A QUARESMA NO ANO LITÚRGICO: SOBRIEDADE, CONVERSÃO E VIDA SACRAMENTAL

A Quaresma é um tempo privilegiado do Ano Litúrgico, no qual a Igreja Católica convida os fiéis a um caminho mais intenso de conversão, por meio da oração, do jejum e da caridade. Não se trata apenas de um período de preparação externa, mas de um verdadeiro itinerário espiritual rumo à celebração da Páscoa do Senhor.

Esse espírito quaresmal deve refletir-se tanto na ambientação do espaço litúrgico quanto na celebração dos sacramentos, ajudando toda a comunidade a viver este tempo com profundidade e sentido.

A decoração da igreja no tempo da Quaresma

De acordo com a tradição litúrgica da Igreja, a Quaresma é marcada por uma estética sóbria e discreta, que favoreça o recolhimento e a escuta da Palavra de Deus.

A cor roxa assume lugar central na liturgia, expressando penitência, vigilância e esperança. As flores, sinal de festa e exultação, são normalmente omitidas, conforme indica a Instrução Geral do Missal Romano, para que o ambiente não antecipe a alegria pascal.

A cruz ganha especial destaque, ajudando os fiéis a contemplarem o caminho de Cristo rumo à sua Paixão. Elementos simples e simbólicos como a Bíblia, tecidos rústicos ou sinais do deserto, podem ser utilizados com moderação, sempre evitando excessos ou enfeites que desviem do sentido espiritual deste tempo.

A Quaresma nos ensina que a verdadeira beleza do espaço litúrgico está na simplicidade que conduz à oração.

A vida sacramental durante a Quaresma

A Igreja recorda que a Quaresma é, por excelência, um tempo penitencial. O Catecismo da Igreja Católica afirma que este período prepara os fiéis para a renovação das promessas batismais, especialmente por meio da penitência e da conversão do coração (cf. CIC, nº 1438).

Por isso, a Igreja recomenda que seja dada atenção especial ao Sacramento da Reconciliação, incentivando os fiéis a se aproximarem da misericórdia de Deus e a restaurarem sua comunhão com Ele e com a comunidade.

Na celebração da Celebração Eucarística, alguns sinais reforçam o caráter próprio da Quaresma: a omissão do hino do Glória (exceto nas solenidades) e a substituição do Aleluia por uma aclamação mais sóbria antes do Evangelho. Esses gestos ajudam a assembleia a viver o tempo da espera e da conversão.

Batismo e Matrimônio na Quaresma

Quanto aos sacramentos do Batismo e do Matrimônio, é importante esclarecer que não existe uma norma canônica ou litúrgica que proíba a sua celebração durante a Quaresma. Ambos podem ser validamente celebrados neste tempo.

O Código de Direito Canônico não proíbe a celebração de nenhum dos dois sacramentos na Quaresma. Do ponto de vista do Direito, ambos são sempre lícitos na Quaresma. Sobre o Batismo, Cân. 856: recomenda que o Batismo seja celebrado no domingo ou, se possível, na Vigília Pascal, mas não impede sua celebração em outros tempos do ano, incluindo a Quaresma. Sobre o Matrimônio, o Cân. 1118 §2 diz que permite a celebração do Matrimônio na igreja ou em outro lugar adequado, sem restrição ligada ao tempo litúrgico.

Quanto ao Catecismo da Igreja Católica (CIC) também não estabelece esta proibição. Ao falar da Quaresma, o CIC a define como tempo penitencial e de preparação para a renovação das promessas batismais (cf. CIC 1438). Ao tratar do Batismo e do Matrimônio, não vincula a validade ou liceidade desses sacramentos a épocas do Ano Litúrgico. Portanto, o CIC explica o sentido espiritual da Quaresma, mas não cria normas proibitivas.

A Instrução Geral do Missal Romano trata principalmente da Eucaristia, não da proibição de sacramentos. Ela determina, por exemplo, uso da cor roxa, omissão do Glória (exceto solenidades), omissão do Aleluia, sobriedade do ambiente. Mas também nele não existe uma nota proibitiva dizendo “É proibido celebrar Batismo ou Matrimônio na Quaresma.” O que o missal traz são orientações litúrgicas e pastorais sobre simplicidade, adequação ao tempo penitencial, coerência entre celebração e Ano Litúrgico.

Uai, então, de onde vem a ideia de “não celebrar”? Ela vem de tradição litúrgica, bom senso pastoral e documentos locais (CNBB, dioceses, paróquias). Isto devido especialmente no caso do Matrimônio, por seu caráter festivo, jubiloso, comunitário, a Igreja recomenda evitar, mas nunca proíbe.

Já o Batismo é até teologicamente ligado à Quaresma, porém, pastoralmente, costuma-se incentivar sua celebração na Vigília Pascal, sem negar o Batismo quando há necessidade.

Resumidamente, não existe norma canônica nem litúrgica universal que proíba a celebração do Batismo ou do Matrimônio durante a Quaresma, seja no Código de Direito Canônico, no Catecismo da Igreja Católica ou no Missal Romano. Contudo, por razões litúrgicas e pastorais, a Igreja recomenda discernimento e, de preferência, que essas celebrações ocorram fora do tempo quaresmal, ou que sejam realizadas com sobriedade, respeitando o caráter penitencial deste período.

Esses sacramentos, especialmente o Matrimônio, possuem caráter marcadamente festivo e jubiloso. Quando, por necessidade pastoral, o Batismo ou o Matrimônio forem celebrados na Quaresma, orienta-se que a celebração aconteça com maior simplicidade, respeitando o espírito penitencial do tempo litúrgico, tanto na ornamentação quanto na música e nos demais elementos celebrativos.

Essa orientação não diminui a importância nem a alegria própria dos sacramentos, mas ajuda a preservar a harmonia entre a celebração sacramental e o mistério do tempo litúrgico vivido pela Igreja.

Um caminho que conduz à Páscoa

Viver a Quaresma é aceitar o convite de Deus a retomar o essencial, a purificar o coração e a fortalecer a fé. A sobriedade do espaço litúrgico e o cuidado com a vida sacramental ajudam a comunidade a caminhar unida, preparando-se para celebrar com alegria renovada a Ressurreição do Senhor.

Que este tempo santo seja, para todos nós, uma verdadeira experiência de conversão e esperança.


