LITURGIA DOMINICAL: O EVANGELHO QUE DESCE AO CORAÇÃO

6º Domingo do Tempo Comum – Ano A (15 de fevereiro de 2026)

Leituras: Sf 2,3;3,12-13 | Sl 145(146),7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5,3) | 1Cor 1,26-31 | Mt 5,1-12a

A liturgia deste 6º Domingo do Tempo Comum continua nos conduzindo, com pedagogia paciente, ao coração do Sermão da Montanha. Não se trata de uma simples sequência de textos, mas de um itinerário espiritual progressivo, que a Igreja nos propõe como verdadeiro caminho de conversão.

No 4º Domingo do Tempo Comum (01/02), contemplamos as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12a): o anúncio de uma felicidade paradoxal, que nasce da mansidão, da misericórdia, da fome de justiça e da construção da paz. No domingo passado, ouvimos que esses discípulos bem-aventurados são chamados a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16): uma fé que não pode ficar escondida, mas que precisa ganhar forma concreta na história.

Hoje, Jesus dá mais um passo decisivo: Ele nos convida a ir além da observância exterior da Lei, entrando na lógica profunda do Reino. “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20).

Não abolir, mas levar à plenitude

Jesus é claro: Ele não veio abolir a Lei, mas levá-la à sua plenitude. E essa plenitude não se mede pelo rigor das normas, mas pela transformação do coração. No Evangelho de hoje (Mt 5,17-37), Jesus relê os mandamentos fundamentais — não matar, não cometer adultério, não jurar falsamente — e os aprofunda, deslocando o foco da ação externa para a intenção interior.

Não basta não matar: a violência começa no desprezo, na palavra agressiva, no ódio cultivado. Não basta não cometer adultério: a infidelidade nasce no olhar que reduz o outro a objeto. Não basta jurar corretamente: o discípulo do Reino é chamado à verdade simples, ao “sim” que é sim e ao “não” que é não.

É um Evangelho exigente, que não permite uma fé superficial. Ele nos desinstala e justamente por isso nos humaniza.

A primeira leitura, do Eclesiástico (15,16-21), ilumina essa exigência de Jesus: Deus coloca diante de nós o fogo e a água, a vida e a morte. Ele respeita profundamente a nossa liberdade, mas nunca nos dispensa da responsabilidade. A fidelidade aos mandamentos não é opressão, mas caminho de vida.

O Salmo 118 (119) ecoa essa mesma convicção: feliz quem anda na lei do Senhor, não como quem cumpre regras friamente, mas como quem encontrou um sentido para viver.

Já São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios (2,6-10), nos lembra que essa lógica do Reino não se entende apenas com inteligência humana. Trata-se de uma sabedoria que vem do Espírito, capaz de revelar aquilo que “olho nenhum viu e ouvido nenhum ouviu”. Sem essa abertura ao Espírito, o Evangelho se torna moralismo; com Ele, torna-se caminho de libertação.

Evangelho, Carnaval e verdade interior

Celebramos este domingo em mio ao Carnaval, tempo de festa, criatividade, corpo, música e expressão popular tão marcante no Brasil. O Evangelho de hoje não condena a alegria, nem a festa em si. Pelo contrário: ele nos provoca a perguntar que alegria buscamos e que verdade carregamos por dentro.

Num contexto em que máscaras são usadas (literal e simbolicamente) Jesus nos chama a uma vida sem duplicidade. O problema não é festejar, mas viver desconectados do coração, anestesiados, fugindo de nós mesmos e dos outros. O “sim, sim; não, não” de Jesus soa como um convite à inteireza, à coerência entre o que mostramos e o que somos.

O Carnaval pode ser vivido como espaço de encontro, beleza e partilha, mas também pode revelar vazios, excessos e violências. O Evangelho não impõe culpas, mas oferece discernimento: que justiça maior estamos construindo também nesses espaços?

Num cenário mundial marcado por guerras, genocídios e a banalização da vida, as palavras de Jesus ganham uma força quase desconcertante. Ele não se limita a condenar o assassinato; Ele vai à raiz da violência. O desprezo, o ódio, a desumanização do outro são sementes de guerra.

Antes de bombas e exércitos, há palavras que ferem, discursos que incitam, sistemas que legitimam a exclusão. O Evangelho de hoje nos lembra que a paz começa no coração convertido, mas não termina nele: ela se traduz em relações justas, em escolhas éticas, em compromisso com a dignidade humana.

Um caminho que se desenha

O caminho litúrgico destas últimas três semanas no Tempo Comum nos revela uma pedagogia espiritual cuidadosa, com a qual a Igreja nos educa para o discipulado autêntico.

Nas Bem-aventuranças, somos colocados diante do sonho de Deus para a humanidade. Jesus proclama felizes aqueles que o mundo costuma considerar fracassados: os pobres, os mansos, os que choram, os misericordiosos, os que promovem a paz. Não se trata de um ideal ingênuo, mas da revelação de uma lógica nova, capaz de curar relações feridas e devolver dignidade aos descartados da história.

Ao afirmar que os discípulos são sal da terra e luz do mundo, o Evangelho dá um passo adiante: esse sonho não pode permanecer apenas como bela utopia. Ele precisa ganhar corpo na vida concreta dos que se deixam tocar pelas Bem-aventuranças. Ser sal e luz é aceitar a missão de preservar o que é humano, iluminar caminhos obscuros e dar sabor à vida comum, mesmo quando isso exige exposição, risco e coerência.

Por fim, ao falar de uma justiça maior, Jesus aprofunda ainda mais o chamado. Não basta pertencer exteriormente ao povo de Deus ou cumprir normas religiosas. A fé que nasce do Evangelho precisa descer ao coração, purificar intenções, transformar palavras, olhares e escolhas. É essa justiça interior (silenciosa e exigente) que tem força para transformar a história, desarmar violências e abrir caminhos de reconciliação.

Esse itinerário revela que seguir Jesus não é acumular práticas religiosas, mas deixar-se conduzir por um processo de conversão contínua, no qual o sonho de Deus se torna missão e a missão se enraíza numa fé verdadeira, vivida com inteireza.

Que este domingo nos ajude a escolher a vida, a verdade e a paz, não como slogans, mas como decisões cotidianas. E que, em meio às festas, aos conflitos e às ambiguidades do nosso tempo, sejamos sinais humildes, mas reais, de um Reino que já está no meio de nós.




RENOVAÇÃO DE VOTOS RELIGIOSOS DE IR. ANTÔNIA BIANCA

Nesta segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, a Capela da Comunidade Timóteo Giaccardo, em Pacaembu (SP), foi espaço de profunda ação de graças, comunhão fraterna e renovação da esperança com a celebração da renovação dos votos religiosos, pela sexta vez, da Ir. M. Antônia Bianca Oliveira dos Santos. O momento marcou mais uma etapa significativa em sua caminhada vocacional e foi vivido com alegria, simplicidade e espírito orante pelas Irmãs ali presentes.

A celebração eucarística foi presidida pelo Pe. Frei Jair Roberto Pasquali, TOR, que conduziu o rito com serenidade e profundidade espiritual, destacando o valor do compromisso assumido pela religiosa e o significado eclesial da vida consagrada. A presença das Irmãs, reunidas em clima de fraternidade, expressou a comunhão comunitária e o apoio à caminhada vocacional da Ir. M. Antônia Bianca, que neste ano segue sua formação em Roma, onde realizará a preparação imediata para os votos perpétuos.

A renovação dos votos religiosos representa, na tradição da Igreja, a reafirmação consciente e livre do “sim” dado a Deus, renovando o compromisso com os conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência. Ao renovar seus votos pela sexta vez, a Ir. M. Antônia Bianca manifesta maturidade vocacional e disponibilidade interior para continuar colocando sua vida a serviço do Reino, em fidelidade ao carisma congregacional e à missão confiada pela Igreja.

A celebração foi iluminada pela liturgia da 5ª Semana do Tempo Comum, Ano Par (II), cujas leituras ofereceram uma chave de leitura profunda para compreender o sentido do momento vivido. A primeira leitura, retirada do Primeiro Livro dos Reis (1Rs 8,1-7.9-13), narrou a solene transferência da Arca da Aliança para o Templo de Jerusalém, construída por Salomão. O texto bíblico apresenta um povo reunido para reconhecer que Deus escolheu habitar no meio deles, fazendo do Templo um lugar de encontro, memória e fidelidade à Aliança.

