UM TEMPO PARA RECONHECER O FILHO: O TESTEMUNHO DE JOÃO BATISTA

Domingo, 18 de janeiro de 2026
2º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Jo 1,29-34

Com o encerramento do Tempo do Natal e a entrada no Tempo Comum, a liturgia nos conduz a uma etapa discreta, porém decisiva, do ano litúrgico. Não se trata de um “tempo menor”, mas de um período em que a vida pública de Jesus começa a ser contemplada passo a passo, gesto a gesto, palavra a palavra. É um tempo de amadurecimento da fé, de escuta atenta e de assimilação progressiva do mistério de Cristo, antes de entrarmos na intensidade penitencial e catecumenal da Quaresma.

Neste segundo domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo João nos apresenta uma cena de forte densidade teológica: o testemunho de João Batista sobre Jesus (Jo 1,29-34). Não se trata de um relato do batismo propriamente dito, mas de sua interpretação. João Batista olha para Jesus que vem ao seu encontro e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Essa afirmação inaugura, no Quarto Evangelho, a revelação pública da identidade de Jesus e orienta toda a leitura litúrgica deste início de tempo.

A expressão “Cordeiro de Deus” carrega uma profunda memória bíblica. Ela evoca o cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue libertou o povo da escravidão e marcou o início de uma nova história (cf. Ex 12). Evoca também o Servo sofredor de Isaías, que “como cordeiro levado ao matadouro” assume sobre si as dores do povo (cf. Is 53,7). Ao unir essas imagens, o evangelista João apresenta Jesus como aquele que realiza uma libertação definitiva: não apenas de uma opressão histórica, mas do pecado que fere a relação entre Deus e a humanidade.

Nesse sentido, o tempo litúrgico que agora vivemos é um verdadeiro tempo de revelação progressiva. O Natal nos mostrou quem é Jesus: o Verbo feito carne, Deus que entra na história humana. O Tempo Comum começa a nos mostrar para que Ele veio e como realiza sua missão. Antes de caminhar para a cruz na Quaresma e na Páscoa, a liturgia nos convida a contemplar o sentido profundo dessa entrega: Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo porque assume a condição humana até as últimas consequências, inaugurando uma nova forma de relação com Deus.

O testemunho de João Batista também é marcado por um movimento de humildade e de discernimento espiritual. Ele afirma claramente: “Eu não o conhecia”. Essa frase, repetida duas vezes no texto, não indica ignorância, mas revela que o reconhecimento de Jesus não nasce de vínculos humanos, mas de uma experiência espiritual. João reconhece Jesus porque vê o Espírito descer e permanecer sobre Ele. O sinal decisivo não é exterior, mas teológico: a presença permanente do Espírito revela que Jesus é o Filho, aquele que batiza no Espírito Santo.

Aqui se abre uma dimensão importante para a vivência litúrgica deste tempo. Reconhecer Jesus como Cordeiro de Deus e Filho de Deus não é resultado de um conhecimento automático ou superficial. É fruto de uma experiência de escuta, de observação, de permanência. A liturgia do Tempo Comum educa o olhar da fé para reconhecer o Senhor presente na história, nos sinais simples, na Palavra proclamada, nos sacramentos celebrados.

As demais leituras deste domingo são iluminadas por essa chave de leitura. O cântico do Servo em Isaías (Is 49,3.5-6) amplia o horizonte da missão: aquele que é chamado desde o ventre materno não é enviado apenas a Israel, mas é “luz para as nações”. O Cordeiro que tira o pecado do mundo inaugura uma salvação universal, que ultrapassa fronteiras religiosas e culturais. O salmo responsorial coloca nos lábios da assembleia uma atitude fundamental para este tempo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. A vida cristã nasce da escuta e da adesão confiante ao projeto de Deus.

Já a saudação inicial da Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 1,1-3) recorda que essa identidade cristã se concretiza na vida da comunidade. Somos chamados a ser santos não por mérito próprio, mas porque fomos alcançados por Cristo. O Tempo Comum é também tempo de aprender a viver a fé no cotidiano, na comunhão e na corresponsabilidade eclesial.

Liturgicamente, este domingo nos ajuda a compreender que estamos numa passagem: do mistério contemplado no Natal para o mistério que será celebrado na Páscoa. É um tempo de travessia, de aprofundamento, de preparação interior. Ao proclamarmos, em cada Eucaristia, “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo”, retomamos esse testemunho de João Batista e o tornamos oração da Igreja. Não é apenas uma fórmula ritual, mas uma profissão de fé que nos compromete.

Neste início do Tempo Comum, a liturgia nos convida a olhar para Jesus com atenção renovada, a escutar seu testemunho silencioso e a permitir que o Espírito nos conduza ao reconhecimento profundo de quem Ele é. Antes de seguir seus passos rumo à cruz, somos chamados a permanecer com Ele, a deixar-nos revelar por sua presença e a aprender, dia após dia, a viver como discípulos daquele que é o Cordeiro de Deus.




LER O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS A PARTIR DA LITURGIA: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA PARA O ANO A

Ir. Julia Almeida, pddm

Com o Primeiro Domingo do Advento, a Igreja inaugura um novo ciclo litúrgico e, com ele, um novo percurso de escuta do Evangelho nas celebrações dominicais. No Ano A, essa escuta é marcada, de modo privilegiado, pela proclamação do Evangelho segundo Mateus, que acompanha a assembleia ao longo do ano, moldando sua percepção do mistério de Cristo e do Reino anunciado.

Na liturgia, a importância do Evangelho segundo Mateus é estrutural, teológica e pedagógica. Ele não ocupa apenas um lugar quantitativamente privilegiado no Ano A, mas exerce uma função decisiva na formação da consciência litúrgica e eclesial da assembleia. Pode-se compreender essa importância a partir de alguns eixos fundamentais.

O primeiro eixo, poderíamos apontar, é que Mateus é o Evangelho da Igreja reunida. Entre os quatro evangelhos, Mateus é aquele que mais explicitamente se dirige a uma comunidade estruturada, consciente de sua identidade e de sua missão. Termos como ekklesía (Mt 16,18; 18,17), ausentes em Marcos e Lucas, revelam um horizonte claramente eclesial. Na liturgia, isso se traduz no fato de que o Evangelho de Mateus é proclamado a uma assembleia, fala da vida comunitária, do perdão, da correção fraterna, educa para relações marcadas pela justiça, pela misericórdia e pela responsabilidade.

Assim, quando Mateus é proclamado na celebração, não se trata apenas de ouvir palavras sobre Jesus, mas de reconhecer-se como Igreja em formação.

O segundo eixo diz a respeiro do tema central do evangelista Mateus: o Reino dos Céus. Na liturgia, esse Reino não é apresentado como ideia abstrata, mas como realidade que se anuncia na Palavra, se torna presente na ação ritual, exige conversão e prática. Por exemplo, as parábolas do Reino (Mt 13), amplamente proclamadas no Tempo Comum do Ano A, revelam uma pedagogia própria da liturgia: o Reino cresce no tempo, de modo discreto, entre ambiguidades, exigindo discernimento. A assembleia litúrgica torna-se, assim, espaço simbólico onde o Reino é escutado, acolhido e antecipado.

A centralidade do ensinamento: a Palavra que forma, é o terceiro eixo. Mateus organiza o ministério de Jesus em grandes discursos (cf. Mt 5–7; 10; 13; 18; 24–25). Na liturgia, esses discursos aparecem de forma distribuída e progressiva, permitindo que a Palavra forme o discípulo ao longo do tempo, eduque a consciência ética, molde a identidade cristã.

O Sermão da Montanha, proclamado ao longo de vários domingos, assume particular importância: na assembleia reunida, ele funciona como palavra normativa, não no sentido legalista, mas como orientação de vida para quem escuta e celebra.

O quatro eixo é a relação entre Escritura e liturgia. Mateus é o evangelista que mais explicitamente articula o evento de Jesus com o Antigo Testamento. Suas frequentes citações: “para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”, encontram na liturgia um lugar privilegiado de ressonância.

A liturgia dominical, ao colocar o Evangelho de Mateus em diálogo com a Primeira Leitura, evidencia a unidade da história da salvação, a continuidade entre promessa e cumprimento, a leitura tipológica própria da tradição litúrgica. Assim, Mateus ajuda a assembleia a aprender a ler as Escrituras na Igreja, e não de modo isolado.

O quinto eixo é a dimensão ética e performativa da Palavra. Na liturgia, o Evangelho não é apenas escutado, mas proclamado como Palavra viva, que interpela e exige resposta. Mateus, com sua ênfase no “fazer” a vontade do Pai (Mt 7,21; 25,31-46), reforça essa dimensão performativa.

A proclamação de Mateus na liturgia não se encerra no momento da escuta, projeta-se na vida cotidiana, orienta a ação cristã no mundo. O famoso critério do juízo final em Mt 25, proclamado liturgicamente, revela que a celebração autêntica desemboca na prática da caridade e da justiça.

O sexto e último eixo: Mateus é um Evangelho profundamente litúrgico. Pode-se afirmar que Mateus possui uma afinidade profunda com a liturgia porque valoriza a escuta comunitária, articula palavra, gesto e tempo, culmina no envio missionário (“Ide, portanto…”). Na celebração, o Evangelho de Mateus não apenas recorda a história de Jesus, mas estrutura a vida celebrativa da Igreja, formando discípulos que escutam, celebram e vivem o que foi proclamado.

Em síntese, na liturgia, o Evangelho segundo Mateus é importante porque forma a Igreja como comunidade discipular; educa para o Reino de Deus vivido no tempo; integra Escritura, celebração e vida; transforma a escuta em compromisso. Por isso, no Ano A, Mateus não é apenas o evangelho “lido”, mas o evangelho que configura a assembleia no ritmo da Palavra celebrada.

Essa escolha não responde a um critério meramente organizacional nem a uma simples alternância de textos. Trata-se de uma verdadeira pedagogia eclesial da Palavra, na qual o Evangelho é proclamado, interpretado e assimilado no ritmo do ano litúrgico, em diálogo com os tempos, as festas e as orações da Igreja. Diante disso, impõe-se uma questão metodológica fundamental: como estudar o Evangelho segundo Mateus respeitando o modo próprio como a liturgia o oferece à comunidade cristã?

Queremos propor uma leitura de Mateus a partir da liturgia, e não apenas aplicada à liturgia. Trata-se de assumir o espaço celebrativo como lugar hermenêutico, onde o texto bíblico não é apenas explicado, mas performado, escutado comunitariamente e integrado à experiência de fé.

