LITURGIA DO DIA: A CORAGEM DE SERVIR COM FIDELIDADE

Liturgia do Dia – 19 de Novembro de 2025

Memória de Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castillo, presbíteros e mártires
33ª Semana do Tempo Comum

No Evangelho de hoje (Lc 19,11-28), Jesus conta a parábola dos servos que recebem moedas para administrar enquanto o senhor parte em viagem. A narrativa revela o desejo profundo de Deus: que cada pessoa faça frutificar os dons recebidos, colocando-os a serviço do Reino. O senhor da parábola não exige dos servos aquilo que não lhes foi dado, mas espera fidelidade, coragem e disposição em assumir responsabilidades, mesmo diante de riscos e incertezas.

O contraste entre os servos que trabalham e aquele que esconde a moeda expressa duas posturas espirituais. A primeira é a da confiança: reconhecer que tudo vem de Deus e pode ser devolvido multiplicado em forma de amor, justiça, serviço e compromisso. A segunda é a do medo: paralisia, fechamento em si mesmo e incapacidade de permitir que o dom se torne vida para outros. A censura dirigida ao servo que nada fez lembra-nos que a omissão também tem peso no caminho de fé; não basta “não fazer o mal”, é preciso fazer o bem possível.

O Evangelho de Lc 19,11-28 termina de forma bastante forte. Depois de elogiar os servos que fizeram render as moedas e de repreender o que a escondeu, Jesus conclui a parábola dizendo: “Quanto aos meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente.” (Lc 19,27)

Esse desfecho duro cumpre duas funções fundamentais na mensagem de Jesus: a primeira, revela a seriedade da escolha pelo Reino. Esse final deixa claro que rejeitar o Reino de Deus não é algo neutro.
A parábola não fala apenas da omissão do servo medroso, mas também da resistência ativa daqueles que “não querem que Ele reine”. A cena simboliza o juízo final: Deus respeita a liberdade humana, mas essa liberdade tem consequências. A recusa do reinado de Deus é, ao mesmo tempo, recusa da vida.

Ele adverte sobre a responsabilidade de quem recebe dons. O servo que não faz render a moeda é contrastado não só com os servos fiéis, mas também com os inimigos do rei. Isso funciona como um alerta: não basta não fazer o mal; é preciso fazer o bem possível, utilizando os dons recebidos para a construção do Reino. A parábola liga omissão e rejeição: quem se fecha sobre si mesmo, mesmo sem atacar, acaba colaborando com a lógica do “não-reinado” de Deus.

Este desfecho também prepara a entrada de Jesus em Jerusalém. Ou seja, este bramo antecede diretamente a entrada triunfal de Jesus na cidade (Lc 19,28ss). Assim, Jesus se apresenta como o Rei que vem, mas não um rei dominador, e sim o Rei que oferece salvação. No entanto, sua realeza exige decisão: acolher ou rejeitar.

E por fim, este desfecho reforça o chamado à fé corajosa. A dureza do final não pretende inspirar medo, mas responsabilidade e seriedade espiritual. A parábola inteira gira em torno da confiança: quem confia, arrisca; quem teme, paralisa-se; quem rejeita, fecha-se à vida. O final sublinha que o tempo de Jesus é momento de decisão: a fé verdadeira transforma a vida e a vida transformada testemunha o Reino.

A leitura deste Evangelho na 33ª Semana do Tempo Comum, imediatamente antes do Advento, tem um valor espiritual muito profundo. A Igreja, nesses últimos dias do ano litúrgico, orienta nossa atenção para o sentido último da vida, para o juízo, para a vinda do Senhor e para a responsabilidade cristã. A parábola das moedas, com sua forte conclusão, encaixa-se perfeitamente nesse contexto.

Ele nos prepara o coração para a vinda do Senhor. O Advento é tempo de esperança e vigilância, e a liturgia das últimas semanas do Tempo Comum nos ajuda a ajustar essa vigilância. A parábola dos servos que devem administrar o que receberam até o retorno do Senhor é um convite direto a despertar do comodismo, revisar o próprio caminho, reavivar o desejo pela vinda de Cristo. A Igreja quer que entremos no Advento não adormecidos, mas alertas e desejosos de Deus.

Ele também recorda que somos administradores, não donos. A proximidade do novo ano litúrgico é um chamado a avaliar como usamos o tempo, os dons, a fé e as oportunidades que Deus nos deu ao longo do ano que termina. A parábola mostra que não se trata de “guardar” a fé, mas de fazê-la frutificar. Assim, antes do Advento, ela nos ajuda a perguntar:

  • Como vivi a fé este ano?
  • O que Deus me confiou e como respondi?
  • Em que preciso crescer antes de começar um novo tempo de graça?

Também nos ajuda a reacender a responsabilidade: vigiar é agir. O servo que esconde a moeda representa quem vive a fé de forma estática, paralisada. Às portas do Advento, esse Evangelho ensina que esperar o Senhor não é cruzar os braços, mas servir, amar, construir, multiplicar. O Advento é expectativa, mas uma expectativa ativa, missionária.

Portanto, nos convida à conversão, antes que comece o novo ciclo. O final da parábola, com o juízo sobre os servos e os inimigos do rei, lembra a dimensão escatológica da fé: Cristo virá. Essa memória conduz à conversão imediata, preparando interiormente o fiel para viver o Advento como tempo de purificação, de esperança, de reencontro com Deus, de reorientação da vida. É como fazer uma limpeza espiritual antes da chegada do hóspede esperado.

Nos últimos domingos do ano litúrgico celebramos Cristo Rei. Este Evangelho apresenta Jesus justamente como esse Rei que entrega dons, se ausenta por um tempo, volta para pedir contas. À luz disso, o Advento não é apenas preparação para o Natal, mas para a segunda vinda de Cristo, quando Ele reinará plenamente.

A leitura deste Evangelho na semana que antecede o Advento:

  • nos desperta,
  • nos responsabiliza,
  • nos convida a rever nossa vida,
  • nos prepara para acolher Cristo com o coração ativo e fecundo.

A primeira leitura (2Mc 7,1.20-31) apresenta o testemunho heroico da mãe e de seus filhos, que permanecem fiéis à Lei de Deus diante da perseguição. A coragem deles ecoa o chamado do Evangelho: viver a fé de modo coerente, mesmo quando somos pressionados a escondê-la ou silenciá-la. Assim como os mártires de hoje — Santos Roque González, Afonso Rodríguez e João de Castillo — testemunharam Cristo com a própria vida, também nós somos convidados a fazer render a graça que recebemos, oferecendo-nos diariamente no serviço e na verdade.

O salmo responsorial proclama: “Eu, por minha justiça, contemplarei a vossa face; ao despertar me saciará a vossa presença” (Sl 16). Essa promessa ilumina todo o sentido de nossa entrega: no fim, não buscamos recompensas, mas a alegria plena de viver diante de Deus e com Ele.

Que a liturgia de hoje nos inspire a assumir com coragem as moedas, isto é, os dons que nos foram confiados: nossas capacidades, nossa fé, nossas oportunidades, e a fazê-los frutificar em favor dos irmãos. E que, sustentados pelo exemplo dos mártires, possamos viver uma vida transparente, generosa e fiel ao Evangelho.



ACENDER A COROA DO ADVENTO

O tempo do Advento é marcado pela atitude de espera vigilante a fim de captar todos os sinais que Deus vai nos revelando.

Desde o primeiro domingo, somos interpelados (as) como  Isaías, João Batista e Maria, a fortalecer a esperança, assumir a história de uma maneira diferente, lutar para pôr fim a uma cultura de morte e proclamar com atos e palavras que a vida é mais forte. De domingo a domingo vai crescendo em nós, na comunidade, no universo inteiro, a certeza de que a luz brilha nas trevas e que Deus nos ama a tal ponto que se faz gente como nós. E assim, o dom vai crescendo em nós e nos tornando capazes de ir ao encontro das outras pessoas, de esparramar no mundo a solidariedade, a esperança, a justiça, a paz…

Com certeza, utilizando a coroa do advento nas comunidades, com toda a dimensão simbólica que ela contém, será um sinal que nos ajudará a “enxergar” e a experienciar mais profundamente todo o sentido da espera do Salvador.

O acendimento da Coroa do Advento

A Coroa do Advento é um dos símbolos do ciclo do Natal. Ela contém a linguagem do silêncio. Fala através do círculo, da luz, das cores, dos gestos correspondentes… É feita de folhas verdes e nela se colocam quatro velas e quatro fitas.

É preciso preparar antecipadamente a coroa do advento no local da celebração. Eis algumas orientações:

  • Priorize o uso de materiais naturais no arranjo da coroa.
  • Deixe que a verdade dos sinais brilhe.
  • Mantenha a decoração da Coroa do Advento com sobriedade, evitando o excesso de brilho.
  • Procedendo desta forma, você celebra a feliz espera e a manifestação do Senhor, que se realiza plenamente nas festas do Natal, experimentando o valor e a beleza do tempo do Advento.
  • Coloque a coroa do Advento em um local de destaque, mas diferente do altar, respeitando-o como símbolo de Cristo.