Esse relato bíblico dialoga diretamente com a vida consagrada, na medida em que recorda que é o próprio Deus quem toma a iniciativa de habitar no coração daqueles que se oferecem inteiramente a Ele. Assim como a Arca representava a presença divina no meio do povo, a vida consagrada torna-se sinal visível de que Deus continua a fazer morada entre os homens, chamando-os à comunhão, à escuta e à fidelidade.

O Salmo 131(132), rezado responsorialmente, reforçou esse desejo profundo de estar na presença do Senhor: “Entremos em sua morada, prostremo-nos ante o escabelo de seus pés”. O salmista expressa a alegria do povo que busca a casa de Deus e reconhece nela o lugar do repouso divino. Na celebração da renovação dos votos, esse salmo ganhou um significado especial, pois a entrega da vida religiosa é também um gesto de permanência, de escolha deliberada por “habitar” com o Senhor e colocar Nele toda a confiança.

Já o Evangelho segundo Marcos (Mc 6,53-56) apresentou Jesus que, ao chegar às aldeias e cidades, é reconhecido pelo povo, que leva até Ele os doentes, certos de que um simples toque poderia trazer cura. O texto evidencia a sensibilidade de Jesus diante do sofrimento humano e sua constante disponibilidade para acolher, curar e restaurar vidas. Esse Evangelho lança luz sobre a missão da vida consagrada, chamada a ser presença de Cristo no mundo, especialmente junto aos que mais sofrem, oferecendo cuidado, escuta, esperança e proximidade.

À luz dessas leituras, a renovação dos votos da Ir. M. Antônia Bianca pode ser compreendida como um gesto que une contemplação e missão. Contemplação, porque nasce da escuta da Palavra e da intimidade com Deus; missão, porque se traduz em serviço concreto ao povo, seguindo os passos de Jesus que passa fazendo o bem. A formação que a religiosa iniciará em Roma, como preparação para os votos perpétuos, insere-se nesse dinamismo, ajudando-a a aprofundar sua consagração e a fortalecer sua disponibilidade para a missão que a Igreja lhe confiará.

Durante a celebração, o presidente da Eucaristia ressaltou que a perseverança na vida religiosa não é fruto apenas do esforço humano, mas da graça de Deus, acolhida e cultivada diariamente. A fidelidade aos votos, renovados ano após ano, é sustentada pela oração, pela vida comunitária e pela escuta atenta da Palavra, que orienta as escolhas e dá sentido ao caminho vocacional.

O clima de ação de graças vivido neste dia foi ampliado também por outro motivo de grande alegria para a congregação. Também nesta data, a comunidade acolheu a chegada de duas jovens que pediram para iniciar o seu caminho formativo na congregação. Trata-se de Edna, natural de Manaus (AM), e Vitória, de Boa Esperança (MG), que dão os primeiros passos em um processo de discernimento vocacional marcado pela escuta, pelo acompanhamento e pela vida comunitária. A celebração de ingresso está marcada para dia 10 de fevereiro de 2026.

A acolhida dessas jovens representa um sinal concreto de esperança e continuidade da missão, evidenciando que o chamado de Deus continua a ressoar no coração de novas gerações. O início do caminho formativo é um tempo privilegiado de discernimento, no qual as aspirantes são convidadas a aprofundar sua relação com Cristo, a conhecer mais de perto o carisma congregacional e a amadurecer, com liberdade e responsabilidade, a resposta ao chamado recebido.

Ao final da celebração, a gratidão marcou os corações das Irmãs presentes, que elevaram preces pela perseverança da Ir. M. Antônia Bianca e por todas as vocações, pedindo ao Senhor que continue a chamar e sustentar aqueles que se dispõem a segui-Lo mais de perto. A comunhão fraterna vivida naquele dia reforçou os laços comunitários e renovou o compromisso coletivo com a missão evangelizadora.

A Igreja confia à oração e ao cuidado de Deus a caminhada formativa da Ir. M. Antônia Bianca, que, em Roma, dará mais um passo decisivo rumo à consagração definitiva, assim como o início do percurso vocacional de Edna e Vitória. Que estes tempos de formação e discernimento sejam marcados pela escuta, pela confiança e pela fidelidade cotidiana, para que suas vidas se tornem sinais vivos da presença amorosa de Deus no mundo.

Continuamos em prece e comunhão, acompanhando com alegria estes acontecimentos significativos da vida congregacional e renovando, com esperança, a confiança no chamado do Divino Mestre.



O DOMINGO DA PALAVRA DE DEUS: ESCUTAR, CELEBRAR E VIVER A PALAVRA QUE SALVA

No último domingo (3º Domingo do Tempo Comum – 25/01/2026), a Igreja celebrou o Domingo da Palavra de Deus, uma data relativamente recente no calendário litúrgico, mas profundamente enraizada na tradição cristã. Instituído pelo Papa Francisco por meio da Carta Apostólica Aperuit illis (2019), esse domingo convida toda a comunidade eclesial a redescobrir o lugar central da Palavra de Deus na vida da Igreja, na liturgia e no cotidiano dos fiéis.

Mais do que uma comemoração simbólica, trata-se de um chamado à conversão pastoral e espiritual: voltar a colocar a Palavra no centro, não como objeto de estudo isolado ou leitura ocasional, mas como voz viva de Deus que continua a falar ao seu povo hoje.

O título do documento — Aperuit illis (“Abriu-lhes o entendimento”) — é retirado do Evangelho de Lucas (24,45), no episódio dos discípulos de Emaús. O Papa Francisco parte desse texto para lembrar que é o próprio Cristo quem abre as Escrituras e permite que elas sejam compreendidas em profundidade. Sem Ele, a Bíblia corre o risco de se tornar apenas um livro do passado; com Ele, torna-se Palavra viva, atual e transformadora.

O Papa afirma logo no início do documento:

“A relação entre o Ressuscitado, a comunidade dos crentes e a Sagrada Escritura é extremamente vital para a nossa identidade cristã” (Aperuit illis, n. 1).

Celebrar o Domingo da Palavra de Deus é, portanto, reafirmar essa relação vital entre Cristo, a Igreja e as Escrituras.

Um dos aspectos mais importantes ressaltados pelo Papa Francisco é a relação intrínseca entre Palavra e liturgia. A Bíblia não foi entregue à Igreja para ser apenas lida individualmente, mas proclamada e escutada no seio da assembleia. É na liturgia que a Palavra manifesta plenamente seu caráter de evento: Deus fala, o povo escuta, responde e é transformado.

O Papa recorda que:

“A Bíblia não pode ser entendida como uma coleção de livros de história, nem como um conjunto de textos morais, mas é o livro do povo de Deus” (Aperuit illis, n. 5).

Por isso, a proclamação da Palavra na liturgia exige cuidado, preparação, silêncio e escuta atenta. Não se trata de um momento secundário da celebração, mas de uma verdadeira ação sacramental, na qual Cristo se faz presente e fala à sua Igreja.

O Domingo da Palavra de Deus também recorda que escutar a Palavra nunca é um gesto individualista. A escuta é sempre eclesial e comunitária. A Palavra convoca, forma e envia. Como afirma o Papa:

“Escutar a Sagrada Escritura cria comunhão com Deus e com os irmãos” (Aperuit illis, n. 4).

Essa comunhão, porém, não se fecha em si mesma. A Palavra escutada gera compromisso e missão. Quem acolhe a Palavra é chamado a traduzi-la em gestos concretos de amor, justiça, misericórdia e serviço, especialmente aos pobres e sofredores. Não por acaso, o Papa insiste que a Bíblia deve estar sempre ligada à vida real do povo.

Outro objetivo fundamental do Domingo da Palavra de Deus é educar o povo cristão para uma relação madura e constante com as Escrituras. Isso implica formação bíblica, catequese contínua e iniciação à leitura orante da Bíblia (Lectio Divina).

O Papa Francisco alerta que o desconhecimento das Escrituras empobrece a fé:

“Sem a Sagrada Escritura, os acontecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mundo permanecem incompreensíveis” (Aperuit illis, n. 7).

Por isso, esse domingo é também um convite às comunidades para investirem na formação de leitores, catequistas, ministros ordenados e agentes de pastoral, para que todos saibam escutar, interpretar e anunciar a Palavra com fidelidade e profundidade.

Dentro da celebração litúrgica, o Domingo da Palavra de Deus valoriza de modo especial o ministério do leitor. O leitor não é alguém que “apenas lê”, mas alguém que empresta sua voz para que Deus fale ao seu povo. Sua postura, preparação, vestes e modo de proclamar fazem parte da pedagogia simbólica da liturgia. Como recorda o Papa Francisco, a Palavra exige respeito, dignidade e amor:

“A proclamação da Palavra de Deus requer uma atenção especial à sua preparação e à sua execução” (Aperuit illis, n. 9).

