O TRÍDUO PASCAL

Ir. Penha Carpanedo, pddm

O Tríduo Pascal começa ao anoitecer da quinta-feira santa com a memória da Ceia do Senhor e do lava pés. Esta celebração da quinta à noitinha, é uma espécie de I vésperas da festa anual da páscoa celebrada em três dias: a sexta-feira da paixão, o sábado do seu repouso e o domingo da sua ressurreição. O ápice do Tríduo é a Vigília Pascal, início do domingo (cf. PS 27).[i]

O tríduo pascal tinha-se deformado de tal maneira que o domingo da Páscoa já não se configurava mais como parte do Tríduo. Progressivamente a celebração da ceia do Senhor ganhou tal relevância que desviou a atenção do verdadeiro ápice: a Eucaristia na noite da Páscoa. A Paixão passou a ser celebrada não mais como “Paixão gloriosa”, mas num clima de incontido sentimentalismo, exclusivamente como “Paixão dolorosa”, e assim se tornou o centro da piedade cristã. O sábado da sepultura desapareceu do horizonte espiritual da Igreja transformando-se em “Sábado de Aleluia”[1]. Ritos de caráter apenas prático ou de importância secundária, acabaram adquirindo importância maiores do que os ritos fundamentais. Por exemplo, no final da Eucaristia comemorativa da Última Ceia do Senhor, o rito da transladação do Santíssimo virou solene procissão com exposição do Santíssimo seguida de adoração dos fiéis ao longo de toda a noite. Na Sexta-feira Santa, a procissão do Senhor Morto e outras expressões da piedade popular deixa em segundo plano a Liturgia da Palavra e a adoração da cruz. A bênção da Água Batismal da noite da Páscoa se torna bênção da água para uso devocional (água benta).

A reforma do Tríduo Pascal era tão urgente que começou antes do Concílio, com o papa Pio XII (1876-1958), que incentivado pelos protagonistas do movimento litúrgico, propôs a Reforma da Vigília pascal em 1951 e a da semana santa em 1955. Introduziu mudanças que visava justamente reaproximar a memória do mistério ao evento histórico: a missa vespertina da ceia do Senhor não antes das 17 horas; a liturgia da Sexta-Feira Santa próximo às 15 horas, mas não além das 18 horas; a vigília, de preferência depois da meia noite de sábado para o domingo.  Esta mudança visava garantir a verdade da hora em relação aos fatos, de modo que a vigília pascal configurasse como celebração do domingo e não do sábado santo.

A reforma do Concilio Vaticano II, proposta nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário de 1969 [NALC], assumiu e completou o que Pio XII havia iniciado em 1951, dando ao Tríduo Pascal autonomia em relação à Quaresma e a Semana santa e tirando-o da sua condição de “exilado”.

Cada celebração do tríduo é entendido como momento progressivo da única festa: a páscoa da Ceia, a páscoa da cruz, a páscoa da sepultura e a Páscoa da ressurreição.

Memória da última Ceia do Senhor

Abertura do tríduo

A celebração da Ceia do Senhor ao anoitecer da quinta-feira marca o inicio das festas pascais: as flores, as luzes, a antífona de entrada, o canto do glória e a cor branca indicam que a quaresma ficou para trás para dar lugar à festa da páscoa. 

Nesta noite repetimos em memória da Páscoa de Jesus, os gestos da sua última ceia: “Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e passou aos seus”. Retomamos a eucaristia como ceia, cuja estrutura fundamental se apoia nestes gestos de Jesus: a preparação da mesa, a ação de graças, a fração da pão e partilhas do pão e do vinho [comunhão].

O simples gesto de passar ao outro um pedaço de pão é um gesto despojado de poder queaponta para uma espiritualidade da mesa, baseada na gratuidade, na partilha e no serviço fraterno. Eis os gestos de Jesus na noite em que foi entregue, tendo à mesa Judas, aquele que o iria entregar e Pedro aquele que o iria negar. 

O gesto do lava-pés – outra versão da Eucaristia. Jesus eterniza o gesto de Maria que ungiu os seus pés na ceia de Betânia, sem se deixar intimidar com a atitude de Judas.

Lembrete

A adoração eucarística depois da Ceia do Senhor é um desdobramento devocional da celebração desta noite, não o seu ápice. O catolicismo popular é particularmente sensível à adoração do Santíssimo Sacramento, mas é preciso proceder de tal modo, que não dê a esta oração um cunho devocional. Recomenda-se sobriedade para não ofuscar a densidade da própria Ceia do Senhor e seu caráter de Memorial: o Santíssimo seja conservado em tabernáculo ou cibório fechados, nunca exposto em ostensório (cf. PCFP, 55). A adoração não se prolongue depois da meia noite.

Memória da bem-aventurada Paixão do Senhor

Primeiro dia do Tríduo

A páscoa da cruz, de um lado, expressa a tristeza e o luto pela condenação e morte de Jesus. Frequentemente é com o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria integridade que contemplamos a tristeza solene destes ofícios. Há dois mil anos, homens “maus” mataram o Cristo. Mas o mal, que fez o justo inocente sofrer e morrer, parece não ter se acabado e se prolonga até os nossos dias. A sexta da paixão revela a verdadeira natureza do mundo que preferiu e continua a preferir as trevas à luz, o pecado ao bem, a morte à vida. E condenando o Cristo à morte “este mundo” condenou-se a si mesmo à morte. Este é o primeiro significado, terrivelmente realista, da Sexta-feira Santa: uma condenação à morte… A Sexta-feira Santa não concerne somente ao passado. É o dia do Pecado, o dia do Mal, pois o pecado e o mal não desapareceram: ao contrário, permanecem a lei fundamental do mundo e de nossa vida.

De outro lado, a celebração da Sexta-Feira Santa assume a dimensão de ação de graças pela fidelidade do Filho ao Pai, até à doação da sua vida. A morte do Cristo nos é revelada como uma morte para nossa salvação. O Cristo nos dá a sua morte porque na verdade é em nosso lugar que Ele morre. Ele quer assumir e compartilhar de nossa condição humana até o fim, menos no pecado, porque em Jesus Cristo, não há pecado, logo não há morte. É somente por amor a nós que ele aceita morrer. Sua morte é então a revelação suprema de sua compaixão e de seu amor. […] A condenação é transformada em perdão. [Cf. Alexandre Schmémann, Olivier Clément[

Por isso a Sexta-Feira da Paixão, em perspectiva bíblica, sobretudo do Evangelho de João, é “Paixão gloriosa”, celebra, o Amor Maior, que se manifestará vencedor na madrugada da Ressurreição. Ao fazer memória da bem-aventurada paixão do Senhor, a Igreja comemora o seu próprio nascimento do lado de Cristo na cruz (cf. PCFP, 58).

Lembrete

Muitas comunidades persistem em organizar grupos de adoração em plena sexta-feira da paixão, contrariando a norma que não prescreve tal prática [cf. PS n. 56]. Ou então, impõe costumes devocionais arcaicos, fora de contexto [“hibridismo distorcido” segundo o DPPL, n. 143). A orientação primeira é que se valorize o ofício divino, com a participação do povo, sugerindo que tais ofícios sejam sóbrios, realizados na igreja despojada [não na capela da reposição]. Com ofícios bem organizados em nossas comunidades, estaríamos oferecendo um precioso serviço aos “peregrinos” que visitam as Igrejas neste dia.

Memória da sepultura do Senhor Sábado santo

Segundo dia do Tríduo

No Sábado Santo, “a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua descida à mansão dos mortos, e esperando na oração e no jejum a sua ressurreição” (PS 73. O foco é a sepultura do Senhor, certificação de sua morte, pertencente à forma mais antiga da fé: ‘Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’ (1Cor 15,3-4). Na liturgia ressoa o convite: “Cristo por nós padeceu, morreu e foi sepultado: vinde todos, adoremos!”

