A Quaresma com os Padres da Igreja

* Por Padre José Raimundo dos Santos

Neste Primeiro Domingo da Quaresma, muitas Comunidades viverão o início do Segundo Tempo do Catecumenato, o Tempo da Purificação e Iluminação com a Celebração da Eleição ou inscrição do Nome. A Igreja conhece o belo caminho catecumenal de Agostinho de Hipona e propõe na Liturgia das Horas um texto de sua autoria, fruto de seu processo de conversão e do seu coração assimilado ao de Cristo.

Agostinho nasceu em 13 de novembro de 354 em Tagaste, na África, atual Algéria. Ele foi educado por sua mãe Mônica na fé católica, mas não seguiu seu exemplo. Contudo, ela exerceu uma grande influência sobre seu filho e o educou na fé cristã. Agostinho também recebeu sal como sinal de sua aceitação no catecumenato. E ele sempre foi fascinado pela figura de Jesus Cristo; de fato, ele diz que sempre amou Jesus, mas que se afastou cada vez mais da fé eclesial, da prática eclesial, como também acontece hoje com muitos jovens e adultos.

Adolescente animado, espirituoso e exuberante, dedicou-se ao estudo da retórica e seu desempenho foi excelente. Ele ama a vida e seus prazeres, cultiva amizades, persegue amores voluptuosos, adora o teatro e busca diversão e recreação. Depois de seus primeiros estudos em Tagaste e Madaura, ele continuou seu treinamento como retórico, graças ao apoio financeiro de um amigo de seu pai, em Cartago, onde se apaixonou por uma moça. Como ela era de um nível inferior ao seu, ele só pôde torná-la sua concubina, legalmente era impedido de casar-se comela. O fruto desse relacionamento é Adeodato. Agostinho, pai com apenas 19 anos, permanece fiel a essa mulher e assume a responsabilidade de chefe “familiar”. Mas a leitura do livro Hortensius, de Cícero, muda sua maneira de ver as coisas. A felicidade, escreve o grande orador, consiste nos bens que não perecem: sabedoria, verdade, virtude. Agostinho decide, então, ir em busca deles e consagrar-se à pesquisa da Filosofia.

Após sua conversão e Batismo, Agostinho, retornando à África em 388, levou uma vida de retiro por três anos na casa de seu pai em Tagaste, junto com seus amigos, lançando as bases do que mais tarde se tornaria seu estilo de vida religioso específico. Tornando-se sacerdote em 391 e bispo em 395, dedicou toda a sua vida à busca de Deus e a uma intensa atividade pastoral, estabelecendo comunidades religiosas de homens e mulheres, leigos e sacerdotes.

O texto seguinte é do período em que ele era bispo e medita os Salmos com o Povo de Deus.

Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, (Ps 60, 2-3:CCL39,766).

No Cristo fomos tentados e nele vencemos o demônio

Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Quem é que fala assim? Parece ser um só: Dos confins da terra a vós eu clamo, e em mim o coração já desfalece (Sl 60,3). Então já não é um só, e, contudo, é somente um, porque o Cristo, de quem todos somos membros, é um só. Como pode um único homem clamar dos confins da terra? Quem clama dos confins da terra é aquela herança a respeito da qual foi dito ao próprio Filho: Pede-me e te darei as nações como herança e os confins da terra por domínio (Sl 2,8).

Portanto, é esse domínio de Cristo, essa herança de Cristo, esse corpo de Cristo, essa Igreja de Cristo, essa unidade que somos nós, que clama dos confins da terra. E o que clama? O que eu disse acima: Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração; dos confins da terra a vós eu clamo. Sim, clamei a vós dos confins da terra, isto é, de toda parte.

Mas por que clamei? Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória, mas no meio de grandes tentações. Com efeito, nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações.

Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu.

Portanto, o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque ele assumiu a tua condição humana, para te dar a sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a sua vitória.

Se nele fomos tentados, nele também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que ele venceu? Reconhece-te nele em sua tentação, reconhece-te nele em sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação”.


A Igreja começando hoje o Sacramento da Quaresma seu caminho para a Páscoa, contempla o Cristo em oração e jejum, sendo ao mesmo tempo tentado pelo enganador. Em Cristo, a Comunidade cristã descobre a si mesma em todas as tribulações de sua existência desde o princípio. Enquanto Cristo faz os maiores esforços para estar perto de Deus, quem parece mais presente é o maligno, com os problemas diários de subsistência, dinheiro e poder. Não parece um pouco com o nosso itinerário humano?

A situação paradoxal de Cristo sendo tentado expressa também a situação da Igreja, de cada ser humano, da vida humana em geral, que pode ser considerada a grande. tação. Cristo não foge à luta, à tentação da vida com pessimismo resignado, mas com uma confiança inabalável em Deus, que se faz presente entre os homens para que aprendam a dar sentido à sua existência. E a vida é aceita em seu significado insondável, entregando-a a Deus, de quem ela procede e para quem é dirigida.

Assim a vida humana é investida por uma nova luz, por uma nova dimensão, a da fé. Nessa perspectiva, a vida é entendida como liturgia, isto é, como serviço a Deus, e como “Eucaristia”, e, portanto, como oferenda de louvor. Agostinho escreve: “O cristão percebe a vida não tanto como o aspecto da tentação, mas sim como o resultado positivo dessa situação, isto é, Cristo que vence.”

Desde os confins da terra clamo a ti, enquanto meu coração está angustiado” (Sl 60,2).

  1. Você compreende a tentação como oportunidade de avaliação do seu progresso peregrinante na fé?
  2. Você sente em você a tendência de se reconhecer na vitória de Cristo sobre a tentação? 
  3. Para interiorizar: Cristo assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a sua glória; assumiu as tuas tentações, para te dar a sua vitória.

Pe. José Raimundo dos Santos

*Padre José Raimundo dos Santos é presbítero da Diocese de Amargosa-BA. É Mestre e Doutorando em Teologia e Ciências Patrísticas Pelo Pontifício Instituto Patrístico Agostiniano de Roma. Atualmente é Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição em Castro Alves/BA.

ARTE FLORAL NA LITURGIA: O SIGNIFICADO DAS FLORES

Por Ir. Cidinha Batista, pddm
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As flores sempre estiveram presentes nos momentos mais marcantes da vida humana. Desde tempos imemoriais, elas simbolizam alegria, celebração e beleza. Seja em ocasiões festivas, cerimônias religiosas ou momentos de luto, as flores desempenham um papel essencial na expressão de sentimentos e emoções.