PAINEL LITÚRGICO DO TEMPO DA QUARESMA

Arte de Cláudio Pastro
Produção e comercialização: Apostolado Litúrgico
Tamanho: 125×130 cm

O Painel Litúrgico do Tempo da Quaresma integra o conjunto dos Painéis Litúrgicos do Ciclo Pascal e foi concebido como instrumento de oração, catequese e participação no mistério celebrado pela Igreja. Mais do que uma ilustração bíblica, trata-se de uma obra que introduz a assembleia no caminho espiritual da Quaresma, compreendida como etapa fundamental da caminhada pascal.

A Quaresma é o tempo em que a Igreja intensifica, por meio da oração, do jejum e da esmola, a vivência da aliança com Deus. Longe de ser apenas um período marcado pela penitência, ela é, essencialmente, um tempo de preparação para a Páscoa, no qual somos convidados a “esperar na alegria a santa Páscoa”. Nesse sentido, o painel resgata o verdadeiro conteúdo quaresmal: a experiência pascal de passagem da morte para a vida, do pecado para o amor, da escravidão para a liberdade.

A obra evidencia que Quaresma e Páscoa formam uma unidade inseparável. Ainda que, no tempo quaresmal, se acentue o aspecto da cruz e, na Páscoa, o da ressurreição, existe um único centro que unifica toda a caminhada: o mistério pascal de Cristo. Assim, toda conversão vivida na Quaresma é já participação na Páscoa do Senhor.

Esse conteúdo pascal da Quaresma é visualmente indicado pelas cores ouro queimado e branco e pela faixa central do painel, onde aparece Cristo, servo e rei, entrando em Jerusalém para celebrar sua paixão, morte e ressurreição, simbolizadas pelas três cruzes. O verde-esperança, associado ao Domingo de Ramos, evoca a esperança messiânica finalmente cumprida no servo Jesus, bendito aquele que vem em nome do Senhor.

No centro da composição está Cristo que caminha com o povo. Ele não aparece isolado, mas profundamente ligado à humanidade, conduzindo, sustentando e reunindo. Trata-se do Cristo novo Moisés, Bom Pastor e Servo sofredor, que assume a condição humana e percorre com ela o caminho da fidelidade ao Pai. A Quaresma, assim, é apresentada como seguimento, não como esforço individual, mas como experiência comunitária de fé.

A Quaresma faz memória da caminhada do povo de Deus durante os quarenta anos no deserto. Essa trajetória é visualizada na faixa correspondente, que destaca momentos fundamentais da história da salvação:
– a aliança de Deus com Noé após o dilúvio – Gn 9,8-15;
– a fé de Abraão e a entrega de Isaac – Gn 22,1-18 e 15, 5-18;
– o chamado de Moisés na sarça ardente – Ex 3,1 – 8a; 13-15;
– a entrega da Lei no Sinai – Ex 20,1-17;
– a deportação e o novo êxodo após o exílio da Babilônia – Is 43, 16-21; 2Cr 36,14-23.

Ao mesmo tempo, a Quaresma é sobretudo a recordação dos quarenta dias de Jesus no deserto e de sua doação total até a morte. Por isso, outra faixa do painel evidencia as cenas proclamadas nos primeiros domingos quaresmais — a tentação de Jesus e sua transfiguração — e, a partir do terceiro domingo, o itinerário batismal do Ano A, representado pelas figuras da Samaritana, do cego de nascença e de Marta, que expressam a profissão de fé e o caminho de iluminação dos que se preparam para a Páscoa.

Elementos da realidade contemporânea também estão presentes na composição. O sofrimento humano, o trabalho pesado, as estruturas de opressão e os sinais de morte do mundo atual são colocados em diálogo com a Paixão de Cristo. Dessa forma, o painel recorda que a Quaresma não é fuga da realidade, mas leitura da vida à luz da cruz, compromisso concreto de transformação e fidelidade ao Evangelho.

A faixa lilás, em sintonia com o sentido da Campanha da Fraternidade, reforça que a prática quaresmal da oração, do jejum e da caridade ganha um conteúdo renovado de solidariedade, justiça e compromisso social, convidando a transformar sinais de morte em sinais de vida e salvação.

Apesar da sobriedade própria do tempo quaresmal, o painel não se apresenta como uma obra triste ou sombria. Há movimento, comunhão e esperança. A cruz está presente, mas já iluminada pela tensão pascal que aponta para a ressurreição, recordando que a caminhada quaresmal conduz inevitavelmente à alegria da Páscoa.

Do ponto de vista litúrgico, o painel destina-se à ambientação celebrativa e à catequese visual da assembleia. Pode ser colocado em espaço lateral do presbitério, sem competir com o altar, o ambão ou a cruz; próximo ao ambão, em diálogo com a Palavra proclamada; ou em outros espaços celebrativos adequados durante o Tempo da Quaresma. Sua função não é decorativa, mas mistagógica: favorecer a oração, a contemplação e a participação consciente no mistério celebrado.

Produzido e comercializado pelas Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre, por meio do Centro de Apostolado Litúrgico, o Painel Litúrgico da Quaresma expressa uma concepção de arte a serviço da liturgia, em plena sintonia com a renovação promovida pelo Concílio Vaticano II. É uma obra pensada para ajudar a Igreja a celebrar, educar e rezar, conduzindo a comunidade a viver a Quaresma como verdadeiro caminho pascal.




1º DOMINGO DA QUARESMA: “ENTÃO JESUS FOI CONDUZIDO PELO ESPÍRITO AO DESERTO”.

1º Domingo da Quaresma – Ano A (Domingo, 22 de fevereiro de 2026)
“Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto” (Mt 4,1)

Hoje, omite-se a Festa de Cátedra de São Pedro, Apóstolo

Leituras: Gn 2,7-9.3,1-7 | Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a) | Rm 5,12-19 ou mais breve 5,12.17-19 | Mt 4,1-11

A liturgia deste primeiro domingo da Quaresma coloca-nos, de modo muito direto, aos pés do Evangelho: Jesus no deserto, tentado, faminto, vulnerável e profundamente unido ao Pai. É a partir daqui que a Igreja nos propõe um caminho de fé e de vida para este tempo santo.

O deserto não é apenas um lugar geográfico. No Evangelho, ele é espaço de verdade. Longe das distrações, caem as máscaras, revelam-se as tentações mais profundas: transformar pedras em pão, usar Deus em proveito próprio, trocar a fidelidade por poder e glória. São tentações antigas, mas muito atuais. Também nós, neste início da Quaresma, somos convidados a reconhecer onde colocamos a nossa segurança, de que “pão” vivemos e que voz realmente escutamos.