O ‘grande e santo Sabbat’ é o dia que liga a Sexta-Feira santa, à comemoração da Cruz, ao dia da Ressurreição. Para muitos, a verdadeira natureza e o sentido desta ligação, a necessidade real deste dia intermediário, permanece obscura. Para a grande maioria daqueles que vão à igreja, os dias “importantes” da grande semana são a Sexta-feira e o Domingo, a Cruz e a Ressurreição. Estes dois dias, entretanto, ficam de alguma forma distintos. Há um dia de tristeza e depois um dia de alegria. Nesta sucessão, a tristeza é simplesmente substituída pela alegria. Mas segundo o ensinamento da Igreja, expresso na sua tradição litúrgica, a natureza desta sucessão não é uma simples substituição. A Igreja proclama que o Cristo “venceu a morte pela morte”; isto quer dizer que, antes mesmo da ressurreição, coloca-se um acontecimento no qual a tristeza não é simplesmente substituída pela alegria, mas ela própria é transformada em alegria. O grande Sábado é precisamente este dia de transformação, o dia em que a vitória germina de dentro mesmo da derrota, uma vez que antes da ressurreição nos é dado contemplar a morte da própria morte. . . E tudo isso é expresso – mais ainda, tudo isso é realmente atualizado – a cada ano, no maravilhoso ofício matinal, na comemoração litúrgica que se torna para nós um “presente” salvador e transformador. [2]

Lembrete

Mesmo tendo de cuidar dos preparativos da grande vigília na noite pascal, é importante considerar o sábado como parte estruturante do tríduo pascal. A Igreja abstém-se absolutamente da Missa, nem celebra os sacramentos neste dia. Contudo, recomenda-se a Liturgia das Horas. A sua versão inculturada, o Ofício Divino das Comunidades, oferece uma proposta acessível ao povo. Tais ofícios celebrados na igreja despojada [não na capela da reposição] oferecem um ambiente contemplativo, como as mulheres portadoras dos perfumes [miróforas] à espera da madrugada.

Neste dia, os catecúmenos eleitos são convidados a participar do “recolhimento” de toda a comunidade. Há ritos previstos para eles [o “éfeta”, e a recitação do creio…].

Domingo da Ressurreição

Terceiro dia do Tríduo

A primeira celebração deste domingo maior é a Vigília Pascal na noite santa, Mãe de todas as Vigílias da Igreja. O ponto de referência é o êxodo, cumprido e realizado na Páscoa de Cristo. O ato de se reunir no meio da noite e a procissão luminosa, precedida pelo Círio pascal, como a antiga coluna de fogo que guiava os israelitas, torna-se sinal deste êxodo que se realiza na vida da comunidade reunida. A liturgia da Palavra, é um longo relato da história de Deus com o seu povo, cujas leituras fundamentais é a do Êxodo e o relato da ressurreição de Jesus. O batismo evoca a passagem do mar Vermelho, onde os cristãos atravessam as águas do mal e renascem para uma vida nova. A eucaristia, novo maná, alimenta o novo povo de Deus pelo deserto da vida. Nesta noite, os catecúmenos eleitos são batizados e crismados, tomam parte nas preces e levam os dons do pão e do vinho até o altar; participam, pela primeira vez, da Oração Eucarística, da recitação da Oração do Senhor e da Mesa do Pão da Vida e do Cálice da Salvação, ápice da iniciação cristã. Nesta noite, os fiéis renovam as promessas batismais, reafirmando a inserção no mistério do crucificado-ressuscitado por meio do Batismo e da Confirmação (cf. PCFP 80).

Na vigília pascal, nasce o dia novo, o Dia da Ressurreição, celebrado com grande solenidade (PS 97). Nele testemunhamos que o Senhor ressurgiu, como Maria Madalena, Pedro, João e os demais discípulos e discípulas. Eis o dia que o Senhor fez para nós. “Doravante a vida e a luz nos chegam mesmo pela morte e por todas as situações de morte de nossa existência se as “configuramos” pela fé na cruz do Cristo sobre a qual ele venceu a morte”. [3]

O domingo da Ressurreição é  prolongado por cinquenta dias de páscoa, “como um único domingo [santo Atanásio]. Tempo de mistagogia da vida batismal (RICA 37-40 e 235-239) para os fiéis e para os neófitos, na alegria de renascermos como filhos e filhas de Deus.

DICAS PARA A ORAÇÃO PESSOAL DURANTE O TRÍDUO

Se o silêncio é uma exigência de toda celebração litúrgica, as celebrações pascais com sua densidade espiritual, supõem que os momentos de silêncio sejam valorizados. Além disso, a oração pessoal antes e depois da celebração, garantem uma mais consciente e ativa participação.

Depois da celebração celebra-se o ofício da “Vigilância com Jesus” na capela da reposição fazendo memória da passagem de Jesus, da Ceia à Cruz. Esta oração comunitária requer bastante espaço de oração pessoal. Ao longo da oração pode ser sugerido: Ler pausadamente e com toda a atenção, o texto da segunda leitura 1Coríntios 11,23-26 [relato mais antigo da última ceia de Jesus]. Ou o evangelho de João 13,1-15.  Cantar salmos em comunhão com Jesus, salmos que o sustentou nesta passagem da ceia até a cruz, ele que fez dos salmos a sua oração. Ficar em silêncio, repetindo no coração alguma palavra, deixando que os sentimentos de Jesus habite o coração.

Na sexta feira da paixão, em algum momento do dia,tomar um tempo, para ficar em silêncio diante da cruz de Jesus, repetindo no coração as palavras que ele rezou: faça-se a tua vontade ou as palavras dom ladrão: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. Ler pausadamente o quarto cântico do Servo sofredor, proposto como primeira leitura neste dia.

No sábado santo, reservar um tempo em algum momento do dia, para a oração silenciosa e para a leitura espiritual. Sugerimos os seguintes textos: Os relatos evangélicos referentes ao sepultamento de Jesus:João 19,38-42 e Lucas 23,50-56 [ver também Mateus 27,56-61 e Marcos 15,42-47].

Para completar a leitura:

a) O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical. Todos temos sentido alguma vez uma sensação espantosa de abandono. Isto é o que mais tememos da morte. Como os meninos, nos dá medo ficarmos sozinhos na escuridão. Só a presença de uma pessoa que nos ama nos dá segurança. Pois bem, isto é o que ocorreu no Sábado Santo: no reino da morte ressoou a voz de Deus. Aconteceu o inimaginável: que o Amor penetrou “nos infernos”: na obscuridade extrema da solidão humana mais absoluta. Também nós podemos escutar a voz que nos chama e a mão que nos toma e nos tira para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar. E se no espaço da morte penetrou o amor, então chegou ali a vida. Na hora da extrema solidão, nunca estaremos sozinhos. [Bento XVI [2/5/2010].

b) O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl. 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? Quê Deus não tem direito de guardar silêncio? Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo. […] O Pai está de luto; toda a natureza, em silêncio, acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo; morte e ressurreição são simultâneas no presente de Deus, mas no acontecer humano só podem ser sucessivas. [Padre Adroaldo Palaoro:]

No Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor.

a) Reservar um tempo para ficar em silêncio e repassar no coração a vigília, para agradecer pela graça do batismo renovado, para abrir o coração aos cinquenta dias de alegria e de contemplação do Espírito, na vida das comunidades que seguem Jesus. Começar a oração repetindo no coração a oração-coleta da vigília:

Ó Deus, que iluminais esta noite santa
com a glória da ressurreição do Senhor,
despertai na vossa Igreja o espírito filial para que,
inteiramente renovados, vos sirvamos de todo coração.

b) fazer a Leitura orante do evangelho de João 20 não só os versículos indicados  para este dia [1-10], mas até o versículo 18, que inclui o encontro com Madalena, a discípula amada.


[1] Até hoje, é comum, considerar a vigília do sábado à noite como pertencente ao sábado, quando na verdade pertence ao domingo e é ápice do tríduo pascal.

[2] Segundo Alexandre Schmémann, Olivier Clément, padres da Igreja Oriental.