Na tradição bíblica, as flores são frequentemente mencionadas como símbolos da efemeridade da vida e da graça divina. São João da Cruz as via como representações das virtudes da alma, enquanto o ramalhete simbolizava a plenitude espiritual. A infância e a pureza são também associadas às flores, remetendo, de certa forma, ao Paraíso.

No entanto, devido à sua delicadeza, as flores também podem representar a transitoriedade da existência e a fugacidade da beleza terrena. Isso pode ser observado nos túmulos do cristianismo primitivo, frequentemente situados em jardins e adornados com flores frescas e gravuras florais, evocando a imagem de um paraíso repleto de vida. Inscrições tumulares e mosaicos costumam exibir coroas e cestos floridos, além da icônica figura da pomba segurando uma flor no bico.

A natureza efêmera das flores é especialmente evidente na Palestina, onde, após as chuvas de inverno, o solo árido se transforma em um vasto tapete colorido de flores silvestres. Contudo, essa exuberância dura pouco, já que as flores murcham rapidamente em poucos dias. As Escrituras fazem menção a essa efemeridade, associando-a à fragilidade humana (Sl 103,15-16; Jó 14,2; Is 40,6-8).

A ARTE FLORAL NA LITURGIA

A arte floral aplicada à liturgia deve refletir o Mistério Pascal e expressar a alegria da Ressurreição. A celebração pascal é perene e sempre traz consigo a novidade da criação. Assim, a fragilidade da flor pode simbolizar a força que se manifesta na simplicidade. Um arranjo floral, cuidadosamente planejado, é capaz de traduzir esse mistério profundo.

As flores possuem um papel fundamental na estética litúrgica, não apenas como meros adornos, mas como elementos que enriquecem e comunicam o sentido das celebrações. Elas não devem ser vistas apenas como enfeites decorativos, mas como participantes da linguagem litúrgica, contribuindo para a harmonia do espaço sagrado. O Bispo Auxiliar de Paris, Albert Rouet, ressalta que a liturgia é uma experiência integral, onde iluminação, música, cores, ornamentos e outros elementos sensoriais colaboram para a plena imersão na Palavra de Deus.

Um arranjo floral bem elaborado pode elevar a beleza das celebrações, conduzindo os fiéis a uma maior comunhão com Deus, que é a suprema Beleza. Santo Agostinho já afirmava que Deus é “a beleza de todas as belezas”.

ORIENTAÇÕES PARA A UTILIZAÇÃO DE FLORES NA LITURGIA

Segundo Jeanne Emard, as flores e plantas enriquecem o ambiente litúrgico, mas seu uso deve ser supervisionado por aqueles que compreendem a arte e a ambientação na comunidade. Não se trata apenas de encher o espaço de flores, mas de posicioná-las estrategicamente para contribuir com a harmonia do ambiente e destacar os elementos essenciais do culto.

Dessa forma, algumas diretrizes devem ser seguidas:

  • Evitar obstruções visuais e movimentação litúrgica: Os arranjos não devem bloquear a visibilidade dos fiéis nem atrapalhar a dinâmica das celebrações. O altar, por exemplo, não deve ser sobrecarregado com flores, pois sua importância central já é suficiente para captar a atenção.
  • Uso de elementos naturais: O princípio da autenticidade deve ser respeitado. Flores artificiais não são recomendadas, pois não refletem a vida e a renovação, que são aspectos fundamentais da mensagem cristã.
  • Simplicidade e equilíbrio: A exuberância excessiva pode desviar a atenção dos elementos principais da liturgia. Os arranjos devem ser equilibrados e permitir que cada flor respire e seja apreciada em sua individualidade.

PRINCÍPIOS DA VIVIFICAÇÃO FLORAL (ESCOLA SANGUETSU)

A técnica de vivificação floral, difundida pela Escola Sanguetsu, propõe uma abordagem artística e contemplativa na composição dos arranjos. Alguns princípios fundamentais são:

  1. Naturalidade: As flores devem ser valorizadas em sua essência, sem forçar formas ou posições artificiais. É essencial respeitar a natureza de cada espécie e priorizar flores da estação.
  2. Precisão no corte: O corte dos caules deve ser feito com exatidão, garantindo a melhor absorção da água e harmonizando cada ramo com o vaso.
  3. Expressividade artística: Arranjar flores deve ser como pintar um quadro, onde cada elemento contribui para uma composição equilibrada e expressiva.
  4. Harmonia entre flor, vaso e ambiente: O arranjo deve estar em sintonia com o espaço em que será inserido, criando uma unidade estética.
  5. Alegria na composição: A vivificação floral deve ser feita com alegria, pois essa energia se transmite a quem observa e participa da experiência litúrgica.

ASPECTOS PRÁTICOS PARA A MONTAGEM DOS ARRANJOS

Para obter um arranjo litúrgico harmonioso, alguns cuidados básicos são recomendados:

  • Escolher os galhos mais bonitos e valorizá-los no arranjo.
  • Selecionar um ramo principal que expresse movimento e graça.
  • Utilizar linhas complementares para reforçar a harmonia visual.
  • Dispor flores abertas e de cores fortes na parte inferior, enquanto as flores em botão ou de tons suaves podem ficar mais altas.
  • Preencher espaços vazios com discrição, utilizando folhagens e flores menores.
  • Manter as folhas fora da água para evitar deterioração precoce.
  • Cortar os caules submersos em água, garantindo uma melhor absorção hídrica e prolongando a durabilidade do arranjo.

CONCLUSÃO

A arte floral a serviço da liturgia é um convite à contemplação e à celebração da beleza divina. Ela transcende a estética e se torna um meio de comunicação simbólica, expressando os mistérios da fé cristã. Os arranjos florais devem ser concebidos com sensibilidade e respeito ao ambiente sagrado, colaborando para que a liturgia seja uma experiência profunda e transformadora.

Quando bem planejados, os arranjos florais não apenas embelezam o espaço, mas também elevam a alma dos fiéis, conduzindo-os a um encontro mais íntimo com o Criador. O uso de flores na liturgia é, portanto, uma arte sagrada, que une a criação divina ao louvor humano.

Referências:

  • EMARD, Jeanne. A arte floral a serviço da liturgia. São Paulo: Paulinas, 1999.
  • Dicionário dos Símbolos. São Paulo: Paulus, 1994.
  • Dicionário Bíblico. São Paulo: Ed. Paulinas, 1983.