1. A liturgia como chave hermenêutica da Escritura

A Constituição Sacrosanctum Concilium afirma que “Cristo está presente na sua Palavra, pois é Ele quem fala quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja” (SC 7), e recorda que a Escritura ocupa um lugar essencial na ação litúrgica (SC 24). Assim, a liturgia não é um simples contexto externo da Palavra, mas o ambiente vital no qual o texto bíblico se torna evento.

Ler Mateus a partir da liturgia implica reconhecer que o Evangelho chega à assembleia em trechos selecionados, organizados segundo uma intencionalidade teológica, em diálogo com o Antigo Testamento, os salmos e as orações da Igreja, orientados para a formação do sujeito cristão.

Essa perspectiva desloca o estudo bíblico de uma leitura linear e exclusivamente exegética para uma leitura mistagógica, narrativa e eclesial.

2. O Ano Litúrgico como estrutura de leitura

A proposta metodológica aqui apresentada organiza o estudo do Evangelho segundo Mateus a partir dos tempos litúrgicos, acompanhando o percurso espiritual que a Igreja propõe ao longo do Ano A. Não se lê Mateus “do começo ao fim”, mas segundo a lógica da celebração do mistério de Cristo.

2.1 Advento: promessa, espera e vigilância

No Advento, a liturgia seleciona textos de Mateus que articulam promessa e cumprimento, expectativa messiânica e vigilância escatológica. O evangelista aparece como o teólogo do “cumprimento das Escrituras”, mas também como aquele que educa a comunidade na tensão entre o “já” e o “ainda não”.

A leitura litúrgica evidencia que o Messias esperado não corresponde a expectativas triunfalistas, mas inaugura um Reino que exige discernimento, conversão e vigilância ativa.

2.2 Natal e Epifania: encarnação e revelação em contexto de conflito

Os relatos da infância em Mateus, proclamados no Tempo do Natal, revelam uma cristologia densa e nada ingênua. A encarnação é apresentada como acontecimento histórico marcado por deslocamentos, rejeições e tensões políticas. A Epifania, com a figura dos magos, introduz desde o início o tema da abertura universal do Reino e da ambiguidade das respostas humanas ao Cristo.

Lidos na liturgia, esses textos formam a assembleia para reconhecer que a revelação de Deus acontece no interior da história concreta, e não à margem dela.

2.3 Tempo Comum: o Reino anunciado, ensinado e vivido

É sobretudo no Tempo Comum que Mateus se torna o grande evangelista do Ano A. O Sermão da Montanha (Mt 5–7), proclamado ao longo de vários domingos, ocupa um lugar central. Na lógica litúrgica, ele não funciona como um tratado moral abstrato, mas como palavra performativa, dirigida a uma assembleia reunida, chamada a ouvir e a praticar.

A liturgia transforma o “monte” de Mateus em espaço simbólico da própria celebração: ali se escuta a Torá do Reino, ali se delineia a identidade do discípulo, ali se forma uma ética enraizada na justiça maior, na misericórdia e na confiança em Deus.

2.4 Quaresma: conversão e decisão

Durante a Quaresma, Mateus é proclamado como evangelho da decisão. As tentações, a transfiguração e as parábolas quaresmais revelam uma pedagogia que conduz a assembleia a confrontar-se com a própria escuta: ouvir ou não ouvir, seguir ou não seguir, converter-se ou permanecer na lógica antiga.

A conversão, em Mateus, não é apenas moral, mas mudança de mentalidade, reorientação profunda do olhar e das relações. A liturgia, ao articular Palavra, gesto e tempo, torna essa exigência concreta e existencial.

2.5 Páscoa: paixão, ressurreição e envio

A proclamação da Paixão segundo Mateus, especialmente no Domingo de Ramos, manifesta com força o caráter ritual da narrativa: o texto é escutado em clima de silêncio, dramaticidade e participação corporal. Não se trata apenas de recordar, mas de fazer memória.

O Evangelho culmina, no Tempo Pascal, com o mandato missionário: “Ide, portanto…” (Mt 28,19). Na liturgia, esse final não encerra o relato, mas o prolonga na vida da assembleia, agora enviada como corpo eclesial.

3. Uma metodologia de leitura litúrgica

Cada etapa do estudo pode ser organizada a partir de um mesmo núcleo metodológico:

  1. contextualização do tempo litúrgico;
  2. proclamação atenta do Evangelho;
  3. análise narrativa e simbólica do texto;
  4. diálogo com a Primeira Leitura e a oração da coleta;
  5. pergunta final sobre o efeito do texto na assembleia hoje.

Essa metodologia permite compreender o Evangelho não apenas como texto antigo, mas como palavra que age, que forma, que convoca.

4. A Lectio Divina como método de leitura litúrgica

Para que essa leitura de Mateus não se reduza a um exercício meramente informativo ou exegético, propõe-se a Lectio Divina como método privilegiado. Enraizada na tradição da Igreja, a Lectio Divina se harmoniza profundamente com a estrutura da liturgia da Palavra, prolongando, na vida pessoal e comunitária, a experiência celebrativa.

Lectio: escutar o Evangelho proclamado

O primeiro passo consiste em uma escuta atenta do texto, preferencialmente em sintonia com o domingo e o tempo litúrgico correspondente. Em Mateus, essa escuta permite perceber a estrutura narrativa, as imagens do Reino, os destinatários da palavra de Jesus e o diálogo constante com o Antigo Testamento.

A lectio educa para reconhecer que é o próprio Cristo quem fala quando o Evangelho é proclamado na assembleia.

Meditatio: deixar-se interpelar pela Palavra

Na meditatio, a Palavra começa a ressoar na vida. Os discursos e parábolas de Mateus revelam sua força formativa: não apenas informam, mas confrontam, questionam e orientam. Em chave litúrgica, a meditação se pergunta pelo efeito do texto na comunidade que o escuta hoje.

Oratio: responder à Palavra

A resposta orante nasce naturalmente da escuta e da meditação. A liturgia já oferece essa resposta nos salmos e orações; a Lectio Divina prolonga esse movimento, transformando a Palavra escutada em súplica, louvor, pedido de conversão e compromisso.

Contemplatio: permanecer no mistério

A contemplatio corresponde ao silêncio fecundo que segue a proclamação do Evangelho. Aqui, não se busca compreender mais, mas habitar o mistério. Mateus conduz frequentemente a esse lugar de permanência, no qual o discípulo se reconhece parte da assembleia reunida em torno da Palavra.

Actio: da escuta à vida

Como desdobramento natural, a actio explicita a dimensão performativa do Evangelho segundo Mateus. A escuta autêntica conduz à prática: a justiça do Reino se traduz em gestos concretos de misericórdia, responsabilidade comunitária e compromisso com os mais frágeis.

4. Horizontes teológicos e formativos

Ler o Evangelho segundo Mateus a partir da liturgia é reconhecer que a Escritura encontra sua plena inteligibilidade na celebração da fé. A liturgia aparece, assim, como lugar privilegiado de recepção, interpretação e atualização do texto bíblico.

E integrar a Lectio Divina à leitura do Evangelho segundo Mateus no Ano A significa reconhecer que a liturgia é o lugar originário da Palavra. Toda leitura pessoal ou comunitária nasce da celebração e a ela retorna, formando discípulos que aprendem a escutar, orar e agir no ritmo do ano litúrgico.

Mais do que oferecer um método de estudo, esta proposta convida a uma mudança de perspectiva: não se trata apenas de compreender Mateus, mas de deixar-se configurar por ele, no ritmo do ano litúrgico, no interior da assembleia, na escuta partilhada da Palavra que se faz acontecimento.

Nesse sentido, o Evangelho de Mateus, proclamado no Ano A, revela-se não apenas como narrativa sobre Jesus, mas como forma de vida celebrada, ensinada e vivida pela Igreja.



BATISMO DO SENHOR: O FILHO AMADO DESCE ÀS ÁGUAS

Com a Festa do Batismo do Senhor, a liturgia deste domingo encerra o Tempo do Natal. Depois de contemplarmos o mistério da Encarnação, o Verbo que se fez carne e armou sua tenda entre nós, somos conduzidos às margens do Jordão, onde Jesus, já adulto, dá início à sua vida pública. É um momento de passagem: da contemplação à missão, do presépio à vida concreta do mundo. Na segunda-feira, a Igreja já inicia o Tempo Comum, retomando o ritmo ordinário da caminhada litúrgica, agora iluminada por tudo aquilo que foi revelado no mistério do Natal.

O Evangelho de Mateus (Mt 3,13-17) apresenta um dado que causa estranhamento: Jesus vai até João para ser batizado. João pregava um batismo de conversão, destinado aos pecadores. Por isso, resiste: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”. A resposta de Jesus é decisiva para compreendermos todo o sentido da cena: “Deixa agora, pois convém cumprirmos toda a justiça”. A “justiça”, aqui, não é mera observância legal, mas fidelidade plena ao desígnio do Pai. Jesus não se coloca acima da humanidade; ao contrário, desce até ela, solidariza-se com os pecadores, entra na fila dos que esperam redenção.

Ao descer às águas do Jordão, Jesus assume a condição humana em sua totalidade. Se no Natal o vemos envolto em faixas e deitado numa manjedoura, agora o vemos mergulhar nas águas turvas da história. É o mesmo movimento: o de um Deus que não se distancia, mas se aproxima; que não salva de fora, mas desde dentro. O batismo de Jesus não é para sua purificação, mas para a nossa, pois Ele é o Santo de Deus, . Ao entrar nas águas, Ele as santifica, inaugura um novo começo e aponta para o batismo que, mais tarde, será oferecido a todos.

O céu que se abre após o batismo é sinal de que algo novo está acontecendo. Aquilo que parecia fechado pela desobediência e pelo pecado agora se reabre. O Espírito desce sobre Jesus como pomba, evocando o sopro criador de Deus no início do mundo e a pomba que, no dilúvio, anunciou um tempo novo. Em Jesus, começa uma nova criação. Ele é o Homem novo, sobre quem repousa o Espírito sem medida.

A voz do Pai proclama: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”. Trata-se de uma verdadeira revelação trinitária: o Filho está nas águas, o Espírito paira, o Pai fala. Mas, ao mesmo tempo, é uma palavra profundamente pessoal e relacional. Antes de qualquer milagre, antes de qualquer ensinamento, Jesus escuta quem Ele é: Filho amado. A missão nasce da relação, não da performance. Jesus não precisa provar nada; Ele age a partir do amor recebido.

