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62ª Assembleia Geral da CNBB reúne bispos em Aparecida e define rumos da evangelização no Brasil

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil realiza, entre os dias 15 e 24 de abril, a sua 62ª Assembleia Geral. O encontro acontecerá no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, reunindo bispos de todo o país para um período de oração, convivência e importantes decisões sobre a missão da Igreja Católica no Brasil.

Órgão máximo da CNBB, a Assembleia Geral é considerada a principal expressão da comunhão, colegialidade e corresponsabilidade entre os bispos brasileiros. Conforme o Estatuto da Conferência, sua finalidade é promover os objetivos da Igreja no país, sempre voltados ao bem do povo de Deus. Durante o encontro, são debatidos temas pastorais ligados à evangelização e aos desafios enfrentados pela sociedade.

Tema central

O principal destaque desta edição é a votação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. O texto foi atualizado após contribuições do Sínodo sobre a Sinodalidade, além de sugestões enviadas por dioceses, pastorais e diversos organismos eclesiais.

As diretrizes orientam a ação evangelizadora em todo o país, oferecendo caminhos para a atuação pastoral das dioceses a partir da realidade local. O objetivo é iluminar a vida da Igreja e da sociedade com base nos valores do Evangelho.

Outros temas em pauta

Além do tema central, os bispos irão analisar três temas prioritários, cerca de 20 temas diversos, quatro mensagens e dez comunicações. Entre os assuntos previstos estão:

  • o relatório da Presidência da CNBB;
  • análises da conjuntura social e eclesial;
  • a implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade no Brasil;
  • aprovações de textos litúrgicos;
  • as campanhas promovidas pela CNBB;
  • a tutela de menores e adultos vulneráveis;
  • o Congresso Americano Missionário (CAM 7), previsto para 2029;
  • o bicentenário das relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé;
  • a atualização do documento “Evangelização da Juventude”;
  • e o 19º Congresso Eucarístico Nacional, programado para 2027.

A programação inclui ainda um retiro espiritual nos primeiros dias, favorecendo um ambiente de oração e discernimento entre os participantes.

Programação

A rotina diária tem início às 8h, com a oração das Laudes, no Centro de Eventos Padre Vitor Coelho de Almeida. As sessões de trabalho acontecem às 8h30 e às 11h, com coletiva de imprensa às 10h30, transmitida pelas redes sociais da CNBB.

No período da tarde, as atividades retornam às 15h, com a oração da Hora Média. Às 18h, os bispos celebram a Eucaristia com a oração das Vésperas, no altar central da basílica.

Nos primeiros dias, será realizado o retiro espiritual, iniciado na tarde de 15 de abril e concluído na quinta-feira, com celebração eucarística. Antes da missa, os bispos participam de uma procissão com oração do terço até a basílica.

No fim de semana, as celebrações acontecem pela manhã: no dia 18, às 7h, e no dia 19, às 8h.

Participação

São convocados para a Assembleia os membros da CNBB, incluindo cardeais, arcebispos e bispos diocesanos, auxiliares e coadjutores. Também participam, como convidados, bispos eméritos, administradores diocesanos e representantes de organismos e pastorais.

Atualmente, a Igreja Católica no Brasil conta com 281 circunscrições eclesiásticas e 497 bispos, sendo 324 em atividade e 173 eméritos. Destes, 373 estão inscritos nesta edição da Assembleia Geral.

Presença do Apostolado Litúrgico

Durante toda a Assembleia Geral, o Apostolado Litúrgico marca presença com um estande no Centro de Eventos Padre Vítor Coelho de Almeida, localizado no complexo do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.

O espaço integra a estrutura preparada para acolher os bispos e representantes das Igrejas particulares, facilitando o acesso a materiais litúrgicos e pastorais. Quem desejar visitar o estande poderá se dirigir ao local ao longo dos dias do evento.

Como acompanhar

O público poderá acompanhar a Assembleia por meio dos canais oficiais da CNBB e de emissoras católicas de rádio e televisão. A abertura, as coletivas de imprensa e as celebrações serão transmitidas ao vivo, especialmente pelo canal da Conferência no YouTube.

A cobertura contará ainda com conteúdos especiais no portal e nas redes sociais da CNBB, incluindo lives, boletins informativos, podcasts e programas diários com os principais destaques do encontro.

