DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E COMPROMISSO COM A IGUALDADE

O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, é mais do que uma data no calendário: é um marco de memória, reconhecimento e responsabilidade social. Criado para valorizar a história, a cultura e a contribuição da população negra para o Brasil, o dia também nos convida a olhar de frente para as desigualdades raciais que ainda persistem. Sua escolha está ligada à morte de Zumbi dos Palmares, símbolo maior da resistência contra a escravidão, e ao trabalho contínuo do Movimento Negro brasileiro, que transformou memória em consciência política.

A origem da data: da história à ação política

O 20 de novembro marca o assassinato de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, morto em 1695 após longa perseguição dos colonizadores. Palmares foi o maior e mais duradouro território de resistência negra no período colonial. A morte de Zumbi, cujo corpo foi exposto em praça pública para “dar exemplo”, gerou justamente o contrário: consolidou-o como um símbolo de luta por liberdade, autonomia e dignidade.

A data, no entanto, é uma construção contemporânea. Em 1971, ativistas negros do Rio Grande do Sul propuseram pela primeira vez o 20 de novembro como dia de reflexão racial. Em 1978, o Movimento Negro Unificado (MNU) adotou oficialmente o 20 de novembro como data nacional, em contraposição ao 13 de maio, visto como uma celebração da abolição sem reconhecimento das lutas dos próprios negros. O objetivo disto era claro: deslocar o protagonismo da narrativa da abolição, tradicionalmente centrada na ação da Princesa Isabel, para a população negra e sua resistência ativa.

O fortalecimento da data veio gradualmente por meio de leis. A Lei 10.639/2003 incluiu o 20 de novembro no calendário escolar e tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira. A Lei 12.519/2011: oficializou o Dia Nacional da Consciência Negra. Em diversos estados e municípios o reconhecem como feriado, a exemplo de SP, RJ, AL, MT, entre outros.

Assim, o Dia da Consciência Negra nasce da junção entre memória histórica, movimento social e reconhecimento institucional.

Por que o 20 de novembro?

A escolha da data reflete um posicionamento ético e político. O movimento negro argumenta que o 13 de maio, embora marque a abolição, reforça uma narrativa que apresenta a liberdade como concessão, apagando os séculos de resistência negra.

Já o 20 de novembro celebra a luta, a autonomia, a organização comunitária e a capacidade de resistência da população negra frente a um sistema de violência e dominação.

O Dia da Consciência Negra celebra, portanto, não apenas um personagem histórico, mas um legado coletivo.

Desafios contemporâneos: enfrentando narrativas de deslegitimação

Nos últimos anos, tornou-se comum ver circular discursos que tentam diminuir o valor da data atacando a figura de Zumbi dos Palmares. Frases como “Zumbi não era flor que se cheire” ou “matava seus próprios pares” surgem especialmente em contextos em que se tenta relativizar ou deslegitimar a luta antirracista.

É importante esclarecer alguns pontos. As fontes históricas sobre Palmares são escassas e, em grande parte, produzidas por colonizadores interessados em justificar ataques e enfraquecer a resistência. Portanto, narrativas negativas sobre líderes quilombolas muitas vezes serviam como instrumento político da época e continuam sendo utilizadas hoje com funções semelhantes.

Discutir a complexidade de figuras históricas é legítimo. O problema é usar interpretações duvidosas ou anacrônicas para desvalorizar o significado da data.

Outro desafio a ser considerado é que os Movimentos sociais não dependem de “heróis perfeitos”. Nenhum processo social ou histórico foi construído por figuras imaculadas. Martin Luther King, Gandhi, Tiradentes e tantos outros também têm aspectos controversos em suas trajetórias. Isso não anula o valor das causas que defenderam.

Da mesma forma, o Dia da Consciência Negra não existe para canonizar Zumbi. Ele existe para reconhecer a existência de quilombos como espaços de liberdade; a resistência da população negra à escravidão; e a continuidade da luta por justiça racial. Símbolos históricos representam valores coletivos, não biografias perfeitas.

A quem interessa esse discurso?

É importante perguntar: por que essas críticas ressurgem sempre no 20 de novembro? Muitas vezes, elas funcionam como estratégia para desviar o foco do racismo estrutural; também como uma forma de desqualificar a pauta da igualdade racial e um contra-ataque retórico que evita enfrentar desigualdades atuais.

Enquanto se tenta provar se Zumbi era “bom ou mau”, deixa-se de discutir:

  • violência policial;
  • desigualdade no mercado de trabalho;
  • exclusão escolar;
  • racismo religioso;
  • falta de representatividade;
  • desigualdade de renda e acesso a direitos.

Por isso, ao dialogar com essas críticas, é essencial recentrar a conversa: o 20 de novembro não celebra a perfeição de um indivíduo, mas a luta pela liberdade e pela igualdade.

O que significa celebrar a Consciência Negra hoje

Celebrar o Dia da Consciência Negra é reconhecer que a população negra construiu este país em suas dimensões culturais, linguísticas, religiosas, políticas e afetivas. É reconhecer que o racismo ainda é uma realidade estruturante e exige enfrentamento cotidiano. E que a educação, a memória e o diálogo são caminhos fundamentais para transformar a sociedade. É também reafirmar que a luta por igualdade racial é tarefa de todas e todos, não apenas da população negra.

Dia da Consciência Negra: memória que inspira compromisso

O Dia da Consciência Negra é, acima de tudo, um convite à responsabilidade coletiva. Ele nos lembra que a liberdade não foi presente: foi conquista. E continua sendo.

Ao reconhecer a importância histórica de Zumbi e dos quilombos, homenageamos a resistência que moldou o Brasil. Ao enfrentar narrativas que tentam deslegitimar essa memória, fortalecemos o compromisso com a verdade histórica e com a justiça social. Ao celebrar a Consciência Negra, reafirmamos um projeto de futuro: um país onde a dignidade não seja privilégio, mas direito.

Que este 20 de novembro inspire escuta, aprendizado, ações concretas e coragem para que a memória da resistência negra siga iluminando caminhos de inclusão, respeito e igualdade.

Ir. Julia de Almeida, pddm

LITURGIA DO DIA: RECONHECER O TEMPO DA VISITA DE DEUS

Reflexão para quinta-feira, 20 de novembro de 2025

33ª Semana do Tempo Comum – Ano Ímpar
Leituras:

1Mc 2,15-29
Sl 49(50),1-2.5-6.14-15 (R. 23b)
Lc 19,41-44

O Evangelho de hoje nos apresenta uma das cenas mais comoventes da vida de Jesus: ao aproximar-se de Jerusalém, Ele contempla a cidade e chora. Não se trata de um simples lamento humano, mas de um choro profundamente teológico, que revela a dolorosa distância entre o coração de Deus e a resposta do seu povo.