[3] [Alexandre Schmémann, Olivier Clément].


[i] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Paschalis Sollemnitatis:sobre a preparação e celebração das festas pascais (16/01/1988), n. 38. É um documento que merece ser estudado pelas equipes de pastoral litúrgica. Sigla: PS.


Indições para a oração do Ofício Divino das Comunidades:




A espiritualidade da Semana Santa: o mistério pascal vivido na liturgia

A Semana Santa constitui o coração do ano litúrgico porque nela a Igreja não apenas recorda, mas celebra sacramentalmente o mistério central da fé: a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. A espiritualidade desses dias nasce da própria liturgia e se enraíza na participação viva do fiel no mistério pascal. Por isso, compreender sua estrutura e seu desenvolvimento celebrativo é essencial para vivê-la em profundidade.

Essa grande semana se abre com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, que já contém, de modo condensado, todo o drama pascal. A procissão com os ramos recorda a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém, quando o povo o aclama como rei. No entanto, essa aclamação se entrelaça com a proclamação da Paixão, revelando a tensão que atravessa toda a semana: o reconhecimento e a rejeição, a glória e a cruz. Liturgicamente, não se trata de dois momentos desconectados, mas de uma única chave interpretativa: Cristo é rei precisamente porque entrega a sua vida.

Espiritualmente, esse dia inaugura um caminho de conversão do olhar. O Messias que entra em Jerusalém não corresponde às expectativas de poder humano. Ele vem humilde, desarmado, fiel à vontade do Pai. A Igreja, ao iniciar assim a Semana Santa, convida o fiel a entrar nesse mesmo movimento: seguir Cristo não segundo projeções pessoais, mas segundo o caminho do amor que se doa.

Historicamente, o nome “Semana Santa” deriva da antiga tradição cristã de designar como “santos” os dias diretamente ligados ao mistério da salvação. Já nos primeiros séculos, especialmente em Jerusalém, os cristãos começaram a viver esses dias com uma intensidade singular, acompanhando os lugares e os acontecimentos da Paixão do Senhor. Essa semana era chamada de Hebdomada Sancta (Semana Santa), não por uma sacralidade abstrata, mas porque nela se celebram os eventos mais santos da história da salvação: a entrega total de Cristo ao Pai pela humanidade.

Ao longo do tempo, essa vivência se estruturou liturgicamente, sobretudo a partir da tradição da Igreja antiga e foi profundamente renovada pelo Concílio Vaticano II, que recuperou a centralidade do mistério pascal como eixo de toda a vida cristã, conforme expresso na constituição Sacrosanctum Concilium. Assim, a Semana Santa não é apenas um conjunto de celebrações, mas uma verdadeira imersão no mistério da redenção.

Dentro dessa semana, o ponto culminante é o Tríduo Pascal. Como recorda a tradição da Igreja e o documento apresentado, o Tríduo não é uma preparação para a Páscoa, mas a própria celebração pascal em sua forma mais plena. Ele começa com a Missa da Ceia do Senhor, ao entardecer da Quinta-feira Santa, e se estende até as Vésperas do Domingo da Ressurreição. Trata-se de uma única ação litúrgica que se desenvolve em etapas, segundo uma lógica própria, que não corresponde à contagem cronológica comum, mas à dinâmica do mistério celebrado.

A Missa da Ceia do Senhor marca a abertura solene do Tríduo. Nela, a Igreja faz memória da última ceia de Jesus, na qual Ele institui a Eucaristia e antecipa sacramentalmente sua entrega na cruz. O gesto de “tomar, dar graças, partir e repartir” revela o sentido profundo de sua vida: uma existência entregue. O lava-pés torna visível essa lógica, mostrando que a Eucaristia é inseparável do serviço.

A espiritualidade que brota dessa celebração é profundamente eucarística: participar do Corpo de Cristo implica tornar-se corpo entregue para os outros. A celebração se prolonga na vigília e na adoração, convidando os fiéis a permanecerem com o Senhor, entrando no mistério de sua entrega.

A Sexta-feira da Paixão constitui o primeiro dia do Tríduo. Não é uma celebração isolada, mas continuidade da única ação iniciada na Quinta-feira. A Igreja contempla a Paixão do Senhor como revelação suprema do amor. A cruz não é apenas instrumento de morte, mas lugar onde o amor vence o pecado.

A liturgia desse dia, marcada pelo silêncio e pelo despojamento, convida a uma espiritualidade de contemplação e verdade. O fiel é chamado a confrontar-se com o mistério do mal. Não apenas como realidade histórica, mas presente no mundo e em si mesmo e, ao mesmo tempo, a reconhecer que esse mal é assumido e transformado pelo amor de Cristo.

O Sábado Santo é o segundo dia do Tríduo, caracterizado por um silêncio pleno de significado. A Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, em oração e espera. Não se trata de um vazio, mas de um tempo em que a ação de Deus se realiza de modo invisível. Cristo desce à mansão dos mortos, alcançando toda a humanidade.

A espiritualidade desse dia é a da espera vigilante. É aprender a permanecer na esperança mesmo quando tudo parece encerrado. É confiar na ação de Deus mesmo quando ela não é perceptível. O silêncio torna-se, assim, lugar de encontro e de transformação.

A Vigília Pascal, celebrada na noite do Sábado, é o ápice de toda a celebração. Ela pertence já ao terceiro dia do Tríduo, o Domingo da Ressurreição. Nesta noite, a Igreja celebra a vitória definitiva da vida sobre a morte.

A riqueza simbólica da Vigília — a luz que rompe as trevas, a Palavra que narra a história da salvação, a água que gera vida nova, o pão e o vinho que se tornam presença do Ressuscitado — introduz o fiel no coração do mistério. Trata-se de uma espiritualidade profundamente mistagógica: não apenas compreender, mas experimentar o mistério.

O Domingo da Ressurreição, vivido tanto na Vigília quanto na celebração do dia, manifesta a plenitude da Páscoa. Em Cristo ressuscitado, a morte é vencida e uma nova criação é inaugurada. A alegria pascal não é apenas um sentimento, mas a experiência de uma vida nova que se comunica aos fiéis.

Assim, viver a espiritualidade da Semana Santa é deixar-se conduzir pela liturgia em sua unidade e profundidade. Não se trata de acompanhar exteriormente uma sequência de eventos, mas de participar de uma única ação salvífica que transforma a existência. Da entrada em Jerusalém à Ressurreição, a Igreja percorre o caminho de Cristo para que cada fiel possa, nele, passar da morte para a vida.

Em última análise, essa espiritualidade é um caminho de configuração a Cristo. Através das celebrações, o fiel aprende a lógica pascal: o amor que se entrega, o silêncio que espera, a esperança que renasce. É assim que a liturgia se torna vida e a Semana Santa, verdadeiramente, o tempo mais santo de todo o ano cristão.



TRÍDUO PASCAL: CELEBRAÇÃO DA REDENÇÃO E DA VIDA NOVA EM CRISTO

Por Ir. Cidinha Batista, pddm

A celebração da Páscoa é o coração do ano litúrgico e a fonte que nutre a vida de fé da Igreja. No centro dessa experiência está o Tríduo Pascal — a paixão, morte e ressurreição de Jesus — que nos insere no mistério da redenção realizada por Cristo, que, ao morrer, venceu a morte, e ao ressuscitar, nos abriu as portas da vida nova.

O Tríduo Pascal é celebrado em três momentos interligados, formando uma única grande Páscoa: a Páscoa da Ceia, a Páscoa da Cruz e a Páscoa da Ressurreição.

Na Quinta-feira Santa, somos convidados a participar da Ceia do Senhor, sentando-nos à mesa com Jesus para celebrar a libertação de seu povo. É a noite do gesto do lava-pés, em que o Senhor nos ensina o mandamento do amor: “Amem-se uns aos outros como eu os amei” (Jo 13,34). A celebração eucarística desta noite, marcada por profunda comunhão, é seguida por um tempo de adoração, que, segundo as orientações da Igreja, não deve se estender além da meia-noite, preparando o coração e o corpo para a Vigília Pascal.

