O CARNAVAL E O SENTIDO PARA A COMUNIDADE CRISTÃ

O Carnaval é uma das manifestações culturais mais marcantes do Brasil e de outros países, reconhecido por sua alegria, música e expressão popular. Para as comunidades cristãs, porém, essa celebração carrega um significado mais profundo, que vai além da festa em si e está diretamente ligado ao calendário litúrgico e à vivência da fé.

Historicamente, o Carnaval acontece imediatamente antes da Quarta-feira de Cinzas, que inaugura a Quaresma, período de quarenta dias dedicado à oração, à penitência, ao jejum e à preparação espiritual para a Páscoa. O próprio termo “Carnaval”, derivado da expressão latina carne vale (“adeus à carne”), remete à ideia de despedida dos excessos e de transição para um tempo de maior recolhimento e disciplina espiritual. Nesse sentido, o Carnaval não deveria ser compreendido apenas como um momento de indulgência, mas como uma etapa que antecede e prepara o coração para a conversão quaresmal.

Para as comunidades cristãs, o verdadeiro significado do Carnaval está no discernimento e no equilíbrio. Alguns fiéis optam por participar das celebrações culturais de maneira moderada, valorizando o convívio social, a alegria saudável e o respeito ao próximo. Nessa perspectiva, o Carnaval pode ser vivido como um tempo de lazer responsável, sem que isso signifique abandono dos valores cristãos.

Outros cristãos, por sua vez, escolhem viver esse período de forma mais introspectiva, afastando-se da folia para participar de retiros espirituais, encontros de oração e momentos de reflexão. Essas iniciativas são comuns em diversas igrejas e oferecem um espaço de silêncio, escuta da Palavra e renovação da fé, ajudando os fiéis a iniciar a Quaresma de maneira consciente e profunda.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que muitas comunidades cristãs enxergam o Carnaval de forma crítica, especialmente quando ele é associado a excessos, comportamentos irresponsáveis e atitudes que ferem a dignidade humana. Para esses grupos, práticas como o abuso de álcool, a banalização do corpo e a perda do autocontrole entram em conflito com princípios centrais do cristianismo, como a moderação, o respeito e o cuidado com o outro.

Dessa forma, o Carnaval pode ser compreendido pelas comunidades cristãs não como um fim em si mesmo, nem apenas como algo a ser rejeitado, mas como um convite à consciência espiritual. Ele se torna uma oportunidade para refletir sobre escolhas, limites e prioridades, preparando o coração para o tempo quaresmal que se aproxima.

Em essência, o que o Carnaval deveria significar para os cristãos é um chamado ao equilíbrio entre alegria e responsabilidade, liberdade e compromisso, celebração e fé. Vivido dessa maneira, ele deixa de ser apenas uma festa cultural e passa a ser um momento de transição, no qual cada fiel é convidado a alinhar sua vida com os ensinamentos de Cristo e a se preparar, de forma sincera, para a renovação espiritual que a Quaresma propõe.

Que tipo de consciência espiritual devo viver o contexto do Carnaval?

A consciência espiritual, no contexto do Carnaval, não é moralismo nem simples rejeição da festa. Ela é, antes de tudo, discernimento. Trata-se da capacidade de o cristão se perguntar, com honestidade: O que isso desperta em mim? Isso me aproxima ou me afasta do amor a Deus e ao próximo? Como minhas escolhas afetam meu corpo, minha fé e as outras pessoas?

Essa consciência envolve três dimensões principais. A primeira delas é a Consciência de si. O cristão é convidado a reconhecer seus próprios limites, desejos e fragilidades. O Carnaval pode intensificar emoções, impulsos e excessos. E a consciência espiritual ajuda a perceber quando a alegria deixa de ser saudável e passa a ser fuga, anestesia ou autodestruição. Aqui, espiritualidade não é repressão, mas autocuidado e verdade interior.

A segunda é Consciência do outro. A fé cristã nunca é apenas individual. Ter consciência espiritual é perguntar: Estou respeitando a dignidade do outro? Meu comportamento contribui para a vida, para o bem comum, para relações mais humanas?

Isso toca temas como respeito ao corpo, consentimento, cuidado com os mais vulneráveis e rejeição de qualquer forma de violência ou exploração, realidades que também atravessam o Carnaval.

E, por fim, a Consciência do tempo litúrgico. O Carnaval não está “fora” da vida cristã: ele antecede a Quaresma. A consciência espiritual reconhece esse tempo de passagem. Não é só “antes da Quaresma”, mas um limiar, um convite a desacelerar e a preparar o coração para a conversão.

Ver o Carnaval assim, comporta admitir o seu caráter complexo, como todas as coisas, nos ajuda a recusar visões simplistas como “É tudo pecado” ou “É tudo liberdade e alegria”. A realidade é mais profunda.

Temos que admitir que o carnaval é cultural, social e histórico. Ele carrega expressões legítimas de alegria popular, de resistência cultural, de vozes de comunidades marginalizadas e de muita arte, música, identidade e crítica social. Ignorar isso é empobrecer a leitura cristã do mundo. A fé não vive fora da cultura: ela dialoga com ela.

O Carnaval também revela contradições humanas. Ao mesmo tempo, ele expõe excessos, desigualdades, mercantilização dos corpos, fugas emocionais e espirituais. Uma leitura cristã madura não nega essas sombras, mas também não reduz toda a festa a elas.

Ver este fenômeno do Carnaval valorizando a sua complexidade exige discernimento, não julgamento. Jesus não se afastava da realidade humana por medo do pecado. Pelo contrário, Ele entrava nela com misericórdia e verdade. Ver o Carnaval com complexidade é fazer o mesmo: nem romantizar, nem demonizar, mas discernir.

Em síntese, para as comunidades cristãs, o Carnaval pode ser visto como:

  • Um espelho da condição humana: sede de alegria, liberdade, sentido
  • Um tempo de escolhas conscientes, não automáticas
  • Um convite à responsabilidade espiritual, pessoal e comunitária
  • Um limiar entre a festa e o silêncio, entre o exterior e o interior

Viver o Carnaval com consciência espiritual é perguntar menos “posso ou não posso?” e mais “isso me humaniza? Isso me aproxima do amor?”




LITURGIA DO DOMINGO: “VIVER A LEI DO CORAÇÃO” – 6º DOMINGO DO TEMPO COMUM, ANO A

Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
6º Domingo do Tempo Comum, Ano A

Leituras: Eclo 15,16-21 | Sl 18(119),1-2.4-5.17-18.33-34 (R. 1) | 1Cor 2,6-10 | Mt 5,17-37 ou mais breve 5,20-22a.27-28.33-34a.37

Neste domingo, o Evangelho nos apresenta uma palavra exigente, mas profundamente libertadora. Jesus diz com clareza: “Não vim abolir a Lei ou os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento.” Isso significa que Deus não deseja apenas que façamos o que é correto por fora, mas que aprendamos a viver a fé a partir do coração.

Nos domingos anteriores, a liturgia nos ajudou a compreender quem somos e para que somos chamados. Primeiro, escutamos as Bem-aventuranças, que nos revelaram o coração do discípulo: pobre, misericordioso, manso, comprometido com a justiça. Depois, fomos lembrados de que somos sal da terra e luz do mundo, chamados a dar sabor e esperança à vida das pessoas. Hoje, Jesus nos ensina como viver tudo isso no dia a dia.

