MEMÓRIA AGRADECIDA DE IR. M. MARGHERITA GERLOTTO E IR. SALVATORIS ROSA

No dia 19 de janeiro, a Família Paulina recorda com gratidão a vida e a entrega missionária de duas irmãs das Pias Discípulas do Divino Mestre que marcaram a história da Congregação no Brasil: Ir. M. Margherita Gerlotto, falecida em 19/01/1965, e Ir. Salvatoris Rosa, falecida em 19/01/1998.

Ir. M. Margherita Gerlotto foi uma das missionárias que, com coragem e espírito de fé, dedicou sua vida ao anúncio do Reino e ao serviço da liturgia, da Eucaristia e do sacerdócio, carismas centrais das Pias Discípulas. Em tempos desafiadores, sua presença no Brasil foi sinal de doação silenciosa, trabalho perseverante e amor profundo à missão confiada pela Igreja. Sua vida foi um testemunho de fidelidade cotidiana, vivida na simplicidade e na confiança em Deus. Ir. Margherida fez parte do grupo da 8 primeiras da nossa congregação e também foi missionária em terras brasileiras. Alberione escolheu Ursulina e Metilde e também Margherida estava no grupo das “jovens inclinadas à piedade especialmente eucarística”, de acordo com as indicações do padre Alberione.

Ela recorda que: “Na noite de 9 de fevereiro de 1924, o Primeiro Mestre nos chamou: deveríamos formar uma comunidade, um grupo, liderado por Úrsula Rivata depois Irmã Escolástica. Ele nos designou a adoração contínua do turno de duas horas, pela duração de um mês, a fim de experimentar nossa resistência. A experiência foi tão boa que a adoração continuou com fidelidade durante todo o dia até o dia 15 de agosto seguinte, quando, já com o número aumentado de Irmãs, assumimos também a adoração noturna.».

E chegamos ao dia 25 de março, quando Margherita se torna Irmã Paulina da Agonia de Jesus, para recordar Paulo, o protetor de então e sempre, e com a denominação da Agonia de Jesus para ser uma memória viva da oração de Jesus no abandono à vontade do Pai em seu “Sitio” (Tenho sede – cfr. João 19,28).

Ir. Salvatoris Rosa, também missionária no Brasil, deu continuidade a esse mesmo ideal de consagração e serviço. Com sensibilidade pastoral e espírito fraterno, colaborou na formação das primeiras comunidades das discípulas e na vida comunitária, deixando um legado de dedicação generosa e zelo apostólico. Sua longa trajetória missionária expressou um amor concreto à Igreja e ao povo brasileiro, vivido na escuta, no acolhimento e no serviço humilde. Ir. Salvatoris fez parte do grupo de missionárias enviadas pelo Fundador, Padre Tiago Alberione, e que chegou em São Paulo no dia 26 de julho de 1956 para iniciar esta nova missão.

Ao recordar Ir. M. Margherita Gerlotto e Ir. Salvatoris Rosa, rendemos graças a Deus pelo dom de suas vidas. Que o testemunho dessas irmãs continue a inspirar as Pias Discípulas do Divino Mestre e todos aqueles que, hoje, são chamados a servir com alegria, fidelidade e espírito missionário, seguindo Jesus Mestre, Caminho, Verdade e Vida.






PAPA LEÃO XIV E O NOVO CICLO DE CATEQUESES SOBRE O CONCÍLIO VATICANO II

Na audiência geral do dia 7 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV iniciou um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II, destacando a importância de reler os Documentos conciliares para a vida da Igreja e do mundo. (Vatican News)

A catequese foi conduzida na Sala Paulo VI, onde o Pontífice propôs um itinerário de reflexão que sucede as reflexões do Ano Jubilar centradas nos mistérios da vida de Jesus. Segundo ele, a Igreja tem agora a oportunidade de redescobrir a beleza, a atualidade e a força profética dos ensinamentos do Vaticano II, que permanecem relevantes frente aos desafios contemporâneos.

Leão XIV lembrou que, em 2025, a Igreja celebrou o 60º aniversário do Concílio Vaticano II, e observou que muitos dos bispos, teólogos e participantes que viveram diretamente aquele momento já não estão entre nós. Por isso, ressaltou, é essencial aprofundar o conhecimento dos textos originais e evitar interpretações superficiais ou baseadas apenas em “ouvir dizer”.

O Papa citou também o Papa Bento XVI, afirmando que os Documentos conciliares não perderam sua atualidade, e que seus ensinamentos continuam a oferecer orientações valiosas para enfrentar os novos tempos.

Durante a catequese, ele recordou o papel do Concílio em redescobrir o rosto de Deus em Cristo, fortalecer a compreensão da Igreja como sacramento de unidade e promover uma reforma litúrgica que favoreça a participação ativa dos fiéis. Além disso, ressaltou que o espírito do Vaticano II impulsionou a Igreja ao diálogo com outras tradições cristãs e com a sociedade globalizada.

Concluindo sua reflexão, Leão XIV afirmou que revisitar o Concílio significa renovar o compromisso com a evangelização, a justiça, a paz e a missão da Igreja no mundo, abrindo-se aos sinais dos tempos com esperança e coragem.

Acompanhe as catequeses na íntegra:

Texto:

07-01/2026: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260107-udienza-generale.html

14-01-2026: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260107-udienza-generale.html

Audiências: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026.index.html




UM TEMPO PARA RECONHECER O FILHO: O TESTEMUNHO DE JOÃO BATISTA

Domingo, 18 de janeiro de 2026
2º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Jo 1,29-34

Com o encerramento do Tempo do Natal e a entrada no Tempo Comum, a liturgia nos conduz a uma etapa discreta, porém decisiva, do ano litúrgico. Não se trata de um “tempo menor”, mas de um período em que a vida pública de Jesus começa a ser contemplada passo a passo, gesto a gesto, palavra a palavra. É um tempo de amadurecimento da fé, de escuta atenta e de assimilação progressiva do mistério de Cristo, antes de entrarmos na intensidade penitencial e catecumenal da Quaresma.

Neste segundo domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo João nos apresenta uma cena de forte densidade teológica: o testemunho de João Batista sobre Jesus (Jo 1,29-34). Não se trata de um relato do batismo propriamente dito, mas de sua interpretação. João Batista olha para Jesus que vem ao seu encontro e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Essa afirmação inaugura, no Quarto Evangelho, a revelação pública da identidade de Jesus e orienta toda a leitura litúrgica deste início de tempo.

A expressão “Cordeiro de Deus” carrega uma profunda memória bíblica. Ela evoca o cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue libertou o povo da escravidão e marcou o início de uma nova história (cf. Ex 12). Evoca também o Servo sofredor de Isaías, que “como cordeiro levado ao matadouro” assume sobre si as dores do povo (cf. Is 53,7). Ao unir essas imagens, o evangelista João apresenta Jesus como aquele que realiza uma libertação definitiva: não apenas de uma opressão histórica, mas do pecado que fere a relação entre Deus e a humanidade.

Nesse sentido, o tempo litúrgico que agora vivemos é um verdadeiro tempo de revelação progressiva. O Natal nos mostrou quem é Jesus: o Verbo feito carne, Deus que entra na história humana. O Tempo Comum começa a nos mostrar para que Ele veio e como realiza sua missão. Antes de caminhar para a cruz na Quaresma e na Páscoa, a liturgia nos convida a contemplar o sentido profundo dessa entrega: Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo porque assume a condição humana até as últimas consequências, inaugurando uma nova forma de relação com Deus.

O testemunho de João Batista também é marcado por um movimento de humildade e de discernimento espiritual. Ele afirma claramente: “Eu não o conhecia”. Essa frase, repetida duas vezes no texto, não indica ignorância, mas revela que o reconhecimento de Jesus não nasce de vínculos humanos, mas de uma experiência espiritual. João reconhece Jesus porque vê o Espírito descer e permanecer sobre Ele. O sinal decisivo não é exterior, mas teológico: a presença permanente do Espírito revela que Jesus é o Filho, aquele que batiza no Espírito Santo.