Fonte: A coroa do Advento, Gregório Lutz, Revista de Liturgia 156: nov/dez 1999.

Sugestão de melodia para acender a Coroa do Advento




Coroa do Advento Mini em Cerâmica

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Coroa do Advento pequena em Cerâmica

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Coroa do Advento Grande em Cerâmica

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MEMÓRIA DA DEDICAÇÃO DAS BASÍLICAS DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO, APÓSTOLOS

18 de novembro de 2025

Hoje a Igreja celebra a Memória da Dedicação das Basílicas de São Pedro e São Paulo, erigidas em Roma sobre os túmulos dos dois grandes Apóstolos que sustentam, com sua fé e seu martírio, os alicerces da vida cristã.

Desde o século XII, a Igreja de Roma fazia memória anual da dedicação das duas basílicas: a de São Pedro, no Vaticano, e a de São Paulo, na Via Ostiense. As primeiras dedicatórias remontam ao século IV, realizadas pelos papas Silvestre (São Pedro) e Siriaco (São Paulo). Com o passar dos séculos, essa celebração ultrapassou os limites das basílicas romanas e passou a ser observada em todas as igrejas do Rito Romano, como sinal de comunhão com o centro da cristandade e com a fé apostólica que sustenta toda a Igreja.

Assim como, em 5 de agosto, o aniversário da Basílica de Santa Maria Maior celebra a Maternidade divina da Virgem Maria, também hoje a liturgia nos convida a venerar os Dois Príncipes dos Apóstolos. Em São Pedro, reconhecemos a rocha sobre a qual Cristo edificou sua Igreja; em São Paulo, contemplamos o ardor missionário que levou o Evangelho para além das fronteiras do povo de Israel.

Celebrar esta memória é voltar às fontes: recordar os fundamentos apostólicos, renovar a comunhão com a Igreja universal e reafirmar que nossa fé está edificada sobre testemunhas que deram a vida por Cristo. As basílicas dedicadas a Pedro e Paulo permanecem como sinais visíveis da continuidade da tradição cristã, lugares onde a memória se torna presença e onde a Igreja, ainda hoje, se reconhece unida na mesma fé.

Que esta celebração fortaleça em nós a fidelidade ao Evangelho e o desejo de testemunhá-lo com a mesma generosidade dos santos Apóstolos.

Conheça mais sobre a Basílica de São Pedro: https://www.basilicasanpietro.va/en

Conheça mais sobre a Basília de São Paulo fora dos Muros: https://www.iubilaeum2025.va/pt/pellegrinaggio/cammini-giubilari-dentro-roma/il-pellegrinaggio-delle-sette-chiese/basilica-di-san-paolo-fuori-le-mura.html


Dos Sermões de São Leão Magno, papa

(Sermo 82, in natali apostolorum Petri et Pauli 1,6-7: PL 54,426-428). (Séc. V)

É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus santos (Sl 115,15), e nenhuma crueldade pode destruir a religião fundada no mistério da cruz de Cristo. A Igreja não diminui pelas perseguições; pelo contrário, cresce. O campo do Senhor se reveste de messes sempre mais ricas, porque os grãos, que caem um a um, nascem multiplicados.

Em quantos rebentos estes dois excelentes germes da divina semente brotaram são testemunhas os milhares de santos mártires que, rivais das vitórias apostólicas, envolveram com uma multidão coberta de púrpura nossa Urbe e a coroaram com um diadema de glória, cravejado de muitas pedras preciosas.

Temos de alegrar-nos sumamente, caríssimos, com a comemoração de todos os santos por esta proteção, preparada por Deus, para exemplo e confirmação da fé. Mas, em vista da excelência destes patronos, é justo que os glorifiquemos com ainda maior exultação, porque a graça de Deus, dentre todos os membros da Igreja, os elevou ao cume. Por isso, no corpo, cuja cabeça é Cristo, constituem como que os dois olhos.

Não devemos pensar que os seus méritos e virtudes acima de toda a expressão sejam diferentes de algum modo ou tenham algo de peculiar, pois a eleição divina os tornou pares, o trabalho assemelhou-os e o fim da vida os igualou.

Por experiência pessoal e pela afirmação de nossos antepassados, cremos e confiamos que, nas lutas da vida, temos sempre a intercessão destes especiais padroeiros para obter a misericórdia de Deus; e por mais abatidos que estejamos pelos próprios pecados, somos reerguidos pelos méritos apostólicos.

Oração
Ó Deus, guarda sob a proteção dos apóstolos Pedro e Paulo a vossa Igreja, que deles recebeu a primeira semente do Evangelho, e concede que por eles receba até o fim dos tempos a graça que a faz crescer. Por nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho, na unidade do Espírito Santo.

3ª MARATONA SACROSANCTUM CONCILIUM

Tesouro de Inestimável Valor: A Sacrosanctum Concilium e a música litúrgica

No dia 4 de dezembro, celebramos os 62 anos da promulgação da Sacrosanctum Concilium – a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II. Para marcar esta data tão significativa para a vida da Igreja, será realizada a III Maratona Sacrosanctum Concilium, uma jornada online de formação e partilha.

Das 08h às 20h, especialistas em liturgia e música litúrgica conduzirão reflexões, diálogos e apresentações que aprofundam o tema “Tesouro de inestimável valor: A Sacrosanctum Concilium e a música litúrgica”.

O encontro será totalmente gratuito, sem necessidade de inscrição, e transmitido ao vivo pelos seguintes canais do YouTube:

A maratona é um convite à formação, à espiritualidade e ao aprofundamento da compreensão da música na liturgia, reconhecida pelo Concílio como tesouro precioso que eleva o coração dos fiéis e manifesta a beleza da fé.

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Sacrosanctum Concilium e a música litúrgica

A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, dedica um conjunto de artigos à música litúrgica (§112–§120), reconhecendo sua importância singular na vida de oração da Igreja. Para o Concílio, a tradição musical eclesial é um “tesouro de inestimável valor”, não pela sofisticação estética, mas porque o canto sagrado, unido ao texto litúrgico, faz parte integrante da própria ação ritual. A música, por isso, não é acessória: ela participa da comunicação simbólica da liturgia e contribui para a elevação espiritual dos fiéis.

O documento afirma que a música sacra tem um duplo propósito: a glória de Deus e a santificação dos fiéis. Por essa razão, o culto adquire maior nobreza quando celebrado com canto, envolvendo ministros, coro e assembleia. Essa dimensão comunitária do canto está diretamente ligada ao princípio da participação ativa, tão central à reforma litúrgica.

A Sacrosanctum Concilium também pede que a Igreja preserve e promova seu patrimônio musical. Isso inclui o incentivo à formação de coros, especialmente nas catedrais, e o compromisso de bispos e pastores em assegurar uma prática musical que realmente permita a participação do povo. A formação musical é destacada como fundamental: seminários, casas de formação e institutos especializados devem oferecer sólida preparação aos que atuam na liturgia.

Entre as expressões musicais, o Concílio reconhece a primazia do canto gregoriano, próprio da liturgia romana, recomendando que ele tenha lugar preferencial nas celebrações. Ao mesmo tempo, abre espaço para outras formas de música sacra, como a polifonia, desde que estejam em consonância com o espírito da liturgia e favoreçam a oração e a comunhão da assembleia. Também atribui importância ao órgão de tubos, tradicional na Igreja latina, por sua capacidade de elevar o espírito a Deus, sem excluir outros instrumentos adequados ao culto.

Por fim, o Concílio orienta que os textos destinados ao canto sejam doutrinariamente sólidos e inspirados na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas, garantindo assim que o canto seja, ao mesmo tempo, beleza estética e expressão de fé.

Assim, a Sacrosanctum Concilium oferece uma visão equilibrada e profundamente teológica da música litúrgica: tradição e participação, beleza e função ritual, formação e vida espiritual caminham juntas. A música, iluminada pelo espírito do Concílio, torna-se caminho de encontro com Deus e de comunhão entre os fiéis.

Leia na íntegra o documento da SC:

SOBRE A NOTA DOUTRINAL SOBRE OS TÍTULOS MARIANOS: MARIA ENTRE A MEDITAÇÃO E O MAL-ENTENDIDO

A nova nota publicada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé representa uma intervenção pontual, mas de grande significância, no campo da teologia mariana. Sob o título Mater Populi fidelis: “Mãe do Povo fiel”, o documento busca clarificar “em que sentido são aceitáveis, ou não, alguns títulos e expressões referentes a Maria, Mãe de Jesus” que aludem à sua cooperação na obra da salvação.

Leia a nota publicada: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20251104_mater-populi-fidelis_po.html

Essa tarefa de “aclarar” não é mera retórica: o texto aponta para uma tensão real entre a piedade popular (legítima e antiga) e certos usos teológicos ou devocionais que, segundo o documento, podem gerar “problemas importantes no que se refere ao conteúdo” (cristologia, eclesiologia, antropologia) se não forem bem ponderados.