Ele nos mostra que cumprir a Lei não é apenas evitar o erro, mas escolher o bem desde a raiz. Por exemplo: não basta dizer “eu nunca matei ninguém” se guardamos rancor, mágoa ou desprezo no coração. Quantas vezes evitamos o diálogo, mantemos silêncio por orgulho ou alimentamos divisões dentro da família, da comunidade ou do trabalho? Jesus nos chama à reconciliação, porque o amor começa quando damos o primeiro passo para reconstruir relações.

Da mesma forma, Jesus fala da verdade. Não basta falar corretamente se o coração está dividido. Isso toca nossa vida cotidiana quando prometemos algo e não cumprimos, quando dizemos “sim” por conveniência e “não” apenas em pensamento, ou quando usamos palavras para agradar, mas não para ser verdadeiros. O Evangelho nos convida a uma vida mais simples e coerente, onde a palavra reflita aquilo que realmente somos.

Esses exemplos nos ajudam a perceber que Jesus não está propondo uma religião de aparências. Ele nos alerta para o risco de viver uma fé superficial, feita apenas de gestos externos, sem conversão interior. Hoje, muitas vezes estamos ocupados demais, cheios de tarefas, estímulos e preocupações, até mesmo na vida religiosa. Falta-nos tempo para escutar o coração, para silenciar, para deixar Deus nos falar. E quando perdemos esse espaço interior, nossas atitudes se tornam automáticas e nossas relações, frágeis.

As outras leituras reforçam essa mensagem. O livro do Eclesiástico nos lembra que Deus nos dá liberdade: somos nós que escolhemos entre a vida e a morte, entre o bem e o mal. O salmo afirma que é feliz quem guarda a Palavra de Deus no coração, não por obrigação, mas por amor. São Paulo nos recorda que só o Espírito Santo pode nos ajudar a compreender o que Deus espera de nós, porque Ele conhece as profundezas do coração humano.

Este domingo nos prepara para a Quaresma, que está próxima. Mais do que pensar em sacrifícios externos, somos convidados a olhar para dentro. Que atitudes precisam ser transformadas? Que relações precisam ser curadas? Que palavras precisam ser purificadas? A conversão começa quando permitimos que Deus toque o coração e nos ensine a viver com mais verdade, mais misericórdia e mais coerência.

Seguir Jesus é aprender a viver uma fé que transforma a vida concreta: no modo como falamos em casa, como tratamos as pessoas, como resolvemos conflitos e como tomamos decisões. Que a liturgia de hoje nos ajude a dar esse passo, preparando-nos para uma Quaresma vivida não apenas por fora, mas no mais profundo do nosso coração.


Mensagem do Papa Leão para a Quaresma: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/lent/documents/20260205-messaggio-quaresima.html




LITURGIA DOMINICAL: O EVANGELHO QUE DESCE AO CORAÇÃO

6º Domingo do Tempo Comum – Ano A (15 de fevereiro de 2026)

Leituras: Sf 2,3;3,12-13 | Sl 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5,3) | 1Cor 1,26-31 | Mt 5,1-12a

A liturgia deste 6º Domingo do Tempo Comum continua nos conduzindo, com pedagogia paciente, ao coração do Sermão da Montanha. Não se trata de uma simples sequência de textos, mas de um itinerário espiritual progressivo, que a Igreja nos propõe como verdadeiro caminho de conversão.

No 4º Domingo do Tempo Comum (01/02), contemplamos as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a): o anúncio de uma felicidade paradoxal, que nasce da mansidão, da misericórdia, da fome de justiça e da construção da paz. No domingo passado, ouvimos que esses discípulos bem-aventurados são chamados a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16): uma fé que não pode ficar escondida, mas que precisa ganhar forma concreta na história.

Hoje, Jesus dá mais um passo decisivo: Ele nos convida a ir além da observância exterior da Lei, entrando na lógica profunda do Reino. “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20).

Não abolir, mas levar à plenitude

Jesus é claro: Ele não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude. E essa plenitude não se mede pelo rigor das normas, mas pela transformação do coração. No Evangelho de hoje (Mt 5,17-37), Jesus relê os mandamentos fundamentais — não matar, não cometer adultério, não jurar falsamente — e os aprofunda, deslocando o foco da ação externa para a intenção interior.

Não basta não matar: a violência começa no desprezo, na palavra agressiva, no ódio cultivado. Não basta não cometer adultério: a infidelidade nasce no olhar que reduz o outro a objeto. Não basta jurar corretamente: o discípulo do Reino é chamado à verdade simples, ao “sim” que é sim e ao “não” que é não.

É um Evangelho exigente, que não permite uma fé superficial. Ele nos desinstala e justamente por isso nos humaniza.

A primeira leitura, do Eclesiástico (15,16-21), ilumina essa exigência de Jesus: Deus coloca diante de nós o fogo e a água, a vida e a morte. Ele respeita profundamente a nossa liberdade, mas nunca nos dispensa da responsabilidade. A fidelidade aos mandamentos não é opressão, mas caminho de vida.

O Salmo 118 (119) ecoa essa mesma convicção: feliz quem anda na lei do Senhor, não como quem cumpre regras friamente, mas como quem encontrou um sentido para viver.

Já São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (2,6-10), nos lembra que essa lógica do Reino não se entende apenas com inteligência humana. Trata-se de uma sabedoria que vem do Espírito, capaz de revelar aquilo que “olho nenhum viu e ouvido nenhum ouviu”. Sem essa abertura ao Espírito, o Evangelho se torna moralismo; com Ele, torna-se caminho de libertação.

Evangelho, Carnaval e verdade interior

Celebramos este domingo em mio ao Carnaval, tempo de festa, criatividade, corpo, música e expressão popular tão marcante no Brasil. O Evangelho de hoje não condena a alegria, nem a festa em si. Pelo contrário: ele nos provoca a perguntar que alegria buscamos e que verdade carregamos por dentro.

Num contexto em que máscaras são usadas (literal e simbolicamente) Jesus nos chama a uma vida sem duplicidade. O problema não é festejar, mas viver desconectados do coração, anestesiados, fugindo de nós mesmos e dos outros. O “sim, sim; não, não” de Jesus soa como um convite à inteireza, à coerência entre o que mostramos e o que somos.

O Carnaval pode ser vivido como espaço de encontro, beleza e partilha, mas também pode revelar vazios, excessos e violências. O Evangelho não impõe culpas, mas oferece discernimento: que justiça maior estamos construindo também nesses espaços?

Num cenário mundial marcado por guerras, genocídios e a banalização da vida, as palavras de Jesus ganham uma força quase desconcertante. Ele não se limita a condenar o assassinato; Ele vai à raiz da violência. O desprezo, o ódio, a desumanização do outro são sementes de guerra.

Antes de bombas e exércitos, há palavras que ferem, discursos que incitam, sistemas que legitimam a exclusão. O Evangelho de hoje nos lembra que a paz começa no coração convertido, mas não termina nele: ela se traduz em relações justas, em escolhas éticas, em compromisso com a dignidade humana.

Um caminho que se desenha

O caminho litúrgico destas últimas três semanas no Tempo Comum nos revela uma pedagogia espiritual cuidadosa, com a qual a Igreja nos educa para o discipulado autêntico.

Nas Bem-aventuranças, somos colocados diante do sonho de Deus para a humanidade. Jesus proclama felizes aqueles que o mundo costuma considerar fracassados: os pobres, os mansos, os que choram, os misericordiosos, os que promovem a paz. Não se trata de um ideal ingênuo, mas da revelação de uma lógica nova, capaz de curar relações feridas e devolver dignidade aos descartados da história.