SUPERANDO AS TENTAÇÕES: O CAMINHO ESPIRITUAL DA QUARESMA COM JESUS

Reflexão para o 1º Domingo da Quaresma – Ano C

A Quaresma se inicia como um tempo forte de conversão, penitência e aprofundamento na fé. Neste 1º Domingo da Quaresma, a Liturgia da Palavra nos convida a confiar na providência divina e a resistir às tentações do mal, seguindo o exemplo de Cristo.

A primeira leitura (Dt 26,4-10) nos leva ao reconhecimento da história da salvação. O povo de Israel relembra sua escravidão no Egito e a libertação operada por Deus. Essa passagem nos ensina a gratidão e a memória dos feitos do Senhor, que nunca abandona os seus filhos. Assim como os israelitas, somos chamados a apresentar nossas ofertas e a reconhecer as maravilhas de Deus em nossa vida.

O Salmo 90(91) proclama a confiança naquele que se refugia no Senhor. “Estarei com ele na tribulação”, diz o refrão, reafirmando que, mesmo diante das provações, Deus é nosso amparo e proteção. Essa certeza nos fortalece para enfrentar os desafios da vida sem temer o mal.

Na segunda leitura (Rm 10,8-13), Paulo nos recorda que a salvação está ao alcance de todos. Confessar com a boca e crer com o coração são atitudes fundamentais para nos unirmos a Cristo. Esse ensinamento nos convida a viver uma fé autêntica e confiante, sem distinção entre povos ou condições sociais, pois “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.

O Evangelho (Lc 4,1-13) apresenta as três tentações de Jesus no deserto. O diabo tenta desviá-lo de sua missão, oferecendo-lhe alimento, poder e glória. Contudo, Jesus responde a cada tentação com a Palavra de Deus, mostrando-nos o caminho para superar as seduções do mundo. Este episódio nos ensina que a fidelidade a Deus e a força da oração são essenciais para vencer as provações.

Neste início da Quaresma, somos chamados a refletir sobre nossas próprias tentações e a buscar força na oração e na confiança em Deus. Que este tempo seja uma oportunidade para renovar nossa fé, reconhecer nossa dependência de Deus e trilhar o caminho da conversão com coragem e esperança.

Que o Espírito Santo nos conduza neste deserto espiritual e nos fortaleça na luta contra o mal, para que possamos celebrar, com coração renovado, a Páscoa do Senhor.

Veja neste link as sugestões para os cantos litúrgicos para a Celebração Eucarística deste 1º Domingo da Quaresma, ano C, disponibilizado pela Arquidiocese de Goiânia. Já vem com as cifras, partituras e áudio no Youtube para aprendizagem.

R. Em minhas dores, ó Senhor, permanecei junto de mim!

1 Quem habita ao abrigo do Altíssimo *
e vive à sombra do Senhor onipotente,

2 diz ao Senhor: “Sois meu refúgio e proteção, *
sois o meu Deus, no qual confio inteiramente”. R.

10 Nenhum mal há de chegar perto de ti, *
nem a desgraça baterá à tua porta;

11 pois o Senhor deu uma ordem a seus anjos *
para em todos os caminhos te guardarem. R.

12 Haverão de te levar em suas mãos, *
para o teu pé não se ferir nalguma pedra.

13 Passarás por sobre cobras e serpentes, *
pisarás sobre leões e outras feras. R.

14 “Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo *
e protegê-lo, pois meu nome ele conhece.

15 Ao invocar-me hei de ouvi-lo e atendê-lo, *
e a seu lado eu estarei em suas dores”. R.

DIA INTERNACIONAL DA MULHER: A VOZ DA IGREJA CATÓLICA SOBRE A PRESENÇA FEMININA

No Dia Internacional da Mulher, celebramos não apenas as conquistas e a força feminina, mas também refletimos sobre o papel da mulher na sociedade e na Igreja. Ao longo da história, a Igreja Católica tem se manifestado sobre a dignidade, a vocação e a importância das mulheres em diversos documentos oficiais. Confira abaixo um resumo de alguns desses importantes textos, que iluminam a missão feminina sob a luz da fé cristã.

  1. Gaudium et Spes (1965) – A Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II traz uma visão abrangente sobre o papel da mulher na sociedade moderna. O documento destaca a igualdade de dignidade entre homens e mulheres e reforça os direitos femininos, promovendo o respeito e a valorização das mulheres em todos os âmbitos.
  2. Inter Mulieres Claras (1970) – Na Carta Apostólica do Papa Paulo VI, Santa Teresa de Ávila foi proclamada Doutora da Igreja. Este reconhecimento reafirma o valor da contribuição intelectual e espiritual das mulheres na teologia e na vida da Igreja.
  3. Mulieris Dignitatem (1988) – Carta Apostólica do Papa João Paulo II sobre a dignidade e a vocação da mulher. O documento destaca o “gênio feminino”, ressaltando o valor insubstituível das mulheres na família, na Igreja e na sociedade. João Paulo II reflete sobre o papel da mulher na história da salvação, inspirando-se especialmente em Maria, mãe de Jesus.
  4. Christifideles Laici (1988) – Este documento de João Paulo II fala sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, sublinhando a relevância da contribuição feminina. O Papa encoraja as mulheres a atuarem ativamente na evangelização e no serviço à comunidade.
  5. Carta às Mulheres (1995) – Também escrita pelo Papa João Paulo II, esta carta expressa gratidão e reconhecimento pelo papel das mulheres em todos os campos da vida humana. O Papa agradece às mães, esposas, filhas, irmãs, trabalhadoras, consagradas e mulheres de todas as vocações, exaltando seu valor e contribuição.
  6. Verbum Domini (2010) – Na Exortação Apostólica do Papa Bento XVI, é destacada a importância das mulheres no anúncio da Palavra de Deus e na transmissão da fé. O Papa Bento XVI valoriza o papel das mulheres na evangelização e no testemunho cristão, especialmente como catequistas e educadoras da fé.
  7. Evangelii Gaudium (2013) – Na Exortação Apostólica do Papa Francisco, é reforçada a importância da presença feminina na vida eclesial. O Papa destaca a necessidade de uma maior participação das mulheres em posições de liderança e responsabilidade na Igreja, respeitando a sua dignidade e carismas.
  8. Querida Amazonia (2020) – Nesta Exortação Apostólica Pós-Sinodal, o Papa Francisco destaca o papel essencial das mulheres na região amazônica e na Igreja. Ele enfatiza a necessidade de ampliar os espaços para uma participação feminina mais incisiva na Igreja, especialmente em áreas de liderança e decisão pastoral.
  9. Praedicate Evangelium (2022) – A Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, promulgada pelo Papa Francisco, permite que leigos, incluindo mulheres, possam ocupar cargos de governo e chefia na Cúria. Essa mudança reforça a importância da colaboração feminina em posições de destaque na estrutura da Igreja.