Na Sexta-feira Santa, a Igreja entra no silêncio da cruz. É a Páscoa do Crucificado. A liturgia deste dia expressa o luto, a indignação diante da injustiça e a solidariedade com os crucificados de nosso tempo. A comunidade se reúne para contemplar a Paixão do Senhor, rezar diante da cruz e renovar seu compromisso com a vida e com a dignidade humana.

A Vigília Pascal, celebrada na noite do Sábado Santo, é a mais importante de todas as vigílias da Igreja. É a celebração da vitória da vida sobre a morte, da ressurreição de Cristo, da realização plena do êxodo. À escuridão do túmulo sucede o anúncio glorioso da ressurreição: “Este é o meu Filho. A morte não o reteve, porque maior é o meu Amor”. É a celebração da libertação dos cristãos da escravidão do pecado e da morte, para participarem da glória dos filhos de Deus (Rm 8,21).

Nessa noite, os ritos litúrgicos — como a procissão luminosa com o Círio Pascal, a renovação das promessas batismais e a Eucaristia — tornam-se sinais vivos do novo êxodo do povo de Deus. A Igreja atravessa simbolicamente as águas do mal para renascer em Cristo, sendo alimentada pelo “novo maná” na travessia do deserto da vida.

A Vigília Pascal culmina no Domingo da Ressurreição e inaugura os cinquenta dias da festa pascal — tempo de alegria intensa, simbolizada pela cor branca, flores, cânticos de glória e aleluia. Durante todo o tempo pascal, o Círio permanece aceso nas celebrações dominicais como sinal da presença do Ressuscitado, e a aspersão da água pode substituir o ato penitencial, relembrando o batismo.

A última semana da Páscoa é dedicada à oração pela unidade dos cristãos. O Tempo Pascal se encerra com a Solenidade de Pentecostes, quando a Igreja celebra o dom do Espírito Santo, plenitude do Mistério Pascal de Cristo.

Feliz e abençoada Páscoa!

POR QUE A SEMANA SANTA AINDA IMPORTA EM 2025?

A Semana Santa é o ponto culminante do ano litúrgico da Igreja. Celebrada pelos cristãos do mundo inteiro, ela nos convida a entrar profundamente no mistério central da nossa fé: a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Não se trata apenas de recordar um evento passado, mas de vivê-lo liturgicamente, permitindo que a graça da salvação alcance hoje o nosso coração e transforme a nossa vida.

Cada dia da Semana Santa possui um significado especial. O Domingo de Ramos abre as celebrações, recordando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, acolhido como Rei pelos que dias depois clamariam por sua crucifixão. A liturgia deste dia nos convida a refletir sobre a fragilidade humana e a fidelidade de Cristo.

Na Quinta-feira Santa, a Igreja celebra a instituição da Eucaristia e do sacerdócio, durante a Última Ceia. É também o momento em que Jesus lava os pés dos discípulos, gesto de humildade que nos ensina o caminho do serviço. A celebração se encerra com a transposição simbólica de Jesus ao Horto das Oliveiras, marcando o início de sua Paixão.

A Sexta-feira Santa é o único dia em que não se celebra a Eucaristia. Em silêncio e reverência, os fiéis participam da Celebração da Paixão do Senhor, contemplando a cruz como sinal de amor supremo e redenção. É um dia de jejum, oração e profunda meditação.

O Sábado Santo é marcado pelo silêncio e pela espera. A Igreja permanece em vigília, junto ao túmulo do Senhor, preparando-se para a grande celebração da Vigília Pascal. Na noite do Sábado, a luz do Cristo Ressuscitado rompe as trevas, e a alegria da Ressurreição transforma o luto em júbilo. É a celebração mais importante de todo o ano litúrgico.

Participar da Semana Santa é entrar no coração da fé cristã. É permitir que o amor de Deus, manifestado na Cruz e confirmado na Ressurreição, renove nossa esperança e nos impulsione a viver como discípulos de Cristo no mundo.

Semana Santa

Cronograma da Semana Santa:

📅 Domingo de Ramos da Paixão do Senhor
Evangelho: Mt 21,1-11; Mt 26,14 – 27,66
Jesus é acolhido em Jerusalém como Rei, mas a liturgia já nos conduz ao mistério de sua Paixão.
🕊️ “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt 21,9)

📅 Segunda-feira Santa
Evangelho: Jo 12,1-11
Jesus é ungido em Betânia. Maria reconhece sua dignidade e se antecipa à sua paixão.
🕊️ “Deixa-a, que ela guarde isto para o dia da minha sepultura.” (Jo 12,7)

📅 Terça-feira Santa
Evangelho: Jo 13,21-33.36-38
Jesus anuncia a traição de Judas e a negação de Pedro.
🕊️ “Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.” (Jo 13,38)

📅 Quarta-feira Santa
Evangelho: Mt 26,14-25
Dia em que Judas Iscariotes trama a traição. Conhecida como a “Quarta-feira das Trevas”.
🕊️ “O Filho do Homem vai morrer, conforme está escrito, mas ai daquele por quem o Filho do Homem é traído!” (Mt 26,24)

📅 Quinta-feira Santa – Ceia do Senhor
Evangelho: Jo 13,1-15
Celebramos a instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial. Jesus lava os pés dos discípulos, ensinando-nos o amor-serviço.
🕊️ “Eu vos dei o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz a vós.” (Jo 13,15)

📅 Sexta-feira Santa – Paixão do Senhor
Evangelho: Jo 18,1 – 19,42
Dia de jejum, silêncio e veneração da Cruz. A Igreja contempla com reverência o mistério da Cruz de Cristo.
🕊️ “Tudo está consumado.” (Jo 19,30)

📅 Sábado Santo – Vigília Pascal
No silêncio do túmulo, a Igreja espera a Ressurreição. À noite, celebra-se a Vigília Pascal, a “mãe de todas as vigílias”.
🕊️ “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5)

📅 Domingo de Páscoa – Ressurreição do Senhor
Evangelho: Jo 20,1-9
Cristo ressuscitou! A vida venceu a morte, e a esperança renasce no coração dos fiéis.
🕊️ “Ele viu e acreditou.” (Jo 20,8)

Semana Santa: Um Convite à Conversão Profunda

Participar da Semana Santa é mais do que acompanhar rituais religiosos. É permitir que o amor de Deus, manifestado na Cruz e confirmado na Ressurreição, transforme o nosso modo de viver. Como diz São Paulo: “Se com Cristo morremos, com Ele também viveremos.” (Rm 6,8)

A Semana Santa não é apenas uma sucessão de ritos sagrados. Ela é, acima de tudo, um espelho que confronta o nosso interior, uma travessia espiritual que nos convida à conversão – não como um dever moral imposto de fora, mas como um movimento íntimo, necessário e transformador.

Liturgia que nos atravessa

A cada dia da Semana Santa, a liturgia da Igreja nos conduz por cenas profundamente humanas: a aclamação entusiasmada que se transforma em rejeição, a traição que nasce no meio dos amigos, o silêncio de Deus diante do sofrimento inocente, o medo da perda, a fuga dos discípulos, o abandono, o luto… e, enfim, a vida que ressurge quando parecia já não haver saída.

Esses momentos não são apenas memórias do passado. Eles são vividos aqui e agora, em nós. A liturgia nos envolve para que passemos, com Cristo, por esses desertos interiores. Como escreveu Santo Agostinho: “Cristo sofreu por nós para que aprendêssemos a sofrer n’Ele.”

Conversão como travessia

Na teologia cristã, conversão (do latim conversio) significa mudança de direção, retorno a Deus, reencontro com a Verdade. Mas essa virada não é apenas racional. É existencial. A cruz que contemplamos não está apenas sobre o altar: ela revela também nossas contradições, nossas feridas, nossas negações internas.