Aqui se abre uma dimensão importante para a vivência litúrgica deste tempo. Reconhecer Jesus como Cordeiro de Deus e Filho de Deus não é resultado de um conhecimento automático ou superficial. É fruto de uma experiência de escuta, de observação, de permanência. A liturgia do Tempo Comum educa o olhar da fé para reconhecer o Senhor presente na história, nos sinais simples, na Palavra proclamada, nos sacramentos celebrados.

As demais leituras deste domingo são iluminadas por essa chave de leitura. O cântico do Servo em Isaías (Is 49,3.5-6) amplia o horizonte da missão: aquele que é chamado desde o ventre materno não é enviado apenas a Israel, mas é “luz para as nações”. O Cordeiro que tira o pecado do mundo inaugura uma salvação universal, que ultrapassa fronteiras religiosas e culturais. O salmo responsorial coloca nos lábios da assembleia uma atitude fundamental para este tempo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. A vida cristã nasce da escuta e da adesão confiante ao projeto de Deus.

Já a saudação inicial da Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 1,1-3) recorda que essa identidade cristã se concretiza na vida da comunidade. Somos chamados a ser santos não por mérito próprio, mas porque fomos alcançados por Cristo. O Tempo Comum é também tempo de aprender a viver a fé no cotidiano, na comunhão e na corresponsabilidade eclesial.

Liturgicamente, este domingo nos ajuda a compreender que estamos numa passagem: do mistério contemplado no Natal para o mistério que será celebrado na Páscoa. É um tempo de travessia, de aprofundamento, de preparação interior. Ao proclamarmos, em cada Eucaristia, “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo”, retomamos esse testemunho de João Batista e o tornamos oração da Igreja. Não é apenas uma fórmula ritual, mas uma profissão de fé que nos compromete.

Neste início do Tempo Comum, a liturgia nos convida a olhar para Jesus com atenção renovada, a escutar seu testemunho silencioso e a permitir que o Espírito nos conduza ao reconhecimento profundo de quem Ele é. Antes de seguir seus passos rumo à cruz, somos chamados a permanecer com Ele, a deixar-nos revelar por sua presença e a aprender, dia após dia, a viver como discípulos daquele que é o Cordeiro de Deus.




LER O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS A PARTIR DA LITURGIA: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA PARA O ANO A

Ir. Julia Almeida, pddm

Com o Primeiro Domingo do Advento, a Igreja inaugura um novo ciclo litúrgico e, com ele, um novo percurso de escuta do Evangelho nas celebrações dominicais. No Ano A, essa escuta é marcada, de modo privilegiado, pela proclamação do Evangelho segundo Mateus, que acompanha a assembleia ao longo do ano, moldando sua percepção do mistério de Cristo e do Reino anunciado.

Na liturgia, a importância do Evangelho segundo Mateus é estrutural, teológica e pedagógica. Ele não ocupa apenas um lugar quantitativamente privilegiado no Ano A, mas exerce uma função decisiva na formação da consciência litúrgica e eclesial da assembleia. Pode-se compreender essa importância a partir de alguns eixos fundamentais.

O primeiro eixo, poderíamos apontar, é que Mateus é o Evangelho da Igreja reunida. Entre os quatro evangelhos, Mateus é aquele que mais explicitamente se dirige a uma comunidade estruturada, consciente de sua identidade e de sua missão. Termos como ekklesía (Mt 16,18; 18,17), ausentes em Marcos e Lucas, revelam um horizonte claramente eclesial. Na liturgia, isso se traduz no fato de que o Evangelho de Mateus é proclamado a uma assembleia, fala da vida comunitária, do perdão, da correção fraterna, educa para relações marcadas pela justiça, pela misericórdia e pela responsabilidade.

Assim, quando Mateus é proclamado na celebração, não se trata apenas de ouvir palavras sobre Jesus, mas de reconhecer-se como Igreja em formação.

O segundo eixo diz a respeiro do tema central do evangelista Mateus: o Reino dos Céus. Na liturgia, esse Reino não é apresentado como ideia abstrata, mas como realidade que se anuncia na Palavra, se torna presente na ação ritual, exige conversão e prática. Por exemplo, as parábolas do Reino (Mt 13), amplamente proclamadas no Tempo Comum do Ano A, revelam uma pedagogia própria da liturgia: o Reino cresce no tempo, de modo discreto, entre ambiguidades, exigindo discernimento. A assembleia litúrgica torna-se, assim, espaço simbólico onde o Reino é escutado, acolhido e antecipado.

A centralidade do ensinamento: a Palavra que forma, é o terceiro eixo. Mateus organiza o ministério de Jesus em grandes discursos (cf. Mt 5–7; 10; 13; 18; 24–25). Na liturgia, esses discursos aparecem de forma distribuída e progressiva, permitindo que a Palavra forme o discípulo ao longo do tempo, eduque a consciência ética, molde a identidade cristã.

O Sermão da Montanha, proclamado ao longo de vários domingos, assume particular importância: na assembleia reunida, ele funciona como palavra normativa, não no sentido legalista, mas como orientação de vida para quem escuta e celebra.

O quatro eixo é a relação entre Escritura e liturgia. Mateus é o evangelista que mais explicitamente articula o evento de Jesus com o Antigo Testamento. Suas frequentes citações: “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”, encontram na liturgia um lugar privilegiado de ressonância.

A liturgia dominical, ao colocar o Evangelho de Mateus em diálogo com a Primeira Leitura, evidencia a unidade da história da salvação, a continuidade entre promessa e cumprimento, a leitura tipológica própria da tradição litúrgica. Assim, Mateus ajuda a assembleia a aprender a ler as Escrituras na Igreja, e não de modo isolado.

O quinto eixo é a dimensão ética e performativa da Palavra. Na liturgia, o Evangelho não é apenas escutado, mas proclamado como Palavra viva, que interpela e exige resposta. Mateus, com sua ênfase no “fazer” a vontade do Pai (Mt 7,21; 25,31-46), reforça essa dimensão performativa.

A proclamação de Mateus na liturgia não se encerra no momento da escuta, projeta-se na vida cotidiana, orienta a ação cristã no mundo. O famoso critério do juízo final em Mt 25, proclamado liturgicamente, revela que a celebração autêntica desemboca na prática da caridade e da justiça.

O sexto e último eixo: Mateus é um Evangelho profundamente litúrgico. Pode-se afirmar que Mateus possui uma afinidade profunda com a liturgia porque valoriza a escuta comunitária, articula palavra, gesto e tempo, culmina no envio missionário (“Ide, portanto…”). Na celebração, o Evangelho de Mateus não apenas recorda a história de Jesus, mas estrutura a vida celebrativa da Igreja, formando discípulos que escutam, celebram e vivem o que foi proclamado.

Em síntese, na liturgia, o Evangelho segundo Mateus é importante porque forma a Igreja como comunidade discipular; educa para o Reino de Deus vivido no tempo; integra Escritura, celebração e vida; transforma a escuta em compromisso. Por isso, no Ano A, Mateus não é apenas o evangelho “lido”, mas o evangelho que configura a assembleia no ritmo da Palavra celebrada.

Essa escolha não responde a um critério meramente organizacional nem a uma simples alternância de textos. Trata-se de uma verdadeira pedagogia eclesial da Palavra, na qual o Evangelho é proclamado, interpretado e assimilado no ritmo do ano litúrgico, em diálogo com os tempos, as festas e as orações da Igreja. Diante disso, impõe-se uma questão metodológica fundamental: como estudar o Evangelho segundo Mateus respeitando o modo próprio como a liturgia o oferece à comunidade cristã?

Queremos propor uma leitura de Mateus a partir da liturgia, e não apenas aplicada à liturgia. Trata-se de assumir o espaço celebrativo como lugar hermenêutico, onde o texto bíblico não é apenas explicado, mas performado, escutado comunitariamente e integrado à experiência de fé.

1. A liturgia como chave hermenêutica da Escritura

A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que “Cristo está presente na sua Palavra, pois é Ele quem fala quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja” (SC 7), e recorda que a Escritura ocupa um lugar essencial na ação litúrgica (SC 24). Assim, a liturgia não é um simples contexto externo da Palavra, mas o ambiente vital no qual o texto bíblico se torna evento.