Ao afirmar que os discípulos são sal da terra e luz do mundo, o Evangelho dá um passo adiante: esse sonho não pode permanecer apenas como bela utopia. Ele precisa ganhar corpo na vida concreta dos que se deixam tocar pelas Bem-aventuranças. Ser sal e luz é aceitar a missão de preservar o que é humano, iluminar caminhos obscuros e dar sabor à vida comum, mesmo quando isso exige exposição, risco e coerência.

Por fim, ao falar de uma justiça maior, Jesus aprofunda ainda mais o chamado. Não basta pertencer exteriormente ao povo de Deus ou cumprir normas religiosas. A fé que nasce do Evangelho precisa descer ao coração, purificar intenções, transformar palavras, olhares e escolhas. É essa justiça interior (silenciosa e exigente) que tem força para transformar a história, desarmar violências e abrir caminhos de reconciliação.

Esse itinerário revela que seguir Jesus não é acumular práticas religiosas, mas deixar-se conduzir por um processo de conversão contínua, no qual o sonho de Deus se torna missão e a missão se enraíza numa fé verdadeira, vivida com inteireza.

Que este domingo nos ajude a escolher a vida, a verdade e a paz, não como slogans, mas como decisões cotidianas. E que, em meio às festas, aos conflitos e às ambiguidades do nosso tempo, sejamos sinais humildes, mas reais, de um Reino que já está no meio de nós.




CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026: IGREJA DO BRASIL CONVOCA REFLEXÃO SOBRE MORADIA DIGNA

Com o início da Quaresma de 2026, a Igreja Católica no Brasil lança oficialmente a Campanha da Fraternidade (CF) 2026, que este ano traz como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (João 1,14). A iniciativa, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), convida comunidades, paróquias e a sociedade em geral a olhar para a questão da moradia como um direito humano fundamental e expressão concreta da fé cristã.

A escolha do tema foi motivada pela Pastoral da Moradia e Favela e acolhida pelo Conselho Episcopal Pastoral da CNBB. Segundo o padre Jean Poul Hansen, assessor do Setor de Campanhas, o lema, inspirado no mistério da Encarnação, ilumina o debate social e espiritual: “Deus veio morar entre nós, e isso fundamenta a dimensão social da nossa fé”, recordando que a presença de Cristo entre os mais pobres pede um compromisso de atenção e cuidado com quem vive na vulnerabilidade.

No Brasil, milhões de famílias enfrentam o desafio de não ter acesso a uma moradia adequada, seja por déficit habitacional, condições precárias de infraestrutura ou exclusão social. A CF 2026 coloca essa realidade no centro da reflexão quaresmal, articulando fé, justiça e cidadania. A escolha do tema não é apenas simbólica: ela chama a atenção para a urgência de políticas públicas, ações comunitárias e compromisso pessoal com a dignidade humana, promovendo respostas concretas às necessidades mais básicas da população.

A Campanha da Fraternidade é tradição da Igreja no Brasil desde 1964 e ocorre todos os anos durante a Quaresma, um tempo litúrgico de conversão, solidariedade e compromisso com o próximo. A cada edição, a campanha propõe um tema que ajude a comunidade cristã a ver realidades sociais importantes à luz do Evangelho, julgar com valores cristãos e agir no mundo para promover mudanças concretas.

Em 2026, refletir sobre moradia digna é falar de uma necessidade humana básica — que acolhe a vida, protege as famílias e garante condições essenciais para que pessoas possam viver com segurança, saúde e esperança. Para a Igreja, essa reflexão não é externa à fé: ela está profundamente ligada ao mandamento do amor ao próximo e ao exemplo de Jesus, que se fez presença entre os pobres e excluídos.

Faça o download de materiais da CF 2026: CLIQUE AQUI

Site da CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2026

A Campanha da Fraternidade e a Quaresma

A Quaresma é um tempo litúrgico marcado por conversão, escuta da Palavra, oração, jejum e caridade. Desde 1964, a Igreja no Brasil escolheu viver esse tempo também como um período de compromisso comunitário, no qual a fé se traduz em atitudes concretas de amor ao próximo. É nesse contexto que nasce e se desenvolve a Campanha da Fraternidade.

A CF ajuda os fiéis a perceber que a conversão quaresmal não é apenas interior ou individual, mas também social e comunitária. Ao propor um tema concreto a cada ano, a Campanha convida a Igreja a olhar para uma realidade específica da sociedade, à luz do Evangelho, e a perguntar: o que Deus nos pede diante dessa situação?

A Campanha da Fraternidade dialoga diretamente com os três pilares tradicionais da Quaresma:

  • Oração: o tema da CF é incorporado às celebrações, preces, momentos de reflexão e vias-sacras, ajudando a comunidade a rezar a partir das dores, esperanças e desafios do povo.
  • Jejum: entendido não apenas como abstinência, mas como mudança de mentalidade, sobriedade de vida e abertura ao outro, questionando estruturas de pecado e indiferença.
  • Caridade: vivida de modo concreto, especialmente por meio da Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, que expressa liturgicamente o compromisso com os mais pobres.

A CF não substitui a liturgia nem cria um “tema paralelo” ao ano litúrgico. Pelo contrário, ela brota da liturgia quaresmal e a ajuda a dialogar com a vida. As leituras bíblicas da Quaresma, que falam de conversão, justiça, misericórdia e reconciliação, encontram eco nos temas da Campanha. Por isso, a CF pode ser integrada à vida litúrgica por meio de preces dos fiéis, das homilias, símbolos discretos e pedagógicos, cantos e momentos orantes, sempre respeitando as normas litúrgicas e a centralidade do Mistério Pascal.

A Campanha da Fraternidade recorda que não existe separação entre fé e vida. Celebrar a Quaresma é preparar o coração para a Páscoa, mas também assumir um compromisso com a transformação do mundo, começando pelas realidades mais feridas da sociedade. Assim, ao unir espiritualidade, liturgia e compromisso social, a Campanha da Fraternidade ajuda a Igreja a viver a Quaresma como um verdadeiro caminho de conversão pessoal, comunitária e social, em sintonia com o Evangelho e com a missão de Jesus.

Para além da reflexão: gestos e ações concretas

A Campanha da Fraternidade não se limita à reflexão teológica ou pastoral. Ela convida comunidades e fiéis a assumirem compromissos concretos, por meio de iniciativas que promovem a solidariedade, fortalecem vínculos comunitários e incentivam a participação social. Entre essas ações estão o apoio a projetos sociais, a promoção de debates locais e o engajamento em políticas públicas voltadas à superação da pobreza e da exclusão. Trata-se de uma oportunidade para viver, de modo concreto, o espírito da fraternidade cristã, traduzindo a fé em gestos que transformam realidades.

Nesse contexto, destaca-se o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), cuja principal fonte de recursos é a Coleta da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos. Criado em 1998, o FNS tornou-se um importante instrumento de apoio a iniciativas que enfrentam situações de pobreza e miséria em todo o país. Do total arrecadado, 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade, administrado pela CNBB, enquanto 60% permanecem nas dioceses de origem, constituindo os Fundos Diocesanos de Solidariedade (FDS), voltados ao apoio de projetos locais de enfrentamento da exclusão social.

A animação e a gestão do FNS estiveram sob a responsabilidade da Cáritas Brasileira entre 1999 e 2014. Atualmente, essa missão é assumida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que também é a promotora da Campanha da Fraternidade e da Coleta da Solidariedade. Cabe ao Departamento Social da CNBB, em conjunto com o Conselho Gestor do FNS-CNBB, a responsabilidade pelos processos de recebimento, análise, aprovação e acompanhamento dos projetos apoiados.