Jesus chora porque Jerusalém “não reconheceu o tempo em que foi visitada”. O verbo “visitar”, na tradição bíblica, é carregado de significado: indica a intervenção de Deus na história, seja para salvar, seja para julgar. Em Cristo, a visita de Deus alcança seu ápice: o próprio Filho entra na cidade santa como o rosto visível da misericórdia divina. Entretanto, a recusa de Jerusalém fecha o coração da cidade ao dom da paz. Por isso, o pranto de Jesus é, ao mesmo tempo, expressão de amor e anúncio profético das consequências da rejeição.

A cena nos revela algo essencial sobre Deus: Ele não é indiferente à nossa resistência; sofre com o nosso fechamento. O julgamento anunciado por Jesus — “virão dias em que teus inimigos te cercarão…” — não é uma vingança divina, mas a consequência inevitável da escolha humana de afastar-se da fonte da vida. O amor de Deus respeita nossa liberdade, até quando ela se torna autodestrutiva.

A primeira leitura (1Mc 2,15-29) apresenta um cenário semelhante: a tentativa de impor uma religião estranha à fé de Israel provoca a resistência de Matatias e de seus filhos. Aqui também se constata o drama da liberdade humana. Há quem prefere a fidelidade a Deus, mesmo sob ameaça, e há quem se entrega à sedução de caminhos aparentemente mais fáceis. O confronto entre fidelidade e infidelidade percorre toda a história da salvação — e se manifesta de modo supremo no pranto de Cristo sobre Jerusalém.

O Salmo reforça essa perspectiva ao recordar que o verdadeiro culto não está nas aparências, mas na retidão interior: “Oferece a Deus um sacrifício de louvor… invoca-me no dia da angústia e eu te livrarei”. Deus deseja corações abertos, não ritos vazios; relações vivas, não formalidades.

Talvez o grande apelo seja: reconhecer o tempo da visita de Deus. Ele nos visita constantemente — pela Palavra, pelos sacramentos, pelos acontecimentos, pelas pessoas. Mas podemos correr o risco de viver distraídos, ocupados demais, endurecidos demais, e deixar passar a graça.

A paz que Jesus oferece não é mera ausência de conflitos, mas a reconciliação profunda com Deus, consigo mesmo e com os outros. Quando rejeitamos essa paz — pela indiferença, pelo pecado, pela autossuficiência — construímos nossos próprios muros, e eles acabam por nos sufocar.

Hoje, diante do Cristo que chora, somos convidados a perguntar: Tenho reconhecido os momentos em que Deus passa pela minha vida? Ou permaneço fechado, à espera de sinais que já me foram dados?

Como a humanidade pode reconher o tempo da visita de Deus hoje?

Hoje, como ontem, Deus continua visitando a humanidade, mas essa visita exige sensibilidade espiritual, abertura interior e discernimento. Eis alguns caminhos concretos pelos quais a humanidade pode reconhecer essa visita:

1. Pela escuta atenta da Palavra: a Palavra de Deus continua sendo o principal “lugar” de visita.
Não se trata apenas de ler a Bíblia, mas de permitir que ela ilumine escolhas, cure feridas, converta atitudes e inspire novas práticas. Onde a Palavra é acolhida com sinceridade, Deus visita.

2. Pela realidade dos pobres e sofredores: os pobres são, desde os profetas até Jesus, o lugar privilegiado da visita divina. Cristo continua dizendo: “Tudo o que fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes.” A humanidade reconhece a visita de Deus quando percebe que Ele se aproxima no rosto ferido, na dor dos marginalizados, nas vítimas de violência, fome, guerra e abandono.

3. Pelos sinais do Espírito na história: a visita de Deus não acontece apenas no interior da Igreja, mas também nos processos que promovem dignidade humana: gestos de reconciliação, movimentos de justiça, iniciativas de paz, ações ecológicas responsáveis, trabalhos em favor da vida. Onde há sementes do Reino, ali o Espírito está agindo.

4. Pela inquietação interior: Deus visita através de perguntas profundas: “É isso mesmo que estou fazendo da minha vida?” “Por que esta saudade de algo maior?” O coração inquieto muitas vezes é o primeiro sinal de que Deus se aproxima para “desinstalar” e orientar. A humanidade reconhece Deus quando leva a sério essa sede de sentido que Ele próprio acende.

5. Pela vida comunitária e sacramental: a presença de Deus é especial na celebração da fé. A Eucaristia, a reconciliação, a vida fraterna, tudo isso é visita de Deus. Onde há perdão, partilha, cuidado e fidelidade à fé, Deus passa.

6. Pela criação: a beleza, a harmonia e a vulnerabilidade da natureza são também sinais de Deus. A humanidade reconhece a visita divina quando percebe na criação não apenas um recurso, mas um dom. A crise ecológica atual pode ser vista como um apelo de Deus para despertar nossa responsabilidade.

7. Pelo clamor da consciência: a consciência não é apenas uma voz interior, mas um espaço onde Deus fala. Quando a humanidade se sensibiliza diante da injustiça, quando se indigna com a violência, quando busca a verdade, ali há visita divina provocando despertar moral.

8. Pelos acontecimentos que quebram expectativas: muitas vezes Deus visita através de rupturas: mudanças inesperadas, crises, perdas, surpresas que desestabilizam. A visita não vem sempre revestida de suavidade; às vezes vem como um convite à conversão profunda. É preciso ler os acontecimentos com olhar espiritual.

9. Pela capacidade de amar: onde há amor verdadeiro, gratuito, sacrificado, perseverante, ali Deus passou. A humanidade reconhece a visita divina quando se deixa transformar pelo amor: no lar, no trabalho, nas relações, na caridade concreta.

Reconhecer a visita de Deus hoje é viver desperto, de olhos e coração abertos. Jerusalém não reconheceu a visita porque estava distraída, endurecida, ocupada consigo mesma. O perigo é o mesmo para nós. A humanidade reconhecerá o tempo da visita de Deus quando escutar antes de reagir, discernir antes de julgar, acolher antes de rejeitar, servir antes de exigir, amar antes de acusar.