Ao olhar para Cristo que sofre calado, somos convidados a reconhecer aquilo que em nós resiste ao amor, se fecha ao perdão, se esconde da verdade. A conversão, então, não é medo do castigo, mas coragem de encarar a própria sombra, à luz daquele que tudo redime.

Caminho do autoconhecimento

Sob uma perspectiva psicanalítica, poderíamos dizer que a Semana Santa nos obriga a sair das defesas do ego e nos deparar com conteúdos reprimidos – traições internas, impulsos de fuga, desejos ambivalentes, perdas não elaboradas. Judas, Pedro, Pilatos, Maria, Simão de Cirene… todos representam partes de nós.

A paixão de Cristo é um roteiro profundamente humano. É ali que percebemos como o inconsciente atua nos grandes dilemas: entre amor e medo, entre entrega e controle, entre confiança e autossabotagem. Converter-se, portanto, é também integrar, reconhecer o que em nós precisa ser reconciliado.

A cruz como lugar de reconciliação

No ponto culminante da Semana Santa — a Cruz — não vemos apenas o sofrimento de um inocente, mas um gesto absoluto de amor e reconciliação. Cristo, ao entregar-se livremente, cura a ruptura entre Deus e a humanidade. E, ao fazê-lo, nos convida a reconciliar também as rupturas dentro de nós: com o outro, com o passado, com Deus, e com aquilo que somos de verdade.

🕊️ “Ele foi ferido por causa de nossas transgressões, esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele.” (Is 53,5)

Por que a Semana Santa é um convite à conversão?

Porque ela nos tira da superficialidade.
Porque nos confronta com o essencial.
Porque nos revela que a mudança não é só possível — é necessária.
Porque nos lembra que a morte, quando vivida com amor, gera vida nova.
E porque, ao final da dor, sempre há ressurreição.

Que esta semana sagrada seja vivida com fé, silêncio interior e espírito de conversão, abrindo nosso coração para o grande dom da vida nova em Cristo.


REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução da CNBB. 2. ed. Brasília: Edições CNBB, 2008.

RATZINGER, Joseph (Papa Bento XVI). Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.

RATZINGER, Joseph. O espírito da liturgia. São Paulo: Loyola, 2001.

REVISTA DE LITURGIA. Semana Santa: Paixão e Ressurreição do Senhor. Ano 38, n. 152, mar./abr. 2007. São Paulo: Pias Discípulas do Divino Mestre.

REVISTA DE LITURGIA. Abrir a porta ao mistério e acender as luzes da fé. São Paulo: Pias Discípulas do Divino Mestre, n. 308, mar./abr. 2025.

REVISTA DE LITURGIA. Do livro à Palavra. São Paulo: Pias Discípulas do Divino Mestre, n. 307, jan./fev. 2025.

REVISTA DE LITURGIA. Oração, Missal Romano e experiência de Deus. São Paulo: Pias Discípulas do Divino Mestre, n. 306, nov./dez. 2024.

REVISTA DE LITURGIA. Semana Santa: Paixão e Ressurreição do Senhor. São Paulo: Pias Discípulas do Divino Mestre, n. 152, mar./abr. 2007.

AUGUSTINUS, Aurelius. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos. São Paulo: Paulus, 1999.

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

JUNG, Carl Gustav. A psicologia da transferência. Petrópolis: Vozes, 2013.

KÜNG, Hans. Ser Cristão. São Paulo: Verus, 2005.

ESPIRITUALIDADE DA SEMANA SANTA

Secretariado de Espiritualidade PDDM, 2024

Domingo de Ramos

A porta de entrada na Semana Santa é a memória solene da entrada de Jesus em Jerusalém, “porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lucas 13,22]. Normalmente passamos rápido demais da procissão dos ramos ao relato da paixão. Mas é importante nos deter no mistério profundo desta epifania de Jesus que reúne todo o sentido espiritual da Semana Santa. Os relatos de Marcos Mateus e Lucas estão em sintonia entre si sobre a interpretação deste evento pascal. Neste domingo, escutamos a narrativa de

Marcos 11,1-10:

Quando se aproximaram de Jerusalém, na altura de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo: ‘Ide até o povoado que está em frente, e logo que ali entrardes, encontrareis amarrado um jumentinho que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui! Se alguém disser: ‘Por que fazeis isso?’, dizei: ‘O Senhor precisa dele, mas logo o mandará de volta’.’ Eles foram e encontraram um jumentinho amarrado junto de uma porta, do lado de fora, na rua, e o desamarraram. Alguns dos que estavam ali disseram: ‘O que estais fazendo, desamarrando este jumentinho?’ Os discípulos responderam como Jesus havia dito, e eles permitiram. Trouxeram então o jumentinho a Jesus, colocaram sobre ele seus mantos, e Jesus montou. Muitos estenderam seus mantos pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam apanhado nos campos. Os que iam na frente e os que vinham atrás gritavam: ‘Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito seja o reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus!’

Multidões de peregrinos ocupam a cidade de Jerusalém na festa da Páscoa. Jesus não é um peregrino a mais, anônimo, perdido no meio da multidão. Jesus sobre a Jerusalém para cumprir o seu destino. Chega com os discípulos no limiar da cidade santa. Esta soleira  que não é apenas a fronteira de uma cidade, mas o limite de uma vida. Jesus sente e sabe que seu caminho vai em direção à morte. E quando o futuro desaparece, o olhar se volta para o que está próximo. 

Jesus, então se volta para os discípulos, envia dois deles, sem citar nome, e lhes dá responsabilidade sobre os preparativos de sua entrada solene em montaria régia. Os detalhes sobre o burrinho [7 dos 11 versículos] mostra toda a sua importância no contexto. Jesus entra na cidade como o Messias descrito pelo profeta Zacarias 9,9: rei justo e humilde, montado em um jumento emprestado [v. 3], sem tropas e sem armas, para destruir todo armamento e proclamar a paz. A participação ativa dos discípulos indica o profundo entrelaçamento entre o discipulado e a missão de paz de Jesus. Os discípulos e discípulas que subiram com Jesus a Jerusalém estão na sua escola. Um ditado rabínico afirma que “uma pessoa aprende pelos caminhos que percorre”. Os discípulos e discipulas aprendem medindo os seus próprios caminhos com os passos percorridos por Jesus.

A procissão que acompanhará esta entrada (v. 8-10) apresenta traços régios, como transparecem nos mantos espalhados pelo caminho e nas aclamações.  O povo reconhece em Jesus o Messias  como um novo Davi poderoso, conquistador, que iria devolver a Israel a soberania.  Projetam sobre Jesus a sua ideia de Messias: “Bendito seja o Reino vindouro de nosso pai Davi”. 

E no entanto, Jesus frustra esta expectativa. Jesus sempre anunciou o Reino de Deus, não de Davi. Passou a vida inteira desmontando a ideia de triunfo que imperava no povo e nos seus discípulos, fugiu daqueles que queriam fazê-lo rei (…).  Com sua “entrada em Jerusalém”, Jesus desconcerta a todos. Diante dele é preciso decidir.

E então, veremos que a maioria dos que hoje o recebem como rei, pedirão que seja crucificado. O aparente êxito de hoje, será transformado no aparente fracasso dos dias que virão. Mas em Jesus, é no extremo fracasso, que êxito será revelado. “Quando eu for exaltado atrairei todos a mim”. Martín Buber, lembra que as realidades significativas se realizam mais na profundidade do fracasso que na superficialidade do êxito. No fracasso nossa consciência fica marcada para sempre.

Neste domingo o adentrar as portas da igreja com nossos ramos, o convite que chega até nós e a toda a Igreja é o de voltar o nosso olhar, para aquele que foi levantado como a serpente foi levantada por Moisés no deserto. A liturgia da Semana Santa, como toda a liturgia da Igreja, nos coloca diante do Pai, do lugar do filho, recordando ao Pai seu amor e a sua obediência. Neste curto espaço de tempo de uma semana, que vamos nos submergir no Mistério da MORTE DO FILHO, é a partir de seus passos, e não de nossos pensamentos, que cada coisa terá um novo olhar.  O caminho que se abre é o caminho da não violência, do amor gratuito, da obediência à Palavra.  

