LITURGIA DO DIA: O RECENSEAMENTO DE DAVI E A REJEIÇÃO DE JESUS

(2 Samuel 24,2.9-17 e Marcos 6,1-6)

A Palavra de Deus apresenta-nos hoje dois textos que, à primeira vista, parecem muito diferentes, mas que dialogam profundamente entre si. Ambos falam de confiança, fé e do perigo de fechar o coração à ação de Deus.

O primeiro texto é da 1ª leitura, 2 Samuel 24.9-17. De forma intrigante, ele vem falar do recenseamento promovido por Davi, que, numa primeira leitura, parece ser o estopim da ira de Deus.

Leitura do Segundo Livro de Samuel 24,2.9-17
Naqueles dias,
disse, o rei Davi a Joab
e aos chefes do seu exército que estavam com ele:
“Percorre todas as tribos de Israel,
desde Dã até Bersabeia,
e faze o recenseamento do povo,
de maneira que eu saiba o seu número”.
Joab apresentou ao rei 
o resultado do recenseamento do povo:
havia em Israel oitocentos mil homens de guerra,
que manejavam a espada;
e, em Judá, quinhentos mil homens.
Mas, depois que o povo foi recenseado,
Davi sentiu remorsos e disse ao Senhor:
“Cometi um grande pecado, ao fazer o que fiz.
Mas perdoa a iniquidade do teu servo,
porque procedi como um grande insensato”.
Pela manhã, quando Davi se levantou,
a palavra do Senhor tinha sido dirigida ao profeta Gad,
vidente de Davi, nestes termos:
“Vai dizer a Davi: Assim fala o Senhor:
dou-te a escolher três coisas:
escolhe aquela que queres que eu te envie”.
Gad foi ter com Davi
e referiu-lhe estas palavras, dizendo:
“Que preferes:
três anos de fome na tua terra,
três meses de derrotas diante dos inimigos
que te perseguem,
ou três dias de peste no país?
Reflete, pois e vê
o que devo responder a quem me enviou”.
Davi respondeu a Gad:
“Estou em grande angústia.
É melhor cair nas mãos do Senhor,
cuja misericórdia é grande,
do que cair nas mãos dos homens!”
E Davi escolheu a peste.
Era o tempo da colheita do trigo.
O Senhor mandou, então, a peste a Israel,
desde aquela manhã até ao dia fixado,
de modo que morreram setenta mil homens da população,
desde Dã até Bersabeia.
Quando o anjo estendeu a mão
para exterminar Jerusalém,
o Senhor arrependeu-se desse mal
e disse ao anjo que exterminava o povo:
“Basta! Retira agora a tua mão!”
O anjo estava junto à eira de Areuna, o jebuseu.
Quando Davi viu o anjo que afligia o povo,
disse ao Senhor:
“Fui eu que pequei,
eu é que tenho a culpa.
Mas estes, que são como ovelhas, que fizeram?
Peço-te que a tua mão se volte contra mim
e contra a minha família!”
Palavra do Senhor.

O episódio do recenseamento ordenado pelo rei Davi, narrado em 2 Samuel 24, situa-se no final do seu reinado, por volta do século X a.C., quando Israel já se encontra politicamente unificado, com Jerusalém como capital e relativa estabilidade militar. Trata-se de um momento em que Davi, após muitas conquistas, enfrenta não inimigos externos, mas uma crise espiritual no exercício do poder.

No mundo antigo, realizar um recenseamento não era um ato neutro. Servia para medir a força militar, organizar impostos, afirmar o poder do rei sobre o povo. Esse tipo de prática era típico dos grandes impérios da época. Em Israel, porém, o povo tinha consciência de que a sua força não vinha do número de soldados, mas da fidelidade ao Senhor, que era considerado o verdadeiro rei. Ao ordenar o censo, Davi age como um soberano absoluto, aproximando-se da lógica dos impérios e afastando-se da confiança em Deus.

O próprio Joab, chefe do exército, demonstra resistência, o que revela que o problema do recenseamento era percebido já naquele contexto. Após a contagem, Davi reconhece o seu erro e confessa o pecado, abrindo espaço para o arrependimento.Mesmo assim, Davi manda fazer um recenseamento do povo para saber quantos homens de guerra possuía. Naquele tempo, contar o povo significava medir o próprio poder. Ao apoiar-se nos números, Davi começa a confiar mais na força humana do que em Deus. O erro não está em organizar o reino, mas em colocar a segurança onde ela não deve estar. Depois do recenseamento, Davi reconhece o seu pecado. Ele percebe que agiu com orgulho e pede perdão ao Senhor.

Por meio do profeta Gad, Deus oferece a Davi três possibilidades de castigo. Colocado diante dessa escolha, o rei afirma algo muito importante: prefere cair nas mãos do Senhor, porque a misericórdia de Deus é maior do que a dos homens. Mesmo quando o castigo começa, o texto mostra que Deus não deseja a destruição. Quando o anjo está prestes a atingir Jerusalém, o Senhor manda parar. O arrependimento de Davi abre espaço para a misericórdia. Davi assume a culpa e pede que o castigo recaia sobre ele, e não sobre o povo. Aqui aparece a imagem do rei como pastor, responsável pelas ovelhas que lhe foram confiadas.

O centro teológico do texto não está no castigo, mas na relação entre pecado, responsabilidade e misericórdia. O pecado de Davi é, sobretudo, o orgulho, a autossuficiência e a confiança excessiva nos meios humanos. Ao escolher entre os castigos propostos pelo profeta Gad, Davi opta por cair “nas mãos do Senhor”, reconhecendo que a misericórdia de Deus é maior do que qualquer segurança humana. Mesmo no juízo, Deus não deixa de ser misericordioso.

O anjo pára junto à eira de Areuna. Mais tarde, será nesse lugar que o Templo de Jerusalém será construído. Isso ensina que Deus pode transformar um lugar de pecado e sofrimento num lugar de encontro e reconciliação.

A figura do “anjo do Senhor”, de fato, que fere o povo expressa, na linguagem simbólica bíblica, a ação de Deus diante do pecado. Quando o Senhor “se arrepende” do castigo, o texto não sugere mudança de caráter, mas afirma que a conversão humana pode interromper a destruição. O clamor final de Davi assumindo a culpa e pedindo que o castigo recaia sobre ele e não sobre o povo apresenta um rei que se reconhece responsável pelas ovelhas que lhe foram confiadas, antecipando a imagem do pastor que dá a vida pelo rebanho.

Um ponto interessante: o mesmo episódio é narrado em 1 Crônicas 21, com uma diferença teológica importante: ali, quem incita Davi ao recenseamento é Satanás, enquanto em 2 Samuel o texto afirma que a iniciativa ocorre no contexto da ira do Senhor.

Essa diferença não é uma contradição, mas reflete etapas distintas da reflexão teológica de Israel. O livro das Crónicas, escrito mais tarde, procura preservar com mais clareza a bondade de Deus, atribuindo o impulso ao mal a uma figura adversa. Já Samuel reflete uma outra compreensão teológica, que ainda compreende todos os acontecimentos sob a soberania direta de Deus.

O Evangelho em diálogo: Marcos 6,1-6

No Evangelho, Jesus volta à sua terra natal. As pessoas conhecem-no desde pequeno e, por isso, acham que já sabem tudo sobre Ele. Dizem: “Não é este o carpinteiro?”

Assim como Davi confiou nos números, o povo de Nazaré confia apenas no que é visível e familiar. Eles reduzem Jesus às suas origens humanas e fecham-se ao mistério de Deus.

O Evangelho diz algo muito forte: Jesus não pôde realizar ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles. Não é falta de poder, mas falta de fé.

O que une esses dois textos?

Os dois textos mostram o mesmo problema espiritual: Davi confia na força humana. Nazaré confia no que já conhece e controla. Em ambos os casos, Deus é limitado pelo olhar humano. Quando o coração se fecha, a graça não encontra espaço para agir. Há, porém, uma diferença importante: Davi reconhece o erro, arrepende-se e encontra misericórdia. O que não acontece com o povo em Nazaré. Nazaré fecha-se na incredulidade e perde a oportunidade da salvação.