Que o Senhor nos conceda um coração sensível, capaz de perceber sua presença e acolher sua paz. E que o seu pranto sobre Jerusalém se transforme, em nós, em lágrimas de conversão e de esperança.



LITURGIA DO DIA: A CORAGEM DE SERVIR COM FIDELIDADE

Liturgia do Dia – 19 de Novembro de 2025

Memória de Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castillo, presbíteros e mártires
33ª Semana do Tempo Comum

No Evangelho de hoje (Lc 19,11-28), Jesus conta a parábola dos servos que recebem moedas para administrar enquanto o senhor parte em viagem. A narrativa revela o desejo profundo de Deus: que cada pessoa faça frutificar os dons recebidos, colocando-os a serviço do Reino. O senhor da parábola não exige dos servos aquilo que não lhes foi dado, mas espera fidelidade, coragem e disposição em assumir responsabilidades, mesmo diante de riscos e incertezas.

O contraste entre os servos que trabalham e aquele que esconde a moeda expressa duas posturas espirituais. A primeira é a da confiança: reconhecer que tudo vem de Deus e pode ser devolvido multiplicado em forma de amor, justiça, serviço e compromisso. A segunda é a do medo: paralisia, fechamento em si mesmo e incapacidade de permitir que o dom se torne vida para outros. A censura dirigida ao servo que nada fez lembra-nos que a omissão também tem peso no caminho de fé; não basta “não fazer o mal”, é preciso fazer o bem possível.

O Evangelho de Lc 19,11-28 termina de forma bastante forte. Depois de elogiar os servos que fizeram render as moedas e de repreender o que a escondeu, Jesus conclui a parábola dizendo: “Quanto aos meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente.” (Lc 19,27)

Esse desfecho duro cumpre duas funções fundamentais na mensagem de Jesus: a primeira, revela a seriedade da escolha pelo Reino. Esse final deixa claro que rejeitar o Reino de Deus não é algo neutro.
A parábola não fala apenas da omissão do servo medroso, mas também da resistência ativa daqueles que “não querem que Ele reine”. A cena simboliza o juízo final: Deus respeita a liberdade humana, mas essa liberdade tem consequências. A recusa do reinado de Deus é, ao mesmo tempo, recusa da vida.

Ele adverte sobre a responsabilidade de quem recebe dons. O servo que não faz render a moeda é contrastado não só com os servos fiéis, mas também com os inimigos do rei. Isso funciona como um alerta: não basta não fazer o mal; é preciso fazer o bem possível, utilizando os dons recebidos para a construção do Reino. A parábola liga omissão e rejeição: quem se fecha sobre si mesmo, mesmo sem atacar, acaba colaborando com a lógica do “não-reinado” de Deus.

Este desfecho também prepara a entrada de Jesus em Jerusalém. Ou seja, este bramo antecede diretamente a entrada triunfal de Jesus na cidade (Lc 19,28ss). Assim, Jesus se apresenta como o Rei que vem, mas não um rei dominador, e sim o Rei que oferece salvação. No entanto, sua realeza exige decisão: acolher ou rejeitar.

E por fim, este desfecho reforça o chamado à fé corajosa. A dureza do final não pretende inspirar medo, mas responsabilidade e seriedade espiritual. A parábola inteira gira em torno da confiança: quem confia, arrisca; quem teme, paralisa-se; quem rejeita, fecha-se à vida. O final sublinha que o tempo de Jesus é momento de decisão: a fé verdadeira transforma a vida e a vida transformada testemunha o Reino.

A leitura deste Evangelho na 33ª Semana do Tempo Comum, imediatamente antes do Advento, tem um valor espiritual muito profundo. A Igreja, nesses últimos dias do ano litúrgico, orienta nossa atenção para o sentido último da vida, para o juízo, para a vinda do Senhor e para a responsabilidade cristã. A parábola das moedas, com sua forte conclusão, encaixa-se perfeitamente nesse contexto.

Ele nos prepara o coração para a vinda do Senhor. O Advento é tempo de esperança e vigilância, e a liturgia das últimas semanas do Tempo Comum nos ajuda a ajustar essa vigilância. A parábola dos servos que devem administrar o que receberam até o retorno do Senhor é um convite direto a despertar do comodismo, revisar o próprio caminho, reavivar o desejo pela vinda de Cristo. A Igreja quer que entremos no Advento não adormecidos, mas alertas e desejosos de Deus.

Ele também recorda que somos administradores, não donos. A proximidade do novo ano litúrgico é um chamado a avaliar como usamos o tempo, os dons, a fé e as oportunidades que Deus nos deu ao longo do ano que termina. A parábola mostra que não se trata de “guardar” a fé, mas de fazê-la frutificar. Assim, antes do Advento, ela nos ajuda a perguntar:

  • Como vivi a fé este ano?
  • O que Deus me confiou e como respondi?
  • Em que preciso crescer antes de começar um novo tempo de graça?

Também nos ajuda a reacender a responsabilidade: vigiar é agir. O servo que esconde a moeda representa quem vive a fé de forma estática, paralisada. Às portas do Advento, esse Evangelho ensina que esperar o Senhor não é cruzar os braços, mas servir, amar, construir, multiplicar. O Advento é expectativa, mas uma expectativa ativa, missionária.

Portanto, nos convida à conversão, antes que comece o novo ciclo. O final da parábola, com o juízo sobre os servos e os inimigos do rei, lembra a dimensão escatológica da fé: Cristo virá. Essa memória conduz à conversão imediata, preparando interiormente o fiel para viver o Advento como tempo de purificação, de esperança, de reencontro com Deus, de reorientação da vida. É como fazer uma limpeza espiritual antes da chegada do hóspede esperado.

Nos últimos domingos do ano litúrgico celebramos Cristo Rei. Este Evangelho apresenta Jesus justamente como esse Rei que entrega dons, se ausenta por um tempo, volta para pedir contas. À luz disso, o Advento não é apenas preparação para o Natal, mas para a segunda vinda de Cristo, quando Ele reinará plenamente.

A leitura deste Evangelho na semana que antecede o Advento:

  • nos desperta,
  • nos responsabiliza,
  • nos convida a rever nossa vida,
  • nos prepara para acolher Cristo com o coração ativo e fecundo.

A primeira leitura (2Mc 7,1.20-31) apresenta o testemunho heroico da mãe e de seus filhos, que permanecem fiéis à Lei de Deus diante da perseguição. A coragem deles ecoa o chamado do Evangelho: viver a fé de modo coerente, mesmo quando somos pressionados a escondê-la ou silenciá-la. Assim como os mártires de hoje — Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castillo — testemunharam Cristo com a própria vida, também nós somos convidados a fazer render a graça que recebemos, oferecendo-nos diariamente no serviço e na verdade.