A primeira leitura, do profeta Isaías (Is 42,1-4.6-7), ilumina ainda mais o sentido do Evangelho. O “Servo do Senhor”, sobre quem Deus coloca o seu Espírito, é descrito com traços de mansidão e fidelidade: não grita, não quebra o caniço rachado, não apaga o pavio que ainda fumega. É uma missão que se realiza sem violência, sem imposição, mas com perseverança e cuidado. No batismo de Jesus, reconhecemos esse Servo: escolhido, sustentado pelo Pai, enviado para levar justiça às nações e abrir os olhos dos cegos. A justiça que Ele cumpre é, antes de tudo, restauradora, libertadora, geradora de vida.

O Salmo 28(29) reforça essa dimensão teofânica: a voz do Senhor ressoa sobre as águas, cheia de poder e majestade. Aquele que domina as forças do caos é também quem abençoa o seu povo com a paz. No Jordão, a voz que outrora ecoava sobre as águas primordiais agora se dirige a Jesus, revelando que n’Ele se manifesta o verdadeiro Senhor da história.

Na segunda leitura, dos Atos dos Apóstolos (At 10,34-38), Pedro proclama que Deus não faz acepção de pessoas e recorda o início da missão de Jesus “a partir da Galileia, depois do batismo pregado por João”. Ungido pelo Espírito Santo e revestido de poder, Jesus passa fazendo o bem e libertando os oprimidos. O batismo, portanto, não é um episódio isolado, mas o ponto de partida de uma vida entregue, marcada pelo serviço e pela compaixão.

Celebrar o Batismo do Senhor é também recordar o nosso próprio batismo. Assim como Jesus foi declarado Filho amado, também nós, pelo batismo, fomos mergulhados em Cristo e feitos filhos e filhas no Filho. As águas que tocaram Jesus tocaram também a nossa história. Recebemos o Espírito, fomos inseridos numa missão, chamados a viver como servos da justiça e da paz.

Encerrar o Tempo do Natal com esta festa nos lembra que a contemplação do mistério não nos afasta do mundo, mas nos lança nele. O Deus que nasce em Belém é o mesmo que desce ao Jordão e nos envia. Do presépio às águas, das águas à estrada da missão: este é o caminho de Jesus e, com Ele, o nosso. Que esta celebração renove em nós a alegria de sermos filhos amados e a coragem de viver, no cotidiano do Tempo Comum que se inicia, o compromisso do nosso batismo.

Uma curiosidade: por que o Batismo do Senhor é festa e não solenidade?

No calendário litúrgico da Igreja, nem todas as celebrações têm o mesmo grau. Elas se organizam em uma hierarquia que ajuda os fiéis a compreender a centralidade de cada mistério da fé. Nesse contexto, o Batismo do Senhor é celebrado como festa, e não como solenidade e isso não diminui sua importância.

As solenidades são reservadas aos mistérios centrais da fé cristã, especialmente aqueles ligados diretamente ao Mistério Pascal (a paixão, morte e ressurreição de Jesus) ou aos grandes pilares da fé, como a Encarnação e a Santíssima Trindade. Exemplos disso são o Natal, a Páscoa, Pentecostes e a Solenidade da Santíssima Trindade.

O Batismo do Senhor, por sua vez, celebra um momento decisivo da vida de Jesus: o início de sua vida pública. No rio Jordão, Cristo é manifestado como Filho amado do Pai e ungido pelo Espírito Santo, numa clara revelação da Trindade. Trata-se, portanto, de um mistério de manifestação, assim como a Epifania.

Liturgicamente, essa celebração tem também um caráter de transição: ela encerra o Tempo do Natal e introduz a Igreja no tempo da missão de Jesus. Embora seja um acontecimento fundamental, o Batismo do Senhor não celebra ainda a redenção plenamente realizada, mas o começo do caminho que levará à cruz e à ressurreição.

Por isso, a Igreja o celebra como festa: um grau elevado de celebração, especialmente por se tratar de uma Festa do Senhor, muitas vezes celebrada em um domingo, mas que não atinge o nível máximo reservado às solenidades.

Assim, ao celebrar o Batismo do Senhor, a Igreja contempla o início da obra salvadora de Cristo e recorda também o sentido do nosso próprio batismo: somos chamados a ouvir o Pai, seguir o Filho e viver no Espírito.




Papa encerra o Jubileu da Esperança com o fechamento da Porta Santa

Na solenidade da Epifania do Senhor, celebrada nesta terça-feira, 6 de janeiro, o Papa Leão XIV presidiu o encerramento oficial do Jubileu da Esperança com o rito de fechamento da Porta Santa da Basílica de São Pedro. O Ano Santo havia sido iniciado em 24 de dezembro de 2024 e reuniu milhões de fiéis vindos de todas as partes do mundo.

“É bom sermos peregrinos de esperança. E é bom continuar a sê-lo, juntos”, afirmou o Pontífice ao final da celebração, destacando o sentido espiritual do caminho percorrido ao longo do Jubileu.

Um Ano Santo marcado pela peregrinação e pelo recomeço

Durante o Ano Jubilar, mais de 33 milhões de peregrinos atravessaram a Porta Santa da Basílica Vaticana. A celebração de encerramento contou com a presença de cerca de 5.800 fiéis no interior da Basílica e aproximadamente 10 mil pessoas que acompanharam a Missa pelos telões instalados na Praça São Pedro.

Na homilia, o Papa recordou que a Porta Santa acolheu homens e mulheres “a caminho da Cidade cujas portas estão sempre abertas, a nova Jerusalém”. Diante do Senhor, ressaltou, nada permanece igual: é ali que nasce a esperança e se renova a vida.

Leão XIV convidou a Igreja a refletir sobre a busca espiritual do nosso tempo e sobre a experiência vivida pelos peregrinos que cruzaram o limiar das igrejas jubilares. “O que encontraram? Que corações, que atenção, que acolhimento?”, questionou.

A Epifania e o chamado a uma Igreja viva

Ao celebrar a Epifania do Senhor, o Papa lembrou que a presença de Cristo transforma a história e coloca todos novamente a caminho. Catedrais, basílicas e santuários, afirmou, devem transmitir a certeza de que um mundo novo já começou, difundindo “o perfume da vida”.

Inspirando-se na pergunta dos Magos: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”, o Pontífice sublinhou a importância de que cada pessoa que entra numa igreja possa sentir que ali nasce esperança e se constrói uma história de vida.

“O Jubileu veio para nos lembrar que é possível recomeçar. Estamos ainda no início”, afirmou, recordando que Deus continua a agir no meio da humanidade, envolvendo pessoas de todas as idades e condições nas obras de misericórdia e justiça.

Proteger o que é frágil e nascente

O Papa também alertou para os perigos que ameaçam o novo que Deus faz brotar no mundo, recordando os conflitos, as violências e uma economia que transforma tudo em mercadoria, inclusive o desejo humano de buscar sentido e recomeçar.

Amar a paz, disse, significa proteger aquilo que é santo e frágil, como uma criança. E questionou: após o Jubileu, somos mais capazes de reconhecer no outro um peregrino, um buscador, um companheiro de caminho?

Maria, Estrela da Manhã

Concluindo a homilia, Leão XIV recordou que o Menino adorado pelos Magos é um bem sem preço, que se manifesta na gratuidade e nas realidades mais humildes. Encorajou as comunidades a não transformarem as igrejas em monumentos, mas em casas vivas, capazes de resistir às seduções do poder.

“Se caminharmos juntos, seremos a geração da aurora”, afirmou, confiando o futuro da Igreja à intercessão de Maria, Estrela da Manhã, que, assegurou, caminha sempre à nossa frente.

Fonte: Vatican News



FESTA DA EPIFANIA? MAS NÃO FOI DOMINGO PASSADO?

A Epifania do Senhor, celebrada em 6 de janeiro, tem origem muito antiga na tradição cristã e está ligada ao sentido da palavra epifania, que vem do grego epipháneia e significa manifestação, revelação.

No cristianismo, a Epifania celebra a manifestação de Jesus Cristo como Salvador não apenas de Israel, mas de todos os povos. Essa revelação é simbolizada, sobretudo, pela visita dos Magos, popularmente chamados de Santos Reis, narrada no Evangelho segundo Mateus (Mt 2,1-12).

Os Magos não pertenciam ao povo judeu; eram sábios vindos do Oriente, atentos aos sinais do céu. Ao seguirem a estrela e encontrarem o Menino Jesus, eles representam as nações pagãs que reconhecem em Cristo o Rei e o Salvador. Por isso, a Epifania é, desde o início, uma festa profundamente missionária e universal: Deus se revela a todos.

Quem eram estes magos mesmo?

Os Magos mencionados no Evangelho da Epifania não são personagens lendários, mas figuras reais dentro do imaginário histórico e religioso do mundo antigo. Ao mesmo tempo, o evangelista Mateus os apresenta com um forte valor simbólico e teológico.

A palavra magos vem do grego mágoi e designava, na Antiguidade, sábios do Oriente, especialmente ligados à astronomia/astrologia (observação dos astros), ao estudo das ciências naturais, à interpretação de sinais, e, em alguns casos, a funções religiosas ou sacerdotais.

Eles provavelmente vinham de regiões como a Pérsia, Babilônia ou Arábia, áreas conhecidas por seu saber astronômico. Eram pessoas cultas, estudiosas, atentas aos sinais do cosmos, algo muito respeitado naquele contexto histórico.

Eram reis?

O Evangelho não diz que eram reis. Essa imagem surgiu mais tarde, a partir da leitura cristã do Antigo Testamento, sobretudo:

  • Isaías 60,1-6: “nações caminharão à tua luz… trarão ouro e incenso”;
  • Salmo 72(71): “os reis de Társis… oferecerão dons”.

Esses textos proféticos foram interpretados pela Igreja como cumpridos na visita dos Magos, e assim, a tradição passou a chamá-los de reis, para sublinhar que até os poderosos da terra se inclinam diante de Cristo.

Quantos eram?

Mateus não informa o número. A tradição fixou em três, por causa dos três presentes:

  • ouro,
  • incenso,
  • mirra.

Em outras tradições antigas, especialmente no Oriente cristão, fala-se até em doze magos, o que mostra que o número nunca foi o essencial.

Seus nomes

Os nomes Gaspar, Melquior e Baltasar surgem apenas séculos depois, em textos e tradições populares do cristianismo ocidental. Eles não fazem parte do relato bíblico, mas ajudaram na catequese e na arte cristã, tornando os Magos figuras mais próximas do povo.