Ler Mateus a partir da liturgia implica reconhecer que o Evangelho chega à assembleia em trechos selecionados, organizados segundo uma intencionalidade teológica, em diálogo com o Antigo Testamento, os salmos e as orações da Igreja, orientados para a formação do sujeito cristão.

Essa perspectiva desloca o estudo bíblico de uma leitura linear e exclusivamente exegética para uma leitura mistagógica, narrativa e eclesial.

2. O Ano Litúrgico como estrutura de leitura

A proposta metodológica aqui apresentada organiza o estudo do Evangelho segundo Mateus a partir dos tempos litúrgicos, acompanhando o percurso espiritual que a Igreja propõe ao longo do Ano A. Não se lê Mateus “do começo ao fim”, mas segundo a lógica da celebração do mistério de Cristo.

2.1 Advento: promessa, espera e vigilância

No Advento, a liturgia seleciona textos de Mateus que articulam promessa e cumprimento, expectativa messiânica e vigilância escatológica. O evangelista aparece como o teólogo do “cumprimento das Escrituras”, mas também como aquele que educa a comunidade na tensão entre o “já” e o “ainda não”.

A leitura litúrgica evidencia que o Messias esperado não corresponde a expectativas triunfalistas, mas inaugura um Reino que exige discernimento, conversão e vigilância ativa.

2.2 Natal e Epifania: encarnação e revelação em contexto de conflito

Os relatos da infância em Mateus, proclamados no Tempo do Natal, revelam uma cristologia densa e nada ingênua. A encarnação é apresentada como acontecimento histórico marcado por deslocamentos, rejeições e tensões políticas. A Epifania, com a figura dos magos, introduz desde o início o tema da abertura universal do Reino e da ambiguidade das respostas humanas ao Cristo.

Lidos na liturgia, esses textos formam a assembleia para reconhecer que a revelação de Deus acontece no interior da história concreta, e não à margem dela.

2.3 Tempo Comum: o Reino anunciado, ensinado e vivido

É sobretudo no Tempo Comum que Mateus se torna o grande evangelista do Ano A. O Sermão da Montanha (Mt 5–7), proclamado ao longo de vários domingos, ocupa um lugar central. Na lógica litúrgica, ele não funciona como um tratado moral abstrato, mas como palavra performativa, dirigida a uma assembleia reunida, chamada a ouvir e a praticar.

A liturgia transforma o “monte” de Mateus em espaço simbólico da própria celebração: ali se escuta a Torá do Reino, ali se delineia a identidade do discípulo, ali se forma uma ética enraizada na justiça maior, na misericórdia e na confiança em Deus.

2.4 Quaresma: conversão e decisão

Durante a Quaresma, Mateus é proclamado como evangelho da decisão. As tentações, a transfiguração e as parábolas quaresmais revelam uma pedagogia que conduz a assembleia a confrontar-se com a própria escuta: ouvir ou não ouvir, seguir ou não seguir, converter-se ou permanecer na lógica antiga.

A conversão, em Mateus, não é apenas moral, mas mudança de mentalidade, reorientação profunda do olhar e das relações. A liturgia, ao articular Palavra, gesto e tempo, torna essa exigência concreta e existencial.

2.5 Páscoa: paixão, ressurreição e envio

A proclamação da Paixão segundo Mateus, especialmente no Domingo de Ramos, manifesta com força o caráter ritual da narrativa: o texto é escutado em clima de silêncio, dramaticidade e participação corporal. Não se trata apenas de recordar, mas de fazer memória.

O Evangelho culmina, no Tempo Pascal, com o mandato missionário: “Ide, portanto…” (Mt 28,19). Na liturgia, esse final não encerra o relato, mas o prolonga na vida da assembleia, agora enviada como corpo eclesial.

3. Uma metodologia de leitura litúrgica

Cada etapa do estudo pode ser organizada a partir de um mesmo núcleo metodológico:

  1. contextualização do tempo litúrgico;
  2. proclamação atenta do Evangelho;
  3. análise narrativa e simbólica do texto;
  4. diálogo com a Primeira Leitura e a oração da coleta;
  5. pergunta final sobre o efeito do texto na assembleia hoje.

Essa metodologia permite compreender o Evangelho não apenas como texto antigo, mas como palavra que age, que forma, que convoca.

4. A Lectio Divina como método de leitura litúrgica

Para que essa leitura de Mateus não se reduza a um exercício meramente informativo ou exegético, propõe-se a Lectio Divina como método privilegiado. Enraizada na tradição da Igreja, a Lectio Divina se harmoniza profundamente com a estrutura da liturgia da Palavra, prolongando, na vida pessoal e comunitária, a experiência celebrativa.

Lectio: escutar o Evangelho proclamado

O primeiro passo consiste em uma escuta atenta do texto, preferencialmente em sintonia com o domingo e o tempo litúrgico correspondente. Em Mateus, essa escuta permite perceber a estrutura narrativa, as imagens do Reino, os destinatários da palavra de Jesus e o diálogo constante com o Antigo Testamento.

A lectio educa para reconhecer que é o próprio Cristo quem fala quando o Evangelho é proclamado na assembleia.

Meditatio: deixar-se interpelar pela Palavra

Na meditatio, a Palavra começa a ressoar na vida. Os discursos e parábolas de Mateus revelam sua força formativa: não apenas informam, mas confrontam, questionam e orientam. Em chave litúrgica, a meditação se pergunta pelo efeito do texto na comunidade que o escuta hoje.

Oratio: responder à Palavra

A resposta orante nasce naturalmente da escuta e da meditação. A liturgia já oferece essa resposta nos salmos e orações; a Lectio Divina prolonga esse movimento, transformando a Palavra escutada em súplica, louvor, pedido de conversão e compromisso.

Contemplatio: permanecer no mistério

A contemplatio corresponde ao silêncio fecundo que segue a proclamação do Evangelho. Aqui, não se busca compreender mais, mas habitar o mistério. Mateus conduz frequentemente a esse lugar de permanência, no qual o discípulo se reconhece parte da assembleia reunida em torno da Palavra.

Actio: da escuta à vida

Como desdobramento natural, a actio explicita a dimensão performativa do Evangelho segundo Mateus. A escuta autêntica conduz à prática: a justiça do Reino se traduz em gestos concretos de misericórdia, responsabilidade comunitária e compromisso com os mais frágeis.

4. Horizontes teológicos e formativos

Ler o Evangelho segundo Mateus a partir da liturgia é reconhecer que a Escritura encontra sua plena inteligibilidade na celebração da fé. A liturgia aparece, assim, como lugar privilegiado de recepção, interpretação e atualização do texto bíblico.

E integrar a Lectio Divina à leitura do Evangelho segundo Mateus no Ano A significa reconhecer que a liturgia é o lugar originário da Palavra. Toda leitura pessoal ou comunitária nasce da celebração e a ela retorna, formando discípulos que aprendem a escutar, orar e agir no ritmo do ano litúrgico.

Mais do que oferecer um método de estudo, esta proposta convida a uma mudança de perspectiva: não se trata apenas de compreender Mateus, mas de deixar-se configurar por ele, no ritmo do ano litúrgico, no interior da assembleia, na escuta partilhada da Palavra que se faz acontecimento.

Nesse sentido, o Evangelho de Mateus, proclamado no Ano A, revela-se não apenas como narrativa sobre Jesus, mas como forma de vida celebrada, ensinada e vivida pela Igreja.



BATISMO DO SENHOR: O FILHO AMADO DESCE ÀS ÁGUAS

Com a Festa do Batismo do Senhor, a liturgia deste domingo encerra o Tempo do Natal. Depois de contemplarmos o mistério da Encarnação, o Verbo que se fez carne e armou sua tenda entre nós, somos conduzidos às margens do Jordão, onde Jesus, já adulto, dá início à sua vida pública. É um momento de passagem: da contemplação à missão, do presépio à vida concreta do mundo. Na segunda-feira, a Igreja já inicia o Tempo Comum, retomando o ritmo ordinário da caminhada litúrgica, agora iluminada por tudo aquilo que foi revelado no mistério do Natal.