A violência, na sua raiz mais profunda, é uma absolutização do ego. Seguir o caminho de Cristo significa aprender o caminho da mansidão, isto é, de aceitar colocar limites em nós para acolher e dar espaço ao coletivo, às grandes causas humanitárias.

Seguir o Senhor para estar com Ele, para servi-Lo, fazer um silêncio profundo sobre nossas necessidades, sobre nossos pensamentos, sobre nossos sentimentos, sobre nossas opiniões. Estar atentos aos acontecimentos sem a interferência de nosso eu, sequer para tentar compreender. Silêncio receptivo: somente a ação de Deus, seus atos, suas palavras, seu silêncio. Podemos repetir ao longo destes dias uma pequena oração “Não eu, Senhor, senão Tu”.[1] Ou como nos inspira nossa Madre Escolástica: “Só tu, e basta!” 

PARA BEM CELEBRAR O TRÍDUO PASCAL

O Tríduo Pascal não é preparação para a solenidade da Páscoa [como acontece com outros tríduos], mas é a própria celebração pascal em três dias: a sexta-feira da paixão, o sábado do seu repouso e o domingo do seu ressurgir dos mortos [segundo Santo Ambrósio][2] ou, o Sagrado Tríduo da cruz, sepultura e ressurreição [segundo Santo Agostinho][3]. A celebração da Ceia do Senhor ao anoitecer da quinta-feira com caráter de “primeiras vésperas”[4], é solene abertura do Tríduo que culmina na Vigília da noite pascal.

Toda a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II teve como finalidade devolver ao povo de Deus o acesso à liturgia, qual fonte de vida espiritual. Nesta perspectiva a celebração da Páscoa como era nas origens, volta a cada ano, como festa espiritual, realidade mística e universal. Assim sendo, não basta executar os ritos, ainda que de forma precisa, é preciso celebrar e fazer silêncio para deixar ecoar no coração o mistério proclamado na assembleia litúrgica. Além de participar das celebrações litúrgicas próprias de cada dia do Tríduo, há os ofícios comunitários, sobretudo o ofício da manhã no sábado santo. Ese propõe ainda tempo de oração pessoal como preparação e aprofundamento para os momentos comunitários.O que seguem são dicas para a oração pessoal de cada dia do tríduo.

MEMÓRIA DA ÚLTIMA CEIA DE JESUS – ABERTURA DO TRÍDUO

Memória da última Ceia de Jesus

O que celebramos:

Nesta noite repetimos em memória da Páscoa de Jesus, os gestos da sua última ceia que estrutura a Liturgia eucarística; “tomou o pão, deu graças, partiu e passou aos seus”. Com esta celebração retomamos o verdadeiro sentido da eucaristia. O simples gesto de passar ao outro um pedaço de pão é um gesto despojado de poder que aponta para uma espiritualidade da mesa, baseada na gratuidade e no serviço  fraterno [cf. padre Adroaldo]. Eis o gesto de Jesus na noite da em que foi entregue, tendo à mesa Judas, aquele que o iria entregar.

Para a Oração pessoal

Depois da celebração celebra-se o ofício da “Vigilância com Jesus” na capela da reposição fazendo memória da passagem de Jesus, da Ceia à Cruz. Esta oração comunitária pode ser prolongada pessoalmente, repassando no coração a Palavra e meditando em silêncio:

a) Ler pausadamente e com toda a atenção, o texto da segunda leitura 1Coríntios 11,23-26 [relato mais antigo da última ceia de Jesus]. Ler também o evangelho de João 13,1-15. 

b)  Rezar no coração o salmo 116 da liturgia da Palavra da missa ou o salmo 130 indicado no Ofício da vigilância com sua antífona:

Pai, se este cálice não pode passar sem que eu beba,

seja feita a tua vontade.

1. Das profundezas, Senhor clamo a ti: / escuta a minha voz!

Atento se façam teus ouvidos / ao clamor da minha prece.

2 Se reténs os pecados, Senhor, / quem poderá subsistir?

Mas em ti se encontra o perdão: / eu temo e espero.

3. No Senhor ponho a minha esperança / e na sua palavra

espera a minh’alma o Senhor / mais que os guardas pela aurora.

4. No Senhor está toda a graça, / copiosa redenção,

ele vem resgatar Israel / de toda iniquidade.

5. Glória ao Deus presente em toda a terra / que Jesus manifestou,

ao Espírito de Deus amor materno, / toda graça e todo amor.

c) Ficar em silêncio, repetindo no coração alguma palavra, deixando que os sentimentos de Jesus habite o coração.

 A GRANDE SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO – Primeiro dia do Tríduo

O que celebramos:

A Sexta-Feira da Paixão, em que pese a dimensão de dor tão curtida pela piedade popular, na perspectiva bíblica, sobretudo do Evangelho de João, é “Paixão gloriosa”, celebra, pois, o Amor Maior, que se manifestará vencedor na madrugada da Ressurreição. Ao fazer memória da bem-aventurada paixão do Senhor, a Igreja comemora o seu próprio nascimento do lado de Cristo na cruz (cf. PCFP, 58). A leitura da paixão segundo João é a parte mais importante da celebração deste dia. Exalta a vitória do Cristo o servo sofredor anunciado por Isaías 52,13-53,12 que fez da sua vida uma oferenda de amor até o fim (Hebreus 4,14-16;5,6-7).

Para a Oração pessoal

a) Os Ofícios da manhã e do meio-dia celebrados na igreja despojada [não na capela da reposição] e a solene celebração da tarde em si já oferecem uma experiência contemplativa do Mistério celebrado neste dia.

b) Esta contemplação pode ser prolongada depois de cada celebração, repassando no coração a Palavra e meditando em silêncio.

3) Em algum momento do dia, ler com calma, o texto que segue sobre o sentido espiritual deste grande dia em seu duplo mistério:[5]

 […]. A Igreja primitiva chamava a este dia “A Páscoa da Cruz,” porque ele é de fato o começo desta Páscoa ou Passagem cujo sentido nos será revelado progressivamente; primeiro na paz do grande e santo Sabbat, depois na alegria do dia da Ressurreição.

Mas antes, as trevas. Se ao menos pudéssemos compreender que as trevas da Sexta-feira Santa não são puramente simbólicas e comemorativas! É muito frequentemente com o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria integridade que contemplamos a tristeza solene destes ofícios. Há dois mil anos, sim, homens “maus” mataram o Cristo, mas hoje nós — o bom povo cristão — levantamos suntuosos túmulos em nossas igrejas; não é esta a prova da nossa justiça? E, no entanto, a Sexta-feira Santa não concerne somente ao passado. É o dia do Pecado, o dia do Mal, o dia no qual a Igreja nos ensina a aprender a terrível realidade do pecado e seu poder no mundo. Pois o pecado e o mal não desapareceram: ao contrário, permanecem a lei fundamental do mundo e de nossa vida. Nós que nos dizemos cristãos não entramos frequentemente nesta lógica do mal que conduziu o Sinédrio e Pilatos, os soldados romanos e toda a multidão a detestar, torturar e matar o Cristo? De que lado nós teríamos ficado se tivéssemos vivido em Jerusalém no tempo de Pilatos? Esta é a pergunta que nos é feita por cada uma das palavras do ofício de Sexta-feira Santa. É de fato “o dia deste mundo,” de sua condenação real e não somente simbólica, e do julgamento real e não somente ritual, de nossa vida. . . É a revelação da verdadeira natureza do mundo que preferiu então e continua a preferir as trevas à luz, o pecado ao bem, a morte à vida. E condenando o Cristo à morte “este mundo” condenou-se a si mesmo à morte, e na medida em que aceitamos seu espírito, seu pecado e sua traição a Deus, estamos também condenados. . . Este é o primeiro significado, terrivelmente realista, da Sexta-feira Santa: uma condenação à morte…

No entanto, este dia do Mal cuja manifestação e triunfo estão em seu paroxismo, é também o dia da Redenção. A morte do Cristo nos é revelada como uma morte salvífica para nós e para nossa salvação. […] O Cristo dá sua morte a seu Pai e no-la dá também. Ele a dá a seu Pai porque não há outro meio de destruí-la e libertar a humanidade dela; ora, é a vontade do Pai que os homens sejam salvos da morte. O Cristo nos dá sua morte porque na verdade é em nosso lugar que Ele morre. A morte é o fruto natural do pecado, um castigo iminente. O homem escolheu não mais estar em comunhão com Deus, porém como ele não tem a vida nele mesmo e por ele mesmo, morre. Em Jesus Cristo, entretanto, não há pecado, logo não há morte. É somente por amor a nós que ele aceita morrer; Ele quer assumir e compartilhar de nossa condição humana até o fim. […] Sua morte é então a revelação suprema de sua compaixão e de seu amor. […] A condenação é transformada em perdão.