Isso ajuda a assembleia a compreender que, quando a Palavra é proclamada, é o próprio Cristo quem fala.

Celebrar o Domingo da Palavra de Deus não se limita ao espaço da igreja. O Papa insiste que a Bíblia deve acompanhar a vida diária dos cristãos: nas famílias, nos grupos, nas decisões pessoais e comunitárias. A Palavra ilumina a realidade, consola nas dificuldades, corrige os caminhos e sustenta a esperança.

Nesse sentido, o Papa afirma:

“A Palavra de Deus une os crentes e faz deles um único povo” (Aperuit illis, n. 3).

Essa unidade se constrói quando a Palavra é acolhida, meditada e vivida.

O Domingo da Palavra de Deus é, em última análise, um convite a reaprender a escutar. Num mundo marcado pelo excesso de palavras e ruídos, a Igreja é chamada a criar espaços de silêncio, escuta e acolhida da Palavra que salva.

Celebrar esse domingo é reconhecer que a Palavra de Deus não pertence ao passado, mas continua a agir no presente; não é letra morta, mas voz viva do Espírito; não é propriedade de alguns, mas dom oferecido a todo o povo de Deus.

Como nos recorda o Papa Francisco, a Palavra “não passa”, porque é o próprio Deus que continua a falar. Cabe à Igreja — e a cada fiel — abrir o coração, como os discípulos de Emaús, e deixar-se transformar por essa Palavra que gera vida, comunhão e missão.

Ler na íntegra: Carta Apostólica Aperuit illis




VESTES DE LEITORES: POR QUE USAR?

Ir. Julia Almeida, pddm

Em muitos debates nas redes sociais e em espaços de formação litúrgica, surge com frequência a pergunta: por que, no Brasil, leitores usam vestes litúrgicas, se no Vaticano isso não acontece? A inquietação é legítima, mas a resposta exige ir além da simples comparação de práticas externas. É preciso compreender o sentido da liturgia, o papel da cultura na sua expressão e o modo como a Igreja vive a recepção das normas universais em contextos concretos.

O que a Igreja realmente determina

Do ponto de vista da norma litúrgica universal, a Igreja não estabelece uma veste própria e obrigatória para leitores leigos. A Instrução Geral do Missal Romanon nº 339 afirma que leitores e outros ministros leigos podem usar a alva ou outra veste legitimamente aprovada pela Conferência Episcopal. Ou seja, a norma abre espaço para adaptações pastorais e culturais, sem impor um modelo único.

Isso significa que não existe um “paramento do leitor” universal. Deve se ter presente que o uso ou não de veste litúrgica não afeta a validade nem a dignidade do ministério. Ou seja, a forma concreta de vestir-se na liturgia pode variar conforme a cultura, a história e a sensibilidade pastoral de cada Igreja local.

O caminho da Igreja no Brasil

No Brasil, o uso de vestes para leitores e ministros leigos não surgiu por imitação do clero, nem por desejo de uniformização estética. Ele nasce de um processo pastoral e eclesial profundamente ligado à valorização dos ministérios leigos após o Concílio Vaticano II.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), especialmente no Estudo nº 115 – As Vestes Litúrgicas, destaca que as vestes:

  • são linguagem simbólica da liturgia, não simples adereços;
  • ajudam a expressar visivelmente o serviço que está sendo exercido;
  • devem favorecer a participação, a clareza ritual e a dignidade celebrativa;
  • não podem ser usadas para “clericalizar” leigos, mas para evidenciar o caráter ministerial do serviço.

Nesse horizonte, a veste do leitor no Brasil não é sacramental, nem equivalente à estola ou à casula. Ela não confere status hierárquico e expressa que aquele fiel está, naquele momento, a serviço da Palavra proclamada à assembleia.

Por que o Vaticano não usa e por que isso não é um problema

As celebrações no Vaticano seguem uma tradição romana marcada pela sobriedade ritual, pela centralidade do gesto e pela distinção rigorosa entre ministérios ordenados e não ordenados. Nessa lógica, a Palavra é destacada pelo ambão, pelo Lecionário e pelo rito, e não pela veste do leitor. Essa opção é legítima, mas não é a única forma católica de viver a liturgia.

A Igreja não é monocultural. O Vaticano não é o “modelo estético obrigatório” para todas as comunidades do mundo. A liturgia é una na fé, mas plural na forma de ser celebrada. Quando se afirma que “se no Vaticano não usa, ninguém deveria usar”, corre-se o risco de absolutizar um modelo europeu e romano, transformando-o em critério universal.

O Brasil não “erra” por celebrar de modo diferente. Pelo contrário: celebra a partir de sua própria sensibilidade cultural. Nossa cultura é simbólica, visual, corporal, comunitária e marcada por sinais que ajudam a compreender o que está acontecendo.

Nesse contexto, a veste ajuda a assembleia a reconhecer os ministérios; reforça que a Palavra não é leitura comum, mas proclamação litúrgica; favorece o sentido de serviço e responsabilidade do leitor; contribui para a organização ritual da celebração. Desqualificar essa prática como “excesso”, “invenção brasileira” ou “desobediência” revela, muitas vezes, uma dificuldade de aceitar que a fé se encarna de modos diferentes, sem trair sua essência.

Vestir para servir, não para aparecer

A CNBB é clara ao afirmar que qualquer uso de vestes deve evitar exageros estéticos, confusão entre ministérios, vaidade ou protagonismo pessoal. A veste do leitor só faz sentido quando é simples, não imita paramentos clericais, está a serviço da liturgia, e não da pessoa e ajuda a comunidade a rezar melhor. Quando usada assim, ela não substitui a Palavra, mas aponta para ela.

Em síntese, usar veste litúrgica como leitor no Brasil:

  • não é obrigação, mas opção pastoral;
  • não contradiz a Igreja universal, mas se apoia nela;
  • não imita o Vaticano, mas responde à nossa cultura;
  • não clericaliza, quando bem compreendida;
  • expressa que a liturgia é linguagem viva, encarnada e plural.

A pergunta, portanto, não é “por que o Brasil faz diferente do Vaticano?”, mas:
como nossa forma de celebrar ajuda o povo a compreender, viver e rezar o mistério que celebramos? E, nesse caminho, a veste do leitor pode ser, quando bem usada, um sinal simples, pedagógico e profundamente eclesial.

Esteticamente, como devem ser as vestes de leitores?

Esteticamente, as vestes do leitor não devem chamar atenção para si, mas servir ao rito e à Palavra proclamada. A lógica não é a do figurino nem a da moda, mas a da forma ritual. A partir da tradição litúrgica e do horizonte proposto por Desiderio Desideravi, é possível indicar alguns critérios estéticos fundamentais:

  1. Simplicidade formal: a veste deve ter linhas simples, sem recortes complexos, ornamentos excessivos ou elementos decorativos supérfluos. A simplicidade favorece a concentração no gesto proclamativo e evita a personalização do ministério.
  2. Sobriedade visual: cores, tecidos e acabamentos devem ser discretos. Evitam-se brilhos, transparências, estampas chamativas ou contrastes fortes. A sobriedade estética educa o olhar da assembleia para o essencial: a escuta da Palavra.
  3. Neutralidade simbólica: a veste do leitor não carrega simbolismos próprios muito marcados (como os de ordens religiosas ou de ministérios ordenados). Sua função estética é “desaparecer” como signo autônomo para deixar emergir o evento da Palavra. Assim sendo, sugerimos não utilizar as cores dos tempos litúrgicos como elementos decorativos. As vestes litúrgicas dos presbíteros já carregam esta função.
  4. Unidade e coerência: quando possível, a veste deve favorecer certa unidade entre os leitores (sem uniformização rígida), evitando a impressão de improviso ou individualismo. A coerência visual contribui para a percepção do ministério como serviço eclesial, não privado.
  5. Adequação ao espaço litúrgico: a estética da veste deve dialogar com o espaço celebrativo, o ambão e o conjunto ritual. Não deve competir com o presbitério nem com os ministros ordenados, mas também não parecer um elemento estranho ou “civil” deslocado.
  6. Dignidade sem ostentação: a veste deve ser claramente distinta da roupa cotidiana, sinalizando que se trata de uma ação ritual, mas sem recorrer à solenidade excessiva. A dignidade nasce da forma, do caimento e da sobriedade, não do luxo.
  7. Inculturação equilibrada: no contexto brasileiro, é legítimo considerar clima, materiais e sensibilidades culturais locais, desde que isso não comprometa a clareza ritual nem transforme a veste em expressão identitária individual ou regionalizante.