O Evangelho de Mateus (Mt 3,13-17) apresenta um dado que causa estranhamento: Jesus vai até João para ser batizado. João pregava um batismo de conversão, destinado aos pecadores. Por isso, resiste: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. A resposta de Jesus é decisiva para compreendermos todo o sentido da cena: “Deixa agora, pois convém cumprirmos toda a justiça”. A “justiça”, aqui, não é mera observância legal, mas fidelidade plena ao desígnio do Pai. Jesus não se coloca acima da humanidade; ao contrário, desce até ela, solidariza-se com os pecadores, entra na fila dos que esperam redenção.

Ao descer às águas do Jordão, Jesus assume a condição humana em sua totalidade. Se no Natal o vemos envolto em faixas e deitado numa manjedoura, agora o vemos mergulhar nas águas turvas da história. É o mesmo movimento: o de um Deus que não se distancia, mas se aproxima; que não salva de fora, mas desde dentro. O batismo de Jesus não é para sua purificação, mas para a nossa, pois Ele é o Santo de Deus, . Ao entrar nas águas, Ele as santifica, inaugura um novo começo e aponta para o batismo que, mais tarde, será oferecido a todos.

O céu que se abre após o batismo é sinal de que algo novo está acontecendo. Aquilo que parecia fechado pela desobediência e pelo pecado agora se reabre. O Espírito desce sobre Jesus como pomba, evocando o sopro criador de Deus no início do mundo e a pomba que, no dilúvio, anunciou um tempo novo. Em Jesus, começa uma nova criação. Ele é o Homem novo, sobre quem repousa o Espírito sem medida.

A voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Trata-se de uma verdadeira revelação trinitária: o Filho está nas águas, o Espírito paira, o Pai fala. Mas, ao mesmo tempo, é uma palavra profundamente pessoal e relacional. Antes de qualquer milagre, antes de qualquer ensinamento, Jesus escuta quem Ele é: Filho amado. A missão nasce da relação, não da performance. Jesus não precisa provar nada; Ele age a partir do amor recebido.

A primeira leitura, do profeta Isaías (Is 42,1-4.6-7), ilumina ainda mais o sentido do Evangelho. O “Servo do Senhor”, sobre quem Deus coloca o seu Espírito, é descrito com traços de mansidão e fidelidade: não grita, não quebra o caniço rachado, não apaga o pavio que ainda fumega. É uma missão que se realiza sem violência, sem imposição, mas com perseverança e cuidado. No batismo de Jesus, reconhecemos esse Servo: escolhido, sustentado pelo Pai, enviado para levar justiça às nações e abrir os olhos dos cegos. A justiça que Ele cumpre é, antes de tudo, restauradora, libertadora, geradora de vida.

O Salmo 28(29) reforça essa dimensão teofânica: a voz do Senhor ressoa sobre as águas, cheia de poder e majestade. Aquele que domina as forças do caos é também quem abençoa o seu povo com a paz. No Jordão, a voz que outrora ecoava sobre as águas primordiais agora se dirige a Jesus, revelando que n’Ele se manifesta o verdadeiro Senhor da história.

Na segunda leitura, dos Atos dos Apóstolos (At 10,34-38), Pedro proclama que Deus não faz acepção de pessoas e recorda o início da missão de Jesus “a partir da Galileia, depois do batismo pregado por João”. Ungido pelo Espírito Santo e revestido de poder, Jesus passa fazendo o bem e libertando os oprimidos. O batismo, portanto, não é um episódio isolado, mas o ponto de partida de uma vida entregue, marcada pelo serviço e pela compaixão.

Celebrar o Batismo do Senhor é também recordar o nosso próprio batismo. Assim como Jesus foi declarado Filho amado, também nós, pelo batismo, fomos mergulhados em Cristo e feitos filhos e filhas no Filho. As águas que tocaram Jesus tocaram também a nossa história. Recebemos o Espírito, fomos inseridos numa missão, chamados a viver como servos da justiça e da paz.

Encerrar o Tempo do Natal com esta festa nos lembra que a contemplação do mistério não nos afasta do mundo, mas nos lança nele. O Deus que nasce em Belém é o mesmo que desce ao Jordão e nos envia. Do presépio às águas, das águas à estrada da missão: este é o caminho de Jesus e, com Ele, o nosso. Que esta celebração renove em nós a alegria de sermos filhos amados e a coragem de viver, no cotidiano do Tempo Comum que se inicia, o compromisso do nosso batismo.

Uma curiosidade: por que o Batismo do Senhor é festa e não solenidade?

No calendário litúrgico da Igreja, nem todas as celebrações têm o mesmo grau. Elas se organizam em uma hierarquia que ajuda os fiéis a compreender a centralidade de cada mistério da fé. Nesse contexto, o Batismo do Senhor é celebrado como festa, e não como solenidade e isso não diminui sua importância.

As solenidades são reservadas aos mistérios centrais da fé cristã, especialmente aqueles ligados diretamente ao Mistério Pascal (a paixão, morte e ressurreição de Jesus) ou aos grandes pilares da fé, como a Encarnação e a Santíssima Trindade. Exemplos disso são o Natal, a Páscoa, Pentecostes e a Solenidade da Santíssima Trindade.

O Batismo do Senhor, por sua vez, celebra um momento decisivo da vida de Jesus: o início de sua vida pública. No rio Jordão, Cristo é manifestado como Filho amado do Pai e ungido pelo Espírito Santo, numa clara revelação da Trindade. Trata-se, portanto, de um mistério de manifestação, assim como a Epifania.

Liturgicamente, essa celebração tem também um caráter de transição: ela encerra o Tempo do Natal e introduz a Igreja no tempo da missão de Jesus. Embora seja um acontecimento fundamental, o Batismo do Senhor não celebra ainda a redenção plenamente realizada, mas o começo do caminho que levará à cruz e à ressurreição.

Por isso, a Igreja o celebra como festa: um grau elevado de celebração, especialmente por se tratar de uma Festa do Senhor, muitas vezes celebrada em um domingo, mas que não atinge o nível máximo reservado às solenidades.

Assim, ao celebrar o Batismo do Senhor, a Igreja contempla o início da obra salvadora de Cristo e recorda também o sentido do nosso próprio batismo: somos chamados a ouvir o Pai, seguir o Filho e viver no Espírito.




PAPA LEÃO XIV CONVOVA PRIMEIRO CONSISTÓRIO EXTRAORDINARIO DO SEU PONTIFICADO

Nos dias 7 e 8 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV reuniu em Roma o Colégio Cardinalício para o seu primeiro Consistório Extraordinário que é um encontro que marca um novo ritmo de consulta e reflexão no governo da Igreja Católica. O evento, de caráter histórico e simbólico, não tratou de nomeações, mas de discernimento colegial sobre prioridades e caminhos para o futuro da Igreja.

O que é um Consistório?

O termo consistório vem do latim consistorium, que significa “assembleia” ou “estar junto”. Na tradição da Igreja, é uma reunião dos cardeais convocada pelo Papa para consultas solenes. Existem consistórios ordinários, comuns para anúncios como promoções de cardeais, e extraordinários, mais raros e voltados a questões de direção e reflexão profunda com o Colégio Cardinalício.

Ao presidir a Eucaristia nesta reunião, Leão XIV refletiu sobre a raiz do termo: consistere, “parar”, lembrando que todos os presentes deixaram suas atividades habituais para se reunir em oração e discernimento conjunto.

Contexto e Razões do Encontro

Convocado poucos meses depois de sua eleição em 2025, este consistório extraordinário sinaliza a intenção do Papa de envolver mais amplamente os cardeais em reflexão colegial sobre a missão da Igreja e sobre como se dirigir nos tempos atuais. A iniciativa ecoa pedidos feitos durante as congregações gerais pré-conclave, encontros preparatórios em que os futuros eleitores discutiram os grandes desafios da Igreja.

Leão XIV tem defendido que um dos papéis dos cardeais é justamente oferecer uma visão pluriforme e global da Igreja, e não apenas atuar como assessores técnicos. “Não estamos aqui para promover agendas pessoais ou de grupo, mas para confiar nossos projetos a um discernimento maior”, afirmou ele durante a Missa de abertura.