[…] E enquanto o Cristo avança silenciosamente para a Cruz e para seu fim, quando a tragédia humana está em seu apogeu, seu triunfo, sua vitória sobre o mal e sua glorificação, aparecem progressivamente em luz plena. A cada passo esta vitória é reconhecida, confessada, proclamada: pela mulher de Pilatos, por José, pelo bom ladrão, pelo centurião. Quando ele morre na cruz, tendo aceito o supremo horror da morte, a solidão absoluta (Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?)” não resta senão confessar: “Verdadeiramente este homem era o filho de Deus!” Assim esta morte, este amor e esta obediência, esta plenitude de vida destroem aquilo que faz da morte o destino universal. “E os túmulos foram abertos” (Mt 27:52). Já aparecem os primeiros clarões da Ressurreição…

Este é o duplo mistério desta grande Sexta-feira; os ofícios deste dia nô-lo mostram e nos fazem participar dele. De um lado, eles insistem constantemente sobre a Paixão do Cristo enquanto pecado de todos os pecados, crime de todos os crimes. […] Por outro lado, encontramos desde o começo do ofício o segundo aspecto do mistério deste dia: o do sacrifício de amor que prepara a vitória final. […]

SÁBADO SANTOSegundo dia do Tríduo

O que celebramos:

– No Sábado Santo, “a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando sua paixão e morte, a sua descida à mansão dos mortos, e esperando na oração e no jejum a sua ressurreição” (PS 73); ela abstém-se absolutamente do sacrifício da Missa, o altar foi desnudado (Missal Romano). O foco é a sepultura do Senhor, certificação de sua morte, pertencente à forma mais antiga da fé: ‘Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’ (1Cor 15,3-4). Na liturgia ressoa o convite: “Cristo por nós padeceu, morreu e foi sepultado: vinde todos, adoremos!”

Para a Oração pessoal

O sábado santo é o segundo dia do tríduo, carrega em si um aspecto fundamental do mistério pascal do Senhor. Mesmo tendo de cuidar dos preparativos da grande vigília na noite pascal, é importante é importante consagrar algum momento à oração comunitária e pessoal. A Liturgia das Horas e a sua versão inculturada, o Ofício Divino das Comunidades, oferecem as orações para esse segundo dia do Tríduo.   A insistência é que se celebre com o povo o Ofício de Leituras na madrugadinha e a Oração da manhã  [ou ofício da manhã e do meio dia].  Tais ofícios celebrados na igreja despojada [não na capela da reposição] oferecem um ambiente contemplativo de vigilância, como as mulheres portadoras dos perfumes [miróforas] à espera da madrugada.

a) Esta contemplação pode ser prolongada depois de cada ofício, repassando no coração a Palavra e fazendo silêncio em atitude de vigilância.

b) Além disso é importante reservar um tempo pessoal em algum momento do dia, para a oração silenciosa e para a leitura espiritual. Sugerimos os seguintes textos: Os relatos evangélicos referentes aos sepultamento de Jesus: João  19,38-42 e  Lucas 23,50-56 [ver também Mateus 27,56-61 e ; Marcos 15,42-47].

c) Textos sobre o sentido espiritual do sábado santo:

Alexandre Schmémann, Olivier Clément [padres da Igreja Oriental]:

O ‘grande e santo Sabbat’ é o dia que liga a Sexta-Feira santa, à comemoração da Cruz, ao dia da Ressurreição. Para muitos, a verdadeira natureza e o sentido desta ligação, a necessidade real deste dia intermediário, permanece obscura. Para a grande maioria daqueles que vão à igreja, os dias “importantes” da grande semana são a Sexta-feira e o Domingo, a Cruz e a Ressurreição. Estes dois dias, entretanto, ficam de alguma forma distintos. Há um dia de tristeza e depois um dia de alegria. Nesta sucessão, a tristeza é simplesmente substituída pela alegria. Mas segundo o ensinamento da Igreja, expresso na sua tradição litúrgica, a natureza desta sucessão não é uma simples substituição. A Igreja proclama que o Cristo “venceu a morte pela morte”; isto quer dizer que, antes mesmo da ressurreição, coloca-se um acontecimento no qual a tristeza não é simplesmente substituída pela alegria, mas ela própria é transformada em alegria. O grande Sábado é precisamente este dia de transformação, o dia em que a vitória germina de dentro mesmo da derrota, uma vez que antes da ressurreição nos é dado contemplar a morte da própria morte. . . E tudo isso é expresso – mais ainda, tudo isso é realmente atualizado – a cada ano, neste maravilhoso ofício matinal, na comemoração litúrgica que se torna para nós um “presente” salvador e transformador.

Bento XVI [2/5/2010]:

O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical. Todos temos sentido alguma vez uma sensação espantosa de abandono. Isto é o que mais tememos da morte. Como os meninos, nos dá medo ficarmos sozinhos na escuridão. Só a presença de uma pessoa que nos ama nos dá segurança. Pois bem, isto é o que ocorreu no Sábado Santo: no reino da morte ressoou a voz de Deus. Aconteceu o inimaginável: que o Amor penetrou “nos infernos”: na obscuridade extrema da solidão humana mais absoluta. Também nós podemos escutar a voz que nos chama e a mão que nos toma e nos tira para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar. E se no espaço da morte penetrou o amor, então chegou ali a vida. Na hora da extrema solidão, nunca estaremos sozinhos.

Padre Adroaldo Palaoro:

O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl. 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? Quê Deus não tem direito de guardar silêncio? Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo. […] O Pai está de luto; toda a natureza, em silêncio, acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo; morte e ressurreição são simultâneas no presente de Deus, mas no acontecer humano só podem ser sucessivas.

Antiga Homilia no grande Sábado Santo [(s. IV), lido do ofício das leituras]:

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.

O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.

Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.

Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. […]

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

O DOMINGO DA RESSURREIÇÃOTerceiro dia do Tríduo

Domingo da Páscoa na Ressurreição, “máxima solenidade do ano litúrgico” (PSL, 148).

  1. A primeira celebração deste domingo maior é a Vigília Pascal,Mãe de todas as Vigílias da Igreja.

O que celebramos: Nesta NOITE os nossos pais e mães passaram pelas águas do Mar Vermelho livres da escravidão. Foi nesta noite que Jesus rompeu o inferno, e tornou para nós o novo Adão e a própria noite, e tão só ela, soube a hora em que Cristo ressurgiu da morte. Nesta noite, também nós passamos pelas águas batismais da Páscoa e renovamos o que professamos.