As leituras dialogam entre si de forma impressionante. No Gênesis, a escuta distorcida da palavra leva à ruptura; no Salmo 50, brota o grito humilde de quem reconhece o próprio pecado; São Paulo recorda que, onde abundou o pecado, superabundou a graça; e, no Evangelho, Cristo mostra que a obediência confiante à Palavra gera vida. A Quaresma nasce exatamente neste cruzamento: entre a fragilidade humana e a fidelidade de Deus.

Neste horizonte, ganha especial força a mensagem quaresmal do Papa Papa Leão XIV, que nos propõe dois eixos simples e exigentes: escutar e jejuar. Escutar, antes de tudo, a Palavra de Deus, deixando que ela nos alcance e nos converta. Jesus vence as tentações não com argumentos brilhantes, mas com a Palavra acolhida, guardada e vivida. Também nós somos chamados a dar espaço à escuta: na liturgia, na oração pessoal, mas também no clamor dos pobres, dos feridos, dos esquecidos.

O jejum, por sua vez, aparece como uma prática concreta que educa o desejo. Não apenas a abstinência de alimentos, mas um estilo de sobriedade que nos devolve o essencial. O Papa propõe um gesto muito concreto e profundamente evangélico: jejuar das palavras que ferem. Num mundo marcado por discursos agressivos, julgamentos rápidos e linguagem que exclui, este jejum torna-se um verdadeiro exercício de conversão. No deserto do silêncio e da mansidão, aprendemos a falar como Jesus e a escutar como Deus escuta.

A Quaresma, porém, não é um caminho solitário. A liturgia e a mensagem do Papa insistem na dimensão comunitária: escutar juntos, jejuar juntos, converter-nos juntos. As nossas comunidades são chamadas a tornar-se espaços onde a Palavra gera discernimento, o jejum produz justiça e a escuta abre caminhos de libertação.

Neste primeiro domingo da Quaresma, peçamos a graça de caminhar com Cristo no deserto, não para nos perdermos, mas para reencontrar o essencial. Que este tempo seja, para todos nós, uma escola de escuta, um treino do coração e um passo firme no caminho da conversão que conduz à Páscoa.



Da escuta à fraternidade: a Quaresma que se traduz em compromisso

O caminho quaresmal iniciado com Jesus no deserto não se encerra numa experiência intimista ou apenas espiritual. A escuta da Palavra e o jejum que educa o desejo conduzem necessariamente a uma fé encarnada, que toca a realidade e se expressa em gestos concretos de fraternidade. É neste horizonte que se insere, de modo muito oportuno, a Campanha da Fraternidade 2026.

A liturgia deste domingo ensina que a verdadeira fidelidade a Deus passa pela escolha do essencial. Jesus recusa o pão fácil, o espetáculo religioso e o poder dominador, permanecendo fiel à Palavra do Pai. Essa mesma lógica ilumina a Campanha da Fraternidade, que convida a Igreja no Brasil a olhar para a realidade com os olhos de Cristo e a reconhecer que Deus “veio morar entre nós”, fazendo-se próximo das fragilidades humanas e das feridas sociais.

Em sintonia com a mensagem quaresmal do Papa Papa Leão XIV, a Campanha recorda que escutar a Palavra de Deus implica escutar o clamor dos pobres. A Palavra proclamada na liturgia abre os nossos ouvidos para perceber as vozes silenciadas, as situações de exclusão e as formas de indignidade que atingem tantos irmãos e irmãs. Não se trata de um acréscimo à fé, mas de uma consequência direta da conversão quaresmal.

Também o jejum, tão central neste tempo, ganha densidade à luz da Campanha da Fraternidade. Jejuar não é apenas abster-se de algo, mas rever estilos de vida, atitudes e relações. Jejuar do egoísmo, da indiferença e das palavras que ferem cria espaço para a solidariedade, para o cuidado e para o compromisso com a dignidade humana. Assim, o jejum torna-se uma prática que educa o coração para a justiça e para a fraternidade.

Desta forma, a Quaresma e a Campanha da Fraternidade caminham juntas como um único itinerário: conversão pessoal e transformação social, oração e ação, escuta de Deus e cuidado com o próximo. As nossas comunidades são chamadas a viver este tempo como oportunidade de amadurecimento da fé, tornando-se sinais vivos de um Deus que não permanece distante, mas habita no meio do seu povo.

Que este tempo quaresmal nos ajude a unir o deserto interior ao compromisso fraterno, para que, caminhando rumo à Páscoa, possamos testemunhar com a vida que a Palavra escutada gera comunhão, justiça e esperança.




Papa Leão XIV convida fiéis a “escutar e jejuar” e propõe jejum de palavras ofensivas na Quaresma

O Papa Leão XIV divulgou, no dia 5 de fevereiro de 2026, a sua Mensagem para a Quaresma intitulada “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão”. Nela ele convida os fiéis a reencontrar o mistério de Deus no centro da vida e a viver a temporada quaresmal como um verdadeiro tempo de transformação espiritual.

A Quaresma, que terá início na Quarta-feira de Cinzas, em 18 de fevereiro, é apresentada pelo Pontífice como um período privilegiado para renovar a fé, abrir o coração à Palavra de Deus e aprofundar o compromisso de seguir Jesus no caminho que leva à Páscoa.

Na mensagem, o Papa destaca que a escuta da Palavra deve ser a base da vida espiritual quaresmal. Segundo o texto, ouvir a Deus e ao próximo é essencial para compreender melhor a realidade e responder ao sofrimento e às injustiças que marcam a vida das pessoas. Ele recorda que Deus mesmo, ao revelar-se a Moisés, manifesta a importância da escuta nesse diálogo de amor e libertação.

O Pontífice ressaltou que o jejum tradicional não deve ser visto apenas como abstinência de alimentos, mas como um meio para descobrir aquilo que realmente nos alimenta: a sede de justiça, a responsabilidade para com o outro e o desejo de vivenciar mais profundamente a fé.

Desafiando os fiéis a repensar a própria forma de jejuar, Leão XIV propôs uma perspectiva inédita: o jejum de palavras que ferem o próximo. Em vez de comentários ofensivos, calúnias ou julgamentos precipitados, o Papa pede que os cristãos cultivem a gentileza e o respeito — tanto nas relações pessoais quanto nas redes sociais, nos debates públicos e na convivência comunitária.

“Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário e ao falar mal de quem está ausente” — escreve o Pontífice, sugerindo que palavras de ódio cedam lugar a palavras de esperança e de paz.

A mensagem aponta também para a dimensão comunitária da Quaresma: mais do que um empenho individual, o tempo quaresmal é visto como um caminho a ser trilhado em conjunto — em paróquias, famílias e comunidades cristãs. A escuta da Palavra e o jejum tornam-se, assim, práticas que fortalecem relações, promovem o diálogo e abrem os corações à solidariedade com os mais necessitados.

O Papa conclui a mensagem pedindo graça para que este tempo seja vivido com mais atenção a Deus e aos “últimos”, fazendo das comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido com respeito e amor.


Leia a mensagem na íntegra: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/lent/documents/20260205-messaggio-quaresima.html



O CARNAVAL E O SENTIDO PARA A COMUNIDADE CRISTÃ

O Carnaval é uma das manifestações culturais mais marcantes do Brasil e de outros países, reconhecido por sua alegria, música e expressão popular. Para as comunidades cristãs, porém, essa celebração carrega um significado mais profundo, que vai além da festa em si e está diretamente ligado ao calendário litúrgico e à vivência da fé.

Historicamente, o Carnaval acontece imediatamente antes da Quarta-feira de Cinzas, que inaugura a Quaresma, período de quarenta dias dedicado à oração, à penitência, ao jejum e à preparação espiritual para a Páscoa. O próprio termo “Carnaval”, derivado da expressão latina carne vale (“adeus à carne”), remete à ideia de despedida dos excessos e de transição para um tempo de maior recolhimento e disciplina espiritual. Nesse sentido, o Carnaval não deveria ser compreendido apenas como um momento de indulgência, mas como uma etapa que antecede e prepara o coração para a conversão quaresmal.

Para as comunidades cristãs, o verdadeiro significado do Carnaval está no discernimento e no equilíbrio. Alguns fiéis optam por participar das celebrações culturais de maneira moderada, valorizando o convívio social, a alegria saudável e o respeito ao próximo. Nessa perspectiva, o Carnaval pode ser vivido como um tempo de lazer responsável, sem que isso signifique abandono dos valores cristãos.

Outros cristãos, por sua vez, escolhem viver esse período de forma mais introspectiva, afastando-se da folia para participar de retiros espirituais, encontros de oração e momentos de reflexão. Essas iniciativas são comuns em diversas igrejas e oferecem um espaço de silêncio, escuta da Palavra e renovação da fé, ajudando os fiéis a iniciar a Quaresma de maneira consciente e profunda.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que muitas comunidades cristãs enxergam o Carnaval de forma crítica, especialmente quando ele é associado a excessos, comportamentos irresponsáveis e atitudes que ferem a dignidade humana. Para esses grupos, práticas como o abuso de álcool, a banalização do corpo e a perda do autocontrole entram em conflito com princípios centrais do cristianismo, como a moderação, o respeito e o cuidado com o outro.

Dessa forma, o Carnaval pode ser compreendido pelas comunidades cristãs não como um fim em si mesmo, nem apenas como algo a ser rejeitado, mas como um convite à consciência espiritual. Ele se torna uma oportunidade para refletir sobre escolhas, limites e prioridades, preparando o coração para o tempo quaresmal que se aproxima.

Em essência, o que o Carnaval deveria significar para os cristãos é um chamado ao equilíbrio entre alegria e responsabilidade, liberdade e compromisso, celebração e fé. Vivido dessa maneira, ele deixa de ser apenas uma festa cultural e passa a ser um momento de transição, no qual cada fiel é convidado a alinhar sua vida com os ensinamentos de Cristo e a se preparar, de forma sincera, para a renovação espiritual que a Quaresma propõe.

Que tipo de consciência espiritual devo viver o contexto do Carnaval?

A consciência espiritual, no contexto do Carnaval, não é moralismo nem simples rejeição da festa. Ela é, antes de tudo, discernimento. Trata-se da capacidade de o cristão se perguntar, com honestidade: O que isso desperta em mim? Isso me aproxima ou me afasta do amor a Deus e ao próximo? Como minhas escolhas afetam meu corpo, minha fé e as outras pessoas?

Essa consciência envolve três dimensões principais. A primeira delas é a Consciência de si. O cristão é convidado a reconhecer seus próprios limites, desejos e fragilidades. O Carnaval pode intensificar emoções, impulsos e excessos. E a consciência espiritual ajuda a perceber quando a alegria deixa de ser saudável e passa a ser fuga, anestesia ou autodestruição. Aqui, espiritualidade não é repressão, mas autocuidado e verdade interior.

A segunda é Consciência do outro. A fé cristã nunca é apenas individual. Ter consciência espiritual é perguntar: Estou respeitando a dignidade do outro? Meu comportamento contribui para a vida, para o bem comum, para relações mais humanas?

Isso toca temas como respeito ao corpo, consentimento, cuidado com os mais vulneráveis e rejeição de qualquer forma de violência ou exploração, realidades que também atravessam o Carnaval.

E, por fim, a Consciência do tempo litúrgico. O Carnaval não está “fora” da vida cristã: ele antecede a Quaresma. A consciência espiritual reconhece esse tempo de passagem. Não é só “antes da Quaresma”, mas um limiar, um convite a desacelerar e a preparar o coração para a conversão.

Ver o Carnaval assim, comporta admitir o seu caráter complexo, como todas as coisas, nos ajuda a recusar visões simplistas como “É tudo pecado” ou “É tudo liberdade e alegria”. A realidade é mais profunda.

Temos que admitir que o carnaval é cultural, social e histórico. Ele carrega expressões legítimas de alegria popular, de resistência cultural, de vozes de comunidades marginalizadas e de muita arte, música, identidade e crítica social. Ignorar isso é empobrecer a leitura cristã do mundo. A fé não vive fora da cultura: ela dialoga com ela.

O Carnaval também revela contradições humanas. Ao mesmo tempo, ele expõe excessos, desigualdades, mercantilização dos corpos, fugas emocionais e espirituais. Uma leitura cristã madura não nega essas sombras, mas também não reduz toda a festa a elas.

Ver este fenômeno do Carnaval valorizando a sua complexidade exige discernimento, não julgamento. Jesus não se afastava da realidade humana por medo do pecado. Pelo contrário, Ele entrava nela com misericórdia e verdade. Ver o Carnaval com complexidade é fazer o mesmo: nem romantizar, nem demonizar, mas discernir.