Enfim, esteticamente, a veste do leitor deve ser discreta, sóbria, simples e ritual, ajudando a assembleia a perceber que quem se destaca não é a pessoa nem sua aparência, mas a Palavra que acontece na celebração.

A veste do leitor como caminho mistagógico

Neste ponto, torna-se necessário deslocar o debate sobre as vestes do plano meramente normativo ou estético para o horizonte mistagógico, tal como propõe o Papa Francisco na Desiderio Desideravi. Sob essa perspectiva, a veste do leitor deixa de ser compreendida como um “problema disciplinar” e passa a ser reconhecida como mediação simbólica no processo de iniciação ao mistério celebrado. Embora a Desiderio Desideravi não trate de modo específico do uso das vestes litúrgicas, o documento oferece elementos fundamentais que iluminam uma reflexão mistagógica sobre o seu significado e sua função no contexto celebrativo.

O Papa Francisco afirma com força que não se aprende a liturgia por explicações abstratas, mas pela experiência simbólica vivida. A mistagogia, para ele, é “um caminho que conduz da experiência celebrada à inteligência espiritual do mistério”.

Nesse sentido, tudo o que acontece na liturgia (gestos, espaços, silêncios, objetos, palavras e também vestes), participa da formação do fiel, não como ornamento, mas como linguagem.

Portanto, a pergunta correta não é “A veste do leitor é obrigatória?”, mas: “Ela ajuda ou não o povo a entrar mais profundamente no mistério da Palavra celebrada?”

A Palavra proclamada como evento, não como leitura funcional

Um ponto central da Desiderio Desideravi é a superação da lógica funcional da liturgia. A proclamação da Palavra não é um momento utilitário, mas um acontecimento sacramental (ainda que distinto da Eucaristia).

A veste do leitor pode colaborar mistagogicamente quando ajuda a romper com a percepção cotidiana da leitura; indica que ali ocorre algo diferente do “ler em público”; e sinaliza que a Palavra é proclamada à assembleia como Palavra viva.

Mistagogicamente, a veste desloca o olhar da pessoa para a função e introduz o fiel na lógica do rito, não da performance individual. Assim, ela educa o olhar e o coração para perceber que não é alguém lendo, é Deus falando à sua Igreja.

O Papa Francisco insiste que não existe experiência litúrgica sem corpo. A liturgia forma a fé envolvendo os sentidos: visão, audição, postura, movimento.

A veste do leitor, assim, inscreve o corpo do ministro na gramática ritual. Ela ajuda o leitor a assumir corporalmente o serviço da Palavra e favorece uma atitude interior coerente com o que se faz.

Nesse sentido, ela tem função mistagógica também para o próprio leitor, pois ajuda a entrar no “tempo outro” da liturgia; recorda que ele não fala em nome próprio; e favorece recolhimento, sobriedade e consciência ministerial. A veste educa o corpo para o rito e o corpo educado forma a alma.

Mistagogia é aprendizagem progressiva: a veste como pedagogia visível

A Desiderio Desideravi fala de uma formação litúrgica permanente, não apenas conceitual. No contexto brasileiro, marcado por diversidade cultural e forte comunicação visual, a veste pode funcionar como pedagogia silenciosa; sinal acessível a todos, inclusive aos não iniciados; ajuda concreta para reconhecer os ministérios e suas funções.

Mistagogicamente, ela auxilia crianças, novos fiéis e assembleias simples a compreenderem o rito; estrutura a celebração como “linguagem” compreensível; contribui para a leitura simbólica do que está acontecendo. Isso não empobrece a liturgia, pelo contrário, a torna habitável.

Embora o documento não trate diretamente de vestes, ele afirma algo decisivo: “a liturgia não pode ser reduzida a um modelo único e rígido, desconectado da vida concreta do povo”.

Nesse horizonte, a prática brasileira não contradiz a liturgia romana. Ela, na verdade, expressa um modo legítimo de receber e encarnar o rito e reconhece que a mistagogia passa também pela cultura.

A veste do leitor, quando simples e não clericalizante, é um sinal inculturado da Palavra em meio ao povo. Ela também é uma forma de dizer visualmente que a Palavra é servida por membros da própria assembleia e é um antídoto contra a ideia de que só o clero “representa o sagrado”. Isso está profundamente alinhado com o desejo de Francisco de uma liturgia mais participada, consciente e eclesial.

Critério decisivo: ajuda ou atrapalha o encontro com o mistério?

A Desiderio Desideravi oferece um critério implícito, mas muito claro: “tudo na liturgia deve ser avaliado a partir da sua capacidade de conduzir ao mistério pascal”. Assim, a veste do leitor não é boa em si mesma, nem má em si mesma. A veste do leitor é mistagógica quando é simples; não imita paramentos clericais; não centraliza a pessoa; não se torna “fantasia litúrgica”. Ela falha quando vira marca de status; distinção hierárquica; distração estética. Mas, quando bem compreendida, ela sustenta o silêncio, organiza o rito, educa o olhar e ajuda o povo a “habitar” a liturgia.

Em síntese, à luz da Desiderio Desideravi, a veste litúrgica do leitor contribui para o itinerário mistagógico na medida em que favorece a vivência da Palavra como acontecimento celebrativo, e não como mero exercício funcional; educa o corpo e o olhar para o rito; fortalece a consciência ministerial do leitor; atua como pedagogia simbólica para a assembleia; respeita os processos de inculturação e a recepção eclesial no contexto brasileiro; e, por fim, mantém-se discreta, simples e autenticamente ritual. Nesse sentido, ela não “explica” o mistério, mas introduz nele.




DA LUZ AO SEGUIMENTO: O CAMINHO QUE A LITURGIA NOS ENSINA

Domingo, 25 de Janeiro de 2026
3º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Hoje, omite-se a Festa de Conversão de São Paulo, Apóstolo

Leituras: Is 8,23b-9,3 ou At 9,1-22 | Sl 26(27),1.4.13-14 (R. 1a.1c) | 1Cor 1,10-13.17 | Mt 4,12-23

A liturgia deste 3º Domingo do Tempo Comum nos ajuda a compreender que a fé cristã não começa por uma ideia ou por uma norma, mas por um encontro que ilumina e chama. Ao longo das últimas celebrações, desde o 2º Domingo do Tempo Comum, a Igreja vem nos conduzindo por um verdadeiro caminho pedagógico: primeiro, somos convidados a reconhecer quem é Jesus; depois, a perceber o que sua presença provoca; e, finalmente, a responder ao seu chamado.

No Evangelho de hoje, Jesus inicia sua missão pública na Galileia, região considerada periférica e marcada por contrastes. A escolha não é casual. É ali, onde a vida parece mais confusa e ferida, que a luz prometida pelos profetas começa a brilhar. A liturgia retoma as palavras de Isaías: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”. Com isso, nos ensina que Deus não espera um mundo ideal para agir; Ele entra na história concreta e a transforma a partir de dentro.

A primeira palavra de Jesus é clara: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo.” A conversão que a liturgia nos propõe não é apenas moral ou individual. Trata-se, antes de tudo, de aprender a olhar a realidade a partir do Reino. Quando o Reino se aproxima, muda-se o centro da vida, mudam-se as prioridades, mudam-se as relações.

Esse chamado à conversão já vinha sendo preparado ao longo da semana: nos Evangelhos de Marcos, vimos Jesus questionar práticas religiosas rígidas, colocar a vida acima da norma, curar no sábado e enfrentar resistências. A liturgia nos educa, assim, para compreender que seguir Jesus exige mais do que cumprir regras: exige discernimento, escuta e abertura ao novo de Deus.

Ao chamar os primeiros discípulos, Jesus não faz um longo discurso. Ele convida: “Vinde após mim.” A resposta é imediata: eles deixam as redes, o barco e o pai. Essas imagens falam diretamente à nossa vida.

As redes simbolizam aquilo que nos sustenta e nos dá segurança. O barco representa o espaço conhecido, controlável. Deixar tudo isso não significa desprezar a própria história, mas permitir que ela seja reorganizada a partir do Evangelho. A liturgia nos ensina que o seguimento cristão não é uma atividade paralela à vida, mas um novo modo de viver tudo.