Estrutura dos Trabalhos

O Consistório Extraordinário foi dividido em várias sessões de trabalho ao longo de um dia e meio, com momentos de oração, diálogo em grupos de trabalho, reflexão e decisões coletivas. Participaram cerca de 170 cardeais de diferentes partes do mundo, incluindo cardeais eleitores e não eleitores, ou seja, tanto aqueles com direito a voto em um eventual conclave quanto os que já ultrapassaram a idade canônica de 80 anos.

Segundo a Santa Sé, os cardeais foram organizados em 20 grupos linguísticos para facilitar conversas aprofundadas. Esses grupos refletiram sobre temas centrais que o encontro propôs desde o início.

Temas Prioritários: Sinodalidade e Evangelização

Na abertura oficial, realizado na Sala Nova do Sínodo, o Papa convidou os participantes a pensar nas atenções e prioridades da Igreja no futuro próximo. Entre diversos temas colocados à disposição para reflexão, a assembleia decidiu, por votação, concentrar-se em dois principais:

  • Sinodalidade — o modo de caminhar juntos enquanto povo de Deus, com maior participação e corresponsabilidade de todos os membros da Igreja;
  • Evangelização — a missão de anunciar o Evangelho no mundo contemporâneo.

Outros temas que ficaram na lista original, como liturgia e a reforma da Praedicate Evangelium (a constituição apostólica que regula a organização da Cúria Romana), não foram selecionados como foco principal, mas segundo autoridades da Sala de Imprensa permanecerão conectados ao trabalho futuro.

Reflexões Teológicas e Litúrgicas

Na sua homilia durante a Missa na Basílica de São Pedro, na manhã do segundo dia, Leão XIV sublinhou que o Consistório não é apenas um encontro administrativo, mas um “momento de graça” e de oração comunitária pela unidade da Igreja e do mundo. Ele lembrou que os cardeais são convocados primeiro como comunidade de fé, e não como equipe de especialistas.

O Papa também evocou a necessidade de “parar para escutar e discernir” em um mundo marcado pela pressa, pela violência e por desafios sociais e tecnológicos, como destacou também a meditação inicial conduzida pelo cardeal dominicano Timothy Radcliffe.

Metodologia e Experiência de Diálogo

Os trabalhos, além de momentos formais de plenário, incluíram momentos de partilha em pequenos grupos, oração comum, canto e até pausa para almoço com a presença do Papa, que distribuiu a cada um uma medalha do seu pontificado, gesto que simboliza o espírito de comunhão desejado.

Cardeais relatores destacaram que o ambiente foi marcado por uma unidade que não significa uniformidade, mas uma busca sincera de compreensão mútua entre diferentes tradições e experiências pastorais.

Encerramento e Novos Caminhos

Ao concluir a última sessão na noite do dia 8 de janeiro, Leão XIV anunciou novos passos inspirados por esse encontro: ele pretende realizar consistórios com mais regularidade, já marcando o próximo para junho de 2026, próximo à Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, e idealizando encontros anuais mais longos, de três a quatro dias, no futuro.

Esse calendário renovado sinaliza uma mudança no estilo de governo colegial, aproximando-se das expectativas de muitos cardeais que pediam mecanismos mais amplos de participação após os pontificados anteriores.

Sinais de Uma Igreja em Caminhada

O Consistório Extraordinário de janeiro de 2026 ficou marcado não por decisões disciplinares ou nomeações, mas por sua dimensão consultiva e espiritual. Ele foi pensado como um espaço de escuta mútua, reflexão teológica e pastoral, e estudo das grandes prioridades para a Igreja Católica nos próximos anos.

Ao chamar a atenção para temas como sinodalidade, evangelização e missão, difíceis e urgentes diante das realidades contemporâneas, Leão XIV demonstrou que sua intenção é ouvir e caminhar junto aos seus conselheiros mais próximos, incorporando as diversas vozes do episcopado universal.

Se, como disse em sua homilia, o consistório significa “parar para escutar o que o Senhor nos pede”, o gesto pode ser visto como uma expressão concreta da virada pastoral que este pontificado procura imprimir logo no início de sua jornada.


Fontes:

AGÊNCIA ECCLESIA. Cardeais escolhem sinodalidade e evangelização como prioridades para primeiro consistório com Leão XIV. Lisboa, 2026. Disponível em: https://agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-cardeais-escolhem-sinodalidade-e-evangelizacao-como-prioridades-para-primeiro-consistorio-com-leao-xiv/. Acesso em: 8 jan. 2026.

AGÊNCIA ECCLESIA. Leão XIV rejeita agendas pessoais nos trabalhos do consistório. Lisboa, 2026. Disponível em: https://agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-leao-xiv-rejeita-agendas-pessoais-nos-trabalhos-do-consistorio/. Acesso em: 8 jan. 2026.

AGÊNCIA ECCLESIA. Papa anuncia consistórios anuais e convoca novo encontro de cardeais para junho. Lisboa, 2026. Disponível em: https://agencia.ecclesia.pt/portal/vaticano-papa-anuncia-consistorios-anuais-e-convoca-novo-encontro-de-cardeais-para-junho/. Acesso em: 8 jan. 2026.

AP NEWS. Pope Leo XIV holds first extraordinary consistory, signaling consultative governance. Nova York, 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/011f4c46693ddb29ca4d7d8e33fb9413. Acesso em: 8 jan. 2026.

PRESS VATICAN. Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede – 8 gennaio 2026. Cidade do Vaticano, 2026. Disponível em: https://press.vatican.va/content/salastampa/en/bollettino/pubblico/2026/01/08/260108a.html. Acesso em: 8 jan. 2026.

RADIO AMARESERVIR. “Estou aqui para ouvir”: Papa abre consistório extraordinário para definir prioridades da Igreja. 2026. Disponível em: https://radioamareservir.com/noticia/2237221/estou-aqui-para-ouvir-papa-abre-consistorio-extraordinario-para-definir-prioridades-da-igreja. Acesso em: 8 jan. 2026.

VATICAN NEWS. Concistório: coletiva de imprensa no encerramento dos trabalhos. Cidade do Vaticano, 8 jan. 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-01/concistorio-coletiva-de-imprensa-encerramento-8-1-26.html. Acesso em: 8 jan. 2026.

VATICAN NEWS. Papa Leão XIV abre consistório extraordinário com discurso aos cardeais. Cidade do Vaticano, jan. 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-01/papa-leao-xiv-discurso-abertura-consistorio-extraordinario.html. Acesso em: 8 jan. 2026.

VATICAN NEWS. Pope Leo XIV celebrates Mass with cardinals during extraordinary consistory. Cidade do Vaticano, 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/en/pope/news/2026-01/pope-leo-xiv-mass-extraordinary-consistory-cardinals.html. Acesso em: 8 jan. 2026.



Papa encerra o Jubileu da Esperança com o fechamento da Porta Santa

Na solenidade da Epifania do Senhor, celebrada nesta terça-feira, 6 de janeiro, o Papa Leão XIV presidiu o encerramento oficial do Jubileu da Esperança com o rito de fechamento da Porta Santa da Basílica de São Pedro. O Ano Santo havia sido iniciado em 24 de dezembro de 2024 e reuniu milhões de fiéis vindos de todas as partes do mundo.

“É bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos”, afirmou o Pontífice ao final da celebração, destacando o sentido espiritual do caminho percorrido ao longo do Jubileu.

Um Ano Santo marcado pela peregrinação e pelo recomeço

Durante o Ano Jubilar, mais de 33 milhões de peregrinos atravessaram a Porta Santa da Basílica Vaticana. A celebração de encerramento contou com a presença de cerca de 5.800 fiéis no interior da Basílica e aproximadamente 10 mil pessoas que acompanharam a Missa pelos telões instalados na Praça São Pedro.

Na homilia, o Papa recordou que a Porta Santa acolheu homens e mulheres “a caminho da Cidade cujas portas estão sempre abertas, a nova Jerusalém”. Diante do Senhor, ressaltou, nada permanece igual: é ali que nasce a esperança e se renova a vida.

Leão XIV convidou a Igreja a refletir sobre a busca espiritual do nosso tempo e sobre a experiência vivida pelos peregrinos que cruzaram o limiar das igrejas jubilares. “O que encontraram? Que corações, que atenção, que acolhimento?”, questionou.