Em síntese, para as comunidades cristãs, o Carnaval pode ser visto como:

  • Um espelho da condição humana: sede de alegria, liberdade, sentido
  • Um tempo de escolhas conscientes, não automáticas
  • Um convite à responsabilidade espiritual, pessoal e comunitária
  • Um limiar entre a festa e o silêncio, entre o exterior e o interior

Viver o Carnaval com consciência espiritual é perguntar menos “posso ou não posso?” e mais “isso me humaniza? Isso me aproxima do amor?”




LITURGIA DO DOMINGO: “VIVER A LEI DO CORAÇÃO” – 6º DOMINGO DO TEMPO COMUM, ANO A

Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
6º Domingo do Tempo Comum, Ano A

Leituras: Eclo 15,16-21 | Sl 18(119),1-2.4-5.17-18.33-34 (R. 1) | 1Cor 2,6-10 | Mt 5,17-37 ou mais breve 5,20-22a.27-28.33-34a.37

Neste domingo, o Evangelho nos apresenta uma palavra exigente, mas profundamente libertadora. Jesus diz com clareza: “Não vim abolir a Lei ou os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento.” Isso significa que Deus não deseja apenas que façamos o que é correto por fora, mas que aprendamos a viver a fé a partir do coração.

Nos domingos anteriores, a liturgia nos ajudou a compreender quem somos e para que somos chamados. Primeiro, escutamos as Bem-aventuranças, que nos revelaram o coração do discípulo: pobre, misericordioso, manso, comprometido com a justiça. Depois, fomos lembrados de que somos sal da terra e luz do mundo, chamados a dar sabor e esperança à vida das pessoas. Hoje, Jesus nos ensina como viver tudo isso no dia a dia.

Ele nos mostra que cumprir a Lei não é apenas evitar o erro, mas escolher o bem desde a raiz. Por exemplo: não basta dizer “eu nunca matei ninguém” se guardamos rancor, mágoa ou desprezo no coração. Quantas vezes evitamos o diálogo, mantemos silêncio por orgulho ou alimentamos divisões dentro da família, da comunidade ou do trabalho? Jesus nos chama à reconciliação, porque o amor começa quando damos o primeiro passo para reconstruir relações.

Da mesma forma, Jesus fala da verdade. Não basta falar corretamente se o coração está dividido. Isso toca nossa vida cotidiana quando prometemos algo e não cumprimos, quando dizemos “sim” por conveniência e “não” apenas em pensamento, ou quando usamos palavras para agradar, mas não para ser verdadeiros. O Evangelho nos convida a uma vida mais simples e coerente, onde a palavra reflita aquilo que realmente somos.

Esses exemplos nos ajudam a perceber que Jesus não está propondo uma religião de aparências. Ele nos alerta para o risco de viver uma fé superficial, feita apenas de gestos externos, sem conversão interior. Hoje, muitas vezes estamos ocupados demais, cheios de tarefas, estímulos e preocupações, até mesmo na vida religiosa. Falta-nos tempo para escutar o coração, para silenciar, para deixar Deus nos falar. E quando perdemos esse espaço interior, nossas atitudes se tornam automáticas e nossas relações, frágeis.

As outras leituras reforçam essa mensagem. O livro do Eclesiástico nos lembra que Deus nos dá liberdade: somos nós que escolhemos entre a vida e a morte, entre o bem e o mal. O salmo afirma que é feliz quem guarda a Palavra de Deus no coração, não por obrigação, mas por amor. São Paulo nos recorda que só o Espírito Santo pode nos ajudar a compreender o que Deus espera de nós, porque Ele conhece as profundezas do coração humano.

Este domingo nos prepara para a Quaresma, que está próxima. Mais do que pensar em sacrifícios externos, somos convidados a olhar para dentro. Que atitudes precisam ser transformadas? Que relações precisam ser curadas? Que palavras precisam ser purificadas? A conversão começa quando permitimos que Deus toque o coração e nos ensine a viver com mais verdade, mais misericórdia e mais coerência.

Seguir Jesus é aprender a viver uma fé que transforma a vida concreta: no modo como falamos em casa, como tratamos as pessoas, como resolvemos conflitos e como tomamos decisões. Que a liturgia de hoje nos ajude a dar esse passo, preparando-nos para uma Quaresma vivida não apenas por fora, mas no mais profundo do nosso coração.


Mensagem do Papa Leão para a Quaresma: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/lent/documents/20260205-messaggio-quaresima.html




IR. M. KAINA BARBOSA DA SILVA RENOVA OS VOTOS RELIGIOSOS NA COMUNIDADE PAULO APÓSTOLO

No dia 11 de fevereiro de 2026, a Ir. M. Kaina Barbosa da Silva renovou, pela segunda vez, seus votos religiosos, em uma celebração marcada pela fé, gratidão e esperança. A Eucaristia aconteceu na capela da Comunidade Paulo Apóstolo, no bairro da Liberdade (SP), e foi presidida pelo Pe. Antônio Iraildo Alves de Brito, ssp.

O momento reuniu irmãs e jovens das comunidades de São Paulo e Cooperadores Paulinos, que participaram com alegria deste passo significativo na caminhada vocacional da Ir. M. Kaina, fortalecendo os laços de comunhão e pertença na Família Paulina.

Em sua homilia, o Pe. Iraildo recordou o Conselho de Instituto (“Olha para o céu e conta as estrelas…” (Gn 15,5) – Transformar a fragilidade em um caminho gerador) e, inspirado pelas leituras da liturgia do dia — 1Rs 10,1-10; Sl 36(37); Mc 7,14-23, da 5ª Semana do Tempo Comum —, o celebrante destacou três movimentos fundamentais para a vida cristã e religiosa: olhar para o alto, para o coração e para o outro.

Ao refletir sobre o “olhar para o alto”, o sacerdote recordou a importância da transcendência e da esperança, mesmo em tempos de fragilidade e incerteza. Assim como Abraão é convidado a contemplar as estrelas, a vida consagrada é chamada a não se limitar a uma visão estreita da realidade, mas a confiar na promessa de Deus.

O “olhar para o coração”, à luz do Evangelho, foi apresentado como um convite à conversão interior. O Pe. Iraildo alertou para o risco do endurecimento espiritual e de uma religiosidade apenas exterior, lembrando que é do coração que brotam as atitudes que constroem ou destroem a vida.