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Luiz Lopes Jr. | Foto: Thiago Leon

DOMINGO NA OITAVA DA PÁSCOA

DOMINGO NA OITAVA DA PÁSCOA
Domingo da Divina Misericórdia, Ano A
2ª Semana da Páscoa
12 de Abril de 2026

Leituras: At 2,42-47 | Sl 117(118) | 1Pd 1,3-9 | Jo 20,19-31

O Evangelho proclamado neste Domingo, conduz-nos ao coração da experiência pascal: o encontro com o Ressuscitado que transforma o medo em missão, a dúvida em fé e a comunidade em sinal vivo da misericórdia de Deus.

Este domingo também é chamado Domingo in albis. Esse é o nome tradicional do segundo domingo da Páscoa, hoje conhecido também como Domingo da Divina Misericórdia. A expressão vem do latim in albis depositis, que significa “(domingo) em que se depõem as vestes brancas”.

Esse nome está profundamente ligado à prática da Igreja antiga. Na Iniciação cristã na Igreja primitiva, os catecúmenos eram batizados na Vigília Pascal e, ao receberem o Batismo, vestiam uma túnica branca, símbolo da vida nova em Cristo, da pureza e da dignidade dos filhos de Deus. Durante toda a oitava da Páscoa, eles participavam da liturgia usando essa veste, sendo chamados de “neófitos”.

No domingo seguinte à Páscoa, esses recém-batizados se reuniam novamente com a comunidade para uma celebração especial, na qual retiravam as vestes brancas. Esse gesto não significava o fim da experiência pascal, mas, ao contrário, marcava o início de uma vida cristã amadurecida no cotidiano. A veste branca, agora “deposta”, deveria permanecer interiormente como atitude espiritual: viver como ressuscitados.

Do ponto de vista litúrgico, o Domingo in albis encerra a Oitava da Páscoa, que é celebrada como um único grande dia. Durante essa semana, a Igreja prolonga a solenidade da Ressurreição, como se fosse um “único domingo”. Ao chegar ao oitavo dia, a liturgia retoma o ritmo do tempo, mas ainda profundamente marcada pela luz pascal.

É nesse contexto que o Evangelho proclamado ganha um significado ainda mais rico. A comunidade reunida, com as portas fechadas, representa não apenas os discípulos, mas também os neófitos que estão dando seus primeiros passos na fé. A aparição do Ressuscitado, o dom da paz e do Espírito, e a missão do perdão dos pecados indicam o que significa, concretamente, viver o Batismo: ser inserido na vida nova de Cristo e enviado ao mundo como testemunha da misericórdia.

O relato bíblico de João se desenrola em dois momentos complementares. No primeiro, Jesus aparece aos discípulos reunidos, ainda marcados pelo medo e pelo fechamento (“as portas estavam fechadas”). A iniciativa é totalmente do Ressuscitado: Ele entra, coloca-se no meio deles e oferece a paz, não como simples saudação, mas como dom pascal. A paz é o fruto da vitória sobre a morte. Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus revela que a Ressurreição não apaga as marcas da cruz, mas as transfigura. Aquele que está vivo é o Crucificado, e é precisamente por isso que pode comunicar vida.

Em seguida, Jesus sopra sobre os discípulos e lhes confere o Espírito Santo, evocando o gesto criador de Deus em Gênesis. Trata-se de uma nova criação: nasce a Igreja como comunidade reconciliada e enviada. O dom do Espírito está diretamente ligado à missão do perdão dos pecados, núcleo do que a tradição litúrgica reconhece neste domingo como Domingo da Divina Misericórdia. A Igreja é, desde sua origem, lugar onde a misericórdia do Ressuscitado se torna concreta e eficaz.

O segundo momento do Evangelho introduz a figura de Tomé, cuja ausência na primeira aparição simboliza a dificuldade de crer sem ver. Sua exigência (tocar as chagas) expressa uma busca sincera, ainda que marcada pela dúvida. Quando Jesus retorna, dirige-se diretamente a ele, acolhendo sua fragilidade e conduzindo-o à profissão de fé mais alta de todo o Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus!”. Aqui, a fé pascal atinge seu ápice: reconhecer em Jesus ressuscitado o próprio Deus.

A resposta de Jesus a Tomé: “Felizes os que não viram e creram”, abre o horizonte para todos os que, ao longo dos tempos, participam desta mesma experiência pela fé. É uma palavra profundamente litúrgica: na celebração, a comunidade não vê fisicamente o Ressuscitado, mas o encontra realmente na Palavra, nos sacramentos e na assembleia reunida.