O que a nota propõe

Três traços principais se destacam:

  1. Cooperação de Maria, mas jamais concorrência com Cristo
    A nota reafirma que Maria “cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens”. (Vaticano) Mas enfatiza que essa cooperação está radicalmente subordinada à obra única de Jesus Cristo: Ele “único Redentor”, “único Mediador entre Deus e os homens” (cf. 1 Tm 2, 5). (Vaticano)
    Em outras palavras: Maria ajuda, Maria intercede, Maria, sim, tem função materna singular na salvação, mas não se coloca como equivalente ou paralela a Cristo na mediação e redenção.
  2. Cautela com títulos específicos
    O documento dedica-se a avaliar (de modo positivo ou crítico) alguns títulos marianos que se difundiram no correr da vida da Igreja: “Corredentora”, “Medianeira (ou Medianeira de todas as graças)”, entre outros. (Vaticano)
    Por exemplo: no título “Corredentora”, reconhece-se uma figura histórica (desde o século XV) que pretende expressar a união de Maria com Cristo nos sofrimentos e na Cruz. (Vaticano) Contudo, o Dicastério alerta que esse vocábulo “corre o risco de obscurecer a única mediação salvífica de Cristo e, portanto, pode gerar confusão e desequilíbrio na harmonia das verdades da fé cristã”. (Vaticano)
    No caso “Medianeira” ou “Medianeira de todas as graças”, a nota aponta que, embora exista um uso espiritual e popular desse título, a base bíblica e patrística não o sustenta de modo suficientemente claro para definições dogmáticas ou universalizadas. (Vaticano)
    Há, portanto, uma chamada à fidelidade da linguagem: evitar termos teológicos “capciosos”, que ambicionem uma “mediação paralela” ou “dominante” de Maria, e que possam induzir a uma espiritualidade confusa ou desviada.
  3. Valorização da devoção mariana, com equilíbrio
    Importante: o tom da nota não é puramente negativo. Em sua apresentação, afirma que “a devoção mariana … é apresentada aqui como um tesouro da Igreja” e que não se trata de “corrigir a piedade do Povo fiel de Deus” que encontra em Maria “refúgio, fortaleza, ternura e esperança”. (Vaticano)
    O que se pretende é “valorizar, admirar e encorajar” essa devoção, mas com os devidos parâmetros, sobretudo cristológicos e eclesiológicos. O documento propõe, por exemplo, que Maria seja vista como a “primeira discípula” e “Mãe dos fiéis”, em comunhão com a Igreja, e não fora dela. (Vaticano)

Significado para a teologia mariana

O que esta nota significa e quais são as suas consequências para a teologia mariana? Aqui algumas reflexões críticas:

  • Clarificação necessária num contexto plural: em tempos em que a devoção mariana se diversifica de modo intenso, inclusive por redes sociais, movimentos populares, novas expressões religiosas, surge com pertinência esta nota. A teologia mariana precisava de um “balizamento” para lidar com expressões que, embora bem intencionadas, podem deslizar para territórios de ambiguidade ou de exagero. A nota exerce esse papel de clarificador.
  • Risco de polarização entre piedade e teologia: contudo, há um risco: se a teologia se coloca demasiado como “guardã” da linguagem, pode parecer distante da vivência dos fiéis que experimentam Maria como mãe e intercessora com ternura e proximidade. A nota tenta equilibrar, mas será que consegue sempre vincular os títulos aos “fundamentos bíblico-patrísticos” sem alienar a piedade popular? A tensão permanece.
  • Limites e tensões doutrinais evidenciados: ao apontar que títulos como “Corredentora” ou “Medianeira de todas as graças” carecem de maturidade teológica ou dogmática, a nota abre um debate sobre os limites da teologia mariana: até que ponto se deve definir dogmas marianos? Qual é o risco de “acréscimo” à obra de Cristo? Nesse sentido, a teologia mariana é chamada não à “ampliação” ilimitada, mas à fidelidade à verdade central: Cristo. Isso pode significar uma contenção (para alguns, talvez uma limitação) da exuberância mariana tradicional.
  • Para ecumenismo e diálogo inter-cristão: a nota também destaca que a clareza na linguagem mariana é importante para o ecumenismo. Títulos mal explicados ou exagerados podem criar mal-entendidos com comunidades cristãs que rejeitam mediações secundárias ou que atribuem a Cristo o lugar único. Portanto, a teologia mariana se reposiciona também no campo do diálogo. (Vaticano)
  • Impulso para uma mariologia “disponível”: finalmente, o documento convoca a mariologia a retomar uma dimensão “servil” ou “disponível”: Maria como aquela que aponta para Cristo (“façam o que Ele vos disser” Jo 2,5) e não se apresenta como protagonista autônoma. É uma tentativa de responder à espiritualidade contemporânea que busca sempre “novidade”, “empoderamento”, mas aqui se reafirma a “maternidade servil” de Maria. Essa ideia materna, próxima, fiel, pode renovar a teologia mariana num ambiente onde o culto mariano pode parecer simbólico em vez de radicalmente cristocêntrico.

Um olhar crítico final

A nota Mater Populi fidelis é, sem dúvida, uma contribuição valiosa para a teologia mariana: acende luzes sobre linguagens e práticas que pedem discernimento, ao mesmo tempo que valoriza a devoção fiel a Maria. Porém, ela também revela os dilemas teológicos que essa área ancora: o risco de diminuir Cristo, ou de exagerar Maria; o diálogo com a tradição versus as expressões contemporâneas; a fidelidade à fé vs. a vitalidade devocional.

Enfim, a nota Mater Populi Fidelis não é um golpe na devoção mariana; é um convite à maturidade teológica e pastoral. Recoloca-se a velha pergunta: como honrar uma mãe que sempre aponta para o Filho, sem construir em torno dela uma mediação que ofusque o único Redentor? A resposta exigirá do magistério, dos bispos e das comunidades locais uma combinação de clareza conceitual, sensibilidade pastoral e catequese amorosa.

Para muitos teólogos e fiéis, a nota será vista como um “ajuste de rota”: reafirma-se que a teologia mariana deve respeitar cuidadosamente os fundamentos cristológicos e eclesiológicos, ao mesmo tempo que mantém vivo o amor filial a Maria. Para outros, pode parecer contenção ou limitação de expressões populares que encontraram em Maria uma presença maternal profunda.

Em todo caso, a mariologia sai deste documento estimulada a uma revisão: não para contrair-se, mas para se tornar mais articulada, mais dialógica e, por que não, mais capaz de encarnar a ternura de Maria sem perder de vista a centralidade de Cristo e a missão da Igreja.

LITURGIA DO DIA: A ALEGRIA DE DEUS DIANTE DE QUEM RETORNA

Liturgia de Quinta-feira, 6 de Novembro de 2025
31ª Semana do Tempo Comum – Ano Ímpar (I)
Leituras: Rm 14,7-12 | Sl 26(27),1.4.13-14 | Lc 15,1-10

O Evangelho de hoje (Lc 15,1-10) nos apresenta duas parábolas que expressam o coração da Boa-Nova: da ovelha perdida e a da moeda perdida. Ambas são narradas por Jesus em resposta à crítica dos fariseus e mestres da Lei, escandalizados porque Ele acolhia pecadores e comia com eles. Este é o ponto de partida de toda a cena: a incompreensão de um amor que ultrapassa a lógica humana, um amor que não se contenta com a justiça dos “bons”, mas se lança à busca dos que se afastaram.

O Evangelho de Lucas 15,1-10 — a ovelha e a moeda perdidas — é um texto extraordinariamente complexo: ele rompe as simplificações religiosas e sociais e nos faz enxergar a realidade humana e divina de modo relacional, dinâmico e não linear.

O contexto: Jesus, o rosto da misericórdia

O texto começa destacando que “os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar”. Esta aproximação é fundamental: os marginalizados, aqueles que se consideravam indignos, se sentem atraídos por Jesus. Ele não os julga, mas os escuta e os acolhe. Ao contrário, os fariseus e doutores da Lei, representantes da religião institucional, murmuram e o criticam.

A partir dessa tensão, Jesus revela com as parábolas o verdadeiro rosto de Deus. Ele não é um juiz severo, mas um Pai que se alegra com o retorno do filho, um pastor que vai ao encontro da ovelha perdida, uma mulher que busca incansavelmente a moeda desaparecida. Em suma: um Deus que ama antes de ser amado, que busca antes de ser buscado.

O movimento de Deus: sair ao encontro

A primeira parábola fala de um pastor que deixa noventa e nove ovelhas no deserto para procurar uma que se perdeu. Esse gesto, aos olhos humanos, parece insensato. Mas é justamente isso que Jesus quer mostrar: o amor de Deus é “exagerado”, é graça que não calcula. Ele não se conforma com a perda de nenhum de seus filhos.

A ação do pastor é dinâmica: ele “vai atrás” até “encontrá-la” e, ao encontrá-la, “a coloca nos ombros com alegria”. Aqui está o símbolo do Cristo que carrega sobre si as nossas fraquezas. Não é o peso da ovelha que Ele sente, mas o peso da misericórdia. O encontro culmina em festa: “Alegrai-vos comigo!” — a alegria é o sinal de que o Reino de Deus se manifesta onde há reconciliação.