O sentido teológico dos Magos

Para Mateus, o mais importante não é quem eles eram em termos biográficos, mas o que representam:

  • São estrangeiros, não judeus → simbolizam todos os povos;
  • Buscam a verdade com sinceridade → representam a humanidade em busca de Deus;
  • Sabem ler os sinais, mas precisam da Escritura (em Jerusalém) → mostram que a razão e a fé caminham juntas;
  • Ajoelham-se diante do Menino → reconhecem em Jesus o verdadeiro Rei e Salvador.

Enquanto isso, os que tinham a Lei e os profetas (Herodes e os doutores da Lei) não se movem. Mateus faz, assim, um contraste forte: quem está longe se aproxima; quem está perto não reconhece.

Assim, os Magos eram sábios do Oriente, estudiosos dos astros, estrangeiros à fé de Israel, que se tornam os primeiros a reconhecer Cristo como luz para todas as nações. Na liturgia da Epifania, eles não são celebrados por seu poder ou saber, mas porque souberam colocar seu conhecimento a serviço da busca de Deus e se deixaram conduzir até o encontro com Jesus.

Por que exatamente 6 de janeiro?

A escolha do 6 de janeiro está ligada às origens do calendário litúrgico cristão no Oriente. Nos primeiros séculos, especialmente nas Igrejas orientais, essa data celebrava simultaneamente vários aspectos da manifestação de Cristo:

  • o Nascimento do Senhor,
  • a visita dos Magos,
  • o Batismo de Jesus no Jordão,
  • e, em algumas tradições, o primeiro milagre nas Bodas de Caná.

Todos esses eventos têm algo em comum: são momentos em que a identidade de Jesus se torna visível, revelada.

Somente mais tarde, no Ocidente, a celebração do Natal foi fixada em 25 de dezembro, e o dia 6 de janeiro passou a ser dedicado especificamente à Epifania, com foco na visita dos Magos.

A festa dos Santos Reis

A tradição popular chamou a Epifania de Festa dos Santos Reis porque o episódio dos Magos ganhou grande força simbólica e catequética. Embora o Evangelho não diga que eram reis nem quantos eram, a tradição cristã:

  • associou-os a reis a partir de textos proféticos do Antigo Testamento (como Is 60,1-6 e Sl 72),
  • fixou o número em três, em razão dos presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra.

Esses dons também têm significado teológico:

  • ouro: reconhece Jesus como Rei;
  • incenso: proclama sua divindade;
  • mirra: antecipa sua humanidade sofredora e sua morte.

A Folia de Reis é muito comum ainda no Brasil. Inclusive a foto acima é a visita da Folia de Reis na Comunidade Divino Mestre das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre em Cabreúva/SP. Eles vão todos os anos lá.

A Folia de Reis, embora bastante comum no Brasil, não tem uma manifestação homogênea em todo o país. Trata-se de uma das manifestações religiosas populares mais difundidas ligadas à Epifania do Senhor e à devoção aos Santos Reis, especialmente entre os dias 25 de dezembro e 6 de janeiro (ou até 20 de janeiro, em algumas regiões).

A Folia de Reis é particularmente forte no Brasil nas regiões do Sudeste (Minas Gerais, interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo); do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul); e em partes do Nordeste, com variações locais. Em Minas Gerais, por exemplo, ela é considerada um patrimônio cultural imaterial em muitos municípios, com grupos ativos há gerações.

A tradição da folia dos Reis veio com os portugueses, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, como uma forma de catequese popular. No Brasil, ela se misturou a elementos indígenas, a influências africanas e à religiosidade do interior rural. Por isso, não existe uma única Folia de Reis, mas muitas folias, cada uma com estilo, instrumentos, cantos e rituais próprios.

Estrutura da Folia

Apesar das variações, alguns elementos são comuns:

  • o grupo de foliões, que percorre casas e comunidades;
  • a bandeira ou estandarte dos Santos Reis, objeto central de devoção;
  • os instrumentos (viola, sanfona, caixa, pandeiro, reco-reco);
  • os cantos que narram a viagem dos Magos até Belém;
  • a figura do embaixador ou mestre, que conduz a cantoria;
  • e os palhaços, com função simbólica e ritual (proteção do grupo, distração, vigilância).

Sentido religioso e comunitário

Mais do que uma apresentação folclórica, a Folia de Reis é:

  • uma peregrinação cantada,
  • uma forma de oração em movimento,
  • um gesto de bênção das casas e das famílias.

Ao receber a Folia, a família acolhe simbolicamente os Santos Reis em sua casa, partilha alimentos e fortalece os laços comunitários. A festa mistura fé, música, convivência e memória.

Embora tenha perdido força em alguns centros urbanos, a Folia de Reis continua viva em muitas cidades do interior; vem sendo retomada por jovens e grupos culturais; é valorizada por políticas de preservação da cultura popular. Em muitas paróquias, ela também foi integrada à pastoral popular, ajudando a manter viva a ligação entre liturgia, devoção e cultura do povo.

A Folia de Reis é, sim, muito comum no Brasil, sobretudo fora dos grandes centros, e constitui uma expressão riquíssima da fé cristã inculturada: une Epifania, música, caminhada, hospitalidade e anúncio, fazendo da casa do povo um lugar onde Cristo continua a se manifestar.

Um significado que permanece atual

Celebrar a Epifania em 6 de janeiro é afirmar que Deus não se esconde, mas se dá a conhecer; que a fé cristã não é fechada em si mesma, mas aberta ao mundo; e que todos os povos, culturas, famílias são convidados a reconhecer a luz que brilha em Cristo.

Por isso, a Epifania é mais do que uma lembrança histórica: é um convite permanente a acolher a revelação de Deus e a caminhar, como os Magos, guiados pela luz da fé, até o encontro com Jesus.

Por que no Brasil celebramos esta solenidade no Domingo?

No Brasil, a Epifania do Senhor não é celebrada no dia 6 de janeiro, mas transferida para o domingo mais próximo, por uma decisão pastoral e litúrgica da Igreja, aprovada pela Santa Sé e prevista nas normas do calendário litúrgico.

O motivo central é garantir a participação do povo. O dia 6 de janeiro não é feriado civil no Brasil; quando cai em dia de semana, grande parte dos fiéis trabalha, estuda ou não consegue participar da celebração eucarística. Ao transferir a solenidade para o domingo, a Igreja assegura maior presença da comunidade, preserva o caráter solene da festa, favorece a catequese e a vivência litúrgica do mistério celebrado.

Essa prática segue um princípio pastoral importante: as grandes solenidades ligadas ao mistério de Cristo devem ser celebradas quando o povo pode realmente participar.

Fundamento litúrgico

A possibilidade de transferência está prevista nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário, especialmente nos números que tratam das solenidades do Senhor. A Epifania está entre as festas que, em alguns países, podem ser celebradas no próprio dia 6 de janeiro ou no domingo entre 2 e 8 de janeiro.

Cada Conferência Episcopal, como a CNBB, pode optar pela transferência, desde que haja aprovação da Sé Apostólica — o que acontece no caso do Brasil.

Outro aspecto importante é a organização do Tempo do Natal. No Brasil, a celebração dominical da Epifania mantém o ritmo das celebrações dominicais e ajuda a comunidade a compreender melhor a progressão do mistério: Natal → Epifania → Batismo do Senhor. Assim, a Epifania não “perde” seu valor, mas é integrada de modo mais claro ao caminho litúrgico do povo.

E em outros países?

Em muitos países da Europa e da América Latina, como Espanha, Itália, Alemanha e Portugal, o dia 6 de janeiro é feriado civil; por isso, a Epifania é celebrada na data fixa. Onde isso não acontece, como no Brasil, a transferência para o domingo é uma adaptação legítima, não uma mudança do sentido da festa.

Portanto, no Brasil, a Epifania é celebrada no domingo e não em 6 de janeiro porque:

  • o dia não é feriado civil;
  • a Igreja prioriza a participação do povo;
  • a transferência é permitida pelas normas litúrgicas;
  • a decisão foi tomada pela CNBB com aprovação da Santa Sé.

Trata-se, portanto, de uma escolha pastoral que busca tornar a celebração mais acessível, sem perder sua profundidade teológica: a manifestação de Cristo como luz para todos os povos.


Texto de Ir. Julia Almeida que é Irmã Pia Discípula do Divino Mestre. Escreve neste site desde 2015. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.




TEMPO DO NATAL: A LUZ QUE DESFAZ O SILÊNCIO DO MUNDO

Reflexão para o Natal do Senhor — 25 de dezembro de 2025
Solenidade | Ano A | 1º dia da Oitava de Natal

Leituras: Is 52,7-10 | Sl 97(98),1.2-3ab.3cd-4.5-6 (R. 3cd) | Hb 1,1-6 | Jo 1,1-18

Com o Natal iniciamos um novo tempo litúrgico, curto, intenso e luminoso: o tempo do Natal, que se estende até a Festa do Batismo do Senhor. É um período que não se alonga em semanas, mas se aprofunda em mistério. Não é uma estação longa, mas densa: nela celebramos a proximidade de Deus, que decide entrar na história pela porta mais frágil da condição humana.

As leituras desta solenidade nos situam no coração desse acontecimento. Elas revelam um Deus que não se deixa capturar pela superficialidade nem pelo ruído do mundo; ao contrário, Ele se comunica no movimento discreto, nos pequenos sinais, nas rupturas necessárias, na tensão entre transcendência e proximidade.

A liturgia do Natal é sempre uma convocação para recuperar a sensibilidade: uma sensibilidade que reconhece a beleza escondida, a profundidade das relações, a delicadeza dos gestos e a força que brota do silêncio.

“Que pés tão belos…!”: a beleza que corre pelas montanhas

Isaías, com sua poesia profética, anuncia: “Que pés tão belos os do mensageiro que anuncia a paz!”. Ele celebra a chegada de boas notícias em um mundo ferido. A alegria é descrita como algo que irrompe, que corre pelas montanhas, que desperta a cidade adormecida.

Essa imagem é profundamente atual. Vivemos em um mundo difícil, marcado pela saturação de estímulos, pelo cansaço emocional e pela aceleração que desgasta. Notícias chegam de todos os lados, mas poucas trazem vida. Isaías nos lembra que a verdadeira boa notícia não é aquela que se impõe pelo impacto, mas aquela que devolve sentido.

O mensageiro é belo não pela aparência, mas pela esperança que carrega.
A beleza nasce quando algo nos devolve a confiança de que o mundo ainda pode ser recriado.