A segunda leitura, da Primeira Carta aos Coríntios, reforça essa catequese. Paulo recorda que a comunidade cristã não pode se dividir em grupos ou preferências pessoais. Todos foram chamados pelo mesmo Cristo. A liturgia ajuda a compreender que a Igreja nasce do chamado e da escuta comum, não de afinidades humanas ou disputas internas.

Por isso, celebrar este domingo é também aprender a ser assembleia: pessoas diferentes, reunidas pela mesma Palavra, iluminadas pela mesma luz e enviadas para a mesma missão.

A liturgia, portanto, nos apresenta como escola de discipulado. Neste 3º Domingo do Tempo Comum, a liturgia nos educa passo a passo: ensina a reconhecer a luz que é Cristo; ajuda a discernir o que precisa ser convertido em nosso modo de viver a fé; e nos convida a responder com gestos concretos de seguimento.

Assim, a celebração não apenas fala de conversão e discipulado, mas os forma em nós. A cada domingo, a liturgia nos toma pela mão e nos conduz no caminho da fé, transformando a escuta em vida e a vida em missão.




UM TEMPO PARA RECONHECER O FILHO: O TESTEMUNHO DE JOÃO BATISTA

Domingo, 18 de janeiro de 2026
2º Domingo do Tempo Comum – Ano A
Jo 1,29-34

Com o encerramento do Tempo do Natal e a entrada no Tempo Comum, a liturgia nos conduz a uma etapa discreta, porém decisiva, do ano litúrgico. Não se trata de um “tempo menor”, mas de um período em que a vida pública de Jesus começa a ser contemplada passo a passo, gesto a gesto, palavra a palavra. É um tempo de amadurecimento da fé, de escuta atenta e de assimilação progressiva do mistério de Cristo, antes de entrarmos na intensidade penitencial e catecumenal da Quaresma.

Neste segundo domingo do Tempo Comum, o Evangelho segundo João nos apresenta uma cena de forte densidade teológica: o testemunho de João Batista sobre Jesus (Jo 1,29-34). Não se trata de um relato do batismo propriamente dito, mas de sua interpretação. João Batista olha para Jesus que vem ao seu encontro e proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Essa afirmação inaugura, no Quarto Evangelho, a revelação pública da identidade de Jesus e orienta toda a leitura litúrgica deste início de tempo.

A expressão “Cordeiro de Deus” carrega uma profunda memória bíblica. Ela evoca o cordeiro pascal do Êxodo, cujo sangue libertou o povo da escravidão e marcou o início de uma nova história (cf. Ex 12). Evoca também o Servo sofredor de Isaías, que “como cordeiro levado ao matadouro” assume sobre si as dores do povo (cf. Is 53,7). Ao unir essas imagens, o evangelista João apresenta Jesus como aquele que realiza uma libertação definitiva: não apenas de uma opressão histórica, mas do pecado que fere a relação entre Deus e a humanidade.

Nesse sentido, o tempo litúrgico que agora vivemos é um verdadeiro tempo de revelação progressiva. O Natal nos mostrou quem é Jesus: o Verbo feito carne, Deus que entra na história humana. O Tempo Comum começa a nos mostrar para que Ele veio e como realiza sua missão. Antes de caminhar para a cruz na Quaresma e na Páscoa, a liturgia nos convida a contemplar o sentido profundo dessa entrega: Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo porque assume a condição humana até as últimas consequências, inaugurando uma nova forma de relação com Deus.

O testemunho de João Batista também é marcado por um movimento de humildade e de discernimento espiritual. Ele afirma claramente: “Eu não o conhecia”. Essa frase, repetida duas vezes no texto, não indica ignorância, mas revela que o reconhecimento de Jesus não nasce de vínculos humanos, mas de uma experiência espiritual. João reconhece Jesus porque vê o Espírito descer e permanecer sobre Ele. O sinal decisivo não é exterior, mas teológico: a presença permanente do Espírito revela que Jesus é o Filho, aquele que batiza no Espírito Santo.

Aqui se abre uma dimensão importante para a vivência litúrgica deste tempo. Reconhecer Jesus como Cordeiro de Deus e Filho de Deus não é resultado de um conhecimento automático ou superficial. É fruto de uma experiência de escuta, de observação, de permanência. A liturgia do Tempo Comum educa o olhar da fé para reconhecer o Senhor presente na história, nos sinais simples, na Palavra proclamada, nos sacramentos celebrados.

As demais leituras deste domingo são iluminadas por essa chave de leitura. O cântico do Servo em Isaías (Is 49,3.5-6) amplia o horizonte da missão: aquele que é chamado desde o ventre materno não é enviado apenas a Israel, mas é “luz para as nações”. O Cordeiro que tira o pecado do mundo inaugura uma salvação universal, que ultrapassa fronteiras religiosas e culturais. O salmo responsorial coloca nos lábios da assembleia uma atitude fundamental para este tempo: “Eis que venho fazer, com prazer, a vossa vontade”. A vida cristã nasce da escuta e da adesão confiante ao projeto de Deus.

Já a saudação inicial da Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 1,1-3) recorda que essa identidade cristã se concretiza na vida da comunidade. Somos chamados a ser santos não por mérito próprio, mas porque fomos alcançados por Cristo. O Tempo Comum é também tempo de aprender a viver a fé no cotidiano, na comunhão e na corresponsabilidade eclesial.

Liturgicamente, este domingo nos ajuda a compreender que estamos numa passagem: do mistério contemplado no Natal para o mistério que será celebrado na Páscoa. É um tempo de travessia, de aprofundamento, de preparação interior. Ao proclamarmos, em cada Eucaristia, “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo”, retomamos esse testemunho de João Batista e o tornamos oração da Igreja. Não é apenas uma fórmula ritual, mas uma profissão de fé que nos compromete.

Neste início do Tempo Comum, a liturgia nos convida a olhar para Jesus com atenção renovada, a escutar seu testemunho silencioso e a permitir que o Espírito nos conduza ao reconhecimento profundo de quem Ele é. Antes de seguir seus passos rumo à cruz, somos chamados a permanecer com Ele, a deixar-nos revelar por sua presença e a aprender, dia após dia, a viver como discípulos daquele que é o Cordeiro de Deus.




FESTA DA EPIFANIA? MAS NÃO FOI DOMINGO PASSADO?

A Epifania do Senhor, celebrada em 6 de janeiro, tem origem muito antiga na tradição cristã e está ligada ao sentido da palavra epifania, que vem do grego epipháneia e significa manifestação, revelação.

No cristianismo, a Epifania celebra a manifestação de Jesus Cristo como Salvador não apenas de Israel, mas de todos os povos. Essa revelação é simbolizada, sobretudo, pela visita dos Magos, popularmente chamados de Santos Reis, narrada no Evangelho segundo Mateus (Mt 2,1-12).

Os Magos não pertenciam ao povo judeu; eram sábios vindos do Oriente, atentos aos sinais do céu. Ao seguirem a estrela e encontrarem o Menino Jesus, eles representam as nações pagãs que reconhecem em Cristo o Rei e o Salvador. Por isso, a Epifania é, desde o início, uma festa profundamente missionária e universal: Deus se revela a todos.

Quem eram estes magos mesmo?

Os Magos mencionados no Evangelho da Epifania não são personagens lendários, mas figuras reais dentro do imaginário histórico e religioso do mundo antigo. Ao mesmo tempo, o evangelista Mateus os apresenta com um forte valor simbólico e teológico.

A palavra magos vem do grego mágoi e designava, na Antiguidade, sábios do Oriente, especialmente ligados à astronomia/astrologia (observação dos astros), ao estudo das ciências naturais, à interpretação de sinais, e, em alguns casos, a funções religiosas ou sacerdotais.

Eles provavelmente vinham de regiões como a Pérsia, Babilônia ou Arábia, áreas conhecidas por seu saber astronômico. Eram pessoas cultas, estudiosas, atentas aos sinais do cosmos, algo muito respeitado naquele contexto histórico.

Eram reis?

O Evangelho não diz que eram reis. Essa imagem surgiu mais tarde, a partir da leitura cristã do Antigo Testamento, sobretudo:

  • Isaías 60,1-6: “nações caminharão à tua luz… trarão ouro e incenso”;
  • Salmo 72(71): “os reis de Társis… oferecerão dons”.

Esses textos proféticos foram interpretados pela Igreja como cumpridos na visita dos Magos, e assim, a tradição passou a chamá-los de reis, para sublinhar que até os poderosos da terra se inclinam diante de Cristo.

Quantos eram?