A segunda parábola repete a mesma lógica sob uma imagem doméstica: uma mulher que perde uma moeda acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la. Ela representa a ternura de Deus, uma busca paciente, cotidiana, silenciosa. E, mais uma vez, quando a moeda é encontrada, há festa e partilha da alegria.

Nas duas parábolas, na lógica simplificadora dos fariseus, havia apenas duas categorias: os puros e os impuros, os justos e os pecadores. Mas Jesus destrói essa fronteira. Ele revela que o “justo” e o “pecador” estão interligados, que a perda de um afeta o todo. No evangelho, a comunidade só está completa quando o perdido retorna.

A ovelha ausente compromete o sentido do rebanho. A moeda perdida empobrece o conjunto. A alegria do reencontro não é apenas da ovelha ou da mulher, mas de todos: do Pastor, da casa, dos amigos, do céu. A conversão, portanto, não é um ato individualista, mas um movimento de reintegração do todo, uma restauração da comunhão, pois o “pecado” não é apenas erro moral, mas ruptura de vínculos, perda de sentido e de pertença.

A parábola, então, não fala de uma moral estática (“quem erra precisa voltar”), mas de um processo dinâmico e regenerador, em que o erro e a perda são também lugares de revelação e crescimento.
A complexidade nos ensina que o fracasso, a queda, a dúvida — longe de destruírem a fé — podem ampliá-la, porque revelam o amor que busca e o sentido que se reconstrói.

A parábola nos mostra um processo que o sujeito se conhece na relação com o outro e com o mundo:

  • O Pastor, ao buscar a ovelha, também se transforma: ele experimenta a compaixão.
  • A mulher, ao procurar a moeda, redescobre o valor do que possuía.
  • A comunidade, ao celebrar o retorno, reaprende a alegria de estar junto.

Assim, a busca do perdido é também autoconhecimento. Deus, ao nos procurar, revela o Seu próprio rosto de amor. E nós, ao sermos encontrados, reconhecemos quem Ele é. É um movimento recíproco — relacional, circular, complexo — e profundamente humano.

O centro teológico: a alegria da conversão

O tema central das duas parábolas é a alegria de Deus. Não é a alegria do pecador que retorna, mas a alegria divina diante da conversão humana. “Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão.”

Essa frase quebra qualquer pretensão de superioridade religiosa. No Reino de Deus, o critério de valor não é o mérito, mas a misericórdia. O “céu” se alegra quando alguém recomeça, quando um coração se abre novamente ao amor. Essa alegria é partilhada entre “os anjos de Deus” — símbolo da comunhão plena que a graça cria entre o humano e o divino.

Na teologia, podemos dizer que o Evangelho nos mostra uma teofania da complexidade: Deus não é um Ser isolado no alto, mas uma teia de relações vivas, como o Pastor que se move, a mulher que busca, o céu que se alegra.

A Trindade, na tradição cristã, é a expressão suprema dessa complexidade divina: unidade na diversidade, comunhão no movimento. A parábola da ovelha perdida reflete esse dinamismo trinitário: o Pai que busca, o Filho que carrega, o Espírito que ilumina. Não há hierarquia de exclusão, mas circularidade de amor.

A autocrítica: quem somos nós na parábola?

É importante perguntar: em qual personagem nos reconhecemos? Talvez, às vezes, sejamos a ovelha perdida: afastados por escolhas, feridos pela vida, cansados de buscar sentido. Outras vezes, podemos ser os “justos” que olham de longe, com desconfiança, os que retornam. A parábola é convite a abandonar o papel do juiz e assumir o olhar do Pastor.

A conversão que Jesus propõe não é apenas moral, mas espiritual: é mudar o modo de ver o outro, de acolher o diferente, de compreender a misericórdia como critério maior da fé. Converter-se, aqui, é permitir que Deus nos encontre e nos coloque sobre seus ombros, mesmo quando achamos que podemos andar sozinhos.

A conversão não é uma mudança linear (“antes eu era mau, agora sou bom”), mas um processo em espiral, cheio de tensões, rupturas, retornos, aprendizados. O pecador não é “o outro” — é uma dimensão de cada um de nós. Em cada momento da vida, há partes de nós perdidas, dispersas, esquecidas. O Evangelho nos convida a reintegrar essas partes, a fazer o caminho do reencontro interior.

A conversão é, portanto, um ato de recomposição da unidade interior, um movimento de “ecologia espiritual”, no qual voltamos a pertencer ao todo que nos gera.

A comunhão com as outras leituras

Na primeira leitura (Rm 14,7-12), Paulo nos recorda: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum morre para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor; e se morremos, é para o Senhor.” Essa afirmação complementa o Evangelho. A ovelha perdida não pertence apenas a si mesma. Ela pertence ao rebanho, pertence ao Pastor. Assim também cada um de nós pertence ao Senhor.

A vida cristã, portanto, não é isolamento, mas comunhão. O julgamento pertence a Deus, não a nós: “Todos nós compareceremos diante do tribunal de Deus”. Isso nos liberta da tentação de condenar e nos convida a confiar na justiça e misericórdia divinas.

O salmo responsorial (Sl 26) reforça essa confiança: “O Senhor é minha luz e salvação; de quem eu terei medo?” O salmista se sabe protegido, mesmo nas trevas, porque Deus o busca e o sustenta — como o Pastor que não desiste de sua ovelha.

Iluminações para a vida cotidiana

O Evangelho de hoje tem uma força transformadora, especialmente em tempos em que o julgamento e a exclusão parecem dominar as relações humanas. A Palavra de Deus nos convida a viver com mais misericórdia e menos indiferença.

  • Na família: quantas vezes há distâncias e feridas que nos afastam uns dos outros. O chamado é para buscar o diálogo, dar o primeiro passo, não desistir de quem se afastou. O reencontro é sempre causa de alegria. Uma crise entre pais e filhos pode parecer apenas uma “desordem”, mas pode se tornar oportunidade de diálogo, perdão e maturidade. Viver este evangelho nos ensina a ver o conflito não como fim, mas como espaço de reorganização afetiva.
  • Na comunidade: às vezes olhamos com desconfiança quem retorna à Igreja depois de muito tempo, como se a conversão alheia fosse suspeita. Jesus nos pede o contrário: acolher, celebrar, partilhar a alegria do retorno. Esse afastamento pode ser também um caminho de busca, um desvio que prepara o reencontro.
  • No trabalho ou na sociedade: a lógica de Deus desmonta a cultura do descarte. Cada pessoa, mesmo aquela que “se perdeu” socialmente — por erro, vício ou fragilidade —, tem valor infinito. Ser cristão é participar dessa busca ativa, é “acender a lâmpada” e “varrer a casa” para reencontrar o que parecia perdido. Em tempos polarizados, o Evangelho nos lembra que ninguém é totalmente justo ou totalmente perdido; a realidade humana é entrelaçada, e o desafio é manter o vínculo e o diálogo mesmo nas diferenças.
  • Na vida pessoal: talvez a ovelha perdida sejamos nós mesmos. A Palavra de hoje diz que Deus não se cansa de procurar, e que o perdão é sempre possível. Permitir-se ser encontrado é um ato de fé e humildade. Nossas “perdas” — um fracasso, uma decepção, uma dúvida — podem ser o terreno fértil onde renasce uma fé mais consciente e humana.

As parábolas da ovelha e da moeda perdidas revelam que a misericórdia de Deus é o coração do Evangelho. Ele não apenas perdoa; Ele se alegra. Não apenas busca; Ele carrega. Não apenas encontra; Ele festeja.

A Palavra de Deus hoje nos impele é redescobrir o cristianismo como uma sabedoria das relações. Deus não é o oposto do mundo, mas sua profundidade; o pecado não é ruptura definitiva, mas chamada ao reencontro; a conversão não é purificação isolada, mas reintegração amorosa.

Assim, a Boa-Nova não é a história de um Deus que pune o erro, mas de um Deus que reorganiza a vida a partir da perda, como o Pastor que deixa as noventa e nove para resgatar uma só, porque sabe que sem ela, o todo está incompleto.

Hoje somos convidados a entrar nessa alegria divina, não apenas como espectadores, mas como participantes. Que o amor de Deus, sempre em busca de quem se perdeu, nos inspire a ser também buscadores de reconciliação, sinais vivos de uma misericórdia que transforma o mundo.

“Haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.” (Lc 15,10)

O ÍCONE DE TODOS OS SANTOS: UM LEITURA TEOLÓGICA

A Solenidade de Todos os Santos celebra o cumprimento da promessa de Cristo: a vocação universal à santidade e a participação plena dos justos na glória de Deus. O ícone dessa festa não é apenas uma representação artística, mas uma verdadeira teologia em cores, um testemunho visual da fé da Igreja na comunhão dos santos e na esperança escatológica.