A Epifania e o chamado a uma Igreja viva

Ao celebrar a Epifania do Senhor, o Papa lembrou que a presença de Cristo transforma a história e coloca todos novamente a caminho. Catedrais, basílicas e santuários, afirmou, devem transmitir a certeza de que um mundo novo já começou, difundindo “o perfume da vida”.

Inspirando-se na pergunta dos Magos: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”, o Pontífice sublinhou a importância de que cada pessoa que entra numa igreja possa sentir que ali nasce esperança e se constrói uma história de vida.

“O Jubileu veio para nos lembrar que é possível recomeçar. Estamos ainda no início”, afirmou, recordando que Deus continua a agir no meio da humanidade, envolvendo pessoas de todas as idades e condições nas obras de misericórdia e justiça.

Proteger o que é frágil e nascente

O Papa também alertou para os perigos que ameaçam o novo que Deus faz brotar no mundo, recordando os conflitos, as violências e uma economia que transforma tudo em mercadoria, inclusive o desejo humano de buscar sentido e recomeçar.

Amar a paz, disse, significa proteger aquilo que é santo e frágil, como uma criança. E questionou: após o Jubileu, somos mais capazes de reconhecer no outro um peregrino, um buscador, um companheiro de caminho?

Maria, Estrela da Manhã

Concluindo a homilia, Leão XIV recordou que o Menino adorado pelos Magos é um bem sem preço, que se manifesta na gratuidade e nas realidades mais humildes. Encorajou as comunidades a não transformarem as igrejas em monumentos, mas em casas vivas, capazes de resistir às seduções do poder.

“Se caminharmos juntos, seremos a geração da aurora”, afirmou, confiando o futuro da Igreja à intercessão de Maria, Estrela da Manhã, que, assegurou, caminha sempre à nossa frente.

Fonte: Vatican News



FESTA DA EPIFANIA? MAS NÃO FOI DOMINGO PASSADO?

A Epifania do Senhor, celebrada em 6 de janeiro, tem origem muito antiga na tradição cristã e está ligada ao sentido da palavra epifania, que vem do grego epipháneia e significa manifestação, revelação.

No cristianismo, a Epifania celebra a manifestação de Jesus Cristo como Salvador não apenas de Israel, mas de todos os povos. Essa revelação é simbolizada, sobretudo, pela visita dos Magos, popularmente chamados de Santos Reis, narrada no Evangelho segundo Mateus (Mt 2,1-12).

Os Magos não pertenciam ao povo judeu; eram sábios vindos do Oriente, atentos aos sinais do céu. Ao seguirem a estrela e encontrarem o Menino Jesus, eles representam as nações pagãs que reconhecem em Cristo o Rei e o Salvador. Por isso, a Epifania é, desde o início, uma festa profundamente missionária e universal: Deus se revela a todos.

Quem eram estes magos mesmo?

Os Magos mencionados no Evangelho da Epifania não são personagens lendários, mas figuras reais dentro do imaginário histórico e religioso do mundo antigo. Ao mesmo tempo, o evangelista Mateus os apresenta com um forte valor simbólico e teológico.

A palavra magos vem do grego mágoi e designava, na Antiguidade, sábios do Oriente, especialmente ligados à astronomia/astrologia (observação dos astros), ao estudo das ciências naturais, à interpretação de sinais, e, em alguns casos, a funções religiosas ou sacerdotais.

Eles provavelmente vinham de regiões como a Pérsia, Babilônia ou Arábia, áreas conhecidas por seu saber astronômico. Eram pessoas cultas, estudiosas, atentas aos sinais do cosmos, algo muito respeitado naquele contexto histórico.

Eram reis?

O Evangelho não diz que eram reis. Essa imagem surgiu mais tarde, a partir da leitura cristã do Antigo Testamento, sobretudo:

  • Isaías 60,1-6: “nações caminharão à tua luz… trarão ouro e incenso”;
  • Salmo 72(71): “os reis de Társis… oferecerão dons”.

Esses textos proféticos foram interpretados pela Igreja como cumpridos na visita dos Magos, e assim, a tradição passou a chamá-los de reis, para sublinhar que até os poderosos da terra se inclinam diante de Cristo.

Quantos eram?

Mateus não informa o número. A tradição fixou em três, por causa dos três presentes:

  • ouro,
  • incenso,
  • mirra.

Em outras tradições antigas, especialmente no Oriente cristão, fala-se até em doze magos, o que mostra que o número nunca foi o essencial.

Seus nomes

Os nomes Gaspar, Melquior e Baltasar surgem apenas séculos depois, em textos e tradições populares do cristianismo ocidental. Eles não fazem parte do relato bíblico, mas ajudaram na catequese e na arte cristã, tornando os Magos figuras mais próximas do povo.

O sentido teológico dos Magos

Para Mateus, o mais importante não é quem eles eram em termos biográficos, mas o que representam:

  • São estrangeiros, não judeus → simbolizam todos os povos;
  • Buscam a verdade com sinceridade → representam a humanidade em busca de Deus;
  • Sabem ler os sinais, mas precisam da Escritura (em Jerusalém) → mostram que a razão e a fé caminham juntas;
  • Ajoelham-se diante do Menino → reconhecem em Jesus o verdadeiro Rei e Salvador.

Enquanto isso, os que tinham a Lei e os profetas (Herodes e os doutores da Lei) não se movem. Mateus faz, assim, um contraste forte: quem está longe se aproxima; quem está perto não reconhece.

Assim, os Magos eram sábios do Oriente, estudiosos dos astros, estrangeiros à fé de Israel, que se tornam os primeiros a reconhecer Cristo como luz para todas as nações. Na liturgia da Epifania, eles não são celebrados por seu poder ou saber, mas porque souberam colocar seu conhecimento a serviço da busca de Deus e se deixaram conduzir até o encontro com Jesus.

Por que exatamente 6 de janeiro?

A escolha do 6 de janeiro está ligada às origens do calendário litúrgico cristão no Oriente. Nos primeiros séculos, especialmente nas Igrejas orientais, essa data celebrava simultaneamente vários aspectos da manifestação de Cristo:

  • o Nascimento do Senhor,
  • a visita dos Magos,
  • o Batismo de Jesus no Jordão,
  • e, em algumas tradições, o primeiro milagre nas Bodas de Caná.

Todos esses eventos têm algo em comum: são momentos em que a identidade de Jesus se torna visível, revelada.

Somente mais tarde, no Ocidente, a celebração do Natal foi fixada em 25 de dezembro, e o dia 6 de janeiro passou a ser dedicado especificamente à Epifania, com foco na visita dos Magos.

A festa dos Santos Reis

A tradição popular chamou a Epifania de Festa dos Santos Reis porque o episódio dos Magos ganhou grande força simbólica e catequética. Embora o Evangelho não diga que eram reis nem quantos eram, a tradição cristã:

  • associou-os a reis a partir de textos proféticos do Antigo Testamento (como Is 60,1-6 e Sl 72),
  • fixou o número em três, em razão dos presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra.

Esses dons também têm significado teológico:

  • ouro: reconhece Jesus como Rei;
  • incenso: proclama sua divindade;
  • mirra: antecipa sua humanidade sofredora e sua morte.

A Folia de Reis é muito comum ainda no Brasil. Inclusive a foto acima é a visita da Folia de Reis na Comunidade Divino Mestre das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre em Cabreúva/SP. Eles vão todos os anos lá.

A Folia de Reis, embora bastante comum no Brasil, não tem uma manifestação homogênea em todo o país. Trata-se de uma das manifestações religiosas populares mais difundidas ligadas à Epifania do Senhor e à devoção aos Santos Reis, especialmente entre os dias 25 de dezembro e 6 de janeiro (ou até 20 de janeiro, em algumas regiões).

A Folia de Reis é particularmente forte no Brasil nas regiões do Sudeste (Minas Gerais, interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo); do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul); e em partes do Nordeste, com variações locais. Em Minas Gerais, por exemplo, ela é considerada um patrimônio cultural imaterial em muitos municípios, com grupos ativos há gerações.