Neste Dia Internacional da Mulher, ao celebrarmos as muitas conquistas das mulheres, também recordamos o reconhecimento da Igreja Católica à importância feminina. Que o exemplo de Maria e das santas mulheres, somado à reflexão desses documentos, nos inspire a promover uma sociedade mais justa, inclusiva e cheia de amor.

Parabéns a todas as mulheres! Que Deus abençoe e fortaleça cada uma de vocês!

Referências Bibliográficas

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes: Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual. 1965.

PAULO VI. Inter Mulieres Claras: Carta Apostólica. 1970.

JOÃO PAULO II. Mulieris Dignitatem: Carta Apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher. 1988.

JOÃO PAULO II. Christifideles Laici: Exortação Apostólica sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo. 1988.

JOÃO PAULO II. Carta às Mulheres. 1995.

BENTO XVI. Verbum Domini: Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. 2010.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 2013.

FRANCISCO. Querida Amazonia: Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a Amazônia. 2020.

FRANCISCO. Praedicate Evangelium: Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana. 2022.

MISTAGOGIA NO TEMPO DA QUARESMA: UM CAMINHO DE CONVERSÃO E RENOVAÇÃO ESPIRITUAL

Por Ir. Veronice Fernandes, pddm

O texto abaixo “Mistagogia no Tempo da Quaresma” foi escrito pela Ir. Veronice Fernandes, pddm, e é uma reflexão profunda e prática destinada a guiar os fiéis durante o período quaresmal, desde a Quarta-feira de Cinzas até o Domingo de Ramos e da Paixão. Este material propõe um exercício espiritual que une preparação, participação e reflexão, oferecendo um caminho de conversão e crescimento na fé.

Durante a Quaresma, a Igreja nos convida a vivenciar o jejum, a oração e a esmola como práticas essenciais para a liberdade espiritual, a unificação do coração e a solidariedade concreta. Através da escuta da Palavra, das celebrações litúrgicas e de uma atitude constante de penitência e conversão, os cristãos são chamados a seguir os passos de Jesus rumo à Páscoa.

A proposta mistagógica vai além das celebrações, convidando cada fiel a recordar os ritos, refletir sobre sua experiência espiritual e permitir que o Espírito Santo conduza a oração interior. A inspiração das catequeses de Cirilo de Jerusalém ressalta o valor da iniciação cristã e da participação ativa nos sacramentos.

Este exercício espiritual é um convite para transformar a fé em caridade, promovendo ações concretas de solidariedade e justiça. Com um olhar atento à misericórdia de Deus e à renovação das promessas batismais, a Mistagogia no Tempo da Quaresma busca preparar os fiéis para a vivência plena do mistério pascal.

QUARESMA: RECEBER O PERFUME DAS NOSSAS CINZAS

“Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto…” (Mt 6,17)

Na Quarta-feira, dia 05/02/2025, iniciaremos o Tempo da Quaresma. E começamos este período recebendo as cinzas. A Quaresma é um tempo favorável para “ordenar a própria vida” de acordo com o sonho de Deus para a humanidade. Este período litúrgico nos convida a refletir sobre nossas relações mais profundas: com Deus, com os outros, com o mundo e conosco mesmos. A partir das práticas quaresmais da oração, esmola e jejum, somos chamados a analisar e questionar o modo como nos relacionamos, guiados pelo exemplo de Jesus.

Esses três gestos — oração, esmola e jejum — são essenciais para vivermos de forma plena e fecunda a Quaresma. Eles não apenas humanizam, mas também tornam a vida mais leve e cheia de sentido. Eles condensam o propósito da vida cristã: abrir-se aos outros (esmola), mergulhar no mistério de Deus (oração) e ordenar a própria existência (jejum).

É essencial criar um espaço novo no coração e na mente, permitindo que algo novo aconteça dentro de nós. Vividos a partir da identificação com Cristo, esses valores ajudam a esvaziar o “ego” e nos aproximam dos pobres e excluídos. Eles nos convidam à compaixão, à misericórdia, ao exercício do bem, ao acolhimento, ao perdão gratuito e ao cuidado com o que nos cerca. O verdadeiro espírito da Quaresma é deixar que o amor circule em nós e no mundo, gerando vida em abundância. Este não é um gesto pontual, mas um “modo de proceder” permanente, que deve se estender além do período quaresmal.

Quaresmas que Acontecem “Fora do Tempo”

A vida nos traz “quaresmas” em momentos inesperados, que não escolhem datas no calendário. São as quaresmas que chegam quando enfrentamos doenças, crises, rupturas ou lutos. Essas situações nos forçam a atravessar momentos difíceis, mas também nos ensinam sobre nossa limitação, fragilidade e pecado.

Ao recebermos as cinzas na Quarta-feira de Cinzas, não estamos realizando um gesto de tristeza ou derrotismo. Pelo contrário, estamos fazendo uma profissão de fé na força da esperança. Mesmo diante das dificuldades, há uma potência interior que nos permite recomeçar, perdoar, confiar novamente nas pessoas e seguir o caminho da vida com renovada energia. As cinzas, simbolizando a fragilidade da vida humana, não são um fim, mas um convite à renovação e à conversão.

O Valor das Nossas Cinzas

As cinzas que recebemos têm significados diferentes, dependendo de sua origem. Elas podem simbolizar a perda e a destruição, como as cinzas de uma casa destruída pelo fogo, ou podem representar algo mais suave, como as cinzas de uma chaminé em um campo. As cinzas que carregamos sobre nossas cabeças são um lembrete da fragilidade humana: do que perdemos, do que desperdiçamos, do amor que não cultivamos, das indiferenças que alimentamos e dos sonhos que não deixamos florescer.

Mas, mesmo que carreguemos essas cicatrizes, há também um caminho novo diante de nós, uma oportunidade de transformação. As cinzas, no sentido bíblico, não representam destruição, mas sim força, espírito, vida, projeto e renovação. Elas são símbolos de esperança, ressurreição e conversão, tanto de nós mesmos quanto dos outros. A imposição das Cinzas é, assim, um convite à purificação, à renovação e à comunhão.