1. O Paraíso e a Comunhão dos Justos

O ambiente do ícone representa o Paraíso, lugar de comunhão e descanso eterno dos santos. No canto inferior esquerdo, figura Abraão, que acolhe em seu seio uma alma justa, evocando as palavras de Jesus: “O pobre morreu e foi levado pelos anjos junto a Abraão” (Lc 16,22).

O “junto a Abraão” é interpretado pela Tradição como o símbolo do repouso eterno reservado aos amigos de Deus antes da ressurreição final (cf. Catecismo da Igreja Católica [CIC], §633). Ao lado de Abraão, o patriarca Jacó segura as doze tribos de Israel em um véu, imagem da totalidade do povo eleito (cf. Gn 49). No centro, encontra-se Dimas, o bom ladrão, o primeiro a receber da boca do Salvador a promessa do Paraíso: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).

Esses personagens representam os santos do Antigo Testamento, os que viveram na fé e aguardaram a plenitude da redenção. São Paulo recorda que “todos estes morreram na fé, sem ter alcançado a promessa” (Hb 11,13), mas que foram santificados pela esperança do Cristo que havia de vir.

2. A Nuvem de Testemunhas e o Cristo Glorificado

No centro do ícone aparece a grande “nuvem de testemunhas” (Hb 12,1), formada por todos os santos que perseveraram na fé e no amor de Deus. Eles estão reunidos em torno de Cristo glorioso, entronizado sobre um arco-íris, sinal da aliança eterna (cf. Gn 9,13; Ap 4,3).

Abaixo de Cristo encontra-se o Trono da Preparação (ou “Trono vazio”), diante do qual Adão e Eva se prostram. Essa imagem recorda que o mistério da salvação é recapitulador: em Cristo, o novo Adão, toda a humanidade é restaurada e reconciliada com o Pai (cf. Rm 5,18-19; Ef 1,10).

Como ensina Santo Irineu de Lião, “o Verbo de Deus, Jesus Cristo, por sua imensa caridade, fez-se aquilo que nós somos, para fazer-nos aquilo que Ele é” (Adversus Haereses, V, prefácio). Assim, o ícone manifesta a verdade da recapitulação: o homem decaído é restaurado em Cristo, e a criação reencontra seu sentido na adoração.

3. A Cruz e o Mistério Pascal

A Cruz, elemento central e insubstituível da fé cristã, aparece com frequência nos ícones sagrados, muitas vezes sustentada pelos santos imperadores Constantino e Helena. Essa representação não é meramente histórica, mas profundamente teológica: ela indica que a fé cristã venceu o mundo (cf. Jo 16,33) pela obediência amorosa de Cristo até a morte e morte de cruz (cf. Fl 2,8). Constantino e Helena simbolizam, portanto, a vitória da Cruz sobre as trevas da idolatria e do pecado, a manifestação da “força de Deus” (1Cor 1,18) que transforma a fraqueza humana em instrumento de redenção.

A Cruz é o eixo de toda a iconografia cristã, o centro em torno do qual gravitam todos os mistérios da fé. Nela se realiza o Mistério Pascal, isto é, a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, pelas quais fomos reconciliados com o Pai e conduzidos à vida eterna. Como proclama São Paulo: “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas poder de Deus e sabedoria de Deus para os que são chamados” (1Cor 1,23-24).

A presença da Cruz nos ícones e na vida da Igreja recorda constantemente que a glória dos santos nasce da participação na Paixão de Cristo. Todo discípulo é chamado a seguir o Mestre pelo mesmo caminho do amor oblativo: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Assim, a santidade não é um privilégio humano, mas fruto da comunhão com o Cristo sofredor e ressuscitado. A coroa da glória só se conquista passando pelo lenho da Cruz. É neste mistério que os santos encontram sua verdadeira configuração com Cristo, participando do seu sofrimento para participarem também da sua glória (cf. Rm 8,17).

Os Padres da Igreja insistiram nessa íntima união entre Cruz e glória. São Leão Magno, em seu Sermão sobre a Ascensão (I,2), ensina: “Onde esteve a Cabeça, deve estar o Corpo; e onde precedeu a glória da Cabeça, é chamada a esperança do Corpo.” Com estas palavras, o santo doutor recorda que a Igreja, Corpo de Cristo, é chamada a participar da glória do Ressuscitado por meio da fidelidade à Cruz. O caminho do discípulo é o mesmo do Mestre: do Calvário à Ressurreição, do sofrimento à vida plena em Deus.

Os ícones, ao colocarem a Cruz no centro, proclamam visualmente o coração do Evangelho: a vitória da vida sobre a morte. A Cruz é, ao mesmo tempo, o trono e o altar de Cristo, o sinal visível do amor divino levado até o extremo (cf. Jo 13,1). Diante dela, o cristão é convidado não apenas à contemplação, mas à conversão, à conformidade com Aquele que, “tendo amado os seus, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Em suma, a Cruz é o símbolo por excelência da esperança cristã. É nela que os santos encontraram a força para perseverar, e é dela que brota a luz que ilumina o caminho de todos os fiéis. Contemplar a Cruz é, portanto, entrar no Mistério Pascal, participar da dinâmica do amor redentor e deixar-se transformar pela graça que dela irradia.

4. A Comunhão dos Santos: Unidade na Diversidade

Os santos são retratados em fileiras que refletem a diversidade dos dons e ministérios: apóstolos, mártires, confessores, doutores, monges, virgens e pastores. Essa disposição visual recorda a unidade da Igreja, Corpo de Cristo, na multiplicidade dos carismas (cf. 1Cor 12,4-27).

O Apocalipse descreve essa comunhão celeste: “eis uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé diante do trono e do Cordeiro, vestidos de branco e com palmas nas mãos” (Ap 7,9).

O Catecismo ensina que “todos os que estão unidos a Cristo formam uma só Igreja, no céu, na terra e no purgatório” (CIC, §954). Essa comunhão transcende o tempo e o espaço, constituindo o mistério da Igreja una e indivisível, que vive simultaneamente em três estados: peregrina, purgante e gloriosa.

5. Dimensão Escatológica e Juízo Final

O ícone de Todos os Santos compartilha muitos elementos com o do Juízo Final, pois ambos remetem à plenitude da história da salvação e à esperança na Parusia. A presença dos quatro seres viventes e dos anjos (cf. Ap 4,6-8) reforça essa dimensão apocalíptica.

A visão iconográfica é um chamado à conversão, lembrando que o triunfo dos santos é fruto da fidelidade ao Evangelho e da perseverança até o fim (cf. Mt 24,13). Como adverte Santo Agostinho, “toda a vida do cristão é um exercício de desejo. Tu te tornarás aquilo que desejas, se desejares a Deus” (Comentário ao Salmo 37, sermão 2).

6. A Luz Divina e a Theosis

A mandorla de luz que envolve Cristo e os santos expressa a glória divina que transfigura os bem-aventurados. É o símbolo da theosis (divinização), a participação do homem na vida divina pela graça: “Pelas promessas de Cristo, nos tornamos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4).

Os Padres gregos, como Santo Atanásio, formularam essa doutrina de modo lapidar: “o Filho de Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus” (De Incarnatione Verbi, 54,3). Essa transformação não é mera metáfora, mas o destino último do homem redimido: a comunhão com a Santíssima Trindade. O ícone manifesta, portanto, a meta escatológica da existência humana, a glorificação do homem em Cristo.

7. A Intercessão dos Santos e a Obra do Espírito Santo

A comunhão dos santos é também uma comunhão de intercessão. Os santos, iluminados pelo Espírito Santo, participam da caridade divina e intercedem pela Igreja peregrina (cf. CIC, §956). Como escreve São Jerônimo, “Se os apóstolos e mártires, ainda em vida, podiam rogar por outros, quanto mais depois da vitória, quando estão coroados e mais unidos a Cristo” (Contra Vigilâncio, 6).

Na tradição espiritual moderna, São Siluano do Monte Atos e São Teófano, o Recluso, ensinam que o Espírito Santo é o laço invisível que une os santos do céu aos fiéis da terra, fazendo de toda a Igreja uma única comunhão de amor e oração.

8. O Céu como Templo e Liturgia Eterna

Por fim, o ícone apresenta o Céu como um grande templo, onde Cristo reina como Sumo Sacerdote e Cordeiro imolado (cf. Hb 9,11-12; Ap 5,6). A liturgia celeste, descrita por São João, é a mesma que a Igreja celebra sacramentalmente na terra: “Vi um trono no céu e alguém sentado sobre ele… e ao redor do trono, vinte e quatro anciãos vestidos de branco” (Ap 4,2-4).

O Concílio Vaticano II ensina que, na celebração da Eucaristia, “unimo-nos com a multidão dos santos e com todos os coros celestes, louvando a Deus em comunhão com eles” (Sacrosanctum Concilium, n. 8).
Assim, o ícone de Todos os Santos é uma janela para a eternidade: ele revela a unidade entre a liturgia terrestre e a liturgia celeste, entre o tempo e a eternidade, entre a Igreja peregrina e a Igreja gloriosa.