O Natal é esse tipo de notícia. Não uma informação, mas uma transformação.

Um cântico novo: a alegria que desperta o mundo

O Salmo 97 convida toda a terra a cantar “um cântico novo”. É a renovação da criação diante do Deus que age. Mas o que significa cantar algo novo?

Em tempos marcados pela repetição, pelo excesso e pela fadiga, um cântico novo é aquilo que rompe o ciclo da superficialidade. É o gesto espiritual que devolve frescor ao coração. É a capacidade de olhar a vida não com olhos gastos, mas com olhos renovados.

O Natal pede exatamente isso: renovar o olhar. Perceber a vida para além dos padrões cansados. Reconhecer que há luz escondida no cotidiano. Reencontrar a capacidade de maravilhar-se.

A alegria que o salmo anuncia não é entusiasmo passageiro. É alegria que nasce da percepção profunda de que Deus se envolve com a história, que Ele se deixa tocar pelo humano, que Ele abre brechas de esperança onde só víamos limites.

“Muitas vezes e de muitos modos…”: Deus que fala no Filho

A Carta aos Hebreus lembra que Deus sempre falou, desde o princípio. Mas agora Ele fala de modo definitivo: pelo Filho. Não é mais uma palavra fragmentada, mas uma palavra plena, encarnada, concreta.

Em uma cultura que vive de discursos infinitos, de opiniões que se multiplicam e de informações que se sobrepõem, essa afirmação é libertadora. O excesso de palavras pode nos deixar anestesiados. A quantidade de vozes pode nos dispersar. A saturação comunicativa pode nos roubar o essencial.

O Natal devolve simplicidade à comunicação divina: Deus não fala mais conceitos, Ele se faz pessoa. Ele não entrega discursos, Ele entrega uma presença. Ele vem como criança justamente para nos ajudar a reaprender: a escutar com o coração, a olhar com profundidade, a tocar com cuidado, a acolher com ternura.

Na criança de Belém, Deus reduz a complexidade de seus sinais a algo palpável, sensíveis aos gestos mais frágeis.

“E a luz brilhou nas trevas”: a vulnerabilidade como revelação

O Evangelho de João não descreve a noite de Belém; ele mergulha no mistério antes de Belém: “No princípio era o Verbo…” É um texto que se move entre abismos e claridades, entre trevas e luz.

O que impressiona nesse prólogo é a força da vulnerabilidade. A luz entra no mundo não como clarão que ofusca, mas como chama que se oferece. Ela não destrói a escuridão; ela a atravessa.

Em um tempo que muitas vezes rejeita a fragilidade, que esconde limites e que insiste em performances constantes, o Natal anuncia algo diferente: a fragilidade é o lugar onde a luz entra.

A beleza do Verbo que se faz carne está justamente em sua proximidade radical. Deus não vem como força distante, mas como presença vulnerável. Ele entra na complexidade do mundo: suas contradições, tensões, ambivalências. Ele abraça a condição humana desde o começo, desde o corpo, desde o choro, desde a necessidade. A luz que João anuncia é luz que toca o chão.

Um novo tempo: o tempo do Natal

Com esta solenidade, entramos no Tempo do Natal, um tempo breve, mas profundamente simbólico. Ele não se dispersa em muitos domingos. Ele se concentra na intensidade dos mistérios: o nascimento, a Sagrada Família, Maria, Mãe de Deus, a Epifania, e o Batismo do Senhor.

Nesses dias, a liturgia nos convida a uma pedagogia espiritual: a aprender de novo a ser humano. Natal não é apenas celebrar o nascimento de Jesus; é celebrar que, com Ele, também nossa humanidade renasce. Somos chamados a reencontrar a ternura perdida, a simplicidade dos gestos, a presença real nas relações, a profundidade do sentido, o cuidado com a vida concreta, a atenção ao que é pequeno e essencial.

Em um mundo que tende ao excesso, o Natal nos devolve o essencial.
Em um mundo que se acelera, o Natal nos devolve o ritmo da gestação.
Em um mundo que dispersa, o Natal recolhe.
Em um mundo que esgota, o Natal repousa.

O tempo do Natal é curto, mas basta um instante de verdade para transformar o coração.

Concluir no silêncio

O Evangelho termina com uma frase que é, ao mesmo tempo, convite e promessa: “E vimos a sua glória.”

Quem consegue ver essa glória?
Não os que correm, mas os que param.
Não os que acumulam, mas os que se abrem.
Não os que dominam, mas os que acolhem.
Não os que falam sem parar, mas os que escutam o silêncio.

O Natal se revela para quem permite que a luz toque o interior. Neste dia santo, a Igreja proclama: A luz brilhou. A luz permanece. A luz não será vencida.

Que este Natal nos encontre disponíveis: à presença de Deus, à simplicidade da vida, ao silêncio que cura, à ternura que salva, à luz que nasce no mais frágil. E que, iniciando este tempo tão breve e tão intenso, possamos reconhecer, em cada gesto de amor e em cada encontro verdadeiro, a mesma luz que iluminou a noite de Belém e continua a transformar o mundo desde dentro.





III MARATONA SACROSANCTUM CONCILIUM DESTACA IMPORTÂNCIA LITÚRGICA NA VIDA DA IGREJA

No dia 4 de dezembro de 2025, data em que a Igreja celebra o aniversário de promulgação da Sacrosanctum Concilium, documento que inaugurou a renovação litúrgica do Concílio Vaticano II, foi realizada a terceira edição da Maratona Sacrosanctum Concilium. A transmissão ocorreu ao vivo pelo canal das Pias Discípulas do Divino Mestre, em parceria com outras instituições nacionais da pastoral litúrgica no Brasil. A programação, que se estendeu das 8h às 20h, reuniu especialistas, músicos, religiosos, religiosas e leigos engajados, todos com o objetivo comum de aprofundar a compreensão sobre este texto fundamental para a liturgia da Igreja Católica.

Um documento que mudou a relação dos fiéis com a liturgia

Para muitos católicos, o nome Sacrosanctum Concilium pode parecer distante ou técnico. Trata-se, porém, de um documento decisivo na história recente da Igreja. Promulgado em 1963, durante o Concílio Vaticano II, ele estabeleceu princípios que orientam até hoje a celebração da liturgia, ou seja, tudo aquilo que diz respeito às missas, sacramentos, orações comunitárias e ritos oficiais da Igreja.

Seu propósito foi aproximar os fiéis da vida litúrgica, incentivando uma participação mais consciente, ativa e frutuosa. A língua local nas celebrações, o cuidado com os símbolos e a relação entre música e oração são alguns dos temas que o documento aborda de maneira profunda e orientadora.

É por isso que, mesmo décadas depois, a Sacrosanctum Concilium continua sendo um “tesouro de inestimável valor”, expressão escolhida como tema desta edição da maratona. Cada mesa da programação destacou como este texto ainda ilumina a prática pastoral, a formação litúrgica e, especialmente neste ano, a música litúrgica, elemento essencial para a oração comunitária.

Um dia inteiro dedicado à formação

Durante doze horas de programação contínua, a Maratona Sacrosanctum Concilium apresentou, a cada hora, uma mesa temática. O formato dinâmico e acessível permitiu que pessoas de diferentes regiões do país pudessem participar ao vivo, enviando comentários, perguntas e partilhando suas experiências.

Entre os conteúdos abordados, estiveram:

  • a missão da música litúrgica na comunidade cristã;
  • o papel dos ministérios musicais na animação da celebração;
  • a relação entre canto e oração;
  • a formação espiritual e técnica dos músicos litúrgicos;
  • elementos da tradição da Igreja que sustentam o canto litúrgico;
  • experiências pastorais que mostram como a música pode unir, educar e evangelizar.

As mesas foram compostas por músicos, teólogos, religiosas, padres, professores e agentes da pastoral litúrgica que, com linguagem acessível, explicaram tanto os fundamentos da Sacrosanctum Concilium quanto seu impacto nas comunidades de fé.

Por que falar de música litúrgica?

A escolha do tema deste ano não foi por acaso. A música é um dos meios mais diretos de participação da assembleia na celebração. Ela acolhe os fiéis, ajuda a expressar a fé e conduz a comunidade ao mistério celebrado.

A Sacrosanctum Concilium dedica um capítulo inteiro à música litúrgica, sublinhando que o canto não é elemento decorativo, mas parte integrante e necessária da liturgia. A maratona buscou traduzir essa dimensão para o público de hoje, mostrando que:

  • a música litúrgica deve favorecer a oração;
  • o canto precisa estar integrado ao rito;
  • a escolha musical requer sensibilidade pastoral e formação sólida;
  • músicos litúrgicos têm um papel ministerial dentro da celebração.

Os convidados apresentaram reflexões que uniram história, espiritualidade e prática pastoral, ajudando os participantes a compreender a profundidade do tema e seu impacto no cotidiano das comunidades.

Participação crescente e compromisso com a formação

Esta foi a terceira edição da Maratona Sacrosanctum Concilium, consolidando-se como um espaço anual de formação e aprofundamento. O formato online permitiu ampliar o alcance, reunindo participantes de diferentes regiões do Brasil e até do exterior.

Os organizadores destacam que o objetivo não é apenas celebrar o aniversário da Sacrosanctum Concilium, mas oferecer um percurso formativo acessível, gratuito e de qualidade, que contribua para a vivência litúrgica nas paróquias, comunidades e grupos de pastoral.

Ao longo das edições, percebe-se um interesse crescente das pessoas em compreender melhor a liturgia e, sobretudo, o significado da música dentro da prática celebrativa. Muitos participantes comentaram que a maratona os ajudou a redescobrir a beleza e a profundidade da liturgia da Igreja.

Conteúdo disponível para quem quiser aprofundar

A transmissão completa da maratona ficou gravada no canal das Pias Discípulas do Divino Mestre no YouTube. Dessa forma, quem não pôde acompanhar ao vivo pode assistir às mesas individualmente, revisar momentos importantes e utilizar o conteúdo em cursos, encontros de formação e atividades pastorais.

O convite permanece aberto: entrar no canal, inscrever-se e “maratonar” este conjunto de reflexões que ajudam a compreender por que a Sacrosanctum Concilium continua sendo um marco na vida da Igreja e um guia indispensável para todos que servem na liturgia, especialmente os que atuam na música.


