Quaresma, Ano C

Leituras: Js 5,9a.10-12; Sl 33(34),2-3.4-5.6-7 (R. 9a); 2Cor 5,17-21; Lc 15,1-3.11-32

No 4º Domingo da Quaresma, Ano C, as leituras nos conduzem a uma reflexão profunda sobre a reconciliação e a transformação que ela opera em nossa vida. A primeira leitura, de Josué (Js 5,9a.10-12), narra o momento em que os israelitas celebram a Páscoa já na Terra Prometida, um marco de renovação e transição. O maná cessa, pois o povo agora se alimenta dos frutos da terra. Esta passagem simboliza a passagem do deserto para a promessa, do antigo para o novo.

No Salmo 33 (34), somos convidados a bendizer ao Senhor e confiar nele, pois Ele está sempre pronto a salvar aqueles que O buscam. O salmista nos lembra que o Senhor é refúgio para os corações atribulados, trazendo um eco da esperança que se concretiza na segunda leitura.

Na segunda carta aos Coríntios (2Cor 5,17-21), Paulo afirma: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O que era antigo passou; agora tudo é novo!”. Essa passagem reforça a ideia de que a reconciliação com Deus nos transforma radicalmente, tornando-nos embaixadores da sua paz. Cristo, ao assumir nossos pecados, nos reconcilia com o Pai, permitindo-nos experimentar uma vida renovada.

O Evangelho de Lucas (Lc 15,1-3.11-32) traz a Parábola do Filho Pródigo, um dos textos mais emblemáticos sobre misericórdia e reconciliação. O filho mais jovem, ao se afastar do pai e dissipar seus bens, simboliza a condição humana quando se distancia de Deus. Sua volta representa a consciência do erro e o desejo de reconciliação, que é recebida com alegria pelo pai. Já o filho mais velho manifesta ressentimento, incapaz de compreender a graça do perdão.

A DINÂMICA DA RECONCILIAÇÃO

A experiência do perdão e da reconciliação passa por um profundo processo interno. Muitas vezes, a busca pela liberdade nos leva a agir impulsivamente, distanciando-nos de nossas raízes e de nossa essência. O reconhecimento do erro e a aceitação da realidade nos convidam a um movimento de retorno, onde a verdadeira transformação ocorre.

O desejo de autonomia, tão presente no ser humano, pode nos levar a rupturas e desencontros. No entanto, o reencontro com aqueles que nos amam nos permite reorganizar nossa identidade e compreender que a liberdade não está na separação, mas na construção de vínculos autênticos. O ressentimento, por sua vez, surge quando não conseguimos lidar com as diferenças e com o amor incondicional, que se manifesta de formas inesperadas.

O amadurecimento emocional exige um ambiente de acolhimento, onde possamos ser aceitos sem condições. A figura do pai na parábola representa essa capacidade de receber e reintegrar, sem julgamentos, aquele que retorna arrependido. Esse acolhimento nos permite reconstruir nossa identidade e nos fortalecer para novos caminhos.

CAMINHO DE CONVERSÃO

A Quaresma é um tempo propício para refletirmos sobre nossas relações e buscarmos a reconciliação. Que possamos, à luz das Escrituras e da compreensão da condição humana, permitir que Deus transforme nosso coração, para que sejamos, como diz Paulo, “embaixadores de Cristo”, anunciadores do amor que renova todas as coisas.

A RECONCILIAÇÃO E A CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2025

A Campanha da Fraternidade de 2025 traz o tema “FRATERNIDADE E ECOLOGIA INTEGRAL” e o lema “DEUS VIU QUE TUDO ERA MUITO BOM” (Gn 1,31), convidando-nos a refletir sobre a relação entre fé e responsabilidade socioambiental. Assim como a reconciliação transforma nossa relação com Deus e com o próximo, ela também deve abranger nossa relação com a criação.

A Parábola do Filho Pródigo nos mostra um caminho de transformação, no qual a reconciliação vai além da dimensão pessoal e alcança o coletivo. Da mesma forma, a ecologia integral propõe que a conversão não seja apenas espiritual, mas também uma mudança na maneira como nos relacionamos com a natureza, os recursos naturais e toda a criação divina.

Se o filho mais novo da parábola desperdiça seus bens e só percebe sua verdadeira condição ao se ver em necessidade, também a humanidade, muitas vezes, esgota os recursos da Terra sem pensar nas consequências. O retorno à casa do Pai pode ser visto como um convite à conversão ecológica, reconhecendo que a criação é um dom de Deus e que precisamos cuidar dela com responsabilidade.

A Campanha da Fraternidade 2025 nos lembra que a ecologia integral envolve aspectos sociais, econômicos e espirituais. Assim como o Pai misericordioso acolhe o filho que retorna, somos chamados a reestabelecer nossa relação com o mundo criado, promovendo justiça, sustentabilidade e respeito pela vida em todas as suas formas.

Que este tempo de Quaresma nos inspire a um compromisso renovado com a reconciliação, não apenas com Deus e com nossos irmãos, mas também com a Casa Comum, para que possamos testemunhar o amor de Deus em todas as dimensões da vida.

Para aprofundar esta reflexão, você pode assistir ao vídeo a seguir:

SUGESTÕES PARA OS CANTOS NESTA CELEBRAÇÃO:

1 – ABERTURA – EIS O TEMPO DE CONVERSÃO
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=eYz25RU7-Us

– SALMO 33 (34) – PROVAI E VEDE
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=ZfL-QcFCz5U

3 – ACLAMAÇÃO
LOUVOR E HONRA… VOU LEVANTAR-ME…
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=Y2eN6GmTNtc

4 – OFERENDAS – O VOSSO CORAÇÃO DE PEDDRA SE CONVERTERÁ
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=nI8LGfCBdp0

5 – COMUNHÃO – TANTO DEUS AMOU O MUNDO
Áudio: http://www.youtube.com/watch?v=RLc03QE221k

6 – FINAL – HINO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2025

Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=puXg_QBgzY4