Esses textos falam diretamente à nossa vida: Em quem colocamos a nossa confiança? Nos números, nas estruturas, na experiência, no “sempre foi assim”? Ou em Deus, que age de modo livre e surpreendente?

A liturgia de hoje ensina que a fé abre caminho para a ação de Deus; o orgulho e a autossuficiência fecham esse caminho; e Deus não quer a destruição, mas a conversão e a vida.

Davi, no fim, pede que o castigo recaia sobre ele. Jesus vai mais longe: entrega a própria vida pelo povo. Davi é um pastor que reconhece a culpa. Jesus é o Bom Pastor, que assume o pecado do mundo para salvar as suas ovelhas.

A Palavra de Deus convida-nos hoje à humildade e à fé. Ela recorda-nos que Deus age onde encontra corações abertos, capazes de confiar, de converter-se e de acolher o mistério.

Que não nos aconteça o mesmo que a Davi antes do arrependimento, nem o mesmo que aos habitantes de Nazaré. Que saibamos reconhecer os nossos limites e confiar sempre nas mãos misericordiosas do Senhor.



43º ENCONTRO DOS GOVERNOS GERAIS DA FAMÍLIA PAULINA DESTACA UNIDADE, SINODALIDADE E MISSÃO COMPARTILHADA

Entre os dias 9 e 12 de janeiro de 2026, foi realizado em Roma o 43º Encontro dos Governos Gerais da Família Paulina, com a participação dos Governos Gerais, representantes dos Institutos Agregados e dos Cooperadores Paulinos. Foram dias marcados pela oração, reflexão, escuta, discernimento, partilha da Palavra e convivência fraterna.

Inspirado pela imagem “A Família Paulina: carro que corre apoiado sobre quatro rodas”, o encontro retomou a herança carismática do Beato Tiago Alberione, reafirmando a riqueza da diversidade e a unidade entre as várias expressões da Família Paulina. As quatro rodas (Oração, Estudo, Apostolado e Pobreza) foram aprofundadas como dimensões inseparáveis da vida e da missão paulina.

Durante o encontro, os participantes revisitaram o próprio caminho como uma “história dupla”, marcada pela ação da graça de Deus e, ao mesmo tempo, pelas fragilidades humanas. Essa releitura favoreceu um olhar de realismo e esperança, reconhecendo limites, mas também sinais de novidade e fidelidade criativa ao carisma.

Em sintonia com o caminho da Igreja, foi fortemente ressaltada a sinodalidade como estilo de vida e de missão, compreendida como um percurso a ser feito juntos, em comunhão e corresponsabilidade. A unidade foi reconhecida como força que atrai e gera fecundidade, enquanto a divisão enfraquece a missão.

Outro destaque do encontro foi a redescoberta da fraternidade como elemento essencial da identidade paulina. A Família Paulina foi novamente chamada a viver como “um só coração e uma só alma” (At 4,32), fortalecendo a colaboração espiritual, intelectual e apostólica entre todos os seus membros.

À luz do Centenário da presença paulina em Roma, os participantes olharam para o futuro com gratidão e senso de responsabilidade compartilhada. O que foi vivido durante o encontro é entendido não apenas como memória, mas como impulso para escolhas concretas, relações mais evangélicas e uma missão cada vez mais vivida em comunhão.

Confiantes na ação de Deus, primeiro operador da história, e inspirados pelo testemunho do Beato Tiago Alberione, os participantes reafirmaram o desejo de seguir caminhando unidos, guiados pela única lâmpada da Família Paulina: Jesus Mestre e Pastor, Caminho, Verdade e Vida.

O 43º Encontro dos Governos Gerais foi vivido como um tempo de bênção, renovação e fortalecimento do compromisso comum a serviço do Evangelho e do mundo de hoje.

📽️ Assista ao vídeo com imagens do encontro:
https://youtu.be/FEIk-tSw0Iw

Leia a mensagem final na íntegra:




AS BEM-AVENTURANÇAS: O CAMINHO DO REINO REVELADO AOS PEQUENOS

Ir. Julia Almeida, pddm

4º Domingo do Tempo Comum – Ano A | 1º de fevereiro de 2026
Leituras: Sf 2,3;3,12-13 | Sl 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5,3) | 1Cor 1,26-31 | Mt 5,1-12a

O Evangelho deste 4º Domingo do Tempo Comum nos conduz ao coração da mensagem de Jesus: as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a). Diante da multidão, Jesus sobe ao monte, senta-se como Mestre e começa a ensinar. Não se trata apenas de um discurso moral, mas da revelação de um modo novo de viver, de ver o mundo e de se colocar diante de Deus. As Bem-aventuranças não descrevem pessoas ideais ou situações perfeitas; revelam, antes, o agir do Reino de Deus na fragilidade humana.

Domingo passado, com os textos do 3º Domingo do Tempo Comum, Mateus apresentou o início da missão pública de Jesus: o anúncio da proximidade do Reino, o chamado dos primeiros discípulos e a formação de um povo que se reúne em torno de sua palavra e de seus gestos de vida e cura. É o momento do convite decisivo:“Vinde após mim”. Este convite inaugura um caminho de seguimento, conversão e disponibilidade interior. O Reino começa como movimento: deixar as próprias redes, aproximar-se de Jesus e entrar na dinâmica de uma vida que se orienta a partir dele.

Neste 4º Domingo, o Evangelho nos conduz a um novo patamar desse mesmo caminho. Jesus sobe ao monte, senta-se e, diante dos discípulos, revela o coração do Reino por meio das Bem-aventuranças. Já não se trata apenas de seguir, mas de deixar-se configurar por Ele; não apenas de ouvir o anúncio, mas de assumir um modo de viver. As Bem-aventuranças não são exigências abstratas, mas o retrato da vida que floresce quando o Reino é acolhido: uma existência marcada pela pobreza de espírito, pela mansidão, pela misericórdia e pela fome de justiça, sinais de uma humanidade transformada pela presença de Deus.

Mateus 5,1-12a é escrito dentro de um contexto histórico, comunitário e teológico muito preciso, que ajuda a compreender a força e a originalidade das Bem-aventuranças. Não se trata de palavras soltas de Jesus, mas de um texto cuidadosamente elaborado para uma comunidade concreta e para um momento decisivo da narrativa evangélica.

O Evangelho de Mateus é redigido provavelmente entre os anos 80–90 d.C., para uma comunidade cristã de origem majoritariamente judaica, que vive uma situação de tensão e reorganização após a destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.). Esses cristãos enfrentam a ruptura progressiva com o judaísmo rabínico nascente, a perseguição e a marginalização social, a necessidade de afirmar sua identidade como comunidade dos discípulos de Jesus.

As Bem-aventuranças, nesse contexto, oferecem critérios de identidade: indicam quem são, de fato, os herdeiros do Reino, não a partir do poder religioso ou do prestígio social, mas da fidelidade vivida em meio à fragilidade, à perseguição e à esperança.

Em especial, Mateus 5,1-12a abre o chamado Sermão da Montanha (Mt 5–7), o primeiro dos cinco grandes discursos de Jesus em Mateus. Ele é colocado logo após o início da missão de Jesus (Mt 4,12-17), o chamado dos discípulos (4,18-22), a formação das multidões (4,23-25). Ao situar Jesus “subindo ao monte” e “sentando-se”, Mateus o apresenta como o novo Moisés, não para abolir a Lei, mas para revelar seu sentido pleno. As Bem-aventuranças funcionam como o portal de entrada desse ensinamento: olha que interessante, não começam com mandamentos, mas com promessas de vida e felicidade.

Teologicamente, Mt 5,1-12a expressa a lógica inversa do Reino dos Céus. Em um mundo marcado por hierarquias, honra e exclusões, Jesus proclama bem-aventurados aqueles que parecem estar à margem: pobres, mansos, aflitos, misericordiosos, perseguidos. Isso revela um Deus que se inclina para os pequenos, um Reino que já está presente, mas se manifesta de modo paradoxal, uma felicidade fundada na relação com Deus, e não no sucesso visível.