Assista à III Maratona Sacrosanctum Concilium:
https://www.youtube.com/watch?v=NIDm9yOLr2o



Nesta Maratona de Liturgia 2025, meditarmos sobre o Capítulo VI da Sacrosanctum Concilium , “A Música Sacra”. Abaixo, o texto deste precioso capítulo sobre a música litúrgica (quem quiser o texto completo da Sacrosanctum Concilium, CLIQUE AQUI) :

CAPÍTULO VI – A MÚSICA SACRA

V 112. A tradição musical da Igreja universal é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido ao texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene.

Não cessam de a enaltecer, quer a Sagrada Escritura, quer os Santos Padres e os Romanos Pontífices, que ainda recentemente, a começar por S. Pio X, sublinharam com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.

A música sacra será, por isso, tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à ação litúrgica, quer 1) como expressão delicada da oração, quer 2) como fator de comunhão, quer 3) como elemento de maior solenidade nos ritos sagrados.

A Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades requeridas. O sagrado Concílio, fiel às normas e determinações da tradição e disciplina da Igreja, e não perdendo de vista o fim da música sacra, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis, estabelece o seguinte:

R 113. A ação litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação ativa do povo. Observe-se, quanto à língua a usar, o art. 36; quanto à Missa, o art. 54; quanto aos sacramentos, o art. 63; e quanto ao Ofício divino, o art. 101.

L 114. Guarde-se e desenvolva-se com diligência o património da música sacra. Promovam-se com empenho, sobretudo nas catedrais, as “Scholae cantorum”. Procurem os Bispos e demais pastores de almas que os fiéis participem ativamente nas funções sagradas que se celebram com canto, na medida que lhes compete e segundo os art. 28 e 30.

V 115. Dê-se grande importância nos Seminários, Noviciados e casas de estudo de religiosos de ambos os sexos, bem como noutros institutos e escolas católicas, à formação e prática musical. Para o conseguir, procure-se preparar também e com muito cuidado os professores que terão a missão de ensinar a música sacra.

Recomenda-se a fundação, segundo as circunstâncias, de Institutos Superiores de música sacra.

Os compositores e os cantores, principalmente as crianças, devem receber também uma verdadeira educação litúrgica.

R 116. A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.

Não se excluem todos os outros gêneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da ação litúrgica, segundo o estabelecido no art. 30.

L 117. Procure terminar-se a edição típica dos livros de canto gregoriano; prepare-se uma edição mais crítica dos livros já editados depois da reforma de S. Pio X.

Convirá preparar uma edição com melodias mais simples para uso das igrejas menores.

V 118. Promova-se muito o canto popular religioso, para que os fiéis possam cantar tanto nos exercícios piedosos e sagrados como nas próprias ações litúrgicas, segundo o que as rubricas determinam.

R 119. Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. A esta música se dê o devido reconhecimento e o lugar conveniente, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas.

L 120. Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimônias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus.

Podem utilizar-se no culto divino outros instrumentos, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente, conforme o estabelecido nos art. 22 § 2, 37 e 40, contanto que esses instrumentos estejam adaptados ou sejam adaptáveis ao uso sacro, não desdigam da dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis.

V 121. Os compositores possuídos do espírito cristão compreendam que são chamados a cultivar a música sacra e a aumentar-lhe o patrimônio.

Que as suas composições se apresentem com as características da verdadeira música sacra, possam ser cantadas não só pelos grandes coros, mas se adaptem também aos pequenos e favoreçam uma ativa participação de toda a assembleia dos fiéis.

Os textos destinados ao canto sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas.

Dom Jerônimo Pereira, monge beneditino do Mosteiro de São Bento de Olinda, mestre em Sagrada Teologia com especialização em liturgia pastoral, pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua (Itália – 2012), doutor em Sagrada Liturgia, pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma, Santo Anselmo (Itália, 2016) e especialista em música litúrgica pelo mesmo Pontifício Instituto romano. Ensina nos Institutos italianos onde estudou; na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e na Universidade Católica Rainha do Sertão (Quixadá), é membro do Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard, articulista da Revista de Liturgia, membro da Equipe de reflexão para a pastoral litúrgica da CNBB e atual presidente da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).

Ir. Priscilla Daniele, religiosa do Instituto das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho. É formada em Licenciatura em Música pela UFPE, especialização em Música Litúrgica pela Unicap, participou de diversos encontros de Compositores e Letristas promovido pela CNBB e atualmente estuda Regência de Coro no Pontifício Instituto de Música Sacra em Roma

Pe Danilo César, presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte. Mestre em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma-It. Doutor em Liturgia pela FAJE-CAPES (BH). Professor de Liturgia da PUC-Minas e membro da Celebra, Rede Nacional de Animação Litúrgica. Articulista da Revista de Liturgia. Atua na recepção e promoção da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

Frei Wanderson Luiz Freitas – presbítero da Ordem do Carmo, atuando na Arquidiocese de Olinda e Recife, compositor, membro da Equipe de Reflexão em Música Litúrgica da CNBB e assessor de liturgia do Regional Nordeste II da CNBB.

Glauber Inocêncio – Leigo, membro do Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard. É formado em Teologia pelo Seminário Arquidiocesano da Paraíba, especialista em Liturgia pelo CLDCI/UNISAL, e também é Engenheiro Eletricista.

Adenor Leonardo – Doutor em Teologia pela Université Laval (Québec – Canadá); Mestre em Música pela UDESC (Florianópolis – SC); Membro da ASLI (Associação dos Liturgistas do Brasil); Membro da Equipe de Reflexão em Música Litúrgica da CNBB; Professor, regente e compositor.

Pe Jair Costa é Mestrando em Teologia Sistemática pela PUC Rio e especialista em Liturgia Cristã pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE). Graduado em Teologia pela Faculdade Dehoniana de Taubaté SP, atualmente é o assessor de música na Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB. Presbítero da diocese de Guarulhos, atuou na formação litúrgica e musical dos seminários da Diocese. Participou do Curso Ecumênico de Liturgia e Música (CELMU), onde foi professor de violão. Foi um dos fundadores do Projeto de Educação Musical na diocese de Guarulhos, e coordenador da Pastoral Litúrgica.

Caetana Cecília Filha é especialista em Liturgia Cristã pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e em Educação Musical pela Faculdade Paulista de Artes (FPA). Bacharela em Sociologia, fez cursos de teatro, música, expressão corporal e dança em escolas livres de arte da ECA – USP.  Atuou por 10 anos nas oficinas de teatro no Curso de Teologia Popular do CESEP – Curso de Verão em São Paulo. Foi professora de técnica vocal no  Curso Ecumênico de Liturgia e Música (CELMU) de 2013 a 2016. Foi uma das fundadoras do Projeto de Educação Musical na diocese de Guarulhos por 19 anos, onde atuou como coordenadora pedagógica. Participou da organização do hinário de cantos litúrgicos para a Diocese de Guarulhos. É Professora de liturgia e canto nos seminários da Diocese de Guarulhos.

Michelle Arype Girardi Lorenzetti é doutora em Música, com ênfase em Educação Musical, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É mestra em Música (Educação Musical), bacharela em Música (Habilitação em Canto) e licenciada em Música, também pela UFRGS. Concluiu, em 2012, a pós-graduação lato sensu em Música Ritual (FACCAMP), em Campo Limpo Paulista/SP. Atuou como educadora musical em escolas de educação básica da rede privada de Porto Alegre, em escolas de música, em projetos sociais e em outros contextos não escolares. Entre setembro de 2018 e julho de 2019, foi professora substituta no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) Campus Porto Alegre, e, de 2021 a 2024, no Campus Alvorada. Concluiu, em 2022, estágio de pós-doutorado na UFRGS. Desde 2014, atua como formadora litúrgico-musical em Seminários Maiores.

Frei Joaquim Fonseca, pertence à Ordem dos Frades Menores. É bacharel em música e doutor em Teologia, pela PUC-SP. Foi assessor nacional da CNBB para a música litúrgica (2003-2006) e coordenador geral do canto e da música na V Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho de Aparecida, em 2007. Coordenou a publicação do livro: “Liturgia das Horas – Música” (CNBB – Paulus). É o idealizador e coordenador da coleção: “Liturgia e música” da Editora Paulus. É professor de Liturgia e Arte Cristã, e assessora cursos de formação litúrgico-musical em todo o País. 

Dom Jerônimo Pereira, monge beneditino do Mosteiro de São Bento de Olinda, mestre em Sagrada Teologia com especialização em liturgia pastoral, pelo Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua (Itália – 2012), doutor em Sagrada Liturgia, pelo Pontifício Instituto Litúrgico de Roma, Santo Anselmo (Itália, 2016) e especialista em música litúrgica pelo mesmo Pontifício Instituto romano. Ensina nos Institutos italianos onde estudou; na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e na Universidade Católica Rainha do Sertão (Quixadá), é membro do Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard, articulista da Revista de Liturgia, membro da Equipe de reflexão para a pastoral litúrgica da CNBB e atual presidente da Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI).

Madre Martha Lúcia Ribeiro Teixeira, osb. Abadessa do Mosteiro de Nossa Senhora da Paz, Itapecerica da Serra (SP).

Madre Agnes Alves Garcia Santos Silva, osb. Abadessa do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, Belo Horizonte (MG)

Dom Anselmo Giaretta, osb. Monge da Abadia da Ressurreição, Ponta Grossa (PR)

Ir. Penha Carpanedo, Mestra em liturgia, Redatora da Revista de Liturgia, coautora do Ofício Divino das Comunidades, membro da Rede Celebra.

Daniela Oliveira, Mestre em Artes (UFU), Doutora em Performances Culturais (UFG), Membro Rede Celebra, do Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard e Membro Equipe Reflexão Música  CNBB

Daniel Oliveira, Doutor em Ciências da Religião pela PUC-Goiás, com estágio doutoral no Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo.

João Lucas – Licenciado em Educação Musical (UEMG), Mestre em Práticas Musicais (UEMG), Pós-graduando em Liturgia (IFITEG/CELEBRA), Leigo da Arquidiocese de Belo Horizonte, Membro da Rede CELEBRA.

Pe Jair Costa é Mestrando em Teologia Sistemática pela PUC Rio e especialista em Liturgia Cristã pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE). Graduado em Teologia pela Faculdade Dehoniana de Taubaté SP, atualmente é o assessor de música na Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB. Presbítero da diocese de Guarulhos, atuou na formação litúrgica e musical dos seminários da Diocese. Participou do Curso Ecumênico de Liturgia e Música (CELMU), onde foi professor de violão. Foi um dos fundadores do Projeto de Educação Musical na diocese de Guarulhos, e coordenador da Pastoral Litúrgica.