A Travessia Interior e a Graça de Deus

A finalidade da imposição das Cinzas e das práticas quaresmais (oração, jejum e esmola) é nos ajudar a realizar uma verdadeira “travessia interior”. Não se trata de apenas ajustar superficialmente nossa vida, mas de permitir que a Graça de Deus toque os recantos mais profundos de nosso ser. Jesus nos ensina que “o Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa” (Mt 6,18). Portanto, precisamos de tempos de silêncio, de espaços especiais, para criar um ambiente que favoreça o encontro verdadeiro com Deus.

Re-descobrir nosso lugar interior é um sinal de maturidade e sabedoria. Esse lugar não se refere ao reconhecimento social ou ao êxito externo, mas ao espaço íntimo onde a Graça de Deus tem liberdade para atuar. Nesse “escondido”, podemos encontrar a paz e a serenidade, e é a partir desse lugar que a transformação profunda começa.

A Mística do Encontro

A oração é um convite para entrar nesse “escondido”, onde encontramos a verdadeira essência de nosso ser e nos encontramos com Deus. Ela não é uma obrigação ou uma imposição, mas uma conversa íntima com o Autor da vida. Orar é buscar o centro, é agir a partir do nosso ser mais profundo, e não de influências externas.

A Quaresma nos oferece a chance de reavivar nossas práticas espirituais e transformar nosso coração. Devemos fazer do nosso coração um espaço de humildade e riqueza, de nossas mãos um gesto de ternura, e de nossos pés um desejo de proximidade e comunhão. Dessa forma, podemos ungir com o azeite da misericórdia e o vinho da fragilidade os feridos que encontramos em nosso caminho.

Reflexão para a Quaresma

Iniciamos este caminho quaresmal com a intenção de nos aproximarmos mais de Deus, buscando transformar nossos gestos em expressão de amor e misericórdia. A Quaresma é uma jornada que nos convida a ir além das camadas exteriores de nossa vida, para alcançar a verdade profunda e essencial que habita em nosso interior.

Que, ao longo deste tempo, possamos ser tocados pela Graça de Deus e encontrar, a cada dia, o verdadeiro significado de nossa caminhada de conversão e renovação.


QUARTA-FEIRA DE CINZAS, Ano C

Leituras:

Jl 2,12-18

Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14 e 17 (R. cf. 3a)

2Cor 5,20-6,2

Mt 6,1-6.16-18


Campanha da Fraternidade 2025: Fraternidade e Ecologia Integral

No início da Quaresma, a Igreja Católica no Brasil dá início à tradicional Campanha da Fraternidade, um importante momento de reflexão e ação em prol da solidariedade e do bem comum. Em 2025, o tema escolhido para esta campanha é “Fraternidade e Ecologia Integral“, e o lema que norteia as ações e reflexões deste ano é retirado do livro de Gênesis: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31).

A proposta da Campanha da Fraternidade 2025 é convidar todos os fiéis e a sociedade em geral a refletirem sobre a relação entre a fraternidade humana e a preservação do meio ambiente. A escolha do tema busca destacar a importância de uma abordagem integrada da ecologia, que não só defende a preservação da natureza, mas também considera as dimensões sociais e culturais do cuidado com a criação. Este conceito de “Ecologia Integral” nos chama a atenção para a interdependência entre os seres humanos e o planeta, ressaltando que o bem-estar do ser humano está profundamente ligado ao cuidado com o ambiente em que vive.

A mensagem central da campanha é um convite à conversão ecológica, promovendo a conscientização sobre o impacto das nossas ações no planeta e chamando-nos a viver de forma mais responsável, solidária e harmoniosa com a criação divina. O lema “Deus viu que tudo era muito bom” nos recorda a visão positiva e criativa de Deus sobre o mundo, reforçando a beleza e a perfeição da criação, mas também a nossa responsabilidade em cuidar dela.

Neste tempo de Quaresma, a Igreja convida todos a refletirem sobre como suas escolhas diárias impactam o meio ambiente e a sociedade, estimulando ações concretas que promovam a justiça social, a paz e a preservação da Casa Comum. Que a Campanha da Fraternidade 2025 inspire um compromisso renovado com a vida, com a fraternidade e com a ecologia integral, fazendo com que, como cristãos, sejamos verdadeiros cuidadores da criação de Deus.

O ARRANJO LITÚRGICO

Por Ir. Cidinha Batista, pddm
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O arranjo floral na liturgia é concebido a partir da Palavra de Deus proclamada e exerce um papel fundamental na criação de um ambiente propício à oração e à contemplação. Contribui para a beleza da celebração, ajudando os fiéis a mergulharem no mistério divino e a se unirem ao Deus de Amor, que Santo Agostinho descreve como “a Beleza de toda beleza”.

As flores, quando dispostas com inteligência e sensibilidade, podem ser um instrumento valioso para facilitar a vivência espiritual da comunidade. Elas evocam a grandeza da criação e ajudam a glorificar a Deus. Não é raro que, a cada fim de semana, em muitas igrejas ao redor do mundo, mãos habilidosas e dedicadas se empenhem na confecção de arranjos florais para a celebração dominical, tornando o espaço litúrgico mais acolhedor e harmonioso.

Apesar da importância desses arranjos, não existem regras estritas para sua elaboração, e essa liberdade é algo positivo. O princípio fundamental que deve guiar a ornamentação de uma igreja é a simplicidade. A decoração deve sempre estar a serviço da celebração, e não o contrário. O arranjo floral precisa integrar-se ao edifício e aos espaços litúrgicos, como o altar, o ambão e a pia batismal, sublinhando a relevância desses lugares sem jamais se tornar um elemento distrativo ou excessivamente chamativo.

A arte floral na liturgia deve estar plenamente a serviço da celebração e do seu conteúdo essencial: a presença de Cristo na assembleia, no ministro, na Palavra e na Eucaristia. Para isso, a escolha e a disposição das flores devem respeitar as particularidades do tempo litúrgico, as estações do ano e as festas religiosas. Celebrações como as do Senhor, da Virgem Maria, dos santos padroeiros ou dos domingos do Tempo Comum exigem diferentes abordagens na ornamentação.