Assim, o contexto de Mateus 5,1-12a é o de uma comunidade chamada a reconhecer-se nas Bem-aventuranças, não como ideais inalcançáveis, mas como a descrição da vida dos discípulos que, mesmo em meio às provações, já vivem sob o senhorio do Reino.

E o texto inicia de forma interessante: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. A felicidade proclamada por Jesus não se confunde com sucesso, poder ou prestígio. Ela nasce da confiança radical em Deus, da abertura interior que reconhece a própria pobreza e necessidade. O “pobre em espírito” é aquele que não se apoia em si mesmo, mas se deixa conduzir pelo Senhor. É o discípulo que aprende a viver da graça.

Ser pobre de espírito, no sentido evangélico, não é uma atitude de desvalorização de si nem simples carência material, mas uma postura interior diante de Deus e da vida. Trata-se de reconhecer que tudo é dom e que a própria existência não se sustenta por si mesma. O pobre de espírito sabe que não é autossuficiente: vive na escuta, na confiança e na disponibilidade para acolher o agir de Deus, sem pretender controlar tudo ou garantir-se apenas por seus próprios méritos.

Efetivamente, ser pobre de espírito significa desapegar-se das falsas seguranças como o poder, prestígio, saber, até mesmo de imagens rígidas de si e de Deus para viver na liberdade de quem depende do Senhor. É uma pobreza que gera espaço interior: espaço para a Palavra, para o outro, para o Reino que já se faz presente. Por isso, o pobre de espírito é bem-aventurado, porque vive da graça e não da posse; caminha na humildade que abre o coração à ação transformadora de Deus.

Por que Jesus proclama bem-aventurados justamente os pobres, os aflitos, os mansos, os perseguidos? Por que Ele chama de felizes aqueles que, aos olhos do mundo, parecem frágeis ou perdedores? Jesus proclama bem-aventurados os pobres, os aflitos, os mansos e os perseguidos porque revela a lógica do Reino de Deus, tão diferente da lógica do mundo. Enquanto a sociedade associa felicidade ao sucesso, ao poder e à autossuficiência, Jesus aponta que a verdadeira bem-aventurança nasce da confiança em Deus e da abertura ao seu amor.

É importante salientar que as Bem-aventuranças não exaltam o sofrimento nem idealizam a dor. Elas anunciam que Deus está particularmente próximo daqueles que vivem a fragilidade, a pobreza e a injustiça. É nesses lugares que o Reino se manifesta com mais força, oferecendo consolo, justiça e esperança.

Ao proclamá-las, Jesus também apresenta o seu próprio caminho: Ele mesmo é pobre, manso, misericordioso, promotor da paz e fiel até a perseguição. Seguir o Mestre é aprender a viver segundo esse estilo, deixando que a Palavra transforme nossos critérios, escolhas e relações.

Assim, as Bem-aventuranças tornam-se um convite concreto à vida cristã: viver a misericórdia, promover a paz, buscar a justiça e permanecer fiel, certos de que a verdadeira felicidade não está na ausência de dificuldades, mas na presença fiel de Deus que caminha conosco.

Essa lógica atravessa todo o Evangelho e encontra eco profundo nas outras leituras deste domingo. O profeta Sofonias anuncia que Deus preservará “um povo humilde e pobre”, que buscará refúgio no nome do Senhor (Sf 3,12). Não são os fortes ou autossuficientes que permanecem, mas os pequenos, aqueles que vivem na fidelidade e na esperança. O Salmo responsorial confirma essa certeza: o Senhor faz justiça aos oprimidos, sustenta o órfão e a viúva, ama os justos e permanece fiel para sempre (Sl 145).

São Paulo, escrevendo aos coríntios, aprofunda ainda mais essa inversão de valores. Deus escolhe o que é fraco para confundir os fortes, o que é desprezado para revelar sua sabedoria (1Cor 1,26-31). A lógica do Reino desmonta os critérios do mundo. A salvação não é conquista humana, mas dom gratuito, oferecido em Cristo, nossa sabedoria, justiça e redenção.

As Bem-aventuranças, portanto, não são promessas distantes, mas um caminho concreto de discipulado. Elas nos interrogam como cristãos e cristãs: onde colocamos nossa segurança? Que tipo de felicidade buscamos? Somos capazes de reconhecer a presença de Deus na mansidão, na misericórdia, na fome e sede de justiça, na paz construída no cotidiano?

Neste primeiro domingo do mês de fevereiro, como Família Paulina, somos convidados a contemplar Jesus como Divino Mestre, aquele que ensina não apenas com palavras, mas com a própria vida. No monte das Bem-aventuranças, Jesus revela seu coração e nos educa para uma fé encarnada, sensível, profundamente humana e, ao mesmo tempo, aberta ao mistério do Reino. Aprender do Divino Mestre é deixar que sua Palavra molde nossos critérios, nossos afetos e nossas escolhas.

À luz dessa Palavra, também somos chamados a rezar com especial atenção pela intenção do Apostolado da Oração deste mês: por todas as crianças com doenças incuráveis e suas famílias. As Bem-aventuranças nos ajudam a olhar para essas vidas com os olhos de Deus. Elas nos lembram que a fragilidade não é sinal de abandono, mas lugar privilegiado da presença do Senhor. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” A promessa de Jesus não elimina a dor, mas garante que ela não é a última palavra.

Como comunidade cristã, somos convidados a ser sinal desse consolo: pela oração, pela proximidade, pelo cuidado concreto, pela esperança partilhada. O Reino anunciado por Jesus começa a acontecer quando nos fazemos próximos dos que sofrem, quando escolhemos a compaixão em vez da indiferença, a mansidão em vez da violência, a justiça em vez da exclusão.

Ao propor Mateus 5,1-12 para a liturgia do 4º Domingo do Tempo Comum – Ano A, a Igreja não pretende apenas oferecer um ensinamento moral elevado, mas animar as comunidades a reconhecerem sua própria vocação e identidade à luz do Reino. As Bem-aventuranças funcionam como um espelho no qual a comunidade é convidada a se contemplar e a se deixar interpelar: quem somos nós enquanto discípulos reunidos em torno de Jesus?

Em primeiro lugar, a liturgia anima as comunidades a relerem sua experiência concreta de vida e fé. Muitas vezes marcadas por fragilidades, limites, sofrimentos, conflitos ou falta de reconhecimento, as comunidades escutam que essas situações não as afastam do Reino, mas podem tornar-se lugar de bênção e de esperança. A proclamação das Bem-aventuranças sustenta e consola, afirmando que Deus está próximo dos pobres, dos que choram, dos mansos e dos perseguidos, e que a fidelidade vivida no cotidiano já participa da felicidade prometida.

Ao mesmo tempo, o texto impulsiona uma conversão do olhar e das práticas comunitárias. A animação proposta não é intimista, mas profundamente eclesial: ser comunidade bem-aventurada significa cultivar relações marcadas pela misericórdia, pela busca da justiça, pela mansidão e pela paz. Assim, a liturgia deste domingo convoca as comunidades a tornarem-se sinal visível do Reino no mundo, não pela força ou pelo prestígio, mas pelo testemunho humilde e coerente de uma vida transformada pelo Evangelho.

Que este 4º Domingo do Tempo Comum nos ajude a acolher o ensinamento do Divino Mestre e a percorrer, com confiança, o caminho das Bem-aventuranças. Nele, mesmo em meio às dores e fragilidades, aprendemos que a verdadeira felicidade nasce de Deus e se manifesta no amor vivido no cotidiano.