As instituições interessadas em submeter projetos devem estar em conformidade com o Edital do Fundo Nacional de Solidariedade, disponível no site fns.cnbb.org.br. O cadastro é realizado de forma eletrônica, por meio do sistema indicado, com o preenchimento de todas as informações solicitadas. Após o envio, os projetos passam pela avaliação do Conselho Gestor, e as instituições proponentes podem acompanhar, pelo próprio sistema, todas as etapas do trâmite.



Referências para o texto:

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL.
CNBB lança cartaz da Campanha da Fraternidade 2026 com foco na moradia digna. Brasília, 2025. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/cnbb-lanca-cartaz-da-campanha-da-fraternidade-2026-com-foco-na-moradia-digna/. Acesso em: 29 jan. 2026.

VATICAN NEWS.
Campanha da Fraternidade 2026 propõe reflexão sobre moradia digna no Brasil. Vaticano, 2025. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2025-12/maristas-brasil-acao-campanha-fraternidade-2026.html. Acesso em: 29 jan. 2026.

PASTORAL NACIONAL DO SOLO E DA MORADIA.
Conheça a Campanha da Fraternidade 2026. Brasília, 2025. Disponível em: https://pnsg.org.br/conheca-a-campanha-da-fraternidade-para-2026/. Acesso em: 29 jan. 2026.

PARÓQUIA SÃO JOÃO BATISTA.
Campanha da Fraternidade 2026. [S.l.], 2025. Disponível em: https://www.paroquiasaojoaobatista.org/igreja-em-acao/campanhas/campanha-da-fraternidade/campanha-da-fraternidade-2026. Acesso em: 29 jan. 2026.





PIAS DISCÍPULAS DO DIVINO MESTRE CELEBRAM 102 ANOS DE FUNDAÇÃO

No dia 10 de fevereiro, data em que a Igreja celebra Santa Escolástica, as Pias Discípulas do Divino Mestre comemoram 102 anos de fundação. A congregação foi fundada pelo Bem-aventurado Padre Tiago Alberione, que escolheu simbolicamente essa data para dar início a uma nova expressão de vida consagrada a serviço da Igreja.

Inspirado pela espiritualidade beneditina de Santa Escolástica — irmã de São Bento —, Padre Alberione confiou às Pias Discípulas uma missão profundamente enraizada na centralidade da Eucaristia, na oração litúrgica e no serviço apostólico, em comunhão com toda a Família Paulina.

Neste ano de 2026, a celebração dos 102 anos é iluminada pelo tema bíblico “Olha para o céu e conta as estrelas” (Gn 15,5), escolhido pelo Conselho do Instituto, realizado nas Filipinas entre 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. A imagem evoca o chamado feito por Deus a Abraão, convidando-o a sair da tenda para ampliar o olhar e confiar na promessa divina.

O tema também retoma o caminho indicado pelo 10º Capítulo Geral, que propõe como horizonte para o sexênio as “estrelas” da interculturalidade, da missão, do discernimento como estilo de vida e da formação integral e contínua. São luzes que orientam a vida e a missão da Congregação no contexto atual da Igreja e do mundo.

Celebrar mais de um século de história é, para as Pias Discípulas do Divino Mestre, um tempo de gratidão, memória agradecida e renovação do compromisso vocacional. Como recordava o fundador, os desígnios de Deus sobre a Congregação sempre foram claros e conduzidos para a maior glória de Deus e a santificação de suas integrantes.

Ao completar 102 anos, a Congregação renova o seu desejo de “olhar para o céu”, deixar-se conduzir por Deus, transformar as fragilidades em fecundidade e seguir adiante com esperança, permanecendo fiel à missão recebida na Igreja: ser discípulas íntimas de Jesus Mestre, a serviço do seu Corpo Místico, hoje e sempre.



Gn 15,5 – A promessa que nasce sob o céu estrelado

Em Gn 15,5, somos conduzidos a uma das cenas mais decisivas de toda a revelação bíblica. Deus leva Abraão para fora e o convida a erguer os olhos ao céu: “Olha para o céu e conta as estrelas, se és capaz de as contar. Assim será a tua descendência.” A promessa é proclamada justamente no momento em que tudo parece humanamente impossível. Abraão é idoso, Sara é estéril e o futuro parece fechado. É nesse contexto de limite que Deus abre um horizonte novo.

O gesto de “levar para fora” não é apenas físico, mas profundamente simbólico. Abraão é retirado do espaço estreito de seus cálculos e medos para contemplar o cosmos, sinal da grandeza e da fidelidade do Criador. O convite a olhar o céu não é um simples ato de observação, mas um chamado à contemplação: diante da imensidão das estrelas, Abraão reconhece seus limites e, ao mesmo tempo, a potência da palavra divina.

As estrelas, incontáveis aos olhos humanos, tornam-se imagem de uma promessa que ultrapassa toda lógica natural. A descendência prometida não é apenas numerosa, mas duradoura, inserida no próprio desígnio de Deus para a história. O “assim será” indica que a promessa não se funda em evidências visíveis, mas na correspondência entre a palavra de Deus e a fé daquele que a acolhe.

Esse versículo prepara imediatamente Gn 15,6, onde se afirma que Abraão creu no Senhor, e isso lhe foi imputado como justiça. Por isso, Gn 15,5 ocupa um lugar central na teologia bíblica da fé. A promessa não elimina a noite nem resolve imediatamente a crise de Abraão; ela transforma a noite em espaço de revelação. Deus não oferece provas, mas uma palavra confiável.

No Novo Testamento, essa promessa é relida à luz de Cristo. Para o apóstolo Paulo, a descendência de Abraão se estende a todos os que creem, fazendo dele pai de uma multidão que não se define apenas por laços de sangue, mas pela fé. Assim, as estrelas do céu tornam-se imagem da comunidade dos fiéis, chamados a viver da mesma confiança que sustentou Abraão.

Gn 15,5 revela, portanto, o coração da fé bíblica: confiar quando o caminho ainda não é visível, crer quando a promessa parece maior que a realidade, e aprender a levantar os olhos para além dos próprios limites, certos de que a palavra de Deus é fiel.



RENOVAÇÃO DE VOTOS RELIGIOSOS DE IR. ANTÔNIA BIANCA

Nesta segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, a Capela da Comunidade Timóteo Giaccardo, em Pacaembu (SP), foi espaço de profunda ação de graças, comunhão fraterna e renovação da esperança com a celebração da renovação dos votos religiosos, pela sexta vez, da Ir. M. Antônia Bianca Oliveira dos Santos. O momento marcou mais uma etapa significativa em sua caminhada vocacional e foi vivido com alegria, simplicidade e espírito orante pelas Irmãs ali presentes.

A celebração eucarística foi presidida pelo Pe. Frei Jair Roberto Pasquali, TOR, que conduziu o rito com serenidade e profundidade espiritual, destacando o valor do compromisso assumido pela religiosa e o significado eclesial da vida consagrada. A presença das Irmãs, reunidas em clima de fraternidade, expressou a comunhão comunitária e o apoio à caminhada vocacional da Ir. M. Antônia Bianca, que neste ano segue sua formação em Roma, onde realizará a preparação imediata para os votos perpétuos.