Mateus não informa o número. A tradição fixou em três, por causa dos três presentes:

  • ouro,
  • incenso,
  • mirra.

Em outras tradições antigas, especialmente no Oriente cristão, fala-se até em doze magos, o que mostra que o número nunca foi o essencial.

Seus nomes

Os nomes Gaspar, Melquior e Baltasar surgem apenas séculos depois, em textos e tradições populares do cristianismo ocidental. Eles não fazem parte do relato bíblico, mas ajudaram na catequese e na arte cristã, tornando os Magos figuras mais próximas do povo.

O sentido teológico dos Magos

Para Mateus, o mais importante não é quem eles eram em termos biográficos, mas o que representam:

  • São estrangeiros, não judeus → simbolizam todos os povos;
  • Buscam a verdade com sinceridade → representam a humanidade em busca de Deus;
  • Sabem ler os sinais, mas precisam da Escritura (em Jerusalém) → mostram que a razão e a fé caminham juntas;
  • Ajoelham-se diante do Menino → reconhecem em Jesus o verdadeiro Rei e Salvador.

Enquanto isso, os que tinham a Lei e os profetas (Herodes e os doutores da Lei) não se movem. Mateus faz, assim, um contraste forte: quem está longe se aproxima; quem está perto não reconhece.

Assim, os Magos eram sábios do Oriente, estudiosos dos astros, estrangeiros à fé de Israel, que se tornam os primeiros a reconhecer Cristo como luz para todas as nações. Na liturgia da Epifania, eles não são celebrados por seu poder ou saber, mas porque souberam colocar seu conhecimento a serviço da busca de Deus e se deixaram conduzir até o encontro com Jesus.

Por que exatamente 6 de janeiro?

A escolha do 6 de janeiro está ligada às origens do calendário litúrgico cristão no Oriente. Nos primeiros séculos, especialmente nas Igrejas orientais, essa data celebrava simultaneamente vários aspectos da manifestação de Cristo:

  • o Nascimento do Senhor,
  • a visita dos Magos,
  • o Batismo de Jesus no Jordão,
  • e, em algumas tradições, o primeiro milagre nas Bodas de Caná.

Todos esses eventos têm algo em comum: são momentos em que a identidade de Jesus se torna visível, revelada.

Somente mais tarde, no Ocidente, a celebração do Natal foi fixada em 25 de dezembro, e o dia 6 de janeiro passou a ser dedicado especificamente à Epifania, com foco na visita dos Magos.

A festa dos Santos Reis

A tradição popular chamou a Epifania de Festa dos Santos Reis porque o episódio dos Magos ganhou grande força simbólica e catequética. Embora o Evangelho não diga que eram reis nem quantos eram, a tradição cristã:

  • associou-os a reis a partir de textos proféticos do Antigo Testamento (como Is 60,1-6 e Sl 72),
  • fixou o número em três, em razão dos presentes oferecidos: ouro, incenso e mirra.

Esses dons também têm significado teológico:

  • ouro: reconhece Jesus como Rei;
  • incenso: proclama sua divindade;
  • mirra: antecipa sua humanidade sofredora e sua morte.

A Folia de Reis é muito comum ainda no Brasil. Inclusive a foto acima é a visita da Folia de Reis na Comunidade Divino Mestre das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre em Cabreúva/SP. Eles vão todos os anos lá.

A Folia de Reis, embora bastante comum no Brasil, não tem uma manifestação homogênea em todo o país. Trata-se de uma das manifestações religiosas populares mais difundidas ligadas à Epifania do Senhor e à devoção aos Santos Reis, especialmente entre os dias 25 de dezembro e 6 de janeiro (ou até 20 de janeiro, em algumas regiões).

A Folia de Reis é particularmente forte no Brasil nas regiões do Sudeste (Minas Gerais, interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo); do Centro-Oeste (Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul); e em partes do Nordeste, com variações locais. Em Minas Gerais, por exemplo, ela é considerada um patrimônio cultural imaterial em muitos municípios, com grupos ativos há gerações.

A tradição da folia dos Reis veio com os portugueses, sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, como uma forma de catequese popular. No Brasil, ela se misturou a elementos indígenas, a influências africanas e à religiosidade do interior rural. Por isso, não existe uma única Folia de Reis, mas muitas folias, cada uma com estilo, instrumentos, cantos e rituais próprios.

Estrutura da Folia

Apesar das variações, alguns elementos são comuns:

  • o grupo de foliões, que percorre casas e comunidades;
  • a bandeira ou estandarte dos Santos Reis, objeto central de devoção;
  • os instrumentos (viola, sanfona, caixa, pandeiro, reco-reco);
  • os cantos que narram a viagem dos Magos até Belém;
  • a figura do embaixador ou mestre, que conduz a cantoria;
  • e os palhaços, com função simbólica e ritual (proteção do grupo, distração, vigilância).

Sentido religioso e comunitário

Mais do que uma apresentação folclórica, a Folia de Reis é:

  • uma peregrinação cantada,
  • uma forma de oração em movimento,
  • um gesto de bênção das casas e das famílias.

Ao receber a Folia, a família acolhe simbolicamente os Santos Reis em sua casa, partilha alimentos e fortalece os laços comunitários. A festa mistura fé, música, convivência e memória.

Embora tenha perdido força em alguns centros urbanos, a Folia de Reis continua viva em muitas cidades do interior; vem sendo retomada por jovens e grupos culturais; é valorizada por políticas de preservação da cultura popular. Em muitas paróquias, ela também foi integrada à pastoral popular, ajudando a manter viva a ligação entre liturgia, devoção e cultura do povo.

A Folia de Reis é, sim, muito comum no Brasil, sobretudo fora dos grandes centros, e constitui uma expressão riquíssima da fé cristã inculturada: une Epifania, música, caminhada, hospitalidade e anúncio, fazendo da casa do povo um lugar onde Cristo continua a se manifestar.

Um significado que permanece atual

Celebrar a Epifania em 6 de janeiro é afirmar que Deus não se esconde, mas se dá a conhecer; que a fé cristã não é fechada em si mesma, mas aberta ao mundo; e que todos os povos, culturas, famílias são convidados a reconhecer a luz que brilha em Cristo.

Por isso, a Epifania é mais do que uma lembrança histórica: é um convite permanente a acolher a revelação de Deus e a caminhar, como os Magos, guiados pela luz da fé, até o encontro com Jesus.

Por que no Brasil celebramos esta solenidade no Domingo?

No Brasil, a Epifania do Senhor não é celebrada no dia 6 de janeiro, mas transferida para o domingo mais próximo, por uma decisão pastoral e litúrgica da Igreja, aprovada pela Santa Sé e prevista nas normas do calendário litúrgico.

O motivo central é garantir a participação do povo. O dia 6 de janeiro não é feriado civil no Brasil; quando cai em dia de semana, grande parte dos fiéis trabalha, estuda ou não consegue participar da celebração eucarística. Ao transferir a solenidade para o domingo, a Igreja assegura maior presença da comunidade, preserva o caráter solene da festa, favorece a catequese e a vivência litúrgica do mistério celebrado.

Essa prática segue um princípio pastoral importante: as grandes solenidades ligadas ao mistério de Cristo devem ser celebradas quando o povo pode realmente participar.

Fundamento litúrgico

A possibilidade de transferência está prevista nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário, especialmente nos números que tratam das solenidades do Senhor. A Epifania está entre as festas que, em alguns países, podem ser celebradas no próprio dia 6 de janeiro ou no domingo entre 2 e 8 de janeiro.

Cada Conferência Episcopal, como a CNBB, pode optar pela transferência, desde que haja aprovação da Sé Apostólica — o que acontece no caso do Brasil.

Outro aspecto importante é a organização do Tempo do Natal. No Brasil, a celebração dominical da Epifania mantém o ritmo das celebrações dominicais e ajuda a comunidade a compreender melhor a progressão do mistério: Natal → Epifania → Batismo do Senhor. Assim, a Epifania não “perde” seu valor, mas é integrada de modo mais claro ao caminho litúrgico do povo.

E em outros países?

Em muitos países da Europa e da América Latina, como Espanha, Itália, Alemanha e Portugal, o dia 6 de janeiro é feriado civil; por isso, a Epifania é celebrada na data fixa. Onde isso não acontece, como no Brasil, a transferência para o domingo é uma adaptação legítima, não uma mudança do sentido da festa.

Portanto, no Brasil, a Epifania é celebrada no domingo e não em 6 de janeiro porque:

  • o dia não é feriado civil;
  • a Igreja prioriza a participação do povo;
  • a transferência é permitida pelas normas litúrgicas;
  • a decisão foi tomada pela CNBB com aprovação da Santa Sé.