Por fim, o “olhar para o outro” foi iluminado pela parábola do bom samaritano, destacando a centralidade da pessoa, do cuidado e da proximidade. Em um mundo marcado por diferentes formas de adoecimento, a vida religiosa é chamada a ser sinal de compaixão, presença e compromisso.

A renovação dos votos da Ir. Kaina Barbosa tornou-se, assim, um sinal concreto de um coração apaixonado, disponível para Deus e para a missão, com um olhar que levanta, cuida e gera vida.

Que este testemunho fortaleça a caminhada vocacional e missionária da Família Paulina, inspirando muitos a olhar para o alto, para dentro e para o outro, com fé e esperança.

Leia ou escute, na íntegra, a homilia do Pe. Iraildo:




CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026: IGREJA DO BRASIL CONVOCA REFLEXÃO SOBRE MORADIA DIGNA

Com o início da Quaresma de 2026, a Igreja Católica no Brasil lança oficialmente a Campanha da Fraternidade (CF) 2026, que este ano traz como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14). A iniciativa, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida comunidades, paróquias e a sociedade em geral a olhar para a questão da moradia como um direito humano fundamental e expressão concreta da fé cristã.

A escolha do tema foi motivada pela Pastoral da Moradia e Favela e acolhida pelo Conselho Episcopal Pastoral da CNBB. Segundo o padre Jean Poul Hansen, assessor do Setor de Campanhas, o lema, inspirado no mistério da Encarnação, ilumina o debate social e espiritual: “Deus veio morar entre nós, e isso fundamenta a dimensão social da nossa fé”, recordando que a presença de Cristo entre os mais pobres pede um compromisso de atenção e cuidado com quem vive na vulnerabilidade.

No Brasil, milhões de famílias enfrentam o desafio de não ter acesso a uma moradia adequada, seja por déficit habitacional, condições precárias de infraestrutura ou exclusão social. A CF 2026 coloca essa realidade no centro da reflexão quaresmal, articulando fé, justiça e cidadania. A escolha do tema não é apenas simbólica: ela chama a atenção para a urgência de políticas públicas, ações comunitárias e compromisso pessoal com a dignidade humana, promovendo respostas concretas às necessidades mais básicas da população.

A Campanha da Fraternidade é tradição da Igreja no Brasil desde 1964 e ocorre todos os anos durante a Quaresma, um tempo litúrgico de conversão, solidariedade e compromisso com o próximo. A cada edição, a campanha propõe um tema que ajude a comunidade cristã a ver realidades sociais importantes à luz do Evangelho, julgar com valores cristãos e agir no mundo para promover mudanças concretas.

Em 2026, refletir sobre moradia digna é falar de uma necessidade humana básica — que acolhe a vida, protege as famílias e garante condições essenciais para que pessoas possam viver com segurança, saúde e esperança. Para a Igreja, essa reflexão não é externa à fé: ela está profundamente ligada ao mandamento do amor ao próximo e ao exemplo de Jesus, que se fez presença entre os pobres e excluídos.

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Site da CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026

A Campanha da Fraternidade e a Quaresma

A Quaresma é um tempo litúrgico marcado por conversão, escuta da Palavra, oração, jejum e caridade. Desde 1964, a Igreja no Brasil escolheu viver esse tempo também como um período de compromisso comunitário, no qual a fé se traduz em atitudes concretas de amor ao próximo. É nesse contexto que nasce e se desenvolve a Campanha da Fraternidade.

A CF ajuda os fiéis a perceber que a conversão quaresmal não é apenas interior ou individual, mas também social e comunitária. Ao propor um tema concreto a cada ano, a Campanha convida a Igreja a olhar para uma realidade específica da sociedade, à luz do Evangelho, e a perguntar: o que Deus nos pede diante dessa situação?

A Campanha da Fraternidade dialoga diretamente com os três pilares tradicionais da Quaresma:

  • Oração: o tema da CF é incorporado às celebrações, preces, momentos de reflexão e vias-sacras, ajudando a comunidade a rezar a partir das dores, esperanças e desafios do povo.
  • Jejum: entendido não apenas como abstinência, mas como mudança de mentalidade, sobriedade de vida e abertura ao outro, questionando estruturas de pecado e indiferença.
  • Caridade: vivida de modo concreto, especialmente por meio da Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, que expressa liturgicamente o compromisso com os mais pobres.

A CF não substitui a liturgia nem cria um “tema paralelo” ao ano litúrgico. Pelo contrário, ela brota da liturgia quaresmal e a ajuda a dialogar com a vida. As leituras bíblicas da Quaresma, que falam de conversão, justiça, misericórdia e reconciliação, encontram eco nos temas da Campanha. Por isso, a CF pode ser integrada à vida litúrgica por meio de preces dos fiéis, das homilias, símbolos discretos e pedagógicos, cantos e momentos orantes, sempre respeitando as normas litúrgicas e a centralidade do Mistério Pascal.

A Campanha da Fraternidade recorda que não existe separação entre fé e vida. Celebrar a Quaresma é preparar o coração para a Páscoa, mas também assumir um compromisso com a transformação do mundo, começando pelas realidades mais feridas da sociedade. Assim, ao unir espiritualidade, liturgia e compromisso social, a Campanha da Fraternidade ajuda a Igreja a viver a Quaresma como um verdadeiro caminho de conversão pessoal, comunitária e social, em sintonia com o Evangelho e com a missão de Jesus.

Para além da reflexão: gestos e ações concretas

A Campanha da Fraternidade não se limita à reflexão teológica ou pastoral. Ela convida comunidades e fiéis a assumirem compromissos concretos, por meio de iniciativas que promovem a solidariedade, fortalecem vínculos comunitários e incentivam a participação social. Entre essas ações estão o apoio a projetos sociais, a promoção de debates locais e o engajamento em políticas públicas voltadas à superação da pobreza e da exclusão. Trata-se de uma oportunidade para viver, de modo concreto, o espírito da fraternidade cristã, traduzindo a fé em gestos que transformam realidades.

Nesse contexto, destaca-se o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), cuja principal fonte de recursos é a Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos. Criado em 1998, o FNS tornou-se um importante instrumento de apoio a iniciativas que enfrentam situações de pobreza e miséria em todo o país. Do total arrecadado, 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela CNBB, enquanto 60% permanecem nas dioceses de origem, constituindo os Fundos Diocesanos de Solidariedade (FDS), voltados ao apoio de projetos locais de enfrentamento da exclusão social.