A renovação dos votos religiosos representa, na tradição da Igreja, a reafirmação consciente e livre do “sim” dado a Deus, renovando o compromisso com os conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência. Ao renovar seus votos pela sexta vez, a Ir. M. Antônia Bianca manifesta maturidade vocacional e disponibilidade interior para continuar colocando sua vida a serviço do Reino, em fidelidade ao carisma congregacional e à missão confiada pela Igreja.

A celebração foi iluminada pela liturgia da 5ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II), cujas leituras ofereceram uma chave de leitura profunda para compreender o sentido do momento vivido. A primeira leitura, retirada do Primeiro Livro dos Reis (1Rs 8,1-7.9-13), narrou a solene transferência da Arca da Aliança para o Templo de Jerusalém, construída por Salomão. O texto bíblico apresenta um povo reunido para reconhecer que Deus escolheu habitar no meio deles, fazendo do Templo um lugar de encontro, memória e fidelidade à Aliança.

Esse relato bíblico dialoga diretamente com a vida consagrada, na medida em que recorda que é o próprio Deus quem toma a iniciativa de habitar no coração daqueles que se oferecem inteiramente a Ele. Assim como a Arca representava a presença divina no meio do povo, a vida consagrada torna-se sinal visível de que Deus continua a fazer morada entre os homens, chamando-os à comunhão, à escuta e à fidelidade.

O Salmo 131(132), rezado responsorialmente, reforçou esse desejo profundo de estar na presença do Senhor: “Entremos em sua morada, prostremo-nos ante o escabelo de seus pés”. O salmista expressa a alegria do povo que busca a casa de Deus e reconhece nela o lugar do repouso divino. Na celebração da renovação dos votos, esse salmo ganhou um significado especial, pois a entrega da vida religiosa é também um gesto de permanência, de escolha deliberada por “habitar” com o Senhor e colocar Nele toda a confiança.

Já o Evangelho segundo Marcos (Mc 6,53-56) apresentou Jesus que, ao chegar às aldeias e cidades, é reconhecido pelo povo, que leva até Ele os doentes, certos de que um simples toque poderia trazer cura. O texto evidencia a sensibilidade de Jesus diante do sofrimento humano e sua constante disponibilidade para acolher, curar e restaurar vidas. Esse Evangelho lança luz sobre a missão da vida consagrada, chamada a ser presença de Cristo no mundo, especialmente junto aos que mais sofrem, oferecendo cuidado, escuta, esperança e proximidade.

À luz dessas leituras, a renovação dos votos da Ir. M. Antônia Bianca pode ser compreendida como um gesto que une contemplação e missão. Contemplação, porque nasce da escuta da Palavra e da intimidade com Deus; missão, porque se traduz em serviço concreto ao povo, seguindo os passos de Jesus que passa fazendo o bem. A formação que a religiosa iniciará em Roma, como preparação para os votos perpétuos, insere-se nesse dinamismo, ajudando-a a aprofundar sua consagração e a fortalecer sua disponibilidade para a missão que a Igreja lhe confiará.

Durante a celebração, o presidente da Eucaristia ressaltou que a perseverança na vida religiosa não é fruto apenas do esforço humano, mas da graça de Deus, acolhida e cultivada diariamente. A fidelidade aos votos, renovados ano após ano, é sustentada pela oração, pela vida comunitária e pela escuta atenta da Palavra, que orienta as escolhas e dá sentido ao caminho vocacional.

O clima de ação de graças vivido neste dia foi ampliado também por outro motivo de grande alegria para a congregação. Também nesta data, a comunidade acolheu a chegada de duas jovens que pediram para iniciar o seu caminho formativo na congregação. Trata-se de Edna, natural de Manaus (AM), e Vitória, de Boa Esperança (MG), que dão os primeiros passos em um processo de discernimento vocacional marcado pela escuta, pelo acompanhamento e pela vida comunitária. A celebração de ingresso está marcada para dia 10 de fevereiro de 2026.

A acolhida dessas jovens representa um sinal concreto de esperança e continuidade da missão, evidenciando que o chamado de Deus continua a ressoar no coração de novas gerações. O início do caminho formativo é um tempo privilegiado de discernimento, no qual as aspirantes são convidadas a aprofundar sua relação com Cristo, a conhecer mais de perto o carisma congregacional e a amadurecer, com liberdade e responsabilidade, a resposta ao chamado recebido.

Ao final da celebração, a gratidão marcou os corações das Irmãs presentes, que elevaram preces pela perseverança da Ir. M. Antônia Bianca e por todas as vocações, pedindo ao Senhor que continue a chamar e sustentar aqueles que se dispõem a segui-Lo mais de perto. A comunhão fraterna vivida naquele dia reforçou os laços comunitários e renovou o compromisso coletivo com a missão evangelizadora.

A Igreja confia à oração e ao cuidado de Deus a caminhada formativa da Ir. M. Antônia Bianca, que, em Roma, dará mais um passo decisivo rumo à consagração definitiva, assim como o início do percurso vocacional de Edna e Vitória. Que estes tempos de formação e discernimento sejam marcados pela escuta, pela confiança e pela fidelidade cotidiana, para que suas vidas se tornem sinais vivos da presença amorosa de Deus no mundo.

Continuamos em prece e comunhão, acompanhando com alegria estes acontecimentos significativos da vida congregacional e renovando, com esperança, a confiança no chamado do Divino Mestre.



CONSELHO DE INSTITUTO DAS PIAS DISCÍPULAS: UM CAMINHO SINODAL DE ESCUTA, DISCERNIMENTO E ESPERANÇA

Realizado em Antipolo, nas Filipinas, entre os dias 20 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026, o Conselho do Instituto das Pias Discípulas do Divino Mestre vem se configurando como um tempo privilegiado de escuta, discernimento sinodal e renovação da vida consagrada, à luz do tema bíblico: “Olha para o céu e conta as estrelas…” (Gn 15,5), que inspira o caminho de transformar a fragilidade em um percurso gerador.

O Conselho teve início com a celebração eucarística de abertura, presidida por Dom Charles John Brown, Núncio Apostólico nas Filipinas, que, em sua homilia, convidou as irmãs a viverem o discernimento sinodal com coragem e verdade, sem medo de reconhecer as feridas, fragilidades e limites das comunidades, à semelhança de Cristo ressuscitado que mostra suas chagas como fonte de paz e vida nova. Ao longo dos trabalhos, a presença do Espírito Santo foi constantemente invocada como guia do caminho comum, da palavra compartilhada e do perdão recíproco.

Nos primeiros dias, após um retiro vivido na escuta da Palavra de Deus e da Igreja, as conselheiras se dedicaram à escuta recíproca e ao aprofundamento da identidade congregacional, refletindo sobre a unidade das “quatro estrelas”, os horizontes da missão e a vivência da paixão apostólica na fragilidade, à luz do carisma paulino e do testemunho da Madre Escolástica.

Um momento central do Conselho foi a apresentação e escuta dos relatórios das Circunscrições, que permitiram percorrer simbolicamente a “terra sagrada” da presença das Pias Discípulas no mundo, encontrando rostos, histórias, culturas, alegrias e desafios. Esse processo evidenciou a riqueza da diversidade e, ao mesmo tempo, a necessidade de respostas criativas e proféticas diante das transformações rápidas da realidade atual.

Os relatórios da Superiora Geral, Ir. M. Bernardita Meraz Sotelo, e da Ecônoma Geral, Ir. M. Giovanna Colombo, ajudaram a reler o caminho do Instituto à luz da comunhão, da confiança na Providência e do compromisso com relações autênticas, com a solidariedade concreta e com o cuidado da casa comum, fortalecendo o sentido de pertença a uma única Família.