Bem-aventuranças e Vaticano II: a identidade da Igreja chamada pelo Reino

A liturgia do 4º Domingo do Tempo Comum – Ano A, ao proclamar o Evangelho das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a), coloca a comunidade cristã diante do coração do anúncio de Jesus: a revelação de um modo novo de viver, fundado na confiança em Deus, na mansidão, na misericórdia e na busca da justiça. Não se trata de um ideal abstrato ou reservado a poucos, mas da descrição concreta da identidade dos discípulos e das comunidades que acolhem o Reino já presente na história.

Essa perspectiva encontra profunda consonância com o atual ciclo de audiências do Papa Leão XIV sobre os Documentos do Concílio Vaticano II. Ao retomar o Concílio, o Papa insiste que a Igreja é, antes de tudo, uma comunidade que nasce da escuta da Palavra viva de Deus, num diálogo de aliança em que o Senhor se comunica como amigo e chama à resposta livre da fé. As Bem-aventuranças expressam exatamente essa dinâmica: não são simples normas morais, mas Palavra proclamada por Cristo que interpela, consola e configura interiormente aqueles que se colocam à sua escuta.

Além disso, o Vaticano II, como recorda Leão XIV, apresentou a Igreja como Povo de Deus, sacramento de comunhão e sinal de esperança para o mundo. As Bem-aventuranças delineiam o rosto desse povo: uma Igreja pobre de espírito, solidária com os que sofrem, comprometida com a paz e a justiça, capaz de testemunhar o Evangelho não pelo poder ou prestígio, mas pela coerência de vida. Assim, o Evangelho deste domingo e a releitura conciliar caminham juntos ao animar as comunidades a redescobrirem sua vocação fundamental: viver e manifestar, no cotidiano da história, a alegria paradoxal do Reino que já se faz presente entre nós.




PAPA LEÃO XIV APONTA DESAFIOS DA EVANGELIZAÇÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Ir. Julia Almeida, pddm

Durante a Audiência Geral de 28 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV ofereceu importantes reflexões que ajudam a compreender os principais desafios e tensões da evangelização na atualidade. Embora o Papa não trate diretamente de “evangelização” usando esse termo específico, sua catequese permite identificar pontos de tensão (desafios) na evangelização hoje. Ao dar continuidade à catequese sobre a Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, o Pontífice destacou a relação entre Sagrada Escritura, Tradição e vida concreta da Igreja, apontando caminhos e alertas para a missão evangelizadora de hoje.

Um dos pontos centrais da catequese foi a afirmação de que a Palavra de Deus não é uma realidade estática, nem um simples texto do passado. Segundo o Papa, trata-se de uma realidade viva e orgânica, que cresce e se desenvolve na Tradição da Igreja sob a ação do Espírito Santo. Nesse sentido, Leão XIV advertiu para o risco de uma evangelização que se limite à repetição de fórmulas ou conceitos, sem impacto real na vida das pessoas.

O Pontífice também reafirmou a unidade inseparável entre Escritura e Tradição, recordando que ambas formam um único depósito da fé. A Tradição, explicou, não substitui a Escritura, mas a interpreta, a transmite e a torna viva em cada tempo histórico. Esse aspecto revela uma tensão constante da evangelização: como permanecer fiel à herança recebida e, ao mesmo tempo, anunciá-la de modo compreensível e significativo para os contextos culturais atuais.

Outro desafio destacado é a necessidade de guardar e transmitir integralmente o depósito da fé. O Papa alertou para o perigo de reduções ou distorções da mensagem cristã, especialmente quando se tenta adaptá-la excessivamente às sensibilidades contemporâneas, correndo o risco de esvaziar seu conteúdo essencial.

Leão XIV também chamou a atenção para a forma como a Palavra de Deus é escutada hoje. Citando os Padres da Igreja, recordou que a Escritura “cresce” naqueles que a leem e acolhem com profundidade. No entanto, em uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de informações e pela superficialidade, a evangelização enfrenta o desafio de promover uma escuta atenta, paciente e transformadora da Palavra.

Por fim, o Papa ressaltou que a fé cristã não pode permanecer apenas no plano doutrinal, mas deve ser encarnada na vida cotidiana, tornando-se fonte de transformação pessoal, comunitária e social. Evangelizar, nesse contexto, significa ajudar homens e mulheres de hoje a experimentar o Evangelho como uma força viva, capaz de iluminar as relações humanas, a cultura e a sociedade.

A catequese do Papa Leão XIV oferece, assim, importantes pistas para compreender os pontos de tensão da evangelização contemporânea: entre tradição e novidade, fidelidade e adaptação, profundidade e superficialidade, escuta verdadeira e ruídos do mundo atual. Desafios que exigem da Igreja discernimento, coragem e renovada fidelidade ao Evangelho.

Leia a catequese na íntegra: CATEQUESE DO DIA 28/01/2026.




COMO FAZER UMA FORMAÇÃO INICIAL PARA O MINISTÉRIO DE LEITORES?

O ministério de leitores é o serviço litúrgico confiado a homens e mulheres da comunidade para proclamar a Palavra de Deus na celebração, especialmente nas leituras bíblicas. Mas atenção: ele não se reduz a “ler bem em público”. Trata-se de um ministério eclesial, com sentido teológico, litúrgico e espiritual.

1. O leitor na liturgia: mais que uma função, um ministério

Na liturgia, a Palavra não é apenas lida: ela é proclamada. Por isso, o leitor não exerce uma função técnica, mas um ministério a serviço da assembleia, colaborando para que o povo de Deus ouça, acolha e responda à Palavra viva.

Formar leitores é, antes de tudo, formar servidores da Palavra, conscientes de que:

  • a Palavra é ação de Deus no hoje da assembleia;
  • a proclamação é um ato litúrgico, não uma leitura comum;
  • quem proclama empresta sua voz para que Deus fale ao seu povo.

2. Objetivo da formação inicial

A formação inicial do leitor tem como objetivo:

  • despertar a consciência litúrgica do ministério;
  • favorecer uma relação espiritual com a Palavra;
  • oferecer noções básicas de proclamação, postura e escuta da assembleia;
  • integrar o leitor na dinâmica celebrativa da comunidade.

Não se trata apenas de “ensinar a ler bem”, mas de educar para o sentido da Palavra na liturgia.

3. Eixos fundamentais da formação

a) A Palavra como evento: o primeiro passo é ajudar o leitor a compreender que:

  • a Palavra proclamada é Cristo que fala à Igreja;
  • na liturgia, a Escritura acontece como evento, não como informação;
  • o leitor não “representa um personagem”, mas serve ao acontecimento da Palavra.

Aqui é fundamental trabalhar a escuta, o silêncio e o sentido ritual da proclamação.

b) Espiritualidade do leitor: antes da técnica, vem a vida espiritual.

A formação inicial deve incentivar:

  • leitura orante da Palavra (lectio divina);
  • familiaridade com os textos bíblicos;
  • atitude de humildade e disponibilidade;
  • consciência de que o leitor também é primeiro ouvinte da Palavra que proclama.

Um bom leitor não é o que “interpreta melhor”, mas o que se deixa tocar pelo texto.

c) O lugar do leitor na celebração

É importante situar o ministério no conjunto da liturgia:

  • relação entre Palavra e Eucaristia;
  • sentido do ambão;
  • diálogo com salmista, presidente e assembleia;
  • importância do silêncio antes e depois da leitura.

O leitor precisa perceber que sua proclamação:

  • não é um momento isolado;
  • faz parte do ritmo, do tempo e da respiração da celebração.

d) Proclamação: técnica a serviço do sentido

A técnica não é o centro, mas é necessária. Na formação inicial, é importante trabalhar:

  • leitura em voz alta com clareza e naturalidade;
  • ritmo, pausas e respiração;
  • articulação e projeção da voz;
  • postura corporal e contato visual com a assembleia;
  • preparação prévia do texto (nunca improvisada).

A técnica deve servir ao texto, nunca chamar atenção para o leitor.

4. Metodologia da formação

A formação inicial pode ser organizada em:

  • encontros breves e progressivos, não exaustivos;
  • momentos de escuta da Palavra;
  • leitura partilhada;
  • exercícios práticos no espaço litúrgico;
  • diálogo e troca de experiências.