A animação e a gestão do FNS estiveram sob a responsabilidade da Cáritas Brasileira entre 1999 e 2014. Atualmente, essa missão é assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que também é a promotora da Campanha da Fraternidade e da Coleta da Solidariedade. Cabe ao Departamento Social da CNBB, em conjunto com o Conselho Gestor do FNS-CNBB, a responsabilidade pelos processos de recebimento, análise, aprovação e acompanhamento dos projetos apoiados.

As instituições interessadas em submeter projetos devem estar em conformidade com o Edital do Fundo Nacional de Solidariedade, disponível no site fns.cnbb.org.br. O cadastro é realizado de forma eletrônica, por meio do sistema indicado, com o preenchimento de todas as informações solicitadas. Após o envio, os projetos passam pela avaliação do Conselho Gestor, e as instituições proponentes podem acompanhar, pelo próprio sistema, todas as etapas do trâmite.



Referências para o texto:

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL.
CNBB lança cartaz da Campanha da Fraternidade 2026 com foco na moradia digna. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/cnbb-lanca-cartaz-da-campanha-da-fraternidade-2026-com-foco-na-moradia-digna/. Acesso em: 29 jan. 2026.

VATICAN NEWS.
Campanha da Fraternidade 2026 propõe reflexão sobre moradia digna no Brasil. Vaticano, 2025. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-12/maristas-brasil-acao-campanha-fraternidade-2026.html. Acesso em: 29 jan. 2026.

PASTORAL NACIONAL DO SOLO E DA MORADIA.
Conheça a Campanha da Fraternidade 2026. Brasília, 2025. Disponível em: https://pnsg.org.br/conheca-a-campanha-da-fraternidade-para-2026/. Acesso em: 29 jan. 2026.

PARÓQUIA SÃO JOÃO BATISTA.
Campanha da Fraternidade 2026. [S.l.], 2025. Disponível em: https://www.paroquiasaojoaobatista.org/igreja-em-acao/campanhas/campanha-da-fraternidade/campanha-da-fraternidade-2026. Acesso em: 29 jan. 2026.





PIAS DISCÍPULAS DO DIVINO MESTRE CELEBRAM 102 ANOS DE FUNDAÇÃO

No dia 10 de fevereiro, data em que a Igreja celebra Santa Escolástica, as Pias Discípulas do Divino Mestre comemoram 102 anos de fundação. A congregação foi fundada pelo Bem-aventurado Padre Tiago Alberione, que escolheu simbolicamente essa data para dar início a uma nova expressão de vida consagrada a serviço da Igreja.

Inspirado pela espiritualidade beneditina de Santa Escolástica — irmã de São Bento —, Padre Alberione confiou às Pias Discípulas uma missão profundamente enraizada na centralidade da Eucaristia, na oração litúrgica e no serviço apostólico, em comunhão com toda a Família Paulina.

Neste ano de 2026, a celebração dos 102 anos é iluminada pelo tema bíblico “Olha para o céu e conta as estrelas” (Gn 15,5), escolhido pelo Conselho do Instituto, realizado nas Filipinas entre 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. A imagem evoca o chamado feito por Deus a Abraão, convidando-o a sair da tenda para ampliar o olhar e confiar na promessa divina.

O tema também retoma o caminho indicado pelo 10º Capítulo Geral, que propõe como horizonte para o sexênio as “estrelas” da interculturalidade, da missão, do discernimento como estilo de vida e da formação integral e contínua. São luzes que orientam a vida e a missão da Congregação no contexto atual da Igreja e do mundo.

Celebrar mais de um século de história é, para as Pias Discípulas do Divino Mestre, um tempo de gratidão, memória agradecida e renovação do compromisso vocacional. Como recordava o fundador, os desígnios de Deus sobre a Congregação sempre foram claros e conduzidos para a maior glória de Deus e a santificação de suas integrantes.

Ao completar 102 anos, a Congregação renova o seu desejo de “olhar para o céu”, deixar-se conduzir por Deus, transformar as fragilidades em fecundidade e seguir adiante com esperança, permanecendo fiel à missão recebida na Igreja: ser discípulas íntimas de Jesus Mestre, a serviço do seu Corpo Místico, hoje e sempre.



Gn 15,5 – A promessa que nasce sob o céu estrelado

Em Gn 15,5, somos conduzidos a uma das cenas mais decisivas de toda a revelação bíblica. Deus leva Abraão para fora e o convida a erguer os olhos ao céu: “Olha para o céu e conta as estrelas, se és capaz de as contar. Assim será a tua descendência.” A promessa é proclamada justamente no momento em que tudo parece humanamente impossível. Abraão é idoso, Sara é estéril e o futuro parece fechado. É nesse contexto de limite que Deus abre um horizonte novo.

O gesto de “levar para fora” não é apenas físico, mas profundamente simbólico. Abraão é retirado do espaço estreito de seus cálculos e medos para contemplar o cosmos, sinal da grandeza e da fidelidade do Criador. O convite a olhar o céu não é um simples ato de observação, mas um chamado à contemplação: diante da imensidão das estrelas, Abraão reconhece seus limites e, ao mesmo tempo, a potência da palavra divina.

As estrelas, incontáveis aos olhos humanos, tornam-se imagem de uma promessa que ultrapassa toda lógica natural. A descendência prometida não é apenas numerosa, mas duradoura, inserida no próprio desígnio de Deus para a história. O “assim será” indica que a promessa não se funda em evidências visíveis, mas na correspondência entre a palavra de Deus e a fé daquele que a acolhe.

Esse versículo prepara imediatamente Gn 15,6, onde se afirma que Abraão creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça. Por isso, Gn 15,5 ocupa um lugar central na teologia bíblica da fé. A promessa não elimina a noite nem resolve imediatamente a crise de Abraão; ela transforma a noite em espaço de revelação. Deus não oferece provas, mas uma palavra confiável.

No Novo Testamento, essa promessa é relida à luz de Cristo. Para o apóstolo Paulo, a descendência de Abraão se estende a todos os que creem, fazendo dele pai de uma multidão que não se define apenas por laços de sangue, mas pela fé. Assim, as estrelas do céu tornam-se imagem da comunidade dos fiéis, chamados a viver da mesma confiança que sustentou Abraão.

Gn 15,5 revela, portanto, o coração da fé bíblica: confiar quando o caminho ainda não é visível, crer quando a promessa parece maior que a realidade, e aprender a levantar os olhos para além dos próprios limites, certos de que a palavra de Deus é fiel.