Em clima de verdadeiro caminho sinodal, os dias seguintes foram dedicados ao diálogo com os Secretariados Gerais, aprofundando o serviço que realizam nos diversos âmbitos da vida da Congregação. Um espaço significativo foi reservado ao Secretariado para a Formação, com a participação, também à distância, das equipes que trabalham na revisão do Plano Geral de Formação e do Ritual da Profissão. As partilhas favoreceram contribuições, sugestões e discernimentos a serem integrados no processo em curso.

O Conselho foi também marcado por momentos de vida fraterna, espiritualidade e gratidão. A celebração da Festa da Apresentação do Senhor, no contexto do Dia Mundial de Oração pela Vida Consagrada, reuniu as irmãs em clima de solenidade e alegria, culminando em um encontro fraterno com a comunidade local de Antipolo, animado por cantos vocacionais em diversas línguas, sinal da universalidade da vocação e da missão.

Outro momento significativo foi a visita à Catedral de Manila e ao histórico bairro de Intramuros, onde a memória, a fé e a resiliência do povo filipino se tornaram também inspiração para o caminho do Instituto. O encontro com as comunidades locais das Pias Discípulas expressou, de modo concreto, o espírito de hospitalidade, comunhão e alegria que sustenta a vida consagrada.

À medida que se aproxima de sua conclusão, o Conselho do Instituto se revela como um tempo fecundo de graça, no qual a escuta do Espírito, o diálogo sincero e a partilha das fragilidades se transformam em fonte de esperança, renovando o compromisso das Pias Discípulas do Divino Mestre de serem presença profética e geradora na Igreja e no mundo de hoje.

Fonte: Boletins informativos do Conselho de Instituto 2026
Boletim 1
Boletim 2
Boletim 3



LITURGIA DOMINICAL: VÓS SOIS O SAL DA TERRA! VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO!

Ir. Julia Almeida, pddm

Domingo, 8 de Fevereiro de 2026
5º Domingo do Tempo Comum, Ano A

Leituras: Is 58,7-10 | Sl 111(112),4-5.6-7.8a.9 (R. 4a.3b) | 1Cor 2,1-5 | Mt 5,13-16

No 5º Domingo do Tempo Comum, Ano A, a liturgia nos convida a dar mais um passo no caminho iniciado no domingo passado com a proclamação das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a). Se, no 4º Domingo, Jesus nos revelou quem é verdadeiramente feliz aos olhos de Deus, agora Ele nos mostra para que serve essa felicidade vivida: ela não é intimista, nem reservada a um grupo seleto, mas tem uma missão clara no mundo. A progressão é nítida: das atitudes interiores do discípulo (as Bem-aventuranças) passamos à sua responsabilidade pública (sal e luz).

No Evangelho de hoje, Jesus não diz: “esforçai-vos para ser sal” ou “tentai tornar-vos luz”. Ele afirma: “Vós sois”. Trata-se de uma declaração de identidade. No contexto do Sermão da Montanha, logo após as Bem-aventuranças, essa afirmação deixa claro que o discípulo que acolhe o Reino e vive segundo sua lógica já carrega em si uma força transformadora.

No contexto histórico, o sal era essencial no mundo antigo: servia para conservar os alimentos, dar sabor e até para selar alianças. A luz, por sua vez, tinha um forte valor simbólico no judaísmo, associada à presença de Deus, à Lei e à vida. Ao usar essas imagens, Jesus dialoga com elementos profundamente enraizados na cultura e na fé de Israel, mas lhes dá um novo alcance: agora, não é apenas a Lei que ilumina, mas a vida concreta dos discípulos.

Há também um alerta sério: o sal pode perder o sabor, a luz pode ser escondida. Ou seja, a identidade recebida pode ser esvaziada quando se perde a coerência entre fé e vida. O centro do texto não é o protagonismo humano, mas a glória de Deus: “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus”. A missão do discípulo é tornar Deus visível no cotidiano.

Liturgicamente, este domingo aprofunda o tema da manifestação do Reino. O Tempo Comum, longe de ser “tempo sem importância”, é o espaço em que a Palavra se encarna na vida ordinária. Depois de contemplarmos, nas Bem-aventuranças, o coração do Reino, agora somos chamados a perceber como esse Reino se expressa em gestos concretos, relações justas e escolhas comprometidas.

A liturgia articula de modo harmonioso Palavra e vida: a identidade cristã recebida no Batismo pede visibilidade. A fé não é espetáculo, mas também não é algo escondido. Ela se manifesta na caridade, na justiça e na fidelidade ao Evangelho.

A primeira leitura (Is 58,7-10) oferece uma chave essencial para compreender o Evangelho. O profeta denuncia uma religiosidade vazia, centrada em práticas exteriores, e aponta o verdadeiro culto que agrada a Deus: partilhar o pão com o faminto, acolher o pobre, vestir o nu, não se fechar ao irmão. É então que a promessa se cumpre: “tua luz brilhará como a aurora”.

Aqui está o elo direto com o Evangelho: a luz não é um discurso, mas uma vida doada. Isaías deixa claro que não há separação entre espiritualidade e compromisso social. A luz que brilha não vem de ritos isolados, mas de uma fé que se traduz em justiça e misericórdia.

O Salmo 111(112) reforça essa mesma lógica. O justo é descrito como alguém compassivo, generoso e firme, cuja justiça permanece para sempre. É significativo que o refrão diga: “Para os justos nasce uma luz nas trevas”. A luz, mais uma vez, está ligada ao modo de viver, não a privilégios espirituais. O justo ilumina porque reflete algo do próprio Deus.

Na segunda leitura (1Cor 2,1-5), São Paulo oferece um contraponto importante: a luz do discípulo não vem da eloquência, do prestígio ou do poder humano. Ele recorda aos coríntios que sua pregação não se apoiou em sabedoria humana, mas na manifestação do Espírito e do poder de Deus. Isso protege o Evangelho de hoje de um risco constante: confundir ser luz com buscar visibilidade pessoal.

Paulo reafirma que a eficácia da missão cristã não está nos meios, mas na fidelidade à cruz de Cristo. A luz que transforma o mundo nasce da fraqueza assumida com fé.

Um caminho de crescimento espiritual

A ligação entre o domingo passado e este é profundamente pedagógica. Primeiro, Jesus forma o coração do discípulo (Bem-aventuranças); depois, mostra o impacto dessa formação no mundo (sal e luz). O crescimento espiritual acontece quando aquilo que Deus realiza em nós se transforma em dom para os outros.

Esses textos nos perguntam, de forma direta e exigente: nossa fé tem sabor? Nossa vida ilumina? Não se trata de grandes gestos, mas de uma coerência cotidiana: no trabalho, na família, nas escolhas éticas, no cuidado com os mais frágeis.

Neste 5º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos recorda que o mundo não precisa apenas de discursos religiosos, mas de vidas transparentes ao Evangelho. Ser sal e ser luz é permitir que Deus continue agindo na história por meio de nós, discretamente, mas com profundidade; humildemente, mas com eficácia.





PAPA LEÃO XIV DESTACA A DIMENSÃO HUMANA E DIVINA DA SAGRADA ESCRITURA EM CATEQUESE NA AUDIÊNCIA DESTA SEMANA

Vaticano, 4 de fevereiro de 2026 – Durante a Audiência Geral desta quarta-feira (04/02), realizada na Sala Paulo VI, o Papa Leão XIV deu continuidade ao ciclo de catequeses dedicado à Constituição dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, aprofundando a reflexão sobre a Sagrada Escritura como Palavra de Deus expressa em linguagem humana.