O ícone de Todos os Santos é, em essência, uma profissão de fé visual na vitória de Cristo e na esperança da ressurreição. Ele proclama a universalidade da salvação, a vocação à santidade e a comunhão indissolúvel dos filhos de Deus na glória.

Como ensina o Catecismo da Igreja Católica: “Quando veneramos a memória dos santos, não apenas os honramos, mas também procuramos seguir seus exemplos, a fim de participar da sua companhia” (CIC, §957).

Contemplar esse ícone é, portanto, um convite à conversão e à esperança. Ele recorda que a santidade não é privilégio de poucos, mas destino comum de todos os batizados, chamados a refletir, na terra, a luz da glória que brilha eternamente no Céu.

DIA DE FINADOS: A CELEBRAÇÃO DA ESPERANÇA CRISTÃ NA VIDA ETERNA

No dia 2 de Novembro, a Igreja Católica dedica-se a comemorar a memória de Todos os Fiéis Defuntos. Longe de ser apenas um dia de luto, esta é uma celebração profundamente arraigada na e na esperança, sustentada pelo ensinamento seguro da nossa doutrina.

O que faz o cristão enfrentar a morte não com desespero, mas com esperança, é a certeza da Ressurreição de Cristo.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC), fundamentado na Sagrada Escritura e na Tradição, ensina que:

  • A Morte é o Fim da Peregrinação Terrena: A morte marca o fim da vida sacramental e da possibilidade de merecer ou se arrepender (CIC 1013). É um convite a refletir sobre a seriedade da vida e a urgência de responder ao chamado de Deus.
  • Cristo Venceu a Morte: Para o cristão, a morte não é um ponto final, mas uma passagem. Pelo Batismo, fomos unidos à morte de Cristo para que, como Ele, ressuscitemos para uma nova vida (Rm 6, 4). “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11, 25).

A Comunhão dos Santos e o Purgatório

A doutrina que dá sentido à nossa oração pelos falecidos é a Comunhão dos Santos (CIC 946-959). Esta comunhão é a união espiritual entre três estados da Igreja:

  1. Igreja Triunfante (os Santos no Céu).
  2. Igreja Padecente (as almas no Purgatório).
  3. Igreja Peregrina (nós, na Terra).

O Catecismo explica que:

  • A Necessidade de Purificação: Aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda imperfeitos ou não totalmente purificados, necessitam de uma purificação final para alcançar a santidade necessária para a alegria do Céu. A Igreja chama a essa purificação de Purgatório (CIC 1030-1031).
  • A Eficácia de Nossas Orações: Por causa da Comunhão dos Santos, nossa oração, especialmente o Sacrifício Eucarístico (a Missa), tem o poder de ajudar e interceder pelas almas no Purgatório (CIC 958). Rezar pelos mortos não é apenas uma tradição, mas uma obra de misericórdia (2 Mac 12, 46).

A Nossa Esperança: Céu, Inferno e Juízo

O Dia de Finados nos lembra o destino eterno do homem:

  • O Juízo Particular: No momento da morte, cada alma recebe sua retribuição eterna, na presença de Cristo, por meio de um Juízo Particular (CIC 1021-1022).
  • O Céu: É o estado de suprema e definitiva felicidade. Para aqueles que morrem na graça de Deus e estão perfeitamente purificados, é a união perfeita com a Santíssima Trindade e com todos os Santos (CIC 1023-1029).
  • O Inferno: É a condenação eterna para aqueles que morrem em pecado mortal e recusam a misericórdia de Deus até o fim. O ensino da Igreja é um apelo à responsabilidade e à conversão (CIC 1033-1037).

Neste Dia de Finados, reforcemos a nossa fé. Visitar o cemitério é um gesto de carinho, mas o maior dom que podemos oferecer aos nossos entes queridos é a oração sincera. Rezemos para que, pela infinita misericórdia de Deus, eles sejam purificados e admitidos à visão beatífica, onde “Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos, e a morte não existirá mais, nem haverá mais luto, nem pranto, nem dor” (Ap 21, 4).

Participe de uma Missa em sufrágio das almas dos falecidos. É o ato de amor mais perfeito que podemos realizar por aqueles que nos precederam na fé.

A LITURGIA NO DIA DE FINADOS

A Liturgia Católica para o Dia de Finados, a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (2 de Novembro), não é apenas um ritual fúnebre, mas uma poderosa proclamação de fé na Ressurreição e na Comunhão dos Santos. A liturgia é a expressão máxima e oficial do que a Igreja crê.

O que a liturgia nos revela:

1. O Foco é na Páscoa de Cristo

A cor litúrgica utilizada é geralmente o roxo (simbolizando penitência e esperança) ou, em alguns locais e conforme as rubricas, o preto (luto e tristeza pela perda). No entanto, a mensagem central é de Páscoa, ou seja, a “passagem”.

  • Oração da Coleta (Oração do Dia): O texto litúrgico mais eloquente é a oração que se reza no início da Missa. Nela, a Igreja pede a Deus que, ao reafirmarmos a fé no Seu Filho ressuscitado, se fortaleça também a nossa esperança na futura ressurreição de Seus servos e servas falecidos. O pedido não é pela morte, mas pela plenitude da vida.
  • Prefácio dos Defuntos: As orações que antecedem a Oração Eucarística (o Cânon) frequentemente repetem a grande verdade: “Em Cristo, brilhou-nos a esperança da feliz ressurreição. E, se nos entristece a certeza de ter que morrer, somos consolados pela promessa da imortalidade futura… Para os que creem em vós, Senhor, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeita a morada deste exílio terrestre, é-nos preparada no céu uma habitação eterna.”

2. Textos Bíblicos Centrados na Esperança

As leituras propostas pela Liturgia da Palavra para a Missa de Finados são escolhidas a dedo para afastar o desespero e infundir a certeza da vida em Deus:

  • Primeira Leitura (Ex: Jó 19, 1.23-27a; Sab 3, 1-9): Textos que falam da vida dos justos nas mãos de Deus e da esperança em ver o Redentor. O famoso trecho de Jó (“Eu sei que o meu Redentor está vivo, e que por fim se levantará sobre o pó…”) é frequentemente usado para afirmar a fé na ressurreição da carne.
  • Salmos (Ex: Salmo 23/24 – “O Senhor é o pastor que me conduz”; Salmo 42/43 – “A minha alma tem sede de Deus”): São salmos de confiança, que expressam a segurança em Deus, mesmo no “vale tenebroso”.
  • Evangelho (Ex: Jo 11, 21-27; Jo 6, 37-40): O Evangelho é a própria voz de Jesus, sendo o texto de João o mais emblemático: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá.” Jesus garante que a vontade do Pai é que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna, e Ele próprio o ressuscitará no último dia.

3. A Centralidade da Eucaristia como Sufrágio

A Missa é o ato litúrgico central. Nela, a Igreja oferece a Deus o sacrifício de Cristo (o mesmo que se deu na Cruz) em favor dos fiéis defuntos:

  • O Sacramento Pascal: A liturgia entende a Missa pelos mortos como o Sacramento Pascal que se oferece por eles, a fim de que, purificados, alcancem a glória da ressurreição futura.
  • Privilégio Sacerdotal: A importância litúrgica desta comemoração é tamanha que, desde 1915, a Igreja permite que cada presbítero celebre até três Missas neste dia: uma pela intenção da Igreja (pelos Fiéis Defuntos), e duas por intenções particulares, todas com o fim de sufragar e ajudar as almas.

Em resumo, a liturgia do Dia de Finados nos convida a chorar a ausência com a humanidade, mas a celebrar o Mistério com a fé, lembrando-nos que o Corpo de Cristo (a Igreja) não se fragmenta pela morte, mas se estende entre a terra (peregrina), o Purgatório (padecente) e o Céu (triunfante).

FESTA DO DIVINO MESTRE

A meditação intitulada “Festa do Divino Mestre” foi proferida por o Bem-aventurado Tiago Alberione em 8 de janeiro de 1961, na Cripta do Santuário de Santa Maria Rainha dos Apóstolos, em Roma. Dirigida à Família Paulina, a reflexão é voltada de modo especial a todos os que vivem o chamado ao ministério e ao magistério na Igreja, aqueles que têm a missão de formar, ensinar e santificar.

Partindo da vida de Jesus Cristo, Alberione contempla sobretudo o período da vida oculta em Nazaré, tempo de silêncio, trabalho e crescimento, para destacar a importância da formação interior como fundamento de toda missão apostólica. Assim como Jesus “crescia em sabedoria, idade e graça”, também o discípulo-mestre deve crescer antes de ensinar: o fruto da vida pública depende da solidez da vida interior.