Trata-se, portanto, de uma escolha pastoral que busca tornar a celebração mais acessível, sem perder sua profundidade teológica: a manifestação de Cristo como luz para todos os povos.


Texto de Ir. Julia Almeida que é Irmã Pia Discípula do Divino Mestre. Escreve neste site desde 2015. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.




4º DIA NA OITAVA DO NATAL: A SAGRADA FAMÍLIA E O NATAL VIVIDO NO TERRITÓRIO DA FRAGILIDADE

Domingo, 28 de Dezembro de 2025
Sagrada Família de Jesus, Maria e José, Festa, Ano A
4º Dia na Oitava de Natal

Leituras: Eclo 3,3-7.14-17a | Sl 127(128),1-2.3.4-5 (R. cf.1) | Cl 3,12-21 | Mt 2,13-15.19-23

O Evangelho proclamado neste Domingo da Sagrada Família (Mt 2,13-15.19-23) nos conduz a um Natal que se afasta decisivamente de qualquer imagem idílica ou sentimentalizada. O Menino que nasceu em Belém não permanece envolto apenas pela doçura da manjedoura, mas é imediatamente lançado ao centro de uma história marcada pela ameaça, pela instabilidade e pelo deslocamento. A família de Jesus se vê obrigada a fugir, a atravessar fronteiras, a viver o exílio como condição de sobrevivência. O Natal, aqui, revela sua face mais desconcertante: Deus nasce vulnerável, e essa vulnerabilidade não é superada, mas assumida como caminho.

Mateus nos apresenta uma família em movimento, guiada por sonhos, por escutas noturnas, por decisões tomadas no limite da urgência. José não age a partir de garantias, mas de discernimentos frágeis, feitos no escuro da história. O anjo fala em sonho, não em plena luz do dia; a rota é improvisada; o destino, incerto. A Sagrada Família não habita o espaço da segurança, mas o da confiança. E isso já nos desloca profundamente: a encarnação não organiza a vida a partir do controle, mas da resposta fiel dentro de um mundo instável.

Celebrar a Sagrada Família no coração do tempo do Natal é reconhecer que a família de Jesus não é modelo por perfeição moral ou por estabilidade estrutural, mas por sua capacidade de permanecer unida no meio da ameaça. Trata-se de uma família ferida desde o início, atravessada pelo medo de Herodes, pelo risco da morte, pela condição de estrangeira. O Filho de Deus cresce como refugiado. O Salvador do mundo aprende a viver fora de casa.

Nesse sentido, o Evangelho desmonta qualquer tentativa de reduzir a família cristã a um ideal fechado, homogêneo ou autossuficiente. A Sagrada Família é uma realidade aberta, exposta, atravessada pela história e por suas violências. Ela não se constitui a partir de um projeto perfeitamente planejado, mas de uma escuta contínua da vontade de Deus em meio ao caos dos acontecimentos. A fé, aqui, não elimina a complexidade da vida; ao contrário, se enraíza nela.

As demais leituras do dia não suavizam essa tensão, mas a aprofundam. O livro do Eclesiástico, ao falar das relações familiares, insiste no cuidado, na honra, na responsabilidade mútua. No entanto, essa sabedoria não é ingênua: ela nasce da consciência de que os vínculos humanos são frágeis e exigem cultivo, paciência, atenção cotidiana. Honrar pai e mãe, cuidar dos mais velhos, sustentar os laços não é um gesto automático, mas um exercício constante de reconhecimento da alteridade dentro da própria casa.

O Salmo 127 canta a felicidade daquele que teme o Senhor e anda em seus caminhos, associando essa bem-aventurança à fecundidade da vida familiar. Contudo, essa fecundidade não se confunde com prosperidade fácil ou sucesso visível. Trata-se de uma bênção que se manifesta na capacidade de gerar vida mesmo em contextos adversos, de encontrar sentido no ordinário, de reconhecer a presença de Deus no trabalho, na mesa partilhada, no cotidiano atravessado por limites.

A carta aos Colossenses, por sua vez, propõe uma ética relacional marcada pela misericórdia, pela mansidão, pela paciência. Não se trata de uma moral rígida, mas de uma disposição interior que reconhece a imperfeição como parte constitutiva da vida comum. Vestir-se de compaixão, suportar-se mutuamente, perdoar: tudo isso pressupõe conflito, diferença, desgaste. A família cristã, iluminada pelo Natal, não é o lugar da ausência de tensões, mas o espaço onde elas podem ser atravessadas sem que o vínculo se rompa.

À luz dessas leituras, o Evangelho de Mateus ganha ainda mais densidade. A fuga para o Egito não é apenas um episódio histórico, mas uma chave simbólica poderosa. Ela nos fala de um Deus que não se impõe pela força, mas que se insere na história aceitando suas contradições. O nascimento de Jesus não inaugura um mundo sem violência; inaugura uma presença capaz de atravessar a violência sem reproduzi-la.

Vivemos hoje em uma cultura que tende a rejeitar tudo aquilo que não se encaixa em narrativas de eficiência, positividade e desempenho. O sofrimento é visto como falha, a fragilidade como incompetência, a dependência como ameaça à autonomia. Nesse contexto, o Natal corre o risco de ser transformado em um produto emocional, uma experiência anestesiante que promete conforto sem conversão. O Evangelho da Sagrada Família resiste a essa lógica: ele nos devolve um Natal inquieto, que não fecha os olhos para a dor do mundo.

A história de José, Maria e Jesus nos convida a pensar a família não como refúgio contra a realidade, mas como lugar de mediação com ela. É no interior da família que se aprende a lidar com o imprevisível, a acolher o outro em sua vulnerabilidade, a reconhecer que a vida não se deixa reduzir a esquemas simples. A Sagrada Família nos ensina que amar é permanecer, mesmo quando tudo convida à fuga e, paradoxalmente, saber fugir quando permanecer significa morrer.

Há, nesse relato, uma profunda crítica à ilusão de controle que marca nossa época. Herodes representa o poder que tenta garantir sua estabilidade eliminando o que ameaça sua ordem. A Sagrada Família, ao contrário, escolhe o caminho da retirada, da invisibilidade, da resistência silenciosa. Deus não confronta o poder com mais poder; responde com a fragilidade de uma vida protegida no seio de relações cuidadosas.

O tempo do Natal, prolongado na oitava, nos educa para essa lógica paradoxal. Celebrar o nascimento de Cristo não é escapar da complexidade do mundo, mas aprender a habitá-la com esperança. A Sagrada Família não resolve os conflitos da história; ela atravessa a história confiando que Deus está presente mesmo quando tudo parece instável.

Neste domingo, somos convidados a contemplar nossas próprias famílias à luz dessa narrativa. Não como realidades ideais, mas como espaços concretos onde a graça se manifesta em meio às imperfeições. Famílias feridas, deslocadas, cansadas, mas ainda capazes de escutar, de cuidar, de proteger a vida. O Natal não nos pede perfeição; pede fidelidade no meio do caminho.

Assim, a festa da Sagrada Família nos devolve ao essencial: Deus escolheu nascer e crescer dentro de uma história humana real, complexa e vulnerável. E continua a fazê-lo sempre que, em meio às ameaças e incertezas, escolhemos proteger a vida, sustentar os vínculos e confiar que, mesmo no exílio, Deus caminha conosco.



FELIZ E SANTO NATAL!

A todos os que acompanham as publicações do site piasdiscipulas.org.br, nós, Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre, manifestamos nossa sincera gratidão pela caminhada vivida ao longo de 2025. Desejamos a você e a toda a sua família um Feliz e Santo Natal. Que o Divino Mestre abençoe sua vida e renove em seu coração a paz, a esperança e o amor.



“Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é Cristo Senhor” (Lc 2,11).

O Senhor fez resplandece esta noite santa com o esplendor da verdadeira luz!! (liturgia).