A técnica floral, no sentido estrito, não é o fator mais relevante. Em contrapartida, princípios básicos, guiados pelo espírito da liturgia e pelo bom senso, devem ser seguidos. Exageros devem ser evitados: um excesso de flores pode ter um efeito contrário ao desejado, sobrecarregando o ambiente em vez de contribuir para a harmonia da celebração. A escolha das flores deve ser determinada pelo contexto litúrgico, e isso inclui decidir não apenas quais flores serão utilizadas, mas também quais espaços permanecerão sem ornamentação.

Um bom arranjo litúrgico não deve chamar atenção para si mesmo, mas sim conduzir os fiéis a uma experiência espiritual mais profunda. Seu papel não é ser contemplado por si só, mas ajudar a comunidade a contemplar o que ele representa e honra. As flores, como expressão do dom gratuito de Deus, simbolizam a criação e a vida, e ao mesmo tempo manifestam a gratuidade daqueles que, com amor e dedicação, se reúnem para celebrar o divino.

Em si mesmas, as flores não transmitem uma mensagem específica, mas, dentro do contexto litúrgico, tornam-se expressão de alegria, esperança na ressurreição e memória da fidelidade de Deus. Celebrar a liturgia com a arte floral é um autêntico serviço à Igreja. A experiência de se utilizar a natureza para expressar a fé reforça a maravilha da criação e a conexão entre a beleza e a espiritualidade. Assim, os arranjos litúrgicos se tornam um caminho de fé e reflexão.

A Arte da Ikebana

A Ikebana, arte floral japonesa, traz um significado profundo para a relação entre o homem e a natureza. Seu nome deriva das palavras japonesas “ikeru” (fazer viver) e “hana” (flor), podendo ser traduzido como “criar e conduzir as flores à vida”.

Essa arte milenar possui um simbolismo próprio e foi influenciada pela tradição budista. Introduzida no Japão no século VI por monges budistas, a prática da oferenda de flores a Buda rapidamente se tornou uma forma refinada de expressar a harmonia entre o ser humano e o universo. Inicialmente, era praticada apenas por monges, mas, com o tempo, foi sendo incorporada à cultura japonesa e ganhando novos significados.

O princípio fundamental da Ikebana baseia-se em três elementos: céu, homem e terra. Cada composição floral busca integrar esses três aspectos em um equilíbrio harmonioso. O processo de criação é, acima de tudo, um exercício espiritual e estético, que permite ao praticante entrar em sintonia com a essência das flores, um conceito conhecido no Japão como “o coração da flor” (Hana).

Na Ikebana, cada composição é única, pois reflete a energia, os sentimentos e a percepção da natureza de quem a cria. Seja na primeira ou na centésima composição, a busca pela harmonia é sempre a mesma. Como destaca L. Labarrière: “A Ikebana pode ser comparada à pintura, à música, à caligrafia e à escultura. Seu aspecto efêmero a torna ainda mais poética”.

No Ocidente, ao aplicarmos princípios da Ikebana aos arranjos litúrgicos, podemos aprender muito sobre linearidade, essencialidade e a dimensão contemplativa. Os arranjos devem brotar da Palavra de Deus e do mistério celebrado, ao mesmo tempo em que expressam a acolhida da natureza e a oferta da criação a Deus. A disciplina e o rigor da Ikebana nos ensinam que a beleza está ligada à simplicidade e à verdade, valores que também moldam nosso caráter e espiritualidade.

Assim, ocupar-se da arte floral litúrgica não é apenas uma questão decorativa, mas um verdadeiro serviço à Igreja e à fé.

 

O CARNAVAL E O SENTIDO PARA A COMUNIDADE CRISTÃ

O Carnaval é uma das maiores celebrações culturais do Brasil e de vários outros países, carregando profundas raízes históricas e sociais. Para a comunidade cristã, no entanto, essa festividade possui um significado especial, muitas vezes ambíguo, que vai além da simples celebração. Embora seja tradicionalmente associada à alegria, à dança e à diversão, o Carnaval está intimamente ligado ao calendário litúrgico cristão, especialmente como uma preparação para a Quaresma, período de reflexão, penitência e jejum.

O Carnaval ocorre imediatamente antes da Quarta-feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma — um período de 40 dias de introspecção, oração e preparação para a Páscoa, a maior celebração cristã. O próprio nome “Carnaval” deriva do latim carne vale, que significa “adeus à carne”, indicando o começo de um tempo de abstinência e foco espiritual. Para muitos cristãos, essa proximidade entre o Carnaval e a Quaresma representa um contraste: enquanto o Carnaval é visto como um momento de libertação e indulgência, a Quaresma é um convite ao arrependimento e à renovação.

O significado do Carnaval para a comunidade cristã pode ser interpretado de maneiras distintas. De um lado, há aqueles que participam das festividades de forma moderada, enxergando o evento como uma oportunidade de lazer, convivência e alegria. Para esses, o Carnaval é um momento para celebrar com responsabilidade e manter o equilíbrio. Por outro lado, existem aqueles que preferem se afastar da folia, dedicando-se a retiros espirituais e momentos de oração, iniciando assim a vivência do espírito quaresmal.

Nos períodos de Carnaval, os retiros espirituais são uma prática comum em muitas igrejas cristãs, especialmente nas católicas e evangélicas. Esses retiros oferecem um ambiente propício para o recolhimento, o louvor e o estudo da Palavra de Deus, sendo uma alternativa para aqueles que buscam começar a Quaresma de maneira profunda e espiritual. Para os cristãos que preferem esse caminho, o Carnaval se torna um período de maior concentração e renovação espiritual.

O Sentido Negativo do Carnaval para Alguns Cristãos

Apesar de o Carnaval ser uma grande festa cultural, ele carrega uma visão negativa para algumas vertentes do cristianismo, especialmente para aqueles que têm uma abordagem mais conservadora em relação aos comportamentos durante esse período. Para esses cristãos, o Carnaval é frequentemente associado a excessos, festas desenfreadas, consumo excessivo de álcool e comportamentos considerados imorais.

O Carnaval, com sua ênfase em liberdade e transgressão das normas sociais, tem raízes em antigas celebrações pagãs. Sua proximidade com a Quaresma, um tempo de penitência e reflexão, faz com que muitos vejam o evento como um momento de “liberação” de comportamentos considerados inapropriados ou pecaminosos. Para algumas comunidades cristãs, esses excessos podem ser vistos como um afastamento dos princípios de moderação, autocontrole e respeito ao próximo, que são centrais na vida cristã.