É essencial evitar um modelo apenas “instrucional”.
A formação deve ser experiencial, envolvendo corpo, voz, escuta e silêncio.

5. Formação contínua

A formação do leitor não termina no primeiro curso.

É importante prever:

  • encontros periódicos;
  • preparação comunitária das leituras dominicais;
  • aprofundamento bíblico-litúrgico;
  • cuidado espiritual do ministério.

Assim, o leitor cresce junto com a comunidade e não reduz seu serviço a uma tarefa funcional.

Formar leitores é educar homens e mulheres para servir à Palavra que convoca, reúne e transforma a assembleia.

Quando o leitor compreende seu ministério, a liturgia ganha densidade, a Palavra ressoa com mais clareza e a comunidade é verdadeiramente alimentada.

Podemos colaborar na sua comunidade neste formação. Entre em contato conosco: secretaria@piasdiscipulas.org.br




O DOMINGO DA PALAVRA DE DEUS: ESCUTAR, CELEBRAR E VIVER A PALAVRA QUE SALVA

No último domingo (3º Domingo do Tempo Comum – 25/01/2026), a Igreja celebrou o Domingo da Palavra de Deus, uma data relativamente recente no calendário litúrgico, mas profundamente enraizada na tradição cristã. Instituído pelo Papa Francisco por meio da Carta Apostólica Aperuit illis (2019), esse domingo convida toda a comunidade eclesial a redescobrir o lugar central da Palavra de Deus na vida da Igreja, na liturgia e no cotidiano dos fiéis.

Mais do que uma comemoração simbólica, trata-se de um chamado à conversão pastoral e espiritual: voltar a colocar a Palavra no centro, não como objeto de estudo isolado ou leitura ocasional, mas como voz viva de Deus que continua a falar ao seu povo hoje.

O título do documento — Aperuit illis (“Abriu-lhes o entendimento”) — é retirado do Evangelho de Lucas (24,45), no episódio dos discípulos de Emaús. O Papa Francisco parte desse texto para lembrar que é o próprio Cristo quem abre as Escrituras e permite que elas sejam compreendidas em profundidade. Sem Ele, a Bíblia corre o risco de se tornar apenas um livro do passado; com Ele, torna-se Palavra viva, atual e transformadora.

O Papa afirma logo no início do documento:

“A relação entre o Ressuscitado, a comunidade dos crentes e a Sagrada Escritura é extremamente vital para a nossa identidade cristã” (Aperuit illis, n. 1).

Celebrar o Domingo da Palavra de Deus é, portanto, reafirmar essa relação vital entre Cristo, a Igreja e as Escrituras.

Um dos aspectos mais importantes ressaltados pelo Papa Francisco é a relação intrínseca entre Palavra e liturgia. A Bíblia não foi entregue à Igreja para ser apenas lida individualmente, mas proclamada e escutada no seio da assembleia. É na liturgia que a Palavra manifesta plenamente seu caráter de evento: Deus fala, o povo escuta, responde e é transformado.

O Papa recorda que:

“A Bíblia não pode ser entendida como uma coleção de livros de história, nem como um conjunto de textos morais, mas é o livro do povo de Deus” (Aperuit illis, n. 5).

Por isso, a proclamação da Palavra na liturgia exige cuidado, preparação, silêncio e escuta atenta. Não se trata de um momento secundário da celebração, mas de uma verdadeira ação sacramental, na qual Cristo se faz presente e fala à sua Igreja.

O Domingo da Palavra de Deus também recorda que escutar a Palavra nunca é um gesto individualista. A escuta é sempre eclesial e comunitária. A Palavra convoca, forma e envia. Como afirma o Papa:

“Escutar a Sagrada Escritura cria comunhão com Deus e com os irmãos” (Aperuit illis, n. 4).

Essa comunhão, porém, não se fecha em si mesma. A Palavra escutada gera compromisso e missão. Quem acolhe a Palavra é chamado a traduzi-la em gestos concretos de amor, justiça, misericórdia e serviço, especialmente aos pobres e sofredores. Não por acaso, o Papa insiste que a Bíblia deve estar sempre ligada à vida real do povo.

Outro objetivo fundamental do Domingo da Palavra de Deus é educar o povo cristão para uma relação madura e constante com as Escrituras. Isso implica formação bíblica, catequese contínua e iniciação à leitura orante da Bíblia (Lectio Divina).

O Papa Francisco alerta que o desconhecimento das Escrituras empobrece a fé:

“Sem a Sagrada Escritura, os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo permanecem incompreensíveis” (Aperuit illis, n. 7).

Por isso, esse domingo é também um convite às comunidades para investirem na formação de leitores, catequistas, ministros ordenados e agentes de pastoral, para que todos saibam escutar, interpretar e anunciar a Palavra com fidelidade e profundidade.

Dentro da celebração litúrgica, o Domingo da Palavra de Deus valoriza de modo especial o ministério do leitor. O leitor não é alguém que “apenas lê”, mas alguém que empresta sua voz para que Deus fale ao seu povo. Sua postura, preparação, vestes e modo de proclamar fazem parte da pedagogia simbólica da liturgia. Como recorda o Papa Francisco, a Palavra exige respeito, dignidade e amor:

“A proclamação da Palavra de Deus requer uma atenção especial à sua preparação e à sua execução” (Aperuit illis, n. 9).

Isso ajuda a assembleia a compreender que, quando a Palavra é proclamada, é o próprio Cristo quem fala.

Celebrar o Domingo da Palavra de Deus não se limita ao espaço da igreja. O Papa insiste que a Bíblia deve acompanhar a vida diária dos cristãos: nas famílias, nos grupos, nas decisões pessoais e comunitárias. A Palavra ilumina a realidade, consola nas dificuldades, corrige os caminhos e sustenta a esperança.

Nesse sentido, o Papa afirma:

“A Palavra de Deus une os crentes e faz deles um único povo” (Aperuit illis, n. 3).

Essa unidade se constrói quando a Palavra é acolhida, meditada e vivida.

O Domingo da Palavra de Deus é, em última análise, um convite a reaprender a escutar. Num mundo marcado pelo excesso de palavras e ruídos, a Igreja é chamada a criar espaços de silêncio, escuta e acolhida da Palavra que salva.

Celebrar esse domingo é reconhecer que a Palavra de Deus não pertence ao passado, mas continua a agir no presente; não é letra morta, mas voz viva do Espírito; não é propriedade de alguns, mas dom oferecido a todo o povo de Deus.

Como nos recorda o Papa Francisco, a Palavra “não passa”, porque é o próprio Deus que continua a falar. Cabe à Igreja — e a cada fiel — abrir o coração, como os discípulos de Emaús, e deixar-se transformar por essa Palavra que gera vida, comunhão e missão.

Ler na íntegra: Carta Apostólica Aperuit illis




VESTES DE LEITORES: POR QUE USAR?

Ir. Julia Almeida, pddm

Em muitos debates nas redes sociais e em espaços de formação litúrgica, surge com frequência a pergunta: por que, no Brasil, leitores usam vestes litúrgicas, se no Vaticano isso não acontece? A inquietação é legítima, mas a resposta exige ir além da simples comparação de práticas externas. É preciso compreender o sentido da liturgia, o papel da cultura na sua expressão e o modo como a Igreja vive a recepção das normas universais em contextos concretos.

O que a Igreja realmente determina

Do ponto de vista da norma litúrgica universal, a Igreja não estabelece uma veste própria e obrigatória para leitores leigos. A Instrução Geral do Missal Romanon nº 339 afirma que leitores e outros ministros leigos podem usar a alva ou outra veste legitimamente aprovada pela Conferência Episcopal. Ou seja, a norma abre espaço para adaptações pastorais e culturais, sem impor um modelo único.

Isso significa que não existe um “paramento do leitor” universal. Deve se ter presente que o uso ou não de veste litúrgica não afeta a validade nem a dignidade do ministério. Ou seja, a forma concreta de vestir-se na liturgia pode variar conforme a cultura, a história e a sensibilidade pastoral de cada Igreja local.