O salmo responsorial proclama: “Eu, por minha justiça, contemplarei a vossa face; ao despertar me saciará a vossa presença” (Sl 16). Essa promessa ilumina todo o sentido de nossa entrega: no fim, não buscamos recompensas, mas a alegria plena de viver diante de Deus e com Ele.

Que a liturgia de hoje nos inspire a assumir com coragem as moedas, isto é, os dons que nos foram confiados: nossas capacidades, nossa fé, nossas oportunidades, e a fazê-los frutificar em favor dos irmãos. E que, sustentados pelo exemplo dos mártires, possamos viver uma vida transparente, generosa e fiel ao Evangelho.



ACENDER A COROA DO ADVENTO

O tempo do Advento é marcado pela atitude de espera vigilante a fim de captar todos os sinais que Deus vai nos revelando.

Desde o primeiro domingo, somos interpelados (as) como  Isaías, João Batista e Maria, a fortalecer a esperança, assumir a história de uma maneira diferente, lutar para pôr fim a uma cultura de morte e proclamar com atos e palavras que a vida é mais forte. De domingo a domingo vai crescendo em nós, na comunidade, no universo inteiro, a certeza de que a luz brilha nas trevas e que Deus nos ama a tal ponto que se faz gente como nós. E assim, o dom vai crescendo em nós e nos tornando capazes de ir ao encontro das outras pessoas, de esparramar no mundo a solidariedade, a esperança, a justiça, a paz…

Com certeza, utilizando a coroa do advento nas comunidades, com toda a dimensão simbólica que ela contém, será um sinal que nos ajudará a “enxergar” e a experienciar mais profundamente todo o sentido da espera do Salvador.

O acendimento da Coroa do Advento

A Coroa do Advento é um dos símbolos do ciclo do Natal. Ela contém a linguagem do silêncio. Fala através do círculo, da luz, das cores, dos gestos correspondentes… É feita de folhas verdes e nela se colocam quatro velas e quatro fitas.

É preciso preparar antecipadamente a coroa do advento no local da celebração. Eis algumas orientações:

  • Priorize o uso de materiais naturais no arranjo da coroa.
  • Deixe que a verdade dos sinais brilhe.
  • Mantenha a decoração da Coroa do Advento com sobriedade, evitando o excesso de brilho.
  • Procedendo desta forma, você celebra a feliz espera e a manifestação do Senhor, que se realiza plenamente nas festas do Natal, experimentando o valor e a beleza do tempo do Advento.
  • Coloque a coroa do Advento em um local de destaque, mas diferente do altar, respeitando-o como símbolo de Cristo.

Fonte: A coroa do Advento, Gregório Lutz, Revista de Liturgia 156: nov/dez 1999.

Sugestão de melodia para acender a Coroa do Advento




Coroa do Advento Mini em Cerâmica

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Coroa do Advento pequena em Cerâmica

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Coroa do Advento Grande em Cerâmica

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MEMÓRIA DA DEDICAÇÃO DAS BASÍLICAS DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO, APÓSTOLOS

18 de novembro de 2025

Hoje a Igreja celebra a Memória da Dedicação das Basílicas de São Pedro e São Paulo, erigidas em Roma sobre os túmulos dos dois grandes Apóstolos que sustentam, com sua fé e seu martírio, os alicerces da vida cristã.

Desde o século XII, a Igreja de Roma fazia memória anual da dedicação das duas basílicas: a de São Pedro, no Vaticano, e a de São Paulo, na Via Ostiense. As primeiras dedicatórias remontam ao século IV, realizadas pelos papas Silvestre (São Pedro) e Siriaco (São Paulo). Com o passar dos séculos, essa celebração ultrapassou os limites das basílicas romanas e passou a ser observada em todas as igrejas do Rito Romano, como sinal de comunhão com o centro da cristandade e com a fé apostólica que sustenta toda a Igreja.

Assim como, em 5 de agosto, o aniversário da Basílica de Santa Maria Maior celebra a Maternidade divina da Virgem Maria, também hoje a liturgia nos convida a venerar os Dois Príncipes dos Apóstolos. Em São Pedro, reconhecemos a rocha sobre a qual Cristo edificou sua Igreja; em São Paulo, contemplamos o ardor missionário que levou o Evangelho para além das fronteiras do povo de Israel.

Celebrar esta memória é voltar às fontes: recordar os fundamentos apostólicos, renovar a comunhão com a Igreja universal e reafirmar que nossa fé está edificada sobre testemunhas que deram a vida por Cristo. As basílicas dedicadas a Pedro e Paulo permanecem como sinais visíveis da continuidade da tradição cristã, lugares onde a memória se torna presença e onde a Igreja, ainda hoje, se reconhece unida na mesma fé.

Que esta celebração fortaleça em nós a fidelidade ao Evangelho e o desejo de testemunhá-lo com a mesma generosidade dos santos Apóstolos.

Conheça mais sobre a Basílica de São Pedro: https://www.basilicasanpietro.va/en

Conheça mais sobre a Basília de São Paulo fora dos Muros: https://www.iubilaeum2025.va/pt/pellegrinaggio/cammini-giubilari-dentro-roma/il-pellegrinaggio-delle-sette-chiese/basilica-di-san-paolo-fuori-le-mura.html


Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 82, in natali apostolorum Petri et Pauli 1,6-7: PL 54,426-428). (Séc. V)

É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus santos (Sl 115,15), e nenhuma crueldade pode destruir a religião fundada no mistério da cruz de Cristo. A Igreja não diminui pelas perseguições; pelo contrário, cresce. O campo do Senhor se reveste de messes sempre mais ricas, porque os grãos, que caem um a um, nascem multiplicados.

Em quantos rebentos estes dois excelentes germes da divina semente brotaram são testemunhas os milhares de santos mártires que, rivais das vitórias apostólicas, envolveram com uma multidão coberta de púrpura nossa Urbe e a coroaram com um diadema de glória, cravejado de muitas pedras preciosas.

Temos de alegrar-nos sumamente, caríssimos, com a comemoração de todos os santos por esta proteção, preparada por Deus, para exemplo e confirmação da fé. Mas, em vista da excelência destes patronos, é justo que os glorifiquemos com ainda maior exultação, porque a graça de Deus, dentre todos os membros da Igreja, os elevou ao cume. Por isso, no corpo, cuja cabeça é Cristo, constituem como que os dois olhos.