Uma das maiores obras de Deus em favor de todos nós, uma das maiores ‘liturgias’ de Deus, portanto, foi quando ele nos ‘presenteou’ seu próprio Filho para ser o nosso Salvador. Desde muito tempo, Deus vinha se mostrando um ‘tremendo apaixonado’ pela nossa humanidade. E, enfim, depois de um longo período de ‘noivado’, em todo o Antigo Testamento, Deus acabou se ‘casando’ com a humanidade, na pessoa de Maria. Realizou-se a promessa, realizou-se a profecia (cf. Is 62,1-5). E deste ‘casamento’ resultou – por obra do Espírito Santo! – uma ‘gravidez’ e, por esta ‘gravidez’, foi-nos dado Jesus, Filho de Deus, Emanuel (Deus-conosco!) (cf. Mt 1,18-25): ‘O Verbo eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1,14). Que maravilhosa obra de Deus em favor da humanidade!… […] um enorme bem que Deus fez para nós, através do ‘sim’ de Maria: O Verbo eterno de Deus ‘mergulhou’, de cabeça, para dentro do imenso e abissal mistério da nossa existência humana. É muito amor por nós! […] no Natal, podemos ouvir a auspiciosa notícia do anjo: ‘Não tenham medo! Eu lhes anuncio uma grande alegria, que deve ser espalhada para todo o povo. Hoje… nasceu para vocês um Salvador, que é o Cristo Senhor’. E um coral imenso de anjos irrompe num alegre hino de louvor: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados’ (cf. Lc 1,10-14). Paz na terra aos homens (e mulheres) amados por ele!… Deus nos amou e, deste amor resultou para nós a paz, que no fundo é sinônimo de vida. E nisto está precisamente a sua admirável grandeza: ‘A glória de Deus é a vida do ser humano’ (Santo Irineu). ARIOVALDO DA SILVA, José. A liturgia do natal, apostila.



TEMPO DO NATAL: A LUZ QUE DESFAZ O SILÊNCIO DO MUNDO

Reflexão para o Natal do Senhor — 25 de dezembro de 2025
Solenidade | Ano A | 1º dia da Oitava de Natal

Leituras: Is 52,7-10 | Sl 97(98),1.2-3ab.3cd-4.5-6 (R. 3cd) | Hb 1,1-6 | Jo 1,1-18

Com o Natal iniciamos um novo tempo litúrgico, curto, intenso e luminoso: o tempo do Natal, que se estende até a Festa do Batismo do Senhor. É um período que não se alonga em semanas, mas se aprofunda em mistério. Não é uma estação longa, mas densa: nela celebramos a proximidade de Deus, que decide entrar na história pela porta mais frágil da condição humana.

As leituras desta solenidade nos situam no coração desse acontecimento. Elas revelam um Deus que não se deixa capturar pela superficialidade nem pelo ruído do mundo; ao contrário, Ele se comunica no movimento discreto, nos pequenos sinais, nas rupturas necessárias, na tensão entre transcendência e proximidade.

A liturgia do Natal é sempre uma convocação para recuperar a sensibilidade: uma sensibilidade que reconhece a beleza escondida, a profundidade das relações, a delicadeza dos gestos e a força que brota do silêncio.

“Que pés tão belos…!”: a beleza que corre pelas montanhas

Isaías, com sua poesia profética, anuncia: “Que pés tão belos os do mensageiro que anuncia a paz!”. Ele celebra a chegada de boas notícias em um mundo ferido. A alegria é descrita como algo que irrompe, que corre pelas montanhas, que desperta a cidade adormecida.

Essa imagem é profundamente atual. Vivemos em um mundo difícil, marcado pela saturação de estímulos, pelo cansaço emocional e pela aceleração que desgasta. Notícias chegam de todos os lados, mas poucas trazem vida. Isaías nos lembra que a verdadeira boa notícia não é aquela que se impõe pelo impacto, mas aquela que devolve sentido.

O mensageiro é belo não pela aparência, mas pela esperança que carrega.
A beleza nasce quando algo nos devolve a confiança de que o mundo ainda pode ser recriado.

O Natal é esse tipo de notícia. Não uma informação, mas uma transformação.

Um cântico novo: a alegria que desperta o mundo

O Salmo 97 convida toda a terra a cantar “um cântico novo”. É a renovação da criação diante do Deus que age. Mas o que significa cantar algo novo?

Em tempos marcados pela repetição, pelo excesso e pela fadiga, um cântico novo é aquilo que rompe o ciclo da superficialidade. É o gesto espiritual que devolve frescor ao coração. É a capacidade de olhar a vida não com olhos gastos, mas com olhos renovados.

O Natal pede exatamente isso: renovar o olhar. Perceber a vida para além dos padrões cansados. Reconhecer que há luz escondida no cotidiano. Reencontrar a capacidade de maravilhar-se.

A alegria que o salmo anuncia não é entusiasmo passageiro. É alegria que nasce da percepção profunda de que Deus se envolve com a história, que Ele se deixa tocar pelo humano, que Ele abre brechas de esperança onde só víamos limites.

“Muitas vezes e de muitos modos…”: Deus que fala no Filho

A Carta aos Hebreus lembra que Deus sempre falou, desde o princípio. Mas agora Ele fala de modo definitivo: pelo Filho. Não é mais uma palavra fragmentada, mas uma palavra plena, encarnada, concreta.

Em uma cultura que vive de discursos infinitos, de opiniões que se multiplicam e de informações que se sobrepõem, essa afirmação é libertadora. O excesso de palavras pode nos deixar anestesiados. A quantidade de vozes pode nos dispersar. A saturação comunicativa pode nos roubar o essencial.

O Natal devolve simplicidade à comunicação divina: Deus não fala mais conceitos, Ele se faz pessoa. Ele não entrega discursos, Ele entrega uma presença. Ele vem como criança justamente para nos ajudar a reaprender: a escutar com o coração, a olhar com profundidade, a tocar com cuidado, a acolher com ternura.

Na criança de Belém, Deus reduz a complexidade de seus sinais a algo palpável, sensíveis aos gestos mais frágeis.

“E a luz brilhou nas trevas”: a vulnerabilidade como revelação

O Evangelho de João não descreve a noite de Belém; ele mergulha no mistério antes de Belém: “No princípio era o Verbo…” É um texto que se move entre abismos e claridades, entre trevas e luz.

O que impressiona nesse prólogo é a força da vulnerabilidade. A luz entra no mundo não como clarão que ofusca, mas como chama que se oferece. Ela não destrói a escuridão; ela a atravessa.

Em um tempo que muitas vezes rejeita a fragilidade, que esconde limites e que insiste em performances constantes, o Natal anuncia algo diferente: a fragilidade é o lugar onde a luz entra.

A beleza do Verbo que se faz carne está justamente em sua proximidade radical. Deus não vem como força distante, mas como presença vulnerável. Ele entra na complexidade do mundo: suas contradições, tensões, ambivalências. Ele abraça a condição humana desde o começo, desde o corpo, desde o choro, desde a necessidade. A luz que João anuncia é luz que toca o chão.

Um novo tempo: o tempo do Natal

Com esta solenidade, entramos no Tempo do Natal, um tempo breve, mas profundamente simbólico. Ele não se dispersa em muitos domingos. Ele se concentra na intensidade dos mistérios: o nascimento, a Sagrada Família, Maria, Mãe de Deus, a Epifania, e o Batismo do Senhor.

Nesses dias, a liturgia nos convida a uma pedagogia espiritual: a aprender de novo a ser humano. Natal não é apenas celebrar o nascimento de Jesus; é celebrar que, com Ele, também nossa humanidade renasce. Somos chamados a reencontrar a ternura perdida, a simplicidade dos gestos, a presença real nas relações, a profundidade do sentido, o cuidado com a vida concreta, a atenção ao que é pequeno e essencial.

Em um mundo que tende ao excesso, o Natal nos devolve o essencial.
Em um mundo que se acelera, o Natal nos devolve o ritmo da gestação.
Em um mundo que dispersa, o Natal recolhe.
Em um mundo que esgota, o Natal repousa.

O tempo do Natal é curto, mas basta um instante de verdade para transformar o coração.

Concluir no silêncio

O Evangelho termina com uma frase que é, ao mesmo tempo, convite e promessa: “E vimos a sua glória.”

Quem consegue ver essa glória?
Não os que correm, mas os que param.
Não os que acumulam, mas os que se abrem.
Não os que dominam, mas os que acolhem.
Não os que falam sem parar, mas os que escutam o silêncio.

O Natal se revela para quem permite que a luz toque o interior. Neste dia santo, a Igreja proclama: A luz brilhou. A luz permanece. A luz não será vencida.

Que este Natal nos encontre disponíveis: à presença de Deus, à simplicidade da vida, ao silêncio que cura, à ternura que salva, à luz que nasce no mais frágil. E que, iniciando este tempo tão breve e tão intenso, possamos reconhecer, em cada gesto de amor e em cada encontro verdadeiro, a mesma luz que iluminou a noite de Belém e continua a transformar o mundo desde dentro.