O caminho da Igreja no Brasil

No Brasil, o uso de vestes para leitores e ministros leigos não surgiu por imitação do clero, nem por desejo de uniformização estética. Ele nasce de um processo pastoral e eclesial profundamente ligado à valorização dos ministérios leigos após o Concílio Vaticano II.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), especialmente no Estudo nº 115 – As Vestes Litúrgicas, destaca que as vestes:

  • são linguagem simbólica da liturgia, não simples adereços;
  • ajudam a expressar visivelmente o serviço que está sendo exercido;
  • devem favorecer a participação, a clareza ritual e a dignidade celebrativa;
  • não podem ser usadas para “clericalizar” leigos, mas para evidenciar o caráter ministerial do serviço.

Nesse horizonte, a veste do leitor no Brasil não é sacramental, nem equivalente à estola ou à casula. Ela não confere status hierárquico e expressa que aquele fiel está, naquele momento, a serviço da Palavra proclamada à assembleia.

Por que o Vaticano não usa e por que isso não é um problema

As celebrações no Vaticano seguem uma tradição romana marcada pela sobriedade ritual, pela centralidade do gesto e pela distinção rigorosa entre ministérios ordenados e não ordenados. Nessa lógica, a Palavra é destacada pelo ambão, pelo Lecionário e pelo rito, e não pela veste do leitor. Essa opção é legítima, mas não é a única forma católica de viver a liturgia.

A Igreja não é monocultural. O Vaticano não é o “modelo estético obrigatório” para todas as comunidades do mundo. A liturgia é una na fé, mas plural na forma de ser celebrada. Quando se afirma que “se no Vaticano não usa, ninguém deveria usar”, corre-se o risco de absolutizar um modelo europeu e romano, transformando-o em critério universal.

O Brasil não “erra” por celebrar de modo diferente. Pelo contrário: celebra a partir de sua própria sensibilidade cultural. Nossa cultura é simbólica, visual, corporal, comunitária e marcada por sinais que ajudam a compreender o que está acontecendo.

Nesse contexto, a veste ajuda a assembleia a reconhecer os ministérios; reforça que a Palavra não é leitura comum, mas proclamação litúrgica; favorece o sentido de serviço e responsabilidade do leitor; contribui para a organização ritual da celebração. Desqualificar essa prática como “excesso”, “invenção brasileira” ou “desobediência” revela, muitas vezes, uma dificuldade de aceitar que a fé se encarna de modos diferentes, sem trair sua essência.

Vestir para servir, não para aparecer

A CNBB é clara ao afirmar que qualquer uso de vestes deve evitar exageros estéticos, confusão entre ministérios, vaidade ou protagonismo pessoal. A veste do leitor só faz sentido quando é simples, não imita paramentos clericais, está a serviço da liturgia, e não da pessoa e ajuda a comunidade a rezar melhor. Quando usada assim, ela não substitui a Palavra, mas aponta para ela.

Em síntese, usar veste litúrgica como leitor no Brasil:

  • não é obrigação, mas opção pastoral;
  • não contradiz a Igreja universal, mas se apoia nela;
  • não imita o Vaticano, mas responde à nossa cultura;
  • não clericaliza, quando bem compreendida;
  • expressa que a liturgia é linguagem viva, encarnada e plural.

A pergunta, portanto, não é “por que o Brasil faz diferente do Vaticano?”, mas:
como nossa forma de celebrar ajuda o povo a compreender, viver e rezar o mistério que celebramos? E, nesse caminho, a veste do leitor pode ser, quando bem usada, um sinal simples, pedagógico e profundamente eclesial.

Esteticamente, como devem ser as vestes de leitores?

Esteticamente, as vestes do leitor não devem chamar atenção para si, mas servir ao rito e à Palavra proclamada. A lógica não é a do figurino nem a da moda, mas a da forma ritual. A partir da tradição litúrgica e do horizonte proposto por Desiderio Desideravi, é possível indicar alguns critérios estéticos fundamentais:

  1. Simplicidade formal: a veste deve ter linhas simples, sem recortes complexos, ornamentos excessivos ou elementos decorativos supérfluos. A simplicidade favorece a concentração no gesto proclamativo e evita a personalização do ministério.
  2. Sobriedade visual: cores, tecidos e acabamentos devem ser discretos. Evitam-se brilhos, transparências, estampas chamativas ou contrastes fortes. A sobriedade estética educa o olhar da assembleia para o essencial: a escuta da Palavra.
  3. Neutralidade simbólica: a veste do leitor não carrega simbolismos próprios muito marcados (como os de ordens religiosas ou de ministérios ordenados). Sua função estética é “desaparecer” como signo autônomo para deixar emergir o evento da Palavra. Assim sendo, sugerimos não utilizar as cores dos tempos litúrgicos como elementos decorativos. As vestes litúrgicas dos presbíteros já carregam esta função.
  4. Unidade e coerência: quando possível, a veste deve favorecer certa unidade entre os leitores (sem uniformização rígida), evitando a impressão de improviso ou individualismo. A coerência visual contribui para a percepção do ministério como serviço eclesial, não privado.
  5. Adequação ao espaço litúrgico: a estética da veste deve dialogar com o espaço celebrativo, o ambão e o conjunto ritual. Não deve competir com o presbitério nem com os ministros ordenados, mas também não parecer um elemento estranho ou “civil” deslocado.
  6. Dignidade sem ostentação: a veste deve ser claramente distinta da roupa cotidiana, sinalizando que se trata de uma ação ritual, mas sem recorrer à solenidade excessiva. A dignidade nasce da forma, do caimento e da sobriedade, não do luxo.
  7. Inculturação equilibrada: no contexto brasileiro, é legítimo considerar clima, materiais e sensibilidades culturais locais, desde que isso não comprometa a clareza ritual nem transforme a veste em expressão identitária individual ou regionalizante.

Enfim, esteticamente, a veste do leitor deve ser discreta, sóbria, simples e ritual, ajudando a assembleia a perceber que quem se destaca não é a pessoa nem sua aparência, mas a Palavra que acontece na celebração.

A veste do leitor como caminho mistagógico

Neste ponto, torna-se necessário deslocar o debate sobre as vestes do plano meramente normativo ou estético para o horizonte mistagógico, tal como propõe o Papa Francisco na Desiderio Desideravi. Sob essa perspectiva, a veste do leitor deixa de ser compreendida como um “problema disciplinar” e passa a ser reconhecida como mediação simbólica no processo de iniciação ao mistério celebrado. Embora a Desiderio Desideravi não trate de modo específico do uso das vestes litúrgicas, o documento oferece elementos fundamentais que iluminam uma reflexão mistagógica sobre o seu significado e sua função no contexto celebrativo.

O Papa Francisco afirma com força que não se aprende a liturgia por explicações abstratas, mas pela experiência simbólica vivida. A mistagogia, para ele, é “um caminho que conduz da experiência celebrada à inteligência espiritual do mistério”.

Nesse sentido, tudo o que acontece na liturgia (gestos, espaços, silêncios, objetos, palavras e também vestes), participa da formação do fiel, não como ornamento, mas como linguagem.

Portanto, a pergunta correta não é “A veste do leitor é obrigatória?”, mas: “Ela ajuda ou não o povo a entrar mais profundamente no mistério da Palavra celebrada?”

A Palavra proclamada como evento, não como leitura funcional

Um ponto central da Desiderio Desideravi é a superação da lógica funcional da liturgia. A proclamação da Palavra não é um momento utilitário, mas um acontecimento sacramental (ainda que distinto da Eucaristia).

A veste do leitor pode colaborar mistagogicamente quando ajuda a romper com a percepção cotidiana da leitura; indica que ali ocorre algo diferente do “ler em público”; e sinaliza que a Palavra é proclamada à assembleia como Palavra viva.

Mistagogicamente, a veste desloca o olhar da pessoa para a função e introduz o fiel na lógica do rito, não da performance individual. Assim, ela educa o olhar e o coração para perceber que não é alguém lendo, é Deus falando à sua Igreja.