RENOVAÇÃO DE VOTOS RELIGIOSOS DE IR. ANTÔNIA BIANCA

Nesta segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, a Capela da Comunidade Timóteo Giaccardo, em Pacaembu (SP), foi espaço de profunda ação de graças, comunhão fraterna e renovação da esperança com a celebração da renovação dos votos religiosos, pela sexta vez, da Ir. M. Antônia Bianca Oliveira dos Santos. O momento marcou mais uma etapa significativa em sua caminhada vocacional e foi vivido com alegria, simplicidade e espírito orante pelas Irmãs ali presentes.

A celebração eucarística foi presidida pelo Pe. Frei Jair Roberto Pasquali, TOR, que conduziu o rito com serenidade e profundidade espiritual, destacando o valor do compromisso assumido pela religiosa e o significado eclesial da vida consagrada. A presença das Irmãs, reunidas em clima de fraternidade, expressou a comunhão comunitária e o apoio à caminhada vocacional da Ir. M. Antônia Bianca, que neste ano segue sua formação em Roma, onde realizará a preparação imediata para os votos perpétuos.

A renovação dos votos religiosos representa, na tradição da Igreja, a reafirmação consciente e livre do “sim” dado a Deus, renovando o compromisso com os conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência. Ao renovar seus votos pela sexta vez, a Ir. M. Antônia Bianca manifesta maturidade vocacional e disponibilidade interior para continuar colocando sua vida a serviço do Reino, em fidelidade ao carisma congregacional e à missão confiada pela Igreja.

A celebração foi iluminada pela liturgia da 5ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II), cujas leituras ofereceram uma chave de leitura profunda para compreender o sentido do momento vivido. A primeira leitura, retirada do Primeiro Livro dos Reis (1Rs 8,1-7.9-13), narrou a solene transferência da Arca da Aliança para o Templo de Jerusalém, construída por Salomão. O texto bíblico apresenta um povo reunido para reconhecer que Deus escolheu habitar no meio deles, fazendo do Templo um lugar de encontro, memória e fidelidade à Aliança.

Esse relato bíblico dialoga diretamente com a vida consagrada, na medida em que recorda que é o próprio Deus quem toma a iniciativa de habitar no coração daqueles que se oferecem inteiramente a Ele. Assim como a Arca representava a presença divina no meio do povo, a vida consagrada torna-se sinal visível de que Deus continua a fazer morada entre os homens, chamando-os à comunhão, à escuta e à fidelidade.

O Salmo 131(132), rezado responsorialmente, reforçou esse desejo profundo de estar na presença do Senhor: “Entremos em sua morada, prostremo-nos ante o escabelo de seus pés”. O salmista expressa a alegria do povo que busca a casa de Deus e reconhece nela o lugar do repouso divino. Na celebração da renovação dos votos, esse salmo ganhou um significado especial, pois a entrega da vida religiosa é também um gesto de permanência, de escolha deliberada por “habitar” com o Senhor e colocar Nele toda a confiança.

Já o Evangelho segundo Marcos (Mc 6,53-56) apresentou Jesus que, ao chegar às aldeias e cidades, é reconhecido pelo povo, que leva até Ele os doentes, certos de que um simples toque poderia trazer cura. O texto evidencia a sensibilidade de Jesus diante do sofrimento humano e sua constante disponibilidade para acolher, curar e restaurar vidas. Esse Evangelho lança luz sobre a missão da vida consagrada, chamada a ser presença de Cristo no mundo, especialmente junto aos que mais sofrem, oferecendo cuidado, escuta, esperança e proximidade.

À luz dessas leituras, a renovação dos votos da Ir. M. Antônia Bianca pode ser compreendida como um gesto que une contemplação e missão. Contemplação, porque nasce da escuta da Palavra e da intimidade com Deus; missão, porque se traduz em serviço concreto ao povo, seguindo os passos de Jesus que passa fazendo o bem. A formação que a religiosa iniciará em Roma, como preparação para os votos perpétuos, insere-se nesse dinamismo, ajudando-a a aprofundar sua consagração e a fortalecer sua disponibilidade para a missão que a Igreja lhe confiará.

Durante a celebração, o presidente da Eucaristia ressaltou que a perseverança na vida religiosa não é fruto apenas do esforço humano, mas da graça de Deus, acolhida e cultivada diariamente. A fidelidade aos votos, renovados ano após ano, é sustentada pela oração, pela vida comunitária e pela escuta atenta da Palavra, que orienta as escolhas e dá sentido ao caminho vocacional.

O clima de ação de graças vivido neste dia foi ampliado também por outro motivo de grande alegria para a congregação. Também nesta data, a comunidade acolheu a chegada de duas jovens que pediram para iniciar o seu caminho formativo na congregação. Trata-se de Edna, natural de Manaus (AM), e Vitória, de Boa Esperança (MG), que dão os primeiros passos em um processo de discernimento vocacional marcado pela escuta, pelo acompanhamento e pela vida comunitária. A celebração de ingresso está marcada para dia 10 de fevereiro de 2026.

A acolhida dessas jovens representa um sinal concreto de esperança e continuidade da missão, evidenciando que o chamado de Deus continua a ressoar no coração de novas gerações. O início do caminho formativo é um tempo privilegiado de discernimento, no qual as aspirantes são convidadas a aprofundar sua relação com Cristo, a conhecer mais de perto o carisma congregacional e a amadurecer, com liberdade e responsabilidade, a resposta ao chamado recebido.

Ao final da celebração, a gratidão marcou os corações das Irmãs presentes, que elevaram preces pela perseverança da Ir. M. Antônia Bianca e por todas as vocações, pedindo ao Senhor que continue a chamar e sustentar aqueles que se dispõem a segui-Lo mais de perto. A comunhão fraterna vivida naquele dia reforçou os laços comunitários e renovou o compromisso coletivo com a missão evangelizadora.

A Igreja confia à oração e ao cuidado de Deus a caminhada formativa da Ir. M. Antônia Bianca, que, em Roma, dará mais um passo decisivo rumo à consagração definitiva, assim como o início do percurso vocacional de Edna e Vitória. Que estes tempos de formação e discernimento sejam marcados pela escuta, pela confiança e pela fidelidade cotidiana, para que suas vidas se tornem sinais vivos da presença amorosa de Deus no mundo.

Continuamos em prece e comunhão, acompanhando com alegria estes acontecimentos significativos da vida congregacional e renovando, com esperança, a confiança no chamado do Divino Mestre.