Na catequese, o Santo Padre ressaltou que a Bíblia é um meio privilegiado pelo qual Deus se comunica com a humanidade, falando por meio de palavras, culturas e contextos históricos concretos. Segundo o Papa, compreender a Escritura exige reconhecer simultaneamente a sua origem divina e a sua forma humana, evitando interpretações parciais que privilegiem apenas um desses aspectos.

Leão XIV explicou que os textos bíblicos não foram escritos numa linguagem sobre-humana, mas em línguas e estilos próprios de povos e épocas específicas. Essa característica, longe de diminuir o valor da Palavra de Deus, manifesta a escolha divina de se aproximar do ser humano, em um movimento semelhante ao mistério da Encarnação de Jesus Cristo.

O Papa alertou para os riscos de leituras fundamentalistas, que ignoram o contexto histórico e literário da Bíblia, bem como de interpretações que reduzem a Escritura a um simples documento do passado ou a mensagens éticas isoladas. Para ele, a Palavra de Deus deve ser lida e interpretada à luz do Espírito Santo, no seio da Igreja.

Ao concluir, Leão XIV recordou que a Sagrada Escritura, proclamada especialmente na liturgia, é chamada a iluminar a vida concreta dos fiéis, orientando escolhas, fortalecendo a fé e promovendo a caridade. O Papa convidou todos a agradecerem pelo dom da Palavra e a viverem de modo coerente com a mensagem de amor revelada por Deus nas Escrituras.

Leia a Catequese na íntegra: AUDIÊNCIA GERAL 04/02/2026





AS BEM-AVENTURANÇAS: O CAMINHO DO REINO REVELADO AOS PEQUENOS

Ir. Julia Almeida, pddm

4º Domingo do Tempo Comum – Ano A | 1º de fevereiro de 2026
Leituras: Sf 2,3;3,12-13 | Sl 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5,3) | 1Cor 1,26-31 | Mt 5,1-12a

O Evangelho deste 4º Domingo do Tempo Comum nos conduz ao coração da mensagem de Jesus: as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a). Diante da multidão, Jesus sobe ao monte, senta-se como Mestre e começa a ensinar. Não se trata apenas de um discurso moral, mas da revelação de um modo novo de viver, de ver o mundo e de se colocar diante de Deus. As Bem-aventuranças não descrevem pessoas ideais ou situações perfeitas; revelam, antes, o agir do Reino de Deus na fragilidade humana.

Domingo passado, com os textos do 3º Domingo do Tempo Comum, Mateus apresentou o início da missão pública de Jesus: o anúncio da proximidade do Reino, o chamado dos primeiros discípulos e a formação de um povo que se reúne em torno de sua palavra e de seus gestos de vida e cura. É o momento do convite decisivo:“Vinde após mim”. Este convite inaugura um caminho de seguimento, conversão e disponibilidade interior. O Reino começa como movimento: deixar as próprias redes, aproximar-se de Jesus e entrar na dinâmica de uma vida que se orienta a partir dele.

Neste 4º Domingo, o Evangelho nos conduz a um novo patamar desse mesmo caminho. Jesus sobe ao monte, senta-se e, diante dos discípulos, revela o coração do Reino por meio das Bem-aventuranças. Já não se trata apenas de seguir, mas de deixar-se configurar por Ele; não apenas de ouvir o anúncio, mas de assumir um modo de viver. As Bem-aventuranças não são exigências abstratas, mas o retrato da vida que floresce quando o Reino é acolhido: uma existência marcada pela pobreza de espírito, pela mansidão, pela misericórdia e pela fome de justiça, sinais de uma humanidade transformada pela presença de Deus.

Mateus 5,1-12a é escrito dentro de um contexto histórico, comunitário e teológico muito preciso, que ajuda a compreender a força e a originalidade das Bem-aventuranças. Não se trata de palavras soltas de Jesus, mas de um texto cuidadosamente elaborado para uma comunidade concreta e para um momento decisivo da narrativa evangélica.

O Evangelho de Mateus é redigido provavelmente entre os anos 80–90 d.C., para uma comunidade cristã de origem majoritariamente judaica, que vive uma situação de tensão e reorganização após a destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.). Esses cristãos enfrentam a ruptura progressiva com o judaísmo rabínico nascente, a perseguição e a marginalização social, a necessidade de afirmar sua identidade como comunidade dos discípulos de Jesus.

As Bem-aventuranças, nesse contexto, oferecem critérios de identidade: indicam quem são, de fato, os herdeiros do Reino, não a partir do poder religioso ou do prestígio social, mas da fidelidade vivida em meio à fragilidade, à perseguição e à esperança.

Em especial, Mateus 5,1-12a abre o chamado Sermão da Montanha (Mt 5–7), o primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus em Mateus. Ele é colocado logo após o início da missão de Jesus (Mt 4,12-17), o chamado dos discípulos (4,18-22), a formação das multidões (4,23-25). Ao situar Jesus “subindo ao monte” e “sentando-se”, Mateus o apresenta como o novo Moisés, não para abolir a Lei, mas para revelar seu sentido pleno. As Bem-aventuranças funcionam como o portal de entrada desse ensinamento: olha que interessante, não começam com mandamentos, mas com promessas de vida e felicidade.

Teologicamente, Mt 5,1-12a expressa a lógica inversa do Reino dos Céus. Em um mundo marcado por hierarquias, honra e exclusões, Jesus proclama bem-aventurados aqueles que parecem estar à margem: pobres, mansos, aflitos, misericordiosos, perseguidos. Isso revela um Deus que se inclina para os pequenos, um Reino que já está presente, mas se manifesta de modo paradoxal, uma felicidade fundada na relação com Deus, e não no sucesso visível.

Assim, o contexto de Mateus 5,1-12a é o de uma comunidade chamada a reconhecer-se nas Bem-aventuranças, não como ideais inalcançáveis, mas como a descrição da vida dos discípulos que, mesmo em meio às provações, já vivem sob o senhorio do Reino.

E o texto inicia de forma interessante: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. A felicidade proclamada por Jesus não se confunde com sucesso, poder ou prestígio. Ela nasce da confiança radical em Deus, da abertura interior que reconhece a própria pobreza e necessidade. O “pobre em espírito” é aquele que não se apoia em si mesmo, mas se deixa conduzir pelo Senhor. É o discípulo que aprende a viver da graça.

Ser pobre de espírito, no sentido evangélico, não é uma atitude de desvalorização de si nem simples carência material, mas uma postura interior diante de Deus e da vida. Trata-se de reconhecer que tudo é dom e que a própria existência não se sustenta por si mesma. O pobre de espírito sabe que não é autossuficiente: vive na escuta, na confiança e na disponibilidade para acolher o agir de Deus, sem pretender controlar tudo ou garantir-se apenas por seus próprios méritos.

Efetivamente, ser pobre de espírito significa desapegar-se das falsas seguranças como o poder, prestígio, saber, até mesmo de imagens rígidas de si e de Deus para viver na liberdade de quem depende do Senhor. É uma pobreza que gera espaço interior: espaço para a Palavra, para o outro, para o Reino que já se faz presente. Por isso, o pobre de espírito é bem-aventurado, porque vive da graça e não da posse; caminha na humildade que abre o coração à ação transformadora de Deus.