Pe Wallison Rodrigues é especialista em Liturgia Cristã pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE). Graduado em Teologia pela PUC Goiás, participou dos Encontros de Compositores da CNBB desde 2014.  É membro da Equipe de Reflexão de Música da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB, realizando várias formações e encontros na área de liturgia e música litúrgica. Regente do Coral São Luiz Gonzaga, é compositor de música litúrgica e gravou vários CDs nesta direção. É presbítero da Diocese de São Luís de Montes Belos e pároco em Turvânia GO.

Raquel Schneider. Arquiteta, Especialista em Espaço Litúrgico, Arquitetura e Arte Sacra, Mestre em Teologia. Assessora do Setor Espaço Litúrgico Comissão Episcopal para a liturgia da CNBB.

Ignez Filipino Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF (2005). Mestre em Engenharia Civil (Sistemas de Gestão, Produção e Qualidade e Desenvolvimento Sustentável) pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2008). Especialista em Espaço Litúrgico – Arquitetura e Arte Sacra pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – UNISAL (2020). Graduanda em Filosofia pela Universidade Federal de São João del Rei – UFSJ (desde 2016).  Membro da Comissão de Bens Culturais da Diocese de São João del Rei (desde 2014).

Frei Telles Ramon, é frade presbítero da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, também conhecidos como Mercedários. Atualmente é pároco da paróquia Nossa Senhora das Mercês, na cidade do Rio de Janeiro. Graduado em filosofia e teologia, estudou música na FMU-FIAM/FAAM – São Paulo, pós-graduando em Liturgia pelo IFITEG/Rede Celebra, também membro da Celebra e desde 2018 atua como redator dos subsídios litúrgicos: folhetos Igreja em Oração (Missa e celebração dominical da palavra) das Edições CNBB.

João Lucas – Licenciado em Educação Musical (UEMG), Mestre em Práticas Musicais (UEMG), Pós-graduando em Liturgia (IFITEG/CELEBRA) Leigo da Arquidiocese de Belo Horizonte, Membro da Rede CELEBRA.



2º DOMINGO DO ADVENTO: TEMPO DE TRANSFORMAÇÃO INTERIOR

Reflexão para o 2º Domingo do Advento – Ano A
7 de dezembro de 2025

Hoje, omite-se a Memória de Santo Ambrósio, bispo e doutor da Igreja

Leituras: Is 11,1-10 | Sl 71(72),1-2.7-8.12-13.17 (R. cf. 7) | Rm 15,4-9 | Mt 3,1-12

As leituras deste 2º Domingo do Advento nos convidam a perceber que a obra de Deus não se realiza por linhas retas, mas por processos vivos, tecidos em múltiplas conexões. Advento é tempo de vigiar o que está surgindo, às vezes silencioso, quase imperceptível. E de reconhecer que a esperança nasce muitas vezes em terrenos improváveis.

A profecia de Isaías abre diante de nós a imagem de um rebento que brota de um tronco já cortado (Is 11,1-10). O que parecia estéril revela potencial. No interior de histórias marcadas por limitações, rupturas e fracassos, a vida encontra frestas para ressurgir. O Espírito repousa sobre esse rebento e o transforma em sinal de justiça, reconciliação e paz. Aqui, o profeta nos ensina que Deus age dentro da realidade concreta, atravessando suas tensões, sem ignorar sua complexidade. A harmonia anunciada (o lobo e o cordeiro, o leão e o boi, a criança e os animais do campo) não é uma fuga da realidade, mas a visão de um mundo reconciliado por dentro, em que opostos encontram novas formas de coexistência.

O salmo retoma esse horizonte de justiça que faz florescer a paz (Sl 71). Quando a justiça não é apenas uma norma externa, mas algo que brota do coração das relações humanas, a paz deixa de ser imposição e se torna fruto. Onde os pobres são defendidos, onde os frágeis são escutados, ali nasce um futuro diferente. É sempre a partir dos pequenos que os processos de renovação se revelam.

Na segunda leitura, São Paulo recorda à comunidade de Roma que a Escritura foi escrita “para nos instruir, a fim de que tenhamos esperança” (Rm 15,4). A esperança não é um ideal abstrato: ela se alimenta da memória, dos sinais de Deus já inscritos na história, e se projeta para um futuro que excede nossas previsões. Paulo insiste na acolhida mútua: judeus e pagãos, diferentes sensibilidades e tradições, reunidos num mesmo louvor. É como se dissesse que, quando olhamos só para nós mesmos, nada realmente novo surge; mas quando abrimos espaço para o outro, algo inesperado acontece. A comunhão é sempre mais criativa do que a soma das partes.

O Evangelho apresenta João Batista no deserto, chamando à conversão (Mt 3,1-12). O deserto, espaço de aparente vazio, torna-se lugar de revelação. João fala de “preparar o caminho”, não como quem deseja organizar tudo de antemão, mas como quem indica a urgência de alinhar o coração ao movimento de Deus. E seu apelo à conversão não é mera correção moral: é transformação profunda das atitudes, dos vínculos, do modo como habitamos o mundo. O julgamento anunciado (o fogo que queima a palha) não deve ser lido com medo, mas como purificação do que está morto, para que o que é vivo possa crescer.

Ler João Batista hoje nos convida a reconhecer que a voz que irrompe do deserto não é apenas um chamado duro, mas um gesto de lucidez. Ele vive na fronteira (entre cidade e deserto, tradição e novidade) e é justamente dessa borda que sua palavra ganha força. No meio de um mundo acelerado, saturado de discursos que suavizam tudo ou escondem o essencial, João recupera o valor do silêncio, do vazio e da consciência desperta.

Sua dureza não é condenação, mas abertura: ele toca aquilo em nós que precisa ser despido para renascer. Sua presença desloca, rompe a repetição, desinstala as comodidades que impedem a vida de florescer. João aponta para o que está chegando, mas que só pode ser percebido por quem desacelera, por quem aceita olhar para dentro e deixar cair as defesas. Ele é sentinela de uma esperança que nasce frágil, discreta e inesperada. Preparar o caminho do Senhor, à maneira de João, é permitir que essa novidade encontre espaço em nós.

O Advento nos convida a ler a realidade assim: como uma trama viva, onde Deus faz surgir caminhos inesperados; como um campo fértil em que pequenas mudanças podem gerar grandes transformações; como um tempo de escuta sensível, que reconhece que algo novo está emergindo no silêncio do mundo e no interior de cada pessoa.

Em um mundo que nos empurra para a velocidade, para o desempenho incessante e para a sensação de que tudo precisa ser imediato, o Advento oferece um caminho diferente: o da espera que amadurece no silêncio. É nesse espaço desarmado, livre da exigência de produzir e de controlar tudo, que a esperança encontra condições para nascer.

A promessa de Isaías, o apelo de João Batista e a exortação de Paulo só podem ser compreendidos por quem se permite reduzir o ritmo, reaprender a olhar, a escutar e a acolher o que chega sem fazer barulho. A vinda do Senhor não acontece no território ruidoso da produtividade, mas na delicadeza do que cresce devagar. Por isso, preparar o caminho é também recuperar a capacidade de maravilhar-se, de reconhecer o outro, de permitir que algo novo, frágil, discreto e inesperado transforme o nosso interior. No Advento, Deus não rompe a porta; Ele a toca suavemente. E apenas quem desacelera pode ouvir.

Que este domingo nos ajude a perceber o “rebento” que já desponta: na comunidade, nos gestos de justiça, nas escolhas cotidianas, nas relações que cultivamos. E que possamos preparar o caminho do Senhor não por ansiedade ou pressa, mas por disponibilidade, confiando que Deus age, mesmo quando tudo parece pequeno, lento ou escondido. Porque é assim que a esperança cresce: discretamente, mas de maneira capaz de transformar todo o horizonte.





ADVENTO: TEMPO DE VIGILÂNCIA, ESPERA E RECONEXÃO

30 de novembro de 2025

O tempo litúrgico do Advento inicia-se, mais uma vez, com um convite à simplicidade e ao recolhimento interior. Logo ao entrar no espaço orante, a comunidade se depara com a cor roxa, que tinge o ambiente e evoca sobriedade, espera e vigilância. As flores silenciam, cedendo lugar à austeridade. No centro, a coroa do Advento, simples, composta por quatro velas, torna-se o símbolo visível da caminhada espiritual que se renova a cada ano. A iluminação progressiva destas velas recorda que é preciso atravessar a noite com confiança, deixando que a luz do Cristo, que já veio e que virá, encontre espaço dentro de nós.

A liturgia deste primeiro domingo ressalta a tensão fecunda entre a memória da primeira vinda do Senhor e a expectativa de sua manifestação gloriosa no fim dos tempos. Assim, o Advento nos coloca diante do essencial: abandonar os excessos, desprender-se das ilusões que obscurecem o olhar e fazer morada em si mesmo, no silêncio onde o Verbo já habita. É desse lugar interior, muitas vezes marcado pelo vazio, pela busca e pela vulnerabilidade, que a comunidade escuta a Palavra, canta sua fé, eleva sua oração e se une ao mistério do Deus que se fez carne. A Igreja, reunida, torna-se o corpo orante no qual Cristo continua encarnando sua presença.

O Evangelho do 1º Domingo do Advento (Mt 24,37-44)

A liturgia proclama o trecho em que Jesus compara sua geração à dos dias de Noé. Curiosamente, Ele não a qualifica como má ou ímpia, mas como inconsciente: “Eles não perceberam nada” (Mt 24,39). A perda do discernimento tornou-se a causa de sua ruína. Noé, ao contrário, soube ler os sinais, acolher o apelo de Deus e preparar o futuro. Assim, Jesus nos lembra que o discernimento de hoje é possibilidade de salvação para o amanhã.

A imagem dos dois homens no campo e das duas mulheres que trabalham no moinho reforça a imprevisibilidade da vinda do Filho do Homem. A referência ao “dono da casa” que não sabe a hora da chegada do ladrão conduz ao ponto central do Evangelho: a vigilância. Em meio às incertezas do tempo histórico, marcado por mudanças rápidas e instabilidades, a atitude cristã fundamental é manter-se desperto.

O vocabulário do texto chama a atenção: “nos dias”, “dias anteriores”, “até o dia”, “numa hora”. De fato, toda a liturgia deste domingo trata do tempo. Isaías (2,1-5) fala “dos últimos tempos”. Paulo, na Carta aos Romanos (13,11-14), exorta: “Já é hora de despertar”, pois “a noite vai adiantada” e o “dia já vem chegando”. A imagem do amanhecer simboliza a conduta luminosa à qual todos são chamados.