Para esses grupos, o Carnaval simboliza um período de indulgência, no qual as pessoas se entregam ao prazer imediato e aos vícios, muitas vezes em desacordo com os valores cristãos de pureza, autocontrole e respeito à dignidade humana. O comportamento excessivo e a busca desenfreada por prazer, que muitas vezes ocorrem durante as festividades, são criticados por alguns cristãos, que os associam à negação dos ensinamentos de Cristo.

A visão negativa do Carnaval também está ligada à comparação com a Quaresma. Enquanto a Quaresma chama os fiéis a um tempo de oração, arrependimento e renúncia, o Carnaval é visto como uma “antítese” dessa preparação espiritual. Para alguns cristãos, o Carnaval é um período de permissividade, onde as normas morais e espirituais são muitas vezes ignoradas, o que gera uma discordância com o espírito de disciplina e reflexão proposto pela Quaresma.

O CARNAVAL COMO UM CONVITE AO EQUILÍBRIO ESPIRITUAL

O verdadeiro sentido do Carnaval para a comunidade cristã pode ser compreendido como um convite ao equilíbrio. Seja por meio da participação nas festividades com moderação ou pelo aprofundamento espiritual em retiros, o importante é que cada cristão viva esse período de maneira consciente. O Carnaval, ao lado da Quaresma, oferece uma oportunidade única para que o cristão se prepare espiritualmente, refletindo sobre sua fé, suas escolhas e seu compromisso com os ensinamentos de Cristo.

CULTIVAR UM CORAÇÃO QUE FLORESCE

A liturgia do 8º Domingo do Tempo Comum (Ano C) nos convida a olhar para dentro de nós e perceber que nossas palavras e ações refletem aquilo que cultivamos no coração. A forma como falamos e agimos é um espelho do que nutrimos em nosso interior. Se plantamos bondade, paciência e amor, isso se manifestará no mundo à nossa volta. Se, por outro lado, deixamos crescer ressentimentos, críticas e julgamentos, inevitavelmente isso também se refletirá. Por isso, a Palavra de Deus hoje nos convida a cuidar daquilo que alimentamos internamente, para que possamos ser fonte de vida para os outros.

O livro do Eclesiástico (27,5-8) usa imagens simples, mas poderosas, para falar sobre autenticidade. Ele compara a vida com um processo semelhante ao da peneira que separa as impurezas, ou ao fogo que purifica os metais. Quando passamos por desafios, o que é verdadeiro em nós se revela. A forma como reagimos às dificuldades e provações diz muito sobre quem somos. Se nossa fé é só aparência, as tempestades da vida a farão desmoronar. Mas, se estamos enraizados em valores sólidos, enfrentaremos as adversidades com esperança e confiança.

Este trecho também nos ensina que é preciso tempo e paciência para conhecer verdadeiramente alguém. Muitas vezes, julgamos pelas aparências, sem perceber que o que importa está no interior. Em um mundo de redes sociais e impressões rápidas, esse é um lembrete essencial: devemos aprender a olhar além da superfície e valorizar o que é genuíno.

O Salmo 91(92) traz uma mensagem de confiança e esperança. Ele compara aqueles que confiam em Deus a árvores plantadas junto às águas, que dão frutos mesmo em tempos difíceis. Isso nos lembra que a fé não nos isenta de dificuldades, mas nos dá força para continuar crescendo. Muitas vezes, pensamos que o tempo de frutificar passou, que já não há espaço para mudanças ou novos começos. No entanto, Deus nos mostra que sempre há tempo para florescer. Não importa a idade ou a fase da vida em que estamos, podemos continuar crescendo e espalhando bondade ao nosso redor.

Na primeira carta aos Coríntios (15,54-58), São Paulo nos recorda que a morte não tem a última palavra, porque Cristo venceu a morte. Essa é uma mensagem de esperança poderosa, que nos encoraja a continuar firmes, sem desanimar. Nenhuma boa ação é em vão, nenhuma escolha pelo amor é desperdiçada. Às vezes, podemos sentir que nossos esforços para fazer o bem são pequenos diante do mundo, mas Paulo nos lembra que tudo o que fazemos por amor tem valor eterno. A bondade que espalhamos, por menor que pareça, permanece e se multiplica.

O Evangelho de Lucas (6,39-45) aprofunda essa reflexão ao trazer uma imagem clara: “Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons.” Jesus nos convida a um olhar sincero sobre nós mesmos. Antes de tentar corrigir os outros, precisamos primeiro trabalhar nosso próprio crescimento. É fácil apontar erros, mas muito mais valioso é buscar o autoconhecimento e a transformação interior.

Jesus nos ensina que nossas palavras e atitudes revelam o que carregamos por dentro. Se nosso coração está cheio de amor, paciência e compaixão, é isso que transmitiremos ao mundo. Se, por outro lado, cultivamos ressentimento e negatividade, isso também se refletirá.

Essa mensagem não é uma cobrança, mas um convite cheio de esperança. Jesus não quer nos condenar, mas nos ajudar a crescer. A cada dia, temos uma nova oportunidade de plantar coisas boas dentro de nós. Podemos escolher nutrir nosso coração com aquilo que traz paz e alegria, para que nossas palavras e gestos se tornem fonte de vida para quem está ao nosso redor.

Na prática, isso significa estar atento ao que consumimos e cultivamos. O que alimenta nosso coração? O que assistimos, ouvimos e lemos nos torna pessoas melhores? Estamos cercados de pessoas que nos inspiram ao bem? Quais são os pensamentos e sentimentos que mais cultivamos no dia a dia? Refletir sobre isso nos ajuda a construir um caminho de mais leveza e amor.

A liturgia deste domingo nos ensina que a transformação não precisa ser algo grandioso ou imediato. Pequenos gestos diários fazem a diferença. Um sorriso, um pedido de desculpas, uma palavra gentil, um momento de oração… Aos poucos, criamos um ambiente onde o bem floresce naturalmente.

Que esta mensagem nos inspire a sermos mais conscientes do que cultivamos dentro de nós. Cada dia é uma nova oportunidade de plantar o bem, de crescer e de espalhar frutos de amor e esperança.