O Papa Francisco insiste que não existe experiência litúrgica sem corpo. A liturgia forma a fé envolvendo os sentidos: visão, audição, postura, movimento.

A veste do leitor, assim, inscreve o corpo do ministro na gramática ritual. Ela ajuda o leitor a assumir corporalmente o serviço da Palavra e favorece uma atitude interior coerente com o que se faz.

Nesse sentido, ela tem função mistagógica também para o próprio leitor, pois ajuda a entrar no “tempo outro” da liturgia; recorda que ele não fala em nome próprio; e favorece recolhimento, sobriedade e consciência ministerial. A veste educa o corpo para o rito e o corpo educado forma a alma.

Mistagogia é aprendizagem progressiva: a veste como pedagogia visível

A Desiderio Desideravi fala de uma formação litúrgica permanente, não apenas conceitual. No contexto brasileiro, marcado por diversidade cultural e forte comunicação visual, a veste pode funcionar como pedagogia silenciosa; sinal acessível a todos, inclusive aos não iniciados; ajuda concreta para reconhecer os ministérios e suas funções.

Mistagogicamente, ela auxilia crianças, novos fiéis e assembleias simples a compreenderem o rito; estrutura a celebração como “linguagem” compreensível; contribui para a leitura simbólica do que está acontecendo. Isso não empobrece a liturgia, pelo contrário, a torna habitável.

Embora o documento não trate diretamente de vestes, ele afirma algo decisivo: “a liturgia não pode ser reduzida a um modelo único e rígido, desconectado da vida concreta do povo”.

Nesse horizonte, a prática brasileira não contradiz a liturgia romana. Ela, na verdade, expressa um modo legítimo de receber e encarnar o rito e reconhece que a mistagogia passa também pela cultura.

A veste do leitor, quando simples e não clericalizante, é um sinal inculturado da Palavra em meio ao povo. Ela também é uma forma de dizer visualmente que a Palavra é servida por membros da própria assembleia e é um antídoto contra a ideia de que só o clero “representa o sagrado”. Isso está profundamente alinhado com o desejo de Francisco de uma liturgia mais participada, consciente e eclesial.

Critério decisivo: ajuda ou atrapalha o encontro com o mistério?

A Desiderio Desideravi oferece um critério implícito, mas muito claro: “tudo na liturgia deve ser avaliado a partir da sua capacidade de conduzir ao mistério pascal”. Assim, a veste do leitor não é boa em si mesma, nem má em si mesma. A veste do leitor é mistagógica quando é simples; não imita paramentos clericais; não centraliza a pessoa; não se torna “fantasia litúrgica”. Ela falha quando vira marca de status; distinção hierárquica; distração estética. Mas, quando bem compreendida, ela sustenta o silêncio, organiza o rito, educa o olhar e ajuda o povo a “habitar” a liturgia.

Em síntese, à luz da Desiderio Desideravi, a veste litúrgica do leitor contribui para o itinerário mistagógico na medida em que favorece a vivência da Palavra como acontecimento celebrativo, e não como mero exercício funcional; educa o corpo e o olhar para o rito; fortalece a consciência ministerial do leitor; atua como pedagogia simbólica para a assembleia; respeita os processos de inculturação e a recepção eclesial no contexto brasileiro; e, por fim, mantém-se discreta, simples e autenticamente ritual. Nesse sentido, ela não “explica” o mistério, mas introduz nele.




DA LUZ AO SEGUIMENTO: O CAMINHO QUE A LITURGIA NOS ENSINA

Domingo, 25 de Janeiro de 2026
3º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Hoje, omite-se a Festa de Conversão de São Paulo, Apóstolo

Leituras: Is 8,23b-9,3 ou At 9,1-22 | Sl 26(27),1.4.13-14 (R. 1a.1c) | 1Cor 1,10-13.17 | Mt 4,12-23

A liturgia deste 3º Domingo do Tempo Comum nos ajuda a compreender que a fé cristã não começa por uma ideia ou por uma norma, mas por um encontro que ilumina e chama. Ao longo das últimas celebrações, desde o 2º Domingo do Tempo Comum, a Igreja vem nos conduzindo por um verdadeiro caminho pedagógico: primeiro, somos convidados a reconhecer quem é Jesus; depois, a perceber o que sua presença provoca; e, finalmente, a responder ao seu chamado.

No Evangelho de hoje, Jesus inicia sua missão pública na Galileia, região considerada periférica e marcada por contrastes. A escolha não é casual. É ali, onde a vida parece mais confusa e ferida, que a luz prometida pelos profetas começa a brilhar. A liturgia retoma as palavras de Isaías: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”. Com isso, nos ensina que Deus não espera um mundo ideal para agir; Ele entra na história concreta e a transforma a partir de dentro.

A primeira palavra de Jesus é clara: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo.” A conversão que a liturgia nos propõe não é apenas moral ou individual. Trata-se, antes de tudo, de aprender a olhar a realidade a partir do Reino. Quando o Reino se aproxima, muda-se o centro da vida, mudam-se as prioridades, mudam-se as relações.

Esse chamado à conversão já vinha sendo preparado ao longo da semana: nos Evangelhos de Marcos, vimos Jesus questionar práticas religiosas rígidas, colocar a vida acima da norma, curar no sábado e enfrentar resistências. A liturgia nos educa, assim, para compreender que seguir Jesus exige mais do que cumprir regras: exige discernimento, escuta e abertura ao novo de Deus.

Ao chamar os primeiros discípulos, Jesus não faz um longo discurso. Ele convida: “Vinde após mim.” A resposta é imediata: eles deixam as redes, o barco e o pai. Essas imagens falam diretamente à nossa vida.

As redes simbolizam aquilo que nos sustenta e nos dá segurança. O barco representa o espaço conhecido, controlável. Deixar tudo isso não significa desprezar a própria história, mas permitir que ela seja reorganizada a partir do Evangelho. A liturgia nos ensina que o seguimento cristão não é uma atividade paralela à vida, mas um novo modo de viver tudo.

A segunda leitura, da Primeira Carta aos Coríntios, reforça essa catequese. Paulo recorda que a comunidade cristã não pode se dividir em grupos ou preferências pessoais. Todos foram chamados pelo mesmo Cristo. A liturgia ajuda a compreender que a Igreja nasce do chamado e da escuta comum, não de afinidades humanas ou disputas internas.

Por isso, celebrar este domingo é também aprender a ser assembleia: pessoas diferentes, reunidas pela mesma Palavra, iluminadas pela mesma luz e enviadas para a mesma missão.

A liturgia, portanto, nos apresenta como escola de discipulado. Neste 3º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos educa passo a passo: ensina a reconhecer a luz que é Cristo; ajuda a discernir o que precisa ser convertido em nosso modo de viver a fé; e nos convida a responder com gestos concretos de seguimento.

Assim, a celebração não apenas fala de conversão e discipulado, mas os forma em nós. A cada domingo, a liturgia nos toma pela mão e nos conduz no caminho da fé, transformando a escuta em vida e a vida em missão.




ABERTURA DO CONSELHO DE INSTITUTO DAS PIAS DISCIPÚLAS

Ir. M. Louise O’Rourke, pddm

Erguer o olhar para o céu e deixar-se guiar pela promessa de Deus: é com esta atitude de fé e esperança que, no caminho inaugurado pelo X Capítulo Geral, as Pias Discípulas do Divino Mestre se preparam para viver um momento significativo para a vida da Congregação. No dia 20 de janeiro aconteceu a Celebração Eucarística de abertura deste evento que vai até o dia 10 de fevereiro de 2026, em Antipolo City, nas Filipinas. O Conselho de Instituto é um espaço privilegiado de escuta, discernimento comunitário e corresponsabilidade na missão.