O sentido terapêutico do tempo litúrgico

Carl Gustav Jung observava que o Ano Litúrgico funciona como um sistema terapêutico, pois cada tempo toca dimensões profundas da experiência humana. O Advento, em particular, desperta a consciência sobre o tempo que passa e sobre nossa responsabilidade em habitá-lo com sabedoria. O físico brasileiro Marcelo Gleiser reforça que a percepção da própria finitude é, paradoxalmente, aquilo que nos torna humanos e nos impele a criar, a transcender e a deixar marcas para além do corpo físico.

A fé cristã oferece um horizonte ainda mais amplo: no Advento, o tempo cronológico (chronos) se encontra com o tempo oportuno de Deus (kairós). Cada dia, cada gesto, cada relação pode tornar-se espaço de eternidade quando vivido de maneira consciente. Assim, vigiar não é viver em alerta tenso, mas permitir-se uma atenção plena à própria vida, às relações e à presença de Deus que constantemente se revela.

Gleiser lembra que “é importante cavar um tempo em nossa vida para se sentir vivo”. A espiritualidade cristã completa esse pensamento ao afirmar que perceber-se vivo implica reconhecer o dom recebido e oferecer respostas concretas de amor, justiça e reconciliação.

Chamados a viver como filhos da luz

O Advento é um grito no meio da noite anunciando a chegada do Amado. Ele nos convoca a manter o coração desperto, a ser presença atenta no cotidiano e a cultivar um olhar capaz de discernir as pegadas de Deus. Isaías nos convida a transformar armas em instrumentos de trabalho, metáfora potente para escolhas que constroem paz, não violência. Paulo, na segunda leitura, aponta para um estilo de vida marcado pela sobriedade, pela reconciliação e pelo abandono de rivalidades. Não é por acaso que Santo Agostinho se converteu ao ler esse trecho: para ele, essa Palavra foi luz que dissipou definitivamente a escuridão da dúvida.

Vigilância gera discernimento, discernimento gera ação. A espiritualidade do Advento nos leva a gestos concretos: reconectar-se consigo mesmo, com o outro e com o planeta. Gleiser, em O despertar do universo consciente, propõe três princípios que dialogam profundamente com a ética cristã:

  1. O princípio do menos: menos consumo, menos desperdício, menos agressão ao planeta.
  2. O princípio do mais: mais contemplação, mais tempo diante da natureza, mais sensibilidade ao mistério da vida.
  3. O princípio da sustentabilidade: escolhas responsáveis que protejam as futuras gerações.

Sugestões para a vigília dos domingos do Advento

Mantra do 1º e 2º Domingo:
Por ele esperem, seu dia vem;
Tenham coragem, Jesus já vem.
Senhor, nós te esperamos; Senhor, não tardes mais.

Mantra do 3º Domingo (Taizé):
No Senhor sempre darei graças,
no Senhor me alegrarei.
Venham todos, não tenham medo!
Muita alegria: o Senhor já vem!

Mantra do 4º Domingo:
Senhor, nós te esperamos: vem logo, vem nos salvar.

Acendimento da coroa

Acendamos a lamparina…
Sentinela a vigiar…
Logo o Senhor virá…

Diversas aclamações acompanham este rito: invocações à Luz da Vida, oferta de incenso ou ervas cheirosas, gestos de louvor e vigilância. Cada verso, cada melodia, cada chama acesa recorda a comunidade de que o Senhor está próximo.

Ou esta sugestão:

Quem preside faz o convite:

Acendemos a vela para reacender em nossos corações a mesma esperança que animou, durante séculos, a caminhada do povo de Deus

Canto: [enquanto alguém acende a primeira vela] – https://www.youtube.com/watch?v=kziGYp54DlA

Acendamos a lamparina [bis]
Sentinela a vigiar
Logo o Senhor virar [bis]

Cantora:
Eis que se avista o Senhor chegando
vem aclarando nossa escuridão, o Senhor da luz. [bis]

Acendamos a lamparina [bis]
Sentinela a vigiar
Logo o Senhor virar [bis]

Oração:
Ó Cristo, princípio e fim do Tempo, não deixes faltar, na escuridão desta vida a tua luz que clareia o nosso caminho e nos faz discernir os sinais da tua presença. A ti que eras, que és e que vens, nosso louvor para sempre! Amém.



LITURGIA DO DIA: PERSEVERAR NA ESPERANÇA

26 de novembro de 2025
Quarta-feira da 34ª Semana do Tempo Comum, Ano Ímpar
Leituras: Dn 5,1-6.13-14.16-17.23-28; Dn 3,62-63.64-65.66-67 (R. 59b); Lc 21,12-19.

A liturgia de hoje nos conduz a uma profunda reflexão sobre a soberania de Deus sobre a história humana e sobre o testemunho corajoso dos discípulos de Cristo diante das adversidades. À medida que nos aproximamos do final do Ano Litúrgico, a Palavra nos convida a olhar para a fidelidade como a única postura capaz de sustentar o discípulo em meio às incertezas e às provações que marcam a caminhada de fé.

Primeira Leitura – Daniel 5,1-6.13-14.16-17.23-28: o capítulo 5 do livro de Daniel nos apresenta uma cena de forte simbolismo: o banquete do rei Baltazar. Em meio à festa desregrada, o rei manda buscar os vasos sagrados que haviam sido retirados do Templo de Jerusalém, profanando o que era dedicado ao culto de Deus. Enquanto bebem e celebram, exaltando deuses feitos por mãos humanas, uma misteriosa mão aparece e escreve na parede palavras incompreensíveis para todos os sábios da Babilônia.

A aparição causa terror no rei, que se vê incapaz de compreender o ocorrido. Daniel é então chamado, conhecido por possuir “o espírito dos deuses santos” e por sua sabedoria singular. Diante do rei, Daniel recusa os presentes oferecidos e proclama a verdade com coragem: Baltazar não reconheceu o senhorio do Deus Altíssimo e, ao profanar os vasos sagrados, demonstrou arrogância e desprezo pelo Senhor. A inscrição — Mene, Tekel, Parsin — revela o julgamento divino: o reino do rei será pesado, medido e entregue a outros.

Esta leitura nos ensina que nenhum poder humano é absoluto. Impérios passam, reinos se desfazem, governantes mudam, mas Deus permanece soberano. A história está sob seu olhar, e quando a criatura se exalta, quando se esquece da origem de todo bem e de toda autoridade, caminha para a ruína. O profeta Daniel é para nós um exemplo de integridade: não se vende, não se deixa seduzir, não distorce a verdade para agradar. Seu compromisso é com Deus.

Salmo Responsorial – Daniel 3: o cântico dos três jovens, que hoje ressoa nos versículos escolhidos, é um convite à criação inteira para louvar o Senhor. Tudo o que existe — sol, lua, estrelas, chuvas, ventos, montanhas e mares — proclama a glória de Deus. A cada verso ressoa um chamado: “A Ele glória e louvor pelos séculos sem fim!”

É um salmo profundamente consolador. Enquanto a primeira leitura apresenta um rei tomado pelo orgulho e pela ilusão de grandeza, o salmo contrapõe a verdade: toda a criação é dependente de Deus e vive para honrá-lo. A liturgia nos coloca num horizonte de humildade: somos parte de uma obra muito maior do que nós mesmos. Diante de um mundo marcado por autossuficiência e esquecimento de Deus, o salmo recupera nossa vocação fundamental: louvar, agradecer, reconhecer.

Evangelho – Lucas 21,12-19: no Evangelho, Jesus fala aos seus discípulos sobre as perseguições que virão. A linguagem é séria e realista: prisões, acusações, ódio, rejeições até mesmo vindas de familiares. A missão cristã não se ilude com facilidades; ela nasce do próprio caminho de Cristo, que passou pela cruz antes da ressurreição.

Mas o Evangelho não é um anúncio de desespero. Ao contrário, é uma mensagem de esperança plena. Jesus afirma: “Eu vos darei palavras e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir” e ainda “É pela vossa perseverança que conservareis a vossa vida.”

A perseverança, aqui, não é mera resistência teimosa. É uma fidelidade sustentada por Deus, uma confiança que se mantém mesmo nas contradições da vida. Jesus promete sua presença ativa naqueles que dão testemunho. No momento da prova, não estamos sozinhos. Ele mesmo conduz, fortalece e inspira.

Unidade das Leituras: Vigilância, Fidelidade e Verdade

A liturgia de hoje traz uma síntese preciosa. Daniel nos ensina a manter a verdade diante dos poderosos e a não negociar a fé. O Salmo recorda que tudo existe para glorificar o Senhor e que quem vive nessa sintonia encontra a verdadeira paz. Jesus nos chama à perseverança, sabendo que a fé autêntica incomoda, provoca reações e exige coragem.

    Há um contraste evidente: enquanto Baltazar se perde na arrogância, Daniel se mantém fiel. Enquanto falsos deuses são exaltados, o salmo exalta o único Deus verdadeiro. Enquanto o mundo promete segurança ilusória, Jesus revela que a verdadeira segurança nasce da perseverança na fé.

    Viver hoje a liturgia deste dia é confrontar nossas próprias tentações de autossuficiência. Quantas vezes buscamos apoios que não sustentam? Quantas vezes fazemos nossos próprios “ídolos”: sucesso, dinheiro, imagem, poder, a própria vontade colocada como medida de tudo? Baltazar não é apenas um personagem antigo; é espelho das fragilidades humanas de todos os tempos.

    Do outro lado, Daniel nos inspira a manter a integridade mesmo quando isso implica riscos. Ele não teme desagradar o rei, porque sabe que sua vida está nas mãos de Deus. Sua liberdade interior nasce da fé profunda.

    E Jesus completa esse ensinamento ao afirmar que o discípulo deve esperar dificuldades, mas jamais desistir. Não é a ausência de perseguições que comprova a autenticidade da fé, mas a constância no meio delas. A perseverança é o lugar onde Deus age, onde sua força se manifesta.

    A liturgia de hoje nos convida a renovar nossa confiança no Senhor da história. Nenhum poder humano é definitivo, nenhuma perseguição tem a última palavra, nenhuma provação é maior do que a graça de Deus. O que Ele espera de nós é fidelidade — serena, constante, verdadeira.

    Que, como Daniel, tenhamos coragem de viver a fé sem concessões. Que, como os jovens do cântico, Louvemos a Deus em tudo. E que, como os discípulos do Evangelho, caminhemos com perseverança, certos de que Cristo está conosco em cada prova, sustentando-nos com sua sabedoria e sua paz.