A tradição da folia dos Reis veio com os portugueses, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, como uma forma de catequese popular. No Brasil, ela se misturou a elementos indígenas, a influências africanas e à religiosidade do interior rural. Por isso, não existe uma única Folia de Reis, mas muitas folias, cada uma com estilo, instrumentos, cantos e rituais próprios.

Estrutura da Folia

Apesar das variações, alguns elementos são comuns:

  • o grupo de foliões, que percorre casas e comunidades;
  • a bandeira ou estandarte dos Santos Reis, objeto central de devoção;
  • os instrumentos (viola, sanfona, caixa, pandeiro, reco-reco);
  • os cantos que narram a viagem dos Magos até Belém;
  • a figura do embaixador ou mestre, que conduz a cantoria;
  • e os palhaços, com função simbólica e ritual (proteção do grupo, distração, vigilância).

Sentido religioso e comunitário

Mais do que uma apresentação folclórica, a Folia de Reis é:

  • uma peregrinação cantada,
  • uma forma de oração em movimento,
  • um gesto de bênção das casas e das famílias.

Ao receber a Folia, a família acolhe simbolicamente os Santos Reis em sua casa, partilha alimentos e fortalece os laços comunitários. A festa mistura fé, música, convivência e memória.

Embora tenha perdido força em alguns centros urbanos, a Folia de Reis continua viva em muitas cidades do interior; vem sendo retomada por jovens e grupos culturais; é valorizada por políticas de preservação da cultura popular. Em muitas paróquias, ela também foi integrada à pastoral popular, ajudando a manter viva a ligação entre liturgia, devoção e cultura do povo.

A Folia de Reis é, sim, muito comum no Brasil, sobretudo fora dos grandes centros, e constitui uma expressão riquíssima da fé cristã inculturada: une Epifania, música, caminhada, hospitalidade e anúncio, fazendo da casa do povo um lugar onde Cristo continua a se manifestar.

Um significado que permanece atual

Celebrar a Epifania em 6 de janeiro é afirmar que Deus não se esconde, mas se dá a conhecer; que a fé cristã não é fechada em si mesma, mas aberta ao mundo; e que todos os povos, culturas, famílias são convidados a reconhecer a luz que brilha em Cristo.

Por isso, a Epifania é mais do que uma lembrança histórica: é um convite permanente a acolher a revelação de Deus e a caminhar, como os Magos, guiados pela luz da fé, até o encontro com Jesus.

Por que no Brasil celebramos esta solenidade no Domingo?

No Brasil, a Epifania do Senhor não é celebrada no dia 6 de janeiro, mas transferida para o domingo mais próximo, por uma decisão pastoral e litúrgica da Igreja, aprovada pela Santa Sé e prevista nas normas do calendário litúrgico.

O motivo central é garantir a participação do povo. O dia 6 de janeiro não é feriado civil no Brasil; quando cai em dia de semana, grande parte dos fiéis trabalha, estuda ou não consegue participar da celebração eucarística. Ao transferir a solenidade para o domingo, a Igreja assegura maior presença da comunidade, preserva o caráter solene da festa, favorece a catequese e a vivência litúrgica do mistério celebrado.

Essa prática segue um princípio pastoral importante: as grandes solenidades ligadas ao mistério de Cristo devem ser celebradas quando o povo pode realmente participar.

Fundamento litúrgico

A possibilidade de transferência está prevista nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário, especialmente nos números que tratam das solenidades do Senhor. A Epifania está entre as festas que, em alguns países, podem ser celebradas no próprio dia 6 de janeiro ou no domingo entre 2 e 8 de janeiro.

Cada Conferência Episcopal, como a CNBB, pode optar pela transferência, desde que haja aprovação da Sé Apostólica — o que acontece no caso do Brasil.

Outro aspecto importante é a organização do Tempo do Natal. No Brasil, a celebração dominical da Epifania mantém o ritmo das celebrações dominicais e ajuda a comunidade a compreender melhor a progressão do mistério: Natal → Epifania → Batismo do Senhor. Assim, a Epifania não “perde” seu valor, mas é integrada de modo mais claro ao caminho litúrgico do povo.

E em outros países?

Em muitos países da Europa e da América Latina, como Espanha, Itália, Alemanha e Portugal, o dia 6 de janeiro é feriado civil; por isso, a Epifania é celebrada na data fixa. Onde isso não acontece, como no Brasil, a transferência para o domingo é uma adaptação legítima, não uma mudança do sentido da festa.

Portanto, no Brasil, a Epifania é celebrada no domingo e não em 6 de janeiro porque:

  • o dia não é feriado civil;
  • a Igreja prioriza a participação do povo;
  • a transferência é permitida pelas normas litúrgicas;
  • a decisão foi tomada pela CNBB com aprovação da Santa Sé.

Trata-se, portanto, de uma escolha pastoral que busca tornar a celebração mais acessível, sem perder sua profundidade teológica: a manifestação de Cristo como luz para todos os povos.


Texto de Ir. Julia Almeida que é Irmã Pia Discípula do Divino Mestre. Escreve neste site desde 2015. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.




CONSELHO DE INSTITUTO DAS PIAS DISCÍPULAS DO DIVINO MESTRE 2026: UM TEMPO DE DISCERNIMENTO, COMUNHÃO E ESPERANÇA PARA TODA A CONGREGAÇÃO

Entre os dias 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026, as Pias Discípulas do Divino Mestre viverão um dos momentos mais significativos de sua vida institucional: a realização do Conselho de Instituto, que acontecerá em Antipolo City, nas Filipinas. Trata-se de um encontro de grande relevância e alcance para toda a Congregação, marcado pela escuta, pelo discernimento comunitário e pela corresponsabilidade na missão, em sintonia com as decisões do 10º Capítulo Geral.

Convocado oficialmente pela Superiora geral, Ir. M. Bernardita Meráz Sotelo, o Conselho de Instituto é um organismo previsto na Regra de Vida e no Diretório da Congregação, com a finalidade de favorecer a comunhão, a participação e o acompanhamento do caminho global das Pias Discípulas. Mais do que um evento administrativo, o Conselho se configura como um verdadeiro tempo de graça, no qual a Congregação é chamada a ler sua história recente, avaliar os processos em curso e projetar, com esperança, os passos futuros.

O tema que iluminará os trabalhos deste Conselho expressa bem o horizonte espiritual e pastoral que o sustenta: “Guarda em céu e conta as estrelas…” (Gn 15,5) – Transformar a fragilidade em um percurso generativo. A imagem bíblica evoca a promessa feita a Abraão e convida as irmãs a reconhecerem, mesmo em meio às fragilidades pessoais, comunitárias e institucionais, a presença de Deus que chama à fecundidade, à confiança e à renovação.

Um Conselho em sintonia com o 10º Capítulo Geral

O Conselho de Instituto de 2026 acontece em continuidade direta com o 10º Capítulo Geral, assumindo suas orientações e aprofundando as chamadas fundamentais ali discernidas. Durante o encontro, as representantes das diversas Circunscrições apresentarão uma relação de verificação do caminho percorrido à luz das chamadas “quatro estrelas” do Capítulo Geral, símbolo dos eixos prioritários que orientam a vida e a missão da Congregação neste tempo histórico.

Cada Circunscrição terá um espaço de 15 minutos para apresentar uma síntese do percurso realizado, destacando conquistas, desafios, fragilidades e perspectivas. O texto completo da relação, com até cinco páginas, foi solicitado previamente e integra o processo de preparação cuidadosa que antecede o Conselho, reforçando seu caráter de escuta qualificada e reflexão aprofundada.

Representatividade internacional e riqueza intercultural

Um dos aspectos mais marcantes do Conselho de Instituto é sua dimensão internacional, que expressa concretamente a universalidade da Congregação. Estarão presentes, além do Governo geral, representantes das Províncias e Delegações espalhadas pelos diversos continentes, compondo um mosaico rico de culturas, experiências e realidades eclesiais.