Os quatro pilares da formação segundo Alberione

Na meditação, o Fundador da Família Paulina apresenta quatro dimensões essenciais da formação dos mestres, inspiradas na ação de Jesus com seus apóstolos:

  1. Doutrina – Jesus oferece aos discípulos o conteúdo da nova lei, a lei do Evangelho e da caridade. O verdadeiro mestre é aquele que transmite a doutrina de Cristo, que é a própria Verdade.
  2. Exemplo de vida – O Mestre ensina uma moral de perfeição, que liberta o coração do mundo e convida à pobreza, castidade e obediência. A coerência de vida é parte essencial do magistério.
  3. Graça – Cristo comunica aos seus a vida sobrenatural. Sem a união com Ele, não há fecundidade apostólica. O mestre deve ser canal da graça e não apenas transmissor de ideias.
  4. Autoridade – Finalmente, Jesus envia: “Ide e ensinai”. O verdadeiro magistério nasce do envio e da missão recebida, e por isso é exercido com autoridade e fidelidade.

Mestre e discípulo: uma mesma missão

Alberione recorda que a formação é uma caminhada conjunta: não basta haver bons mestres se não houver discípulos abertos e dóceis ao aprendizado. A missão educativa cristã exige uma unidade viva entre quem ensina e quem aprende, onde ambos crescem na fé e na graça.

Toda a Família Paulina é chamada a viver essa dimensão magisterial. Seja na redação, na técnica ou na difusão, todos participam de um mesmo corpo moral e espiritual que tem a missão de sempre aprender de Jesus e sempre dar Jesus. O apostolado, portanto, é uma forma de ensino, um magistério vivido com amor e coerência.

Um magistério que se oferece

A meditação conclui com um apelo profundamente espiritual: o magistério não se limita a palavras ou publicações. Ele é uma oferta de vida. Inspirando-se em São Paulo, Alberione recorda: “Entrega o Evangelho, mas ainda mais, entrega-te a ti mesmo, a tua vida.”

Assim, toda celebração e todo apostolado se tornam oferenda. Na Eucaristia, centro da missão, o mestre e o discípulo unem-se para oferecer a própria existência, fazendo da vida um magistério vivo que comunica Cristo ao mundo.

Para ler e meditar

Ao ler o texto Festa do Divino Mestre, é importante perceber como Alberione entrelaça a Palavra de Deus, a experiência da formação humana e espiritual, e a missão apostólica. Ele convida a cada um a contemplar Jesus como modelo supremo de Mestre e a viver, no cotidiano, o mesmo espírito de obediência, amor e entrega que marcou a vida de Nazaré.


🔗 Texto original em italiano disponível em:
Opera Omnia – Festa del Divin Maestro (1961)


3. FESTA DO DIVINO MESTRE

…mas somente àqueles que entraram ou entram no ministério, no magistério.
Jesus ensinou a vida privada com o exemplo, retirado na solidão daquela pequena aldeia de Nazaré, onde “crescia em sabedoria, idade e graça”², “era-lhes submisso”³, humilde, exercitando-se na profissão de carpinteiro.
A vida privada, a vida retirada, assume importância pelo que se aprende, pelo que se realiza e se vive durante os anos de formação. Disto depende o fruto da vida pública. Tanto se realizará na vida pública quanto houver de preparação correspondente, isto é, suficiente, melhor.
Não se pode esperar mais também por outra razão: porque quem deverá ensinar e ser mestre, deve ser dotado de graça, deve ser santo, pois seu primeiro ofício é dar o exemplo e rezar pelas almas.
Jesus viveu a pobreza, a diligência no amor ao Pai, a obediência em tudo, exercitando-se na submissão a Maria e a José. E ali crescia.
Em redor, os vizinhos, os parentes, não se davam conta do seu admirável progresso e da sua vida interior, mas Ele crescia, e sua sabedoria, sua virtude e seu espírito de oração o acompanhavam — cresciam à medida que Ele crescia nos dias e nos anos daquela vida.

A parte da formação é decisiva para o seguimento da vida. É decisiva e, por isso, requer reflexão tanto de quem é mestre quanto de quem é discípulo. Eis o exemplo.
Quando São Pio X⁴ promulgou os novos regulamentos para a formação daqueles que deveriam tornar-se mestres⁵, exclamou-se: Pio X penetrou o espírito do Evangelho também sob este aspecto: “Instaurare omnia in Christo”⁶, isto é, a formação dos futuros mestres.

E o que fez Jesus durante sua vida pública?
A maior parte do tempo dedicou à formação das vocações.
Certamente pregou ao povo, mas durante suas pregações os apóstolos não estavam ausentes, ao contrário, estavam presentes, e, além disso, em suas pregações há muito que se refere unicamente aos apóstolos.

Eis: Ele se dedicou como Mestre aos seus noviços; primeiro os procurou — procurou as vocações.
Esse é um empenho de todos.
Se nós não chegamos a isso, não seguimos Jesus nem interpretamos seu modo de conduzir a vida pública e de formar seus discípulos, os futuros mestres.

Primeiro, as vocações: buscá-las.
Segundo, formá-las.
E como as formou?
Fez com que permanecessem com Ele, para que vissem como Ele vivia, o que dizia, o espírito com que operava e as provas que dava de ter vindo como Mestre: “Falou-nos por meio do Filho”⁷ — falou-nos Jesus.

Agora, querendo formar aqueles doze Mestres da humanidade, o que fez Jesus? Quatro coisas:

  1. Primeiro, forneceu-lhes a doutrina e revelou os segredos da nova lei — a lei evangélica, a lei do amor.
    E eles se maravilharam quando Ele, por exemplo, pronunciou o sermão da montanha, quando estabeleceu a nova lei, a lei da caridade, e depois agiu em conformidade com ela.
    Forneceu a matéria que os mestres devem ensinar.
    Ele era a própria doutrina, a própria verdade.
    Nós somos mestres apenas na medida em que pregamos a Ele, isto é, repetimos seu ensinamento.
  2. Segundo, não apenas deu aos apóstolos o exemplo de vida, mas ensinou-lhes uma lei moral, uma lei de perfeição que desprendesse o coração do mundo, que os fizesse sair de suas casas e famílias, mostrando-lhes que para eles havia uma missão imensamente maior do que a dos simples cristãos.
    Ensinou-lhes a pobreza, a castidade, a obediência; corrigiu-os muitas vezes quando mostravam não compreender a nova lei.
    “Até quantas vezes devo perdoar? Setenta vezes sete”⁸.
    A nova lei, que conhecemos pelos Evangelhos e pelas Cartas dos apóstolos, especialmente de São Paulo, que a interpretou e aplicou a casos particulares.
  3. Em terceiro lugar, Jesus deu aos apóstolos a graça, pois as almas devem ser confortadas pela graça, pela ajuda de Deus, e devem receber a nova vida, a vida sobrenatural.
    “Quem não permanecer em mim”⁹ — disse Jesus — “não pode chegar à graça”, e portanto não pode possuir a vida eterna.
    E os sacerdotes são dotados do poder de celebrar a Missa e comunicar a graça.
  4. Quarto, era necessário conceder aos novos mestres a “licença”, isto é, autorizá-los ao ensino com autoridade: “Ide, pregai e ensinai a fazer o que vos tenho dito e depois batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”¹⁰.
    Assim, forneceu aos mestres tudo o que precisavam para cumprir sua missão.

Os mestres são, especialmente, os sacerdotes: o Papa, mestre infalível; os bispos, unidos a ele; e os sacerdotes que, sob sua direção, cumprem a missão de ensinar, guiar e santificar.
Tudo recebem de Jesus Cristo e devem ser administradores fiéis, como diz São Paulo¹¹, mestres fiéis, cumprindo juntos o magistério da palavra, o governo das almas e o ministério da graça e da salvação¹².

Eis então esses novos mestres que partem de Jerusalém, difundem-se pelo mundo e, com sua obra, sua palavra, seu exemplo e a comunicação da graça, fazem discípulas todas as nações: “Ide e fazei discípulas todas as nações”.

Eis o dever próprio dos mestres: realizar essas quatro coisas em relação aos que estão em formação.
E quem está em formação deve escutar e abraçar a doutrina, desde o catecismo até a teologia e a especialização; aprender o que é a moral, o direito, a ascética, a mística; e ser dotado dos meios de graça, isto é, possuir o poder de conferir a graça e o poder de celebrar, pois da Missa derivam os rios da graça e, portanto, a autoridade.

Nós ensinamos em nome de Jesus Cristo e é dever que nos escutem.
Assim, mestres e discípulos unidos para formar o novo Mestre, o Mestre do Novo Testamento, aquele que um dia deverá ser o Mestre do povo: “Foi-me dado todo o poder”¹³ e “Ide e ensinai”. “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio”¹⁴ — a missão.
Portanto, Mestres completos, mas é necessário que existam discípulos completos.

Aqui, porém, é preciso fazer uma observação:
Como todo o nosso apostolado é ensino, o corpo moral da Família Paulina exerce esse ofício de ensinar. Tanto quem faz a redação quanto quem realiza a parte técnica ou a parte de divulgação, todos juntos constituem o corpo moral; todos juntos somos mestres.
Então: sempre aprender de Jesus, sempre dar Jesus.
Isto é o apostolado.