Não devemos pensar que os seus méritos e virtudes acima de toda a expressão sejam diferentes de algum modo ou tenham algo de peculiar, pois a eleição divina os tornou pares, o trabalho assemelhou-os e o fim da vida os igualou.

Por experiência pessoal e pela afirmação de nossos antepassados, cremos e confiamos que, nas lutas da vida, temos sempre a intercessão destes especiais padroeiros para obter a misericórdia de Deus; e por mais abatidos que estejamos pelos próprios pecados, somos reerguidos pelos méritos apostólicos.

Oração
Ó Deus, guarda sob a proteção dos apóstolos Pedro e Paulo a vossa Igreja, que deles recebeu a primeira semente do Evangelho, e concede que por eles receba até o fim dos tempos a graça que a faz crescer. Por nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho, na unidade do Espírito Santo.

3ª MARATONA SACROSANCTUM CONCILIUM

Tesouro de Inestimável Valor: A Sacrosanctum Concilium e a música litúrgica

No dia 4 de dezembro, celebramos os 62 anos da promulgação da Sacrosanctum Concilium – a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II. Para marcar esta data tão significativa para a vida da Igreja, será realizada a III Maratona Sacrosanctum Concilium, uma jornada online de formação e partilha.

Das 08h às 20h, especialistas em liturgia e música litúrgica conduzirão reflexões, diálogos e apresentações que aprofundam o tema “Tesouro de inestimável valor: A Sacrosanctum Concilium e a música litúrgica”.

O encontro será totalmente gratuito, sem necessidade de inscrição, e transmitido ao vivo pelos seguintes canais do YouTube:

A maratona é um convite à formação, à espiritualidade e ao aprofundamento da compreensão da música na liturgia, reconhecida pelo Concílio como tesouro precioso que eleva o coração dos fiéis e manifesta a beleza da fé.

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Sacrosanctum Concilium e a música litúrgica

A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, dedica um conjunto de artigos à música litúrgica (§112–§120), reconhecendo sua importância singular na vida de oração da Igreja. Para o Concílio, a tradição musical eclesial é um “tesouro de inestimável valor”, não pela sofisticação estética, mas porque o canto sagrado, unido ao texto litúrgico, faz parte integrante da própria ação ritual. A música, por isso, não é acessória: ela participa da comunicação simbólica da liturgia e contribui para a elevação espiritual dos fiéis.

O documento afirma que a música sacra tem um duplo propósito: a glória de Deus e a santificação dos fiéis. Por essa razão, o culto adquire maior nobreza quando celebrado com canto, envolvendo ministros, coro e assembleia. Essa dimensão comunitária do canto está diretamente ligada ao princípio da participação ativa, tão central à reforma litúrgica.

A Sacrosanctum Concilium também pede que a Igreja preserve e promova seu patrimônio musical. Isso inclui o incentivo à formação de coros, especialmente nas catedrais, e o compromisso de bispos e pastores em assegurar uma prática musical que realmente permita a participação do povo. A formação musical é destacada como fundamental: seminários, casas de formação e institutos especializados devem oferecer sólida preparação aos que atuam na liturgia.

Entre as expressões musicais, o Concílio reconhece a primazia do canto gregoriano, próprio da liturgia romana, recomendando que ele tenha lugar preferencial nas celebrações. Ao mesmo tempo, abre espaço para outras formas de música sacra, como a polifonia, desde que estejam em consonância com o espírito da liturgia e favoreçam a oração e a comunhão da assembleia. Também atribui importância ao órgão de tubos, tradicional na Igreja latina, por sua capacidade de elevar o espírito a Deus, sem excluir outros instrumentos adequados ao culto.

Por fim, o Concílio orienta que os textos destinados ao canto sejam doutrinariamente sólidos e inspirados na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas, garantindo assim que o canto seja, ao mesmo tempo, beleza estética e expressão de fé.

Assim, a Sacrosanctum Concilium oferece uma visão equilibrada e profundamente teológica da música litúrgica: tradição e participação, beleza e função ritual, formação e vida espiritual caminham juntas. A música, iluminada pelo espírito do Concílio, torna-se caminho de encontro com Deus e de comunhão entre os fiéis.

Leia na íntegra o documento da SC:

LITURGIA DO DIA: QUANDO TUDO PARECE DESABAR… RESPIRA, PERMANECE, CONFIA!

33º Domingo do Tempo Comum – Ano C
Leituras: Ml 3,19-20a | Sl 97(98),5-6.7-8.9a.9bc (R. cf. 9) | 2Ts 3,7-12 | Lc 21,5-19

Às vezes, parece que Jesus gosta de nos pegar desprevenidos. Enquanto alguns discípulos admiravam o Templo de Jerusalém, Jesus solta, com toda serenidade: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra.” Imagina a cena. É mais ou menos como você comentar: “Nossa, que prédio bonito!”, e alguém responder: “Pois é, vai cair tudinho.” Não exatamente o tipo de conversa que anima um domingo de manhã.

Mas é justamente desse espanto inicial que nasce a reflexão deste domingo. Jesus não está fazendo terrorismo espiritual. Ele está ensinando seus discípulos — e nós — a não colocar o coração nas estruturas que passam, por mais impressionantes que sejam. É como se dissesse: “Gente, foquem no essencial.” O Evangelho começa com pedras e termina com promessa. Entre uma coisa e outra, existe um caminho feito de perseverança, coragem e olhos atentos.

1. Quando as estruturas tremem

Os discípulos, evidentemente alarmados, perguntam: “Mestre, quando será isso?” A pergunta que a gente adoraria fazer também. Jesus, porém, não dá datas, cronogramas ou tabelas de eventos proféticos. Ele prefere falar do coração humano, das ilusões, dos medos e da tentação de ser enganado. “Cuidado para não serdes enganados.” Quando o cenário confunde, quando o mundo parece um grande reality show apocalíptico, a primeira coisa que Jesus pede é: discernimento.

E aqui entra o toque humorístico da vida real: quantas vezes, quando algo dá errado, a nossa mente já começa a criar um filme inteiro de catástrofes? “Meu Deus, o carro fez um barulho estranho… será que é o motor? Será que vai explodir? Será que devo vender tudo e virar eremita?” O imaginário humano é fértil, às vezes até demais.

Jesus, porém, nos convida a olhar para a realidade sem pânico e com fé. Não se trata de negar os desafios do mundo (guerras, violências, tensões sociais, injustiças), mas de não deixar que eles nos roubem a paz. Ele nos ensina a viver com os pés no chão e o coração no alto.