Para a oração pessoal – Lectio das leituras da Liturgia da Palavra[6]

a) Ler com atenção cada uma das 7 leituras, liturgia diária, ou no missal. Prestar atenção nas palavras que chamam a nossa atenção…

b) Ler a oração, buscando perceber a conexão que esta faz da leitura com o batismo

c) Por último ler a leitura da carta aos Romanos e o relato da ressurreição segundo Marcos

1ª Leitura de  Gn 1,1-2,2; ou 1,1.26-31 – sobre a criação

Oração: Deus eterno e todo-poderoso,que dispondes de modo admirável todas as vossas obras, dai aos que forem resgatados pelo vosso Filho a graça de compreender que o sacrifício do Cristo, nossa Páscoa, na plenitude dos tempos, ultrapassa em grandeza a criação do mundo realizada no princípio. Por Cristo, nosso Senhor.

2ª  Leitura de Gn 22,1-18 sobre o sacrifício de Abraão

Oração: Ó Deus, Pai de todos os fiéis, vós multiplicais por toda a terra os filhos da vossa promessa, derramando sobre eles a graça da filiação e, pelo mistério pascal, tornais vosso servo Abraão pai de todos os povos, como lhe tínheis prometido. Concedei, portanto, a todos os povos a graça de corresponder ao vosso chamado. Por Cristo, nosso Senhor.

3ª  Leitura de Ex 14,15-15,1 sobre a passagem do mar Vermelho

Oração: Ó Deus, vemos brilhar ainda em nossos dias as vossas antigas maravilhas. Como manifestastes outrora o vosso poder, libertando um só povo da perseguição de Faraó, realizais agora a salvação de todas as nações, fazendo-as renascer nas águas do batismo. Concedei a todos os seres humanos tornarem-se filhos de Abraão e membros do vosso povo eleito. Por Cristo, nosso Senhor.

4ª Leitura de Is 54,5-14 sobre a nova Jerusalém:

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, para a glória do vosso nome, multiplicai a posteridade que prometestes aos nossos pais, aumentando o número dos vossos filhos adotivos. Possa a Igreja reconhecer que já se realizou em grande parte a promessa feita a nossos pais, da qual jamais duvidaram. Por Cristo nosso Senhor.

5ª  Leitura de Is 55,1-11 sobre a “salvação oferecida a todos gratuitamente”

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, única esperança do mundo, anunciastes pela voz dos profetas os mistérios que hoje se realizam. Aumentai o fervor do vosso povo, pois nenhum dos vossos filhos conseguirá progredir na virtude sem o auxílio da vossa graça. Por Cristo, nosso Senhor.

6ª Leitura de Br 3,9-15.31-4,4 sobre “a fonte da sabedoria”

Oração: Ó Deus, que fazeis vossa Igreja crescer sempre mais chamando todos os povos ao Evangelho, guardai sob a vossa proteção os que purificastes na água do batismo. Por Cristo, nosso Senhor.

7ª Leitura de Ez 36,16-28 – sobre “um coração novo e um espírito novo”:

Oração: Ó Deus, força imutável e luz inextinguível, olhai com bondade o mistério de toda a vossa Igreja e conduzi pelos caminhos da paz a obra da salvação que concebestes desde a eternidade. Que o mundo todo veja e reconheça que levanta o que estava caído, que o velho se torna novo e tudo volta à integridade primitiva por aquele que é princípio de todas as coisas. Por Cristo, nosso Senhor.

 Leitura de Rm 6,3-11 o  nosso batismo na morte de Cristo

9. Evangelho de Marcos 16,1-7

A segunda celebração é a do dia da ressurreição,

O que celebramos:

O domingo da ressurreição é celebrado com grande solenidade (PS 97) o dia que o Senhor fez para nós.

Para a oração pessoal:

a) Fazer a Leitura orante do evangelho de João 20,1-18: não só a trecho indicado para este dia [1-10], mas até o versículo 18, que inclui o encontro com Madalena, a discípula amada.

b) Em algum momento do dia, ler com calma, o texto que segue sobre o sentido espiritual deste grande:

Alexandre Schmémann, Olivier Clément [padres da Igreja Oriental]:

Na Páscoa os esponsais são consumados. No Ressuscitado é a humanidade inteira, e o cosmos, que se acham secretamente recriados, transfigurados. Em sua hipóstase divina, portanto perfeita, e pela qual nada de exterior pode existir, o Cristo, através de uma comunhão sem limites, assume todo ser criado e o arrebata em sua ressurreição. […]

Em Cristo sempre vivo e presente no Espírito, cada um de nós morre e ressuscita: “Ontem, eu estava enterrado contigo, ó Cristo; hoje eu acordo contigo, ó Ressuscitado; Salvador, glorifica-me contigo em teu Reino.” A Ressurreição tem um alcance cósmico pois o corpo engloba secretamente o cosmos inteiro. Por isso o universo é chamado a rejubilar-se após ter tremido de um horror sagrado diante da Paixão e do enterro de seu Criador. “Que todo o universo esteja em festa, toda a terra… pois ele ressuscitou, o Cristo, alegria eterna.”

[…] Doravante a vida e a luz nos chegam mesmo pela morte e por todas as situações de morte de nossa existência se as “configuramos” na fé na cruz do Cristo sobre a qual ele venceu a morte. Por isso o mártir é o mais elevado estado místico do cristianismo. […] Não somente a morte está repleta de luz, como também o inferno: “Agora tudo está repleto de luz: o céu, a terra e o inferno.” Deus é tudo em todos. A apocatastase (a salvação universal) é oferecida à humanidade.

Não é, pois, de se impressionar que esses textos tenham fortes ressonâncias escatológicas: a luz da Páscoa é a mesma da Parusia. A Páscoa já é o Oitavo dia em que se inaugura a luz sem declínio. É o “dia do Senhor,” no sentido escatológico de que se reveste esta expressão na Bíblia: “É agora o dia insigne e santo, único nas semanas, o rei e o Senhor dos dias, a festa das festas.” […] O mundo só existe através das existências pessoais: sua transfiguração escatológica, inaugurada em Cristo, deve ser decifrada, assumida, reinventada e difundida pela comunhão dos santos, até que ela tenha atingido seu “pleroma,” conforme uma medida que não é a da história “objetiva,” mas a de Deus.

No Espírito Santo, a luz pascal, vida do Ressuscitado, nos é comunicada pela eucaristia que constitui a Igreja, que a funda sobre o “mistério pascal”: “Vinde, neste dia da Ressurreição, comungar o fruto novo da vinha, a alegria divina, a realeza do Cristo.” Uma vez que a eucaristia nos incorpora ao Ressuscitado, nós podemos, pouco a pouco, por uma ascese de vigilância, nos acordarmos para nossa ressurreição no Ressuscitado, de modo que nós contemplamos conscientemente nossa reunião com ele. […] “Vigiemos até o final do dia; em lugar da mirra, ofereçamos um hino ao Senhor e nós veremos o Cristo, Sol de Justiça, fazer brotar a vida para todos.”


[1] Padre Enrique Bikkesbakke (www.ecclesia.com.br)

[2] Epistula 23, 13. (séc IV)

[3] Epistula 55,24.

[4]Ao longo da Idade Média, em consequência da decadência de toda a liturgia da Igreja, o tríduo pascal passou por tal deformação que o domingo da páscoa já não contava como parte do Tríduo [considerado como tal a quinta, a sexta e o sábado]. O sábado da sepultura desapareceu do horizonte espiritual da Igreja e tomou o lugar do domingo, denominado “Sábado de Aleluia”. Por isso, o papa Pio XII (1876-1958), incentivado pelo movimento litúrgico propôs Reforma da Vigília pascal [1951] a da semana santa [1955]. Entre outras coisas estabeleceu a hora da missa vespertina da ceia do Senhor [não antes das 17 horas] bem como a hora da vigília, de preferência depois da meia noite de sábado para o domingo. Com isto se restabelecia os dias do tríduo pascal: sexta da paixão, sábado da sepultura e domingo da Ressurreição, com seu solene início na noite da quinta [que na contagem da liturgia já pertence ao dia seguinte]. O dia da Quinta-feira santa, portanto, pertente à quaresma, não ao tríduo.

[5] Alexandre Schmémann, Olivier Clément – www.ecclesia.com.br

[6] Este texto foi proposto por padre. Domingos Ormonde, fev 2019

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