Convocado pela Superiora geral, Ir. M. Bernardita Meráz Sotelo, o Conselho de Instituto configura-se como um verdadeiro tempo de graça, no qual reler o caminho percorrido e orientar, juntas, as escolhas futuras, segundo o estilo sinodal de caminhar juntas. A sua dimensão internacional e intercultural torna visível uma Congregação que vive a sinodalidade como estilo permanente, integrando vozes, culturas e experiências diversas num único horizonte carismático e missionário.

O tema do Conselho – «Olha para o céu e conta as estrelas…» (Gn 15,5). Transformar a fragilidade em um caminho gerador – convida a reconhecer a fidelidade de Deus também nas fragilidades pessoais e comunitárias. À luz das “quatro estrelas” do Capítulo Geral, as Circunscrições partilharão o próprio caminho como sinal concreto de sermos um só corpo.

Este encontro é um apelo a fortalecer o sentido de corresponsabilidade, a crescer na consciência de caminhar como um único corpo e a renovar, juntas, a missão das Pias Discípulas do Divino Mestre a serviço da Igreja e da humanidade, com confiança, criatividade e esperança.

Desejamos que este Conselho de Instituto seja um tempo fecundo de escuta, partilha e comunhão, capaz de gerar vida nova e orientações para o caminho futuro.



O SÁBADO E A VIDA: APRENDER COM JESUS

Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos 3,1-6
Naquele tempo, Jesus entrou de novo na sinagoga.
Havia ali um homem com a mão seca.
Alguns o observavam
para ver se haveria de curar em dia de sábado,
para poderem acusá-lo.
Jesus disse ao homem da mão seca:
“Levanta-te e fica aqui no meio!”
E perguntou-lhes:
“É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal?
Salvar uma vida ou deixá-la morrer?”
Mas eles nada disseram.
Jesus, então, olhou ao seu redor,
cheio de ira e tristeza,
porque eram duros de coração;
e disse ao homem:
“Estende a mão”.
Ele a estendeu e a mão ficou curada.
Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes,
imediatamente tramaram, contra Jesus,
a maneira como haveriam de matá-lo.
Palavra da Salvação.

Este episódio pertence ao conjunto de controvérsias sabáticas no início do Evangelho de Marcos (cf. Mc 2,1–3,6). Trata-se de uma perícope de conflito, em que o sábado (sinal da Aliança e da fidelidade a Deus) torna-se o espaço de revelação do verdadeiro rosto de Deus e, ao mesmo tempo, de radical oposição a Jesus. O texto culmina, significativamente, com a primeira decisão explícita de matar Jesus em Marcos (v. 6). Assim, uma cura, que é um gesto de vida, desencadeia um projeto de morte.

“Jesus entrou de novo na sinagoga” (v. 1): a sinagoga é o lugar da Palavra, da escuta da Lei, da formação da consciência religiosa de Israel. Jesus não atua à margem da tradição, mas no seu interior. O advérbio “de novo” indica continuidade e insistência: Jesus retorna ao espaço onde a Palavra é proclamada, mesmo sabendo que ali encontrará resistência. A revelação acontece dentro da instituição, não fora dela.

“Havia ali um homem com a mão seca” (v. 1): a “mão seca” não é apenas um dado clínico, mas um símbolo antropológico e teológico: a mão é o órgão da ação, do trabalho, da relação; e uma mão seca é uma existência impedida de agir, de participar plenamente da vida social e religiosa. Trata-se de alguém presente, mas marginalizado; visível, mas sem voz. O texto não lhe dá nome. Ele representa todos os corpos feridos pela rigidez de sistemas que excluem.

“Alguns o observavam…” (v. 2): o olhar dos opositores não é contemplativo, mas acusatório. Eles não observam o homem ferido, mas Jesus; não esperam salvação, mas um erro. Aqui emerge uma tensão fundamental: Jesus vê a necessidade humana; os adversários veem a possibilidade de acusação. O sábado, dom de Deus para a vida, torna-se instrumento de vigilância e controle.

“Levanta-te e fica aqui no meio!” (v. 3): este é um gesto decisivo. Jesus chama o homem a levantar-se (movimento de dignidade, quase pascal), e a colocar-se “no meio” (no centro da assembleia). Aquilo que estava à margem é trazido ao centro do espaço litúrgico. A pergunta sobre o sábado não será abstrata, mas encarnada no corpo ferido daquele homem.

A pergunta central: o sábado e a vida (v. 4): “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Jesus não contrapõe ação e repouso, mas bem e mal, vida e morte. Não agir, quando se pode salvar, torna-se cumplicidade com a morte. O silêncio dos adversários não é neutralidade, mas fechamento. É a incapacidade de reconhecer que a Lei existe para servir à vida.

“Cheio de ira e tristeza” (v. 5): este é um dos versículos mais densos de Marcos. Ira: não explosiva, mas profética, é reação diante da injustiça. Tristeza: expressão de um coração ferido pela recusa do outro. A causa não é ignorância, mas dureza de coração: incapacidade de deixar-se afetar pelo sofrimento alheio. Aqui aparece um traço decisivo da cristologia marcana: Jesus revela um Deus que se comove, sofre e reage diante da negação da vida.

“Estende a mão” (v. 5): Jesus não toca o homem, não realiza gesto mágico. A cura acontece mediante a obediência confiante à Palavra. Estender a mão é um ato de fé, um risco (expor aquilo que estava oculto), um gesto de cooperação humana com a ação salvífica de Deus. A restauração é imediata: a vida retorna onde havia paralisia.

A ironia trágica do final (v. 6): enquanto Jesus salva uma vida no sábado, seus opositores tramam a morte, também em dia de sábado. A aliança entre fariseus (rigor religioso) e herodianos (poder político) revela que a defesa da Lei pode tornar-se instrumento de violência, quando perde sua referência à misericórdia. Este versículo antecipa a paixão: a cruz nasce, paradoxalmente, de um gesto de cura.

Fazer o bem no sábado: a vida no centro

O Evangelho de Marcos nos apresenta Jesus entrando novamente na sinagoga, lugar onde o povo se reunia para escutar a Palavra de Deus. Ali, Ele encontra um homem com a mão seca, alguém marcado por uma limitação que o impedia de agir plenamente e de participar com liberdade da vida da comunidade. Desde o início, o texto nos convida a olhar para essa pessoa e para sua necessidade concreta.

Ao mesmo tempo, alguns observam Jesus com intenção de acusá-lo. Eles querem saber se Ele vai curar em dia de sábado. O sábado era um dia sagrado, reservado ao repouso e à memória da Aliança com Deus. No entanto, a pergunta que o Evangelho nos coloca é simples e profunda: para que Deus nos deu o sábado?

Jesus chama o homem para o centro e o faz ficar de pé diante de todos. Com isso, ensina que a pessoa humana deve estar sempre no centro da vida religiosa. A Lei não existe para excluir ou paralisar, mas para ajudar a viver melhor. Por isso, Jesus pergunta: “É permitido, no sábado, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?”

O silêncio daqueles que o observavam revela um coração fechado. Quando a religião se torna apenas regra, sem compaixão, ela perde seu verdadeiro sentido. Jesus se entristece com essa dureza, porque Deus não se alegra com uma fé que ignora o sofrimento do outro.

Ao homem, Jesus pede apenas um gesto: “Estende a mão”. Ao obedecer, o homem confia na Palavra de Jesus e permite que Deus aja em sua vida. A mão é curada, e com ela é restaurada a dignidade daquela pessoa. Assim, aprendemos que Deus quer sempre curar, libertar e devolver vida plena.

No final do Evangelho, vemos uma atitude contrária ao gesto de Jesus: enquanto Ele salva uma vida, alguns começam a planejar a sua morte. Isso nos mostra que escolher o bem e a vida nem sempre é fácil, mas é o caminho que Jesus nos ensina.

Este Evangelho nos ajuda a compreender que seguir Jesus é aprender a colocar o amor acima de qualquer regra. A verdadeira fé se manifesta quando cuidamos das pessoas, especialmente das que mais sofrem. Celebrar, rezar e escutar a Palavra só fazem sentido quando nos levam a fazer o bem e a promover a vida, todos os dias.