2. Entre perseguições e testemunhos

Depois, Jesus aprofunda o discurso: “Antes disso, sereis presos e perseguidos… isso será uma oportunidade para testemunhardes.” Aqui está um dos maiores paradoxos do Evangelho: momentos difíceis não são sinais de abandono, mas oportunidades de fidelidade.

Parece até contraditório; nós preferiríamos que “oportunidades de testemunho” viessem na forma de aplausos, holofotes e cafés bem passados, e não de dificuldades. Mas Jesus insiste: as provações podem se tornar palco para o amor e para a resistência da fé.

A primeira leitura, de Malaquias, ilumina essa parte. O profeta fala do “dia do Senhor”, visto por alguns como ameaça, mas, para aqueles que permanecem fiéis, esse dia é “sol de justiça” que traz cura. Em outras palavras: para quem confia no Senhor, os dias difíceis não são o fim, mas começo de algo novo.

3. “É ficando firmes que ireis ganhar a vida”

O versículo final do Evangelho é uma verdadeira bússola espiritual: “É pela vossa perseverança que ireis ganhar a vida.” Não é pela força, não é pela esperteza, não é pela estratégia humana: é pela perseverança, essa palavra tão pequena e tão exigente.

Perseverar significa continuar mesmo quando o entusiasmo diminui. É correr a maratona da fé sabendo que não é sprint. É ser fiel no ordinário, no discreto, no repetitivo. Parece pouco, mas é ali que se constrói a santidade.

E é aqui que Paulo, na segunda leitura (2Ts 3,7-12), entra com uma conversa que parece saída diretamente de uma reunião comunitária: “Trabalhem. Não fiquem à toa. Não vivam às custas dos outros.” A comunidade cristã não é refúgio para preguiçosos espirituais ou sociais. Perseverar também significa contribuir, estar presente, colocar a mão na massa, com alegria, responsabilidade e humildade.

4. O horizonte da liturgia deste domingo

Quando reunimos as leituras, temos um mosaico espiritual:

  • Malaquias fala do dia do Senhor como purificação e cura;
  • O Salmo 97 canta que Deus vem para governar com justiça;
  • Paulo lembra a importância do testemunho concreto;
  • Jesus nos convida à perseverança diante de tempos turbulentos.

Tudo converge para uma mensagem central: a vida cristã não é fuga do mundo, mas fidelidade dentro dele. Mesmo quando os “templos” da vida (aquilo que construímos, admiramos ou seguramos com tanta força) parecem desabar, Deus permanece. E é nessa permanência divina que a nossa própria fidelidade se apoia.

5. Quando o Evangelho encontra a vida real

O Evangelho de hoje também tem um lado profundamente humano. Todos nós temos nossos “templos”: projetos, seguranças, rotinas, planos infalíveis (ou não tão infalíveis assim). E todos nós já sentimos o chão tremer quando algo inesperado acontece.

O que Jesus nos diz é: não coloquem o coração no que passa. Não absolutizem o que é relativo. Não façam eternos os cenários provisórios. E, sobretudo, não busquem atalhos espirituais, nem gurus da moda, nem profetas do pânico, nem receitas mágicas de fé.

A fé verdadeira não precisa de pirotecnia. Ela precisa de constância. De passos pequenos e firmes. De escuta. De discernimento. De coragem.

E, sim, às vezes precisa também de humor. Aquele humor que nasce da humildade, de reconhecer que não controlamos tudo, e que Deus continua sendo Deus mesmo quando nossos planos não são aprovados.

O penúltimo domingo do Tempo Comum nos prepara para o Advento. Fala de fins, mas aponta para começos. Porque o Evangelho não termina com destruição, mas com promessa: “Eu vos darei sabedoria.” “Nenhum fio de cabelo se perderá.” “Pela perseverança ganhareis a vida.”

Quando sentimos que tudo está incerto, Jesus nos entrega três convites simples e profundos:

  1. Não tenham medo.
  2. Não se deixem enganar.
  3. Permaneçam.

E talvez seja isso que precisamos ouvir mais do que nunca: mesmo quando tudo parece desabar, respira, permanece, confia. Porque Deus não abandona o seu povo: Ele o sustenta. Ele o atravessa. Ele o conduz. E, no fim, como diz Malaquias, o Sol da Justiça voltará a brilhar. Com cura. Com esperança. Com vida plena.

SOBRE A NOTA DOUTRINAL SOBRE OS TÍTULOS MARIANOS: MARIA ENTRE A MEDITAÇÃO E O MAL-ENTENDIDO

A nova nota publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé representa uma intervenção pontual, mas de grande significância, no campo da teologia mariana. Sob o título Mater Populi fidelis: “Mãe do Povo fiel”, o documento busca clarificar “em que sentido são aceitáveis, ou não, alguns títulos e expressões referentes a Maria, Mãe de Jesus” que aludem à sua cooperação na obra da salvação.

Leia a nota publicada: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20251104_mater-populi-fidelis_po.html

Essa tarefa de “aclarar” não é mera retórica: o texto aponta para uma tensão real entre a piedade popular (legítima e antiga) e certos usos teológicos ou devocionais que, segundo o documento, podem gerar “problemas importantes no que se refere ao conteúdo” (cristologia, eclesiologia, antropologia) se não forem bem ponderados.

O que a nota propõe

Três traços principais se destacam:

  1. Cooperação de Maria, mas jamais concorrência com Cristo
    A nota reafirma que Maria “cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens”. (Vaticano) Mas enfatiza que essa cooperação está radicalmente subordinada à obra única de Jesus Cristo: Ele “único Redentor”, “único Mediador entre Deus e os homens” (cf. 1 Tm 2, 5). (Vaticano)
    Em outras palavras: Maria ajuda, Maria intercede, Maria, sim, tem função materna singular na salvação, mas não se coloca como equivalente ou paralela a Cristo na mediação e redenção.
  2. Cautela com títulos específicos
    O documento dedica-se a avaliar (de modo positivo ou crítico) alguns títulos marianos que se difundiram no correr da vida da Igreja: “Corredentora”, “Medianeira (ou Medianeira de todas as graças)”, entre outros. (Vaticano)
    Por exemplo: no título “Corredentora”, reconhece-se uma figura histórica (desde o século XV) que pretende expressar a união de Maria com Cristo nos sofrimentos e na Cruz. (Vaticano) Contudo, o Dicastério alerta que esse vocábulo “corre o risco de obscurecer a única mediação salvífica de Cristo e, portanto, pode gerar confusão e desequilíbrio na harmonia das verdades da fé cristã”. (Vaticano)
    No caso “Medianeira” ou “Medianeira de todas as graças”, a nota aponta que, embora exista um uso espiritual e popular desse título, a base bíblica e patrística não o sustenta de modo suficientemente claro para definições dogmáticas ou universalizadas. (Vaticano)
    Há, portanto, uma chamada à fidelidade da linguagem: evitar termos teológicos “capciosos”, que ambicionem uma “mediação paralela” ou “dominante” de Maria, e que possam induzir a uma espiritualidade confusa ou desviada.
  3. Valorização da devoção mariana, com equilíbrio
    Importante: o tom da nota não é puramente negativo. Em sua apresentação, afirma que “a devoção mariana … é apresentada aqui como um tesouro da Igreja” e que não se trata de “corrigir a piedade do Povo fiel de Deus” que encontra em Maria “refúgio, fortaleza, ternura e esperança”. (Vaticano)
    O que se pretende é “valorizar, admirar e encorajar” essa devoção, mas com os devidos parâmetros, sobretudo cristológicos e eclesiológicos. O documento propõe, por exemplo, que Maria seja vista como a “primeira discípula” e “Mãe dos fiéis”, em comunhão com a Igreja, e não fora dela. (Vaticano)

Significado para a teologia mariana

O que esta nota significa e quais são as suas consequências para a teologia mariana? Aqui algumas reflexões críticas:

  • Clarificação necessária num contexto plural: em tempos em que a devoção mariana se diversifica de modo intenso, inclusive por redes sociais, movimentos populares, novas expressões religiosas, surge com pertinência esta nota. A teologia mariana precisava de um “balizamento” para lidar com expressões que, embora bem intencionadas, podem deslizar para territórios de ambiguidade ou de exagero. A nota exerce esse papel de clarificador.
  • Risco de polarização entre piedade e teologia: contudo, há um risco: se a teologia se coloca demasiado como “guardã” da linguagem, pode parecer distante da vivência dos fiéis que experimentam Maria como mãe e intercessora com ternura e proximidade. A nota tenta equilibrar, mas será que consegue sempre vincular os títulos aos “fundamentos bíblico-patrísticos” sem alienar a piedade popular? A tensão permanece.
  • Limites e tensões doutrinais evidenciados: ao apontar que títulos como “Corredentora” ou “Medianeira de todas as graças” carecem de maturidade teológica ou dogmática, a nota abre um debate sobre os limites da teologia mariana: até que ponto se deve definir dogmas marianos? Qual é o risco de “acréscimo” à obra de Cristo? Nesse sentido, a teologia mariana é chamada não à “ampliação” ilimitada, mas à fidelidade à verdade central: Cristo. Isso pode significar uma contenção (para alguns, talvez uma limitação) da exuberância mariana tradicional.
  • Para ecumenismo e diálogo inter-cristão: a nota também destaca que a clareza na linguagem mariana é importante para o ecumenismo. Títulos mal explicados ou exagerados podem criar mal-entendidos com comunidades cristãs que rejeitam mediações secundárias ou que atribuem a Cristo o lugar único. Portanto, a teologia mariana se reposiciona também no campo do diálogo. (Vaticano)
  • Impulso para uma mariologia “disponível”: finalmente, o documento convoca a mariologia a retomar uma dimensão “servil” ou “disponível”: Maria como aquela que aponta para Cristo (“façam o que Ele vos disser” Jo 2,5) e não se apresenta como protagonista autônoma. É uma tentativa de responder à espiritualidade contemporânea que busca sempre “novidade”, “empoderamento”, mas aqui se reafirma a “maternidade servil” de Maria. Essa ideia materna, próxima, fiel, pode renovar a teologia mariana num ambiente onde o culto mariano pode parecer simbólico em vez de radicalmente cristocêntrico.

Um olhar crítico final

A nota Mater Populi fidelis é, sem dúvida, uma contribuição valiosa para a teologia mariana: acende luzes sobre linguagens e práticas que pedem discernimento, ao mesmo tempo que valoriza a devoção fiel a Maria. Porém, ela também revela os dilemas teológicos que essa área ancora: o risco de diminuir Cristo, ou de exagerar Maria; o diálogo com a tradição versus as expressões contemporâneas; a fidelidade à fé vs. a vitalidade devocional.

Enfim, a nota Mater Populi Fidelis não é um golpe na devoção mariana; é um convite à maturidade teológica e pastoral. Recoloca-se a velha pergunta: como honrar uma mãe que sempre aponta para o Filho, sem construir em torno dela uma mediação que ofusque o único Redentor? A resposta exigirá do magistério, dos bispos e das comunidades locais uma combinação de clareza conceitual, sensibilidade pastoral e catequese amorosa.

Para muitos teólogos e fiéis, a nota será vista como um “ajuste de rota”: reafirma-se que a teologia mariana deve respeitar cuidadosamente os fundamentos cristológicos e eclesiológicos, ao mesmo tempo que mantém vivo o amor filial a Maria. Para outros, pode parecer contenção ou limitação de expressões populares que encontraram em Maria uma presença maternal profunda.

Em todo caso, a mariologia sai deste documento estimulada a uma revisão: não para contrair-se, mas para se tornar mais articulada, mais dialógica e, por que não, mais capaz de encarnar a ternura de Maria sem perder de vista a centralidade de Cristo e a missão da Igreja.

LITURGIA DO DIA: DOMINGO, DIA DO SENHOR. FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DE SÃO JOÃO LATRÃO

Reflexão – Domingo, 9 de novembro de 2025
Dedicação da Basílica de São João de Latrão – Festa – Ano C

A Igreja celebra a Dedicação da Basílica de São João de Latrão, a catedral de Roma e igreja-mãe de todas as igrejas do mundo, sinal visível da unidade da Igreja em torno do sucessor de Pedro. Esta festa, porém, não é apenas uma comemoração arquitetônica: é uma profissão de fé na presença viva de Deus em seu povo, um convite a reconhecer que o verdadeiro templo onde o Senhor habita é o coração humano transformado pelo Espírito.

“Destruí este templo e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19)

O Evangelho de João nos leva ao episódio em que Jesus expulsa os vendedores do Templo. Ele encontra o espaço sagrado transformado em um mercado e reage com força profética, denunciando a profanação daquele lugar. O gesto de Jesus não é um simples ato moral contra o comércio; é um sinal escatológico, um gesto simbólico que anuncia o fim do antigo culto e o início de uma nova forma de presença de Deus no meio dos homens.