Participam do Conselho: a Superiora geral, a Vigária geral, as Conselheiras gerais, a Secretária geral e a Ecônoma geral, além das superiores das Províncias do Brasil, Colômbia/Equador, Congo, Coreia, Filipinas/Taiwan/Hong Kong, Japão, Índia, Itália, México e Polônia. Também estarão representadas as Delegações da Argentina, Austrália, Burkina Faso, Canadá, Chile, Portugal, Espanha, Estados Unidos/Irlanda, Vaticano e Venezuela. Aqui do Brasil participa a nossa provincial, Ir. Cidinha Batista, pddm.

Essa ampla representatividade garante que o discernimento seja verdadeiramente sinodal, atento às diversas situações em que as Pias Discípulas vivem e servem, e capaz de integrar diferentes olhares em um único horizonte carismático.

Filipinas: hospitalidade e comunhão

A escolha de Antipolo City, nas Filipinas, como sede do Conselho de Instituto, tem também um forte significado simbólico e fraterno. A Província Filipinas/Taiwan/Hong Kong acolherá as participantes, assumindo generosamente as despesas de hospedagem e alimentação durante todo o período do encontro. Este gesto concreto de solidariedade reforça o sentido de família religiosa e de comunhão entre as Circunscrições.

As irmãs participantes foram orientadas a chegar ao país a partir de 15 de janeiro de 2026, para favorecer a adaptação ao fuso horário e ao clima, além de permitir uma melhor integração inicial. A preparação logística, incluindo questões de visto e documentação, foi cuidadosamente organizada pelo Governo geral em diálogo com a Província anfitriã, demonstrando atenção e cuidado com cada participante.

Um tempo de graça para toda a Congregação

Embora o Conselho de Instituto reúna um grupo específico de irmãs, seu significado ultrapassa amplamente o espaço do encontro. As reflexões, decisões e orientações que emergirão desse tempo de escuta e discernimento dizem respeito a toda a Congregação, convidando cada Pía Discípula, onde quer que esteja, a sentir-se parte desse caminho comum.

A Superiora geral, em suas comunicações, sublinha o desejo de que este Conselho seja vivido como uma experiência de peregrinação, marcada pela paz, pela esperança e pela unidade. Trata-se de um chamado a caminhar juntas, reconhecendo as fragilidades como lugar de passagem para processos novos e geradores de vida.

Em um mundo atravessado por rápidas transformações, incertezas e desafios complexos, o Conselho de Instituto de 2026 se apresenta como um espaço privilegiado para renovar o olhar, fortalecer a identidade carismática e reafirmar a missão das Pias Discípulas do Divino Mestre a serviço da Igreja e da humanidade.

Assim, ao olhar para o céu e “contar as estrelas”, a Congregação se dispõe a reconhecer os sinais da fidelidade de Deus no passado, a acolher com realismo o presente e a projetar o futuro com confiança, criatividade e esperança.



SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

Epifania do Senhor – Domingo, 4 de janeiro de 2026 (Ano A)
Mt 2,1-12

A Solenidade da Epifania do Senhor nos coloca diante de um Evangelho conhecido, mas sempre novo: a visita dos Magos ao Menino Jesus. São poucos versículos, mas cheios de movimento, perguntas, contrastes e decisões. É a partir desse Evangelho que toda a liturgia de hoje se organiza, e é a partir dele que somos convidados a refletir sobre a vida concreta das famílias brasileiras, com suas buscas, cansaços, alegrias e esperanças.

O texto de Mateus começa com um detalhe aparentemente simples: “Jesus nasceu em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes”. A boa notícia não surge num cenário ideal, mas num contexto político tenso, marcado pelo medo do poder e pela violência. Isso já nos diz muito: Deus não espera que o mundo esteja organizado ou pacificado para se manifestar. Ele entra na história real, como ela é. Também hoje, em meio às inseguranças econômicas, às preocupações com o trabalho, à violência urbana e às dificuldades que atravessam tantas famílias brasileiras, Deus continua nascendo e se revelando.

Os Magos chegam do Oriente guiados por uma estrela. Eles não pertencem ao povo de Israel, não conhecem a Lei, não frequentam o Templo. São estrangeiros, estudiosos do céu, homens que observam os sinais e se deixam interpelar por eles. A Epifania nos lembra que Deus não se revela apenas aos “de dentro”, aos que já estão organizados religiosamente, mas também e muitas vezes primeiro aos que estão em busca. Quantas famílias hoje vivem assim: buscando, tentando acertar, perguntando-se sobre o sentido da vida, do sofrimento, da fé, da educação dos filhos. A estrela continua brilhando para quem se dispõe a levantar os olhos.

Quando os Magos chegam a Jerusalém e perguntam: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?”, o Evangelho mostra dois tipos de reação. Herodes se perturba, e com ele toda a cidade. O nascimento de Jesus incomoda quem está apegado ao poder, ao controle, à própria segurança. Quantas vezes, também em nossas casas, a presença de Deus nos inquieta porque exige mudança, conversão, deslocamento? A Epifania não é uma festa confortável: ela desinstala.

Os chefes dos sacerdotes e os escribas sabem exatamente onde o Messias deveria nascer. Conhecem as Escrituras, citam o profeta, mas não se movem. Sabem, mas não caminham. Aqui o Evangelho toca um ponto sensível da vida cristã: não basta conhecer a fé, é preciso deixar-se mover por ela. Muitas famílias brasileiras têm uma fé herdada, tradicional, mas cansada, que sabe “onde fica Belém”, mas não sai de Jerusalém. A Epifania nos provoca a passar do saber ao caminhar, do hábito à experiência viva.

Os Magos, ao contrário, retomam o caminho. E então a estrela reaparece. Isso é profundamente humano e espiritual: quando escolhemos avançar, mesmo sem todas as respostas, Deus renova os sinais. “Ao verem de novo a estrela, encheram-se de grande alegria.” A alegria nasce do reencontro com o sentido. Em meio à rotina pesada, às contas a pagar, às preocupações com os filhos e com o futuro, quantas famílias experimentam essa alegria simples quando percebem que Deus não as abandonou no caminho?

Ao entrarem na casa, os Magos não encontram um palácio, mas “o Menino com Maria, sua mãe”. A Epifania acontece no espaço doméstico, no cotidiano de uma família pobre. Deus se revela na fragilidade de um bebê, nos braços de uma mãe. Isso tem um valor imenso para a realidade das famílias brasileiras: Deus não se manifesta apenas nos grandes eventos ou nos momentos perfeitos, mas no chão da casa, na mesa simples, no cuidado diário, na presença silenciosa.

Os Magos se prostram e oferecem ouro, incenso e mirra. Não entregam apenas objetos preciosos, mas aquilo que são e representam. A Epifania nos convida a perguntar: o que nossas famílias oferecem a Deus? Talvez não ouro, mas tempo; não incenso, mas oração feita entre uma tarefa e outra; não mirra, mas a entrega dos sofrimentos, das dores e das perdas. Deus acolhe tudo isso.

Por fim, o Evangelho diz que os Magos “voltaram por outro caminho”. Esse é o sinal de que o encontro com Cristo transforma. A Epifania não termina na contemplação, mas na mudança de rota. Quem encontra Jesus não pode continuar vivendo da mesma forma. Para as famílias, isso significa rever prioridades, modos de se relacionar, escolhas educativas, consumo, uso do tempo. Não se trata de perfeição, mas de direção.

As outras leituras deste domingo iluminam essa experiência. Isaías anuncia que a luz resplandece e atrai povos e nações. Paulo afirma que o mistério agora foi revelado: todos são chamados à mesma promessa. A Epifania é a festa de um Deus que se mostra para todos, sem distinção. Um Deus que entra na casa, na estrada, na história concreta.

Celebrar a Epifania do Senhor é renovar a certeza de que, mesmo em tempos difíceis, Deus continua se manifestando. Cabe a nós levantar os olhos, seguir os sinais, entrar na casa, adorar o Menino e voltar por outro caminho. Que as nossas famílias, com suas lutas e esperanças, possam reconhecer a estrela que Deus acende no meio da noite e encontrar, nela, motivo de alegria e de vida nova.


Ir. Julia de Almeida é Irmã Pia Discípula do Divino Mestre e escreve no site institucional das Pias Discipulas desde 2015. É mestre em comunicação e semiótica pela PUC/SP.