Por que Jesus proclama bem-aventurados justamente os pobres, os aflitos, os mansos, os perseguidos? Por que Ele chama de felizes aqueles que, aos olhos do mundo, parecem frágeis ou perdedores? Jesus proclama bem-aventurados os pobres, os aflitos, os mansos e os perseguidos porque revela a lógica do Reino de Deus, tão diferente da lógica do mundo. Enquanto a sociedade associa felicidade ao sucesso, ao poder e à autossuficiência, Jesus aponta que a verdadeira bem-aventurança nasce da confiança em Deus e da abertura ao seu amor.

É importante salientar que as Bem-aventuranças não exaltam o sofrimento nem idealizam a dor. Elas anunciam que Deus está particularmente próximo daqueles que vivem a fragilidade, a pobreza e a injustiça. É nesses lugares que o Reino se manifesta com mais força, oferecendo consolo, justiça e esperança.

Ao proclamá-las, Jesus também apresenta o seu próprio caminho: Ele mesmo é pobre, manso, misericordioso, promotor da paz e fiel até a perseguição. Seguir o Mestre é aprender a viver segundo esse estilo, deixando que a Palavra transforme nossos critérios, escolhas e relações.

Assim, as Bem-aventuranças tornam-se um convite concreto à vida cristã: viver a misericórdia, promover a paz, buscar a justiça e permanecer fiel, certos de que a verdadeira felicidade não está na ausência de dificuldades, mas na presença fiel de Deus que caminha conosco.

Essa lógica atravessa todo o Evangelho e encontra eco profundo nas outras leituras deste domingo. O profeta Sofonias anuncia que Deus preservará “um povo humilde e pobre”, que buscará refúgio no nome do Senhor (Sf 3,12). Não são os fortes ou autossuficientes que permanecem, mas os pequenos, aqueles que vivem na fidelidade e na esperança. O Salmo responsorial confirma essa certeza: o Senhor faz justiça aos oprimidos, sustenta o órfão e a viúva, ama os justos e permanece fiel para sempre (Sl 145).

São Paulo, escrevendo aos coríntios, aprofunda ainda mais essa inversão de valores. Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes, o que é desprezado para revelar sua sabedoria (1Cor 1,26-31). A lógica do Reino desmonta os critérios do mundo. A salvação não é conquista humana, mas dom gratuito, oferecido em Cristo, nossa sabedoria, justiça e redenção.

As Bem-aventuranças, portanto, não são promessas distantes, mas um caminho concreto de discipulado. Elas nos interrogam como cristãos e cristãs: onde colocamos nossa segurança? Que tipo de felicidade buscamos? Somos capazes de reconhecer a presença de Deus na mansidão, na misericórdia, na fome e sede de justiça, na paz construída no cotidiano?

Neste primeiro domingo do mês de fevereiro, como Família Paulina, somos convidados a contemplar Jesus como Divino Mestre, aquele que ensina não apenas com palavras, mas com a própria vida. No monte das Bem-aventuranças, Jesus revela seu coração e nos educa para uma fé encarnada, sensível, profundamente humana e, ao mesmo tempo, aberta ao mistério do Reino. Aprender do Divino Mestre é deixar que sua Palavra molde nossos critérios, nossos afetos e nossas escolhas.

À luz dessa Palavra, também somos chamados a rezar com especial atenção pela intenção do Apostolado da Oração deste mês: por todas as crianças com doenças incuráveis e suas famílias. As Bem-aventuranças nos ajudam a olhar para essas vidas com os olhos de Deus. Elas nos lembram que a fragilidade não é sinal de abandono, mas lugar privilegiado da presença do Senhor. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” A promessa de Jesus não elimina a dor, mas garante que ela não é a última palavra.

Como comunidade cristã, somos convidados a ser sinal desse consolo: pela oração, pela proximidade, pelo cuidado concreto, pela esperança partilhada. O Reino anunciado por Jesus começa a acontecer quando nos fazemos próximos dos que sofrem, quando escolhemos a compaixão em vez da indiferença, a mansidão em vez da violência, a justiça em vez da exclusão.

Ao propor Mateus 5,1-12 para a liturgia do 4º Domingo do Tempo Comum – Ano A, a Igreja não pretende apenas oferecer um ensinamento moral elevado, mas animar as comunidades a reconhecerem sua própria vocação e identidade à luz do Reino. As Bem-aventuranças funcionam como um espelho no qual a comunidade é convidada a se contemplar e a se deixar interpelar: quem somos nós enquanto discípulos reunidos em torno de Jesus?

Em primeiro lugar, a liturgia anima as comunidades a relerem sua experiência concreta de vida e fé. Muitas vezes marcadas por fragilidades, limites, sofrimentos, conflitos ou falta de reconhecimento, as comunidades escutam que essas situações não as afastam do Reino, mas podem tornar-se lugar de bênção e de esperança. A proclamação das Bem-aventuranças sustenta e consola, afirmando que Deus está próximo dos pobres, dos que choram, dos mansos e dos perseguidos, e que a fidelidade vivida no cotidiano já participa da felicidade prometida.

Ao mesmo tempo, o texto impulsiona uma conversão do olhar e das práticas comunitárias. A animação proposta não é intimista, mas profundamente eclesial: ser comunidade bem-aventurada significa cultivar relações marcadas pela misericórdia, pela busca da justiça, pela mansidão e pela paz. Assim, a liturgia deste domingo convoca as comunidades a tornarem-se sinal visível do Reino no mundo, não pela força ou pelo prestígio, mas pelo testemunho humilde e coerente de uma vida transformada pelo Evangelho.

Que este 4º Domingo do Tempo Comum nos ajude a acolher o ensinamento do Divino Mestre e a percorrer, com confiança, o caminho das Bem-aventuranças. Nele, mesmo em meio às dores e fragilidades, aprendemos que a verdadeira felicidade nasce de Deus e se manifesta no amor vivido no cotidiano.


Bem-aventuranças e Vaticano II: a identidade da Igreja chamada pelo Reino

A liturgia do 4º Domingo do Tempo Comum – Ano A, ao proclamar o Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a), coloca a comunidade cristã diante do coração do anúncio de Jesus: a revelação de um modo novo de viver, fundado na confiança em Deus, na mansidão, na misericórdia e na busca da justiça. Não se trata de um ideal abstrato ou reservado a poucos, mas da descrição concreta da identidade dos discípulos e das comunidades que acolhem o Reino já presente na história.

Essa perspectiva encontra profunda consonância com o atual ciclo de audiências do Papa Leão XIV sobre os Documentos do Concílio Vaticano II. Ao retomar o Concílio, o Papa insiste que a Igreja é, antes de tudo, uma comunidade que nasce da escuta da Palavra viva de Deus, num diálogo de aliança em que o Senhor se comunica como amigo e chama à resposta livre da fé. As Bem-aventuranças expressam exatamente essa dinâmica: não são simples normas morais, mas Palavra proclamada por Cristo que interpela, consola e configura interiormente aqueles que se colocam à sua escuta.

Além disso, o Vaticano II, como recorda Leão XIV, apresentou a Igreja como Povo de Deus, sacramento de comunhão e sinal de esperança para o mundo. As Bem-aventuranças delineiam o rosto desse povo: uma Igreja pobre de espírito, solidária com os que sofrem, comprometida com a paz e a justiça, capaz de testemunhar o Evangelho não pelo poder ou prestígio, mas pela coerência de vida. Assim, o Evangelho deste domingo e a releitura conciliar caminham juntos ao animar as comunidades a redescobrirem sua vocação fundamental: viver e manifestar, no cotidiano da história, a alegria paradoxal do Reino que já se faz presente entre nós.