Quando Jesus declara: “Destruí este templo e em três dias o levantarei”, os seus ouvintes pensam no edifício de pedra que levou décadas para ser construído. Mas o evangelista esclarece: “Ele falava do templo do seu corpo”. Aqui está o coração da revelação: Cristo é o novo e definitivo Templo de Deus, o lugar onde o Pai se encontra com a humanidade. Nele, o culto não depende mais de paredes, sacrifícios ou ritos exteriores, mas do amor que se entrega e renova a criação. O corpo de Cristo morto e ressuscitado é o novo espaço de adoração em espírito e verdade (cf. Jo 4,23).

O Templo vivo: a Igreja e cada cristão

A leitura da Primeira Carta aos Coríntios, na segunda leitura, aprofunda essa dimensão: “Vós sois o templo de Deus, e o Espírito de Deus habita em vós”. São Paulo revela a dimensão eclesial e pessoal dessa nova realidade. A comunidade cristã, edificada sobre o único fundamento que é Cristo, é o edifício espiritual onde Deus faz morada. Cada batizado é uma “pedra viva” (1Pd 2,5) dessa construção. Por isso, destruir a comunhão, ferir o corpo da Igreja ou desprezar a dignidade de qualquer pessoa é profanar o próprio templo de Deus.

A visão de Ezequiel na primeira leitura antecipa essa vida nova: do templo jorra uma água que fertiliza a terra e dá vida a tudo por onde passa. Essa água é símbolo do Espírito Santo, que brota do Cristo glorificado e faz da Igreja um rio de graça para o mundo. Assim, a Basílica de Latrão, como qualquer igreja consagrada, torna-se sinal visível dessa realidade invisível, sacramento do mistério da presença de Deus entre nós.

A liturgia como lugar de encontro e conversão

Celebrar a dedicação de uma igreja é recordar que os templos de pedra só têm sentido se apontam para o templo vivo que somos nós. Uma comunidade que vive a fé, que se alimenta da Palavra e da Eucaristia, é o verdadeiro santuário onde Deus habita. A liturgia, portanto, não é mero rito, mas encontro transformador: nela o Cristo purifica o templo do nosso coração, expulsa o que é comércio e cálculo, e renova o espaço interior para que ali floresça a graça.

Para nossa vida

Esta Palavra nos convida a uma conversão do coração. É fácil venerar um templo de pedra e, ao mesmo tempo, deixar que nosso interior se torne um mercado de interesses, vaidades e ressentimentos. Jesus hoje também entra no templo do nosso ser e nos chama à purificação.

Perguntemo-nos:

  • O que em mim precisa ser expulso para que Deus volte a habitar plenamente?
  • O que em minha comunidade precisa ser reconstruído sobre o verdadeiro fundamento que é Cristo?
  • Como posso ser, no cotidiano, uma presença de Deus que gera vida e paz como o rio de Ezequiel?

Que a festa da Dedicação da Basílica de Latrão renove em nós a consciência de que somos a casa viva de Deus, templos de sua glória e instrumentos de sua presença no mundo. Que a graça desta liturgia nos ajude a transformar nossa vida e nossa comunidade em lugares onde o amor de Cristo resplandeça e onde o mundo possa encontrar o Deus que quer fazer morada entre nós.

“O Senhor dos Exércitos está conosco, o nosso refúgio é o Deus de Jacó.” (Sl 45,8)

LITURGIA DO DIA: A SABEDORIA DOS FILHOS DA LUZ

Sexta-feira, 7 de novembro de 2025
31ª Semana do Tempo Comum – Ano Ímpar (I)
Leituras: Rm 15,14-21; Sl 97(98),1.2-3ab.3cd-4; Lc 16,1-8

O Evangelho de hoje nos apresenta uma das parábolas mais instigantes de Jesus: a do administrador infiel (Lc 16,1-8). À primeira vista, o texto causa desconforto, pois parece que Jesus elogia a desonestidade. No entanto, ao olharmos mais profundamente, percebemos que o Senhor nos convida a enxergar a realidade com um olhar mais amplo, onde as contradições da vida se tornam espaço de aprendizado espiritual.

O administrador é acusado de desperdiçar os bens do patrão e, diante da perda iminente do emprego, age com astúcia: busca garantir sua sobrevivência aproximando-se dos devedores. Jesus não aprova sua falta de ética, mas destaca sua esperteza diante das circunstâncias. O elogio não é à trapaça, mas à capacidade de discernir, agir com criatividade e tomar decisões rápidas diante de uma crise.

A vida humana é feita de enredos entrelaçados — relações, escolhas, consequências — e nem sempre é possível reduzi-la a categorias simples de certo ou errado. Jesus nos convida a compreender essa trama da existência, onde o bem e o mal se misturam, e a perceber que a verdadeira sabedoria está em agir com prudência e visão, orientando toda a nossa habilidade e inteligência para o Reino de Deus.

Enquanto os “filhos deste mundo” usam de sagacidade para seus interesses imediatos, os “filhos da luz” são chamados a empregar a mesma energia e criatividade para o bem, para a comunhão, para a justiça. O Evangelho nos provoca a refletir: temos colocado a mesma dedicação e engenhosidade nas coisas do Reino quanto colocamos em nossos projetos pessoais?

Na primeira leitura, Paulo expressa seu zelo missionário: ele não se contenta com o já conquistado, mas deseja levar o Evangelho a novos lugares. Seu impulso evangelizador é o oposto da inércia. É o dinamismo de quem compreende que o Reino de Deus exige movimento, inteligência e coragem.

Assim também nós, discípulos de Cristo, somos chamados a uma fé lúcida e ativa, não ingênua, mas capaz de enfrentar as tensões e ambiguidades da vida sem perder o horizonte do amor.

O administrador infiel nos ensina, paradoxalmente, que o Evangelho exige criatividade espiritual: saber discernir, planejar e agir com sabedoria diante dos desafios. O cristão autêntico não é aquele que foge do mundo, mas aquele que o lê com profundidade, compreende suas múltiplas dimensões e nele constrói sinais do Reino, onde a justiça e a misericórdia se encontram.

Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8). Que esta palavra nos desperte: que sejamos também sagazes — não para enganar, mas para amar com inteligência, servir com discernimento e construir, com criatividade e fé, o Reino que Cristo nos confiou.