Que possamos ser árvores que florescem e dão frutos de paz, alegria e vida! 🌳💛


SUGESTÕES DE CANTOS PARA A CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

8º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 02/03/2025

Sugestões da Arquidiocese de Goiânia

ENTRADA – TODA A TERRA TE ADORE
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=4AgEFpEzwKI

HINO DE LOUVOR – GLÓRIA A DEUS NOS ALTOS CÉUS
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=ZOasT8hYblU

SALMO 91 (92) – COMO É BOM AGRADECERMOS AO SENHOR
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=fKn9hNCTkx4

Aclamação – ALELUIA… COMO ASTROS NO MUNDO
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=5ZSIrgM7srw

OFERENDAS – DE MÃOS ESTENDIDAS
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=b_Y8N-CT0cY

SANTO
Áudio: http://www.youtube.com/watch?v=lV-RL98cNBA

ACLAMAÇÃO MEMORIAL
Áudio: http://www.youtube.com/watch?v=UHI-dl4CrEg

AMÉM
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=ke38zXN9Hqg

CORDEIRO DE DEUS
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=6XCyWxWpPAo

COMUNHÃO – É BOM ESTARMOS JUNTOS
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=aM1wWNKjt3Q

FINAL – HINO MARIANO – À VOSSA PROTEÇÃO
Áudio: https://www.youtube.com/watch?v=c6hSHsTC6bo

IR. KELLY SILVA DE OLIVEIRA DEFENDE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO NA UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

No dia 26 de fevereiro de 2025, a Ir. Kelly Silva de Oliveira participou da banca de defesa de sua dissertação de mestrado, consolidando mais um importante passo em sua trajetória acadêmica. Candidata ao título de Mestre em Design pela Universidade Anhembi Morumbi, sua pesquisa teve como tema “Design de animação para um despertar poético sobre os modos de (r)existência Guarani Mbya”. O estudo propõe o design de animação como uma ferramenta essencial para a valorização, preservação e transmissão da cultura Guarani Mbya, contribuindo para a difusão de suas narrativas e modos de existência.

A dissertação foi orientada pela Profa. Dra. Suzete Venturelli, que acompanhou todo o desenvolvimento do estudo e incentivou sua abordagem inovadora. A banca examinadora foi composta também pela Profa. Dra. Valzeli Figueira Sampaio, UFPA, e pelo Prof. Dr. Sérgio Nesteriuk Gallo, UAM, renomados pesquisadores da área de design e animação, que contribuíram com avaliações criteriosas e consideraram a pesquisa uma significativa contribuição acadêmica e cultural.

Uma pesquisa decolonial e colaborativa

O trabalho da Ir. Kelly se insere no contexto do discurso decolonial nas artes, questionando a histórica invisibilização dos povos originários e suas culturas na produção midiática contemporânea. A pesquisa busca aproximar o design de animação das cosmovisões Guarani Mbya, reconhecendo a força de suas narrativas e seus modos de (r)existência no território urbano.

Para isso, a pesquisadora realizou um trabalho colaborativo com a comunidade Guarani Mbya da Tekoa Krukutu, localizada na região sul da cidade de São Paulo. Durante o estudo, a interação com os membros da comunidade permitiu não apenas o resgate e a valorização de suas histórias, mas também o envolvimento ativo dos próprios integrantes na criação da animação.

A proposta não se limitou a documentar a cultura Guarani Mbya, mas sim a traduzir suas vivências e saberes em uma linguagem visual contemporânea, capaz de dialogar tanto com os integrantes da própria comunidade quanto com o público externo. Assim, o design de animação surge como uma ferramenta de fortalecimento cultural, abrindo espaços para um despertar poético sobre diferentes formas de existir no mundo.

O processo de criação da animação

O desenvolvimento da animação foi um processo cuidadoso, pautado pela escuta atenta e pelo respeito às formas de transmissão oral da cultura Guarani Mbya. A pré-produção incluiu diversas oficinas e encontros com a comunidade, nos quais foram discutidos elementos visuais, estilos narrativos e personagens.

A história desenvolvida se baseia nos mitos e contos transmitidos de geração em geração, abordando questões centrais da cosmologia Guarani Mbya. O storyboard, elaborado em conjunto com os participantes da pesquisa, reflete não apenas a estética e os símbolos da cultura Guarani, mas também sua forma particular de conceber o tempo, a natureza e as relações entre seres humanos e não-humanos.

Outro aspecto importante da pesquisa foi a escolha da linguagem visual. A animação busca se afastar das representações estereotipadas e romantizadas dos povos indígenas frequentemente encontradas nos meios de comunicação de massa. Em vez disso, propõe uma abordagem sensível e respeitosa, que coloca em primeiro plano a perspectiva dos próprios Guarani Mbya sobre si mesmos.

Impacto e contribuição acadêmica

O estudo da Ir. Kelly Silva de Oliveira contribui de forma significativa para os campos do design e da animação, ampliando as discussões sobre a produção audiovisual indígena e seu potencial para a preservação cultural. Além disso, a pesquisa também tem um impacto direto sobre a comunidade envolvida, oferecendo um meio para que os próprios Guarani Mbya possam contar suas histórias e fortalecer suas identidades.

Para o meio acadêmico, a dissertação representa um avanço nas discussões sobre metodologias colaborativas e sobre o papel do design na criação de narrativas plurais e inclusivas. Ao integrar os conhecimentos tradicionais Guarani Mbya com as técnicas contemporâneas de animação, o estudo aponta caminhos para uma produção cultural mais diversa e representativa.

A defesa da dissertação foi recebida com entusiasmo pela banca avaliadora, que destacou a relevância da pesquisa e sua abordagem inovadora. O trabalho também foi elogiado pela profundidade da análise teórica e pela sensibilidade na condução do processo de criação da animação.

Perspectivas futuras

Com a conclusão do mestrado, a Ir. Kelly pretende continuar sua atuação no campo do design e da animação, aprofundando suas pesquisas sobre a intersecção entre arte, tecnologia e culturas tradicionais. Uma das possibilidades futuras é a continuidade do projeto de animação, ampliando sua difusão e explorando novas formas de colaboração com os Guarani Mbya e outras comunidades indígenas.

O trabalho também abre espaço para discussões sobre a inserção de narrativas indígenas no circuito acadêmico e profissional do design, incentivando novas pesquisas e produções que valorizem a diversidade cultural brasileira.

A trajetória da Ir. Kelly Silva de Oliveira demonstra a importância de um design comprometido com a escuta e o respeito às diferenças, promovendo o encontro entre diferentes saberes e formas de existir. Sua pesquisa é um convite para que o design de animação continue sendo um espaço de resistência, criatividade e valorização cultural.