Leiam atentamente os artigos das Constituições que se referem a isso¹⁵:
primeiro, a Igreja, a doutrina da Igreja;
segundo, a Bíblia e celebrai o Ano Bíblico;
terceiro, a Tradição, representada de modo especial pelos Padres e escritores eclesiásticos, particularmente pelos ensinamentos dos Sumos Pontífices.

Portanto, a Missa: para quem está na vida privada, a Missa; para quem já exerce o magistério, unidos todos, ofereçamos tudo a Jesus.
E vós, durante a Missa, no ofertório, apresentai algum fruto do vosso magistério.
São Paulo diz a Tito: “Cuida de transmitir o Evangelho, mas, mais ainda, dá a ti mesmo, a tua vida”¹⁶.
Ofereçamos a nós mesmos, não só o magistério, todas as edições e todo o trabalho apostólico, mas a nossa própria vida consagrada a esta missão, vivendo ao máximo, quanto possível, o magistério de Jesus.
Portanto, oração e, por outro lado, imitação.


¹ Meditação feita à Família Paulina em Roma, na Cripta do Santuário de Santa Maria Rainha dos Apóstolos, em 8 de janeiro de 1961. Transcrição de fita: A6/an 91b = ac 155b. Falta a primeira parte.
² Cf. Lc 2,52.
³ Cf. Lc 2,51: “…estava-lhes submisso”.
⁴ Pio X, Giuseppe Sarto (1835–1914), Papa desde 1903. Seu pontificado foi marcado, em parte, pela luta contra o modernismo. Reformou a liturgia, atuou nos campos catequético e pastoral. Foi canonizado em 29 de maio de 1954 por Pio XII.
⁵ Cf. Pio X, Haerent Animo, Exortação Apostólica ao Clero Católico, 4 de agosto de 1908.
⁶ Lema do pontificado de Pio X. Cf. Ef 1,10: “…reunir em Cristo, como cabeça, todas as coisas…”.
⁷ Cf. Hb 1,2: “…falou-nos por meio do Filho”.
⁸ Cf. Mt 18,22.
⁹ Cf. Jo 15,5-6.
¹⁰ Cf. Mt 28,19.
¹¹ Cf. 1Cor 4,1-2.
¹² Don Alberione refere-se ao tríplice múnus do sacerdote: magistério da Palavra, ministério da graça e governo das almas.
¹³ Cf. Mt 28,18.
¹⁴ Cf. Jo 20,21.
¹⁵ Cf. Constituições de 1953, arts. 258-259.
¹⁶ Cf. Tt 2,7; cf. também 1Tm 4,11-12.


LITURGIA DO DIA: REFLEXÃO DO 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

26 de outubro de 2025
Evangelho: Lucas 18,9-14
Leituras: Eclesiástico 35,15b-17.20-22a; Salmo 33(34); 2 Timóteo 4,6-8.16-18
Celebração da Família Paulina: Solenidade de Jesus Mestre e Pastor, Caminho, Verdade e Vida

A liturgia deste domingo nos conduz ao coração da fé cristã: o encontro pessoal com Deus que ouve os humildes e exalta os que se reconhecem pequenos. À medida que nos aproximamos do final do Ano Litúrgico, a Palavra nos convida a uma revisão interior. Não para medir nossas conquistas espirituais, mas para reencontrar o sentido da oração, da fé e da confiança na misericórdia divina.

Neste mesmo domingo, a Família Paulina celebra com alegria a Solenidade de Jesus Mestre e Pastor, Caminho, Verdade e Vida, Aquele que nos conduz à plenitude da comunhão com o Pai. Diante d’Ele, aprendemos que o verdadeiro discipulado se faz na escuta, na humildade e na confiança.

“Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” (Lc 18,14)

Há parábolas que nos desnudam. Diante delas, não há como permanecer indiferente. A parábola do fariseu e do publicano é uma dessas joias que Jesus nos oferece para iluminar o interior do coração.

Dois homens sobem ao templo para rezar. Ambos parecem fazer o mesmo gesto, mas seus corações trilham caminhos opostos. O fariseu ergue os olhos e o peito: recita sua oração com segurança e autossuficiência. Suas palavras ecoam o som do próprio ego: um louvor que termina em si mesmo.
O publicano, por sua vez, permanece à distância. Não tem coragem de olhar para o alto; suas mãos não se elevam, seu corpo se curva. Apenas murmura: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!”.

A cena é silenciosa, mas carregada de sentido. Jesus conclui: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não.” O contraste é radical. O fariseu cumpre a lei, mas reza a si mesmo. O publicano é pecador, mas reza de verdade. O primeiro busca afirmar-se diante de Deus; o segundo, deixar-se encontrar por Ele.

A oração que nasce da verdade

Este Evangelho, proclamado ao final do Tempo Comum, é um convite à autenticidade. Não basta rezar; é preciso rezar com verdade. O fariseu é o retrato da religião quando se esquece do amor: cumpre ritos, mas não se deixa transformar. O publicano é o retrato da alma que, ao reconhecer sua miséria, abre espaço para a graça.

A oração do fariseu é feita de comparações e méritos; a do publicano, de arrependimento e confiança. Um se exalta e se fecha. O outro se humilha e se abre. Na lógica do Reino, é o vazio que Deus preenche.

Rezar é um ato de despojamento. Quando nos colocamos diante do Senhor, não para mostrar quem somos, mas para deixar que Ele nos diga quem somos, então a oração se torna encontro.

A parábola do fariseu e do publicano não é apenas um contraste moral; é um espelho espiritual. Em algum momento, todos nós carregamos um pouco dos dois dentro de nós. Às vezes, somos o fariseu que se julga justo; outras, o publicano que se sente indigno. O importante é que, como o publicano, nunca deixemos de subir ao templo, isto é, nunca deixemos de procurar a Deus.

A humildade não é se rebaixar, mas permitir que Deus seja Deus. É admitir que nossa força está na dependência d’Ele, que nossa oração mais pura é o simples “tem piedade de mim”.

Neste domingo, ao celebrarmos Jesus Mestre e Pastor, somos convidados a aprender com Ele o caminho da verdade interior. O Mestre não despreza quem se sente pequeno; o Pastor não abandona quem se reconhece perdido. Aos olhos do mundo, a humildade pode parecer fraqueza; aos olhos de Deus, é o solo fértil onde germina a graça.

O eco das demais leituras

A primeira leitura, do livro do Eclesiástico (35,15b-17.20-22a), reforça a convicção de que Deus não se deixa comprar por aparências. “Ele não faz diferença entre pessoas”, diz o texto. “A oração do pobre atravessa as nuvens.” O pobre, aqui, é todo aquele que não tem outro apoio senão Deus. O publicano é, portanto, a concretização desse “pobre” do Eclesiástico: um homem despojado, sem títulos nem méritos, mas que confia plenamente na misericórdia divina.

O Salmo 33(34) é o canto que dá voz a essa experiência: “O pobre clama, e o Senhor o escuta.” O salmista não fala da pobreza como miséria, mas como lugar de encontro com Deus. É no limite humano que se revela a força divina. O louvor do salmo é humilde, mas transbordante. Brota da gratidão de quem experimentou ser sustentado pelo amor.

Na segunda leitura (2Tm 4,6-8.16-18), São Paulo fala com serenidade de quem viveu inteiramente para o Evangelho: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé.” Mas o apóstolo não se exalta. Reconhece que tudo é graça: “O Senhor esteve ao meu lado e me deu forças.” Paulo se torna, assim, o exemplo maduro da atitude do publicano: alguém que se sabe fraco, mas confia no Senhor que o fortalece.

O silêncio onde Deus habita

No fim da parábola, o publicano desce do templo em silêncio. Nenhuma palavra triunfante, nenhum gesto de vitória. Apenas o coração em paz, o coração justificado.

É assim que Deus age: em silêncio, no íntimo, transformando o coração que se deixa amar. Que nossa oração, neste domingo, seja como a dele — breve, sincera e verdadeira: “Senhor Jesus, Mestre e Pastor, Caminho, Verdade e Vida, tem piedade de mim e ensina-me a caminhar na tua luz.”

Porque quem se humilha será exaltado, e é no silêncio dos humildes que o Mestre fala mais claramente.

Jesus Mestre e Pastor: o Caminho dos humildes

Neste domingo, a Família Paulina celebra a Solenidade de Jesus Mestre e Pastor, Caminho, Verdade e Vida. É belo notar como o Evangelho nos leva exatamente a essa experiência: o fariseu permanece em si, perdido em seu próprio caminho; o publicano se deixa conduzir pelo Mestre, que é o verdadeiro Caminho.

Jesus é o Mestre que ensina não apenas com palavras, mas com o gesto humilde de quem se inclina para servir. É o Pastor que guia com ternura, que busca a ovelha perdida e se alegra com o seu retorno.
É o Caminho que nos liberta das ilusões da perfeição aparente.
É a Verdade que nos mostra o rosto de Deus, não como juiz severo, mas como Pai compassivo.
É a Vida que brota quando reconhecemos que não somos o centro: Ele é.

Ser discípulo do Mestre é aprender a orar como o publicano: com o coração exposto, sem máscaras, sem defesas.

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