Este Evangelho ilumina o tempo litúrgico da Páscoa, que não é apenas a comemoração de um evento passado, mas a atualização do mistério da Ressurreição na vida da Igreja. Durante os cinquenta dias pascais, a liturgia insiste na alegria, na comunhão e na vida nova, convidando os fiéis a viverem como ressuscitados.

As outras leituras aprofundam essa experiência. O texto dos Atos dos Apóstolos apresenta a primeira comunidade cristã como fruto concreto da Páscoa: perseverante na escuta da Palavra, na fração do pão, na comunhão e na oração. Trata-se de uma comunidade marcada pela unidade e pela partilha, sinal visível da vida nova inaugurada pelo Ressuscitado.

A primeira carta de Pedro, Primeira Carta de Pedro, reforça essa perspectiva ao falar de uma “esperança viva” que nasce da Ressurreição de Jesus Cristo. Mesmo em meio às provações, os cristãos são convidados a alegrar-se, pois a fé, purificada, conduz à salvação. Aqui, ressoa a bem-aventurança proclamada a Tomé: crer sem ver é o caminho da maturidade cristã.

O salmo responsorial (Sl 117/118) é um hino de ação de graças que proclama: “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom, eterna é a sua misericórdia”. Esta antífona sintetiza todo o mistério celebrado: a misericórdia de Deus se manifestou plenamente na morte e ressurreição de Cristo, tornando-se fonte de vida para todos.

Assim, o Domingo da Divina Misericórdia não é apenas uma devoção, mas uma chave de leitura do próprio mistério pascal. A comunidade reunida, reconciliada e enviada, torna-se sinal da presença do Ressuscitado no mundo. Como Tomé, cada fiel é chamado a fazer sua profissão de fé, reconhecendo no Cristo vivo o Senhor e Deus da história, e, como os primeiros discípulos, a testemunhar com alegria a vida nova que brota da Páscoa.


Domingo in albis e a memória viva do carisma das Pias Discípulas do Divino Mestre

A tradição do Domingo in albis, com seu forte significado batismal e mistagógico, encontra uma ressonância particular na espiritualidade das Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre. Assim como os neófitos da Igreja antiga eram chamados a prolongar na vida aquilo que celebraram na liturgia, também nosso carisma insiste na passagem da experiência espiritual à comunicação concreta da fé no cotidiano.

A vocação das Pias Discípulas do Divino Mestre ilumina essa dimensão. Chamadas a viver a centralidade da Eucaristia, do sacerdócio e da liturgia, elas prolongam, no tempo, essa atitude mistagógica própria do Domingo in albis: aprofundar o mistério celebrado e ajudar outros a nele entrarem. A “veste branca” torna-se, assim, símbolo de uma vida inteiramente configurada a Cristo, vivida na adoração, no serviço e na oferta.

Nesse sentido, o Domingo in albis pode ser compreendido como uma chave espiritual do próprio carisma paulino: acolher a graça recebida, interiorizá-la e comunicá-la. Trata-se de passar da iniciação à missão, da celebração ao anúncio, da experiência pessoal à construção de comunidades vivas, como aquelas descritas nos Atos dos Apóstolos.

Assim, a tradição litúrgica e o carisma congregacional se encontram: ambos recordam que a Páscoa não se encerra no rito, mas se prolonga na vida. Despir a veste branca é assumir, com responsabilidade e alegria, a missão de ser, no mundo, sinal da misericórdia e da esperança que brotam do Cristo ressuscitado.

Segundo a nossa tradição, celebra-se o dia das noviças no 2º Domingo da Páscoa. Quem iniciou esta tradição foi Pe. Timóteo Giaccardo, primeiro presbítero paulino, quando ocupava da formação das noviças Pias Discípulas do Divino Mestre.

Por que as Discípulas celebram o dia das noviças no Domingo in albis?

A escolha do Domingo in albis para celebrar o dia das noviças, na tradição das Pias Discípulas do Divino Mestre, não é apenas simbólica, mas profundamente teológica e formativa.

Este domingo, como recorda a tradição da Igreja, era o dia em que os neófitos (recém-batizados na Vigília Pascal) depunham a veste branca e iniciavam, de forma mais consciente, a vida no mistério que haviam celebrado. Não se tratava de um fim, mas de um começo: o início de uma existência cristã vivida no cotidiano, sustentada pela graça recebida.

É exatamente esse dinamismo que ilumina a etapa do noviciado. Assim como os neófitos passavam por um tempo de catequese mistagógica, aprofundando o sentido dos sacramentos e sua inserção na comunidade, também as noviças vivem um tempo privilegiado de iniciação: não mais ao Batismo, mas à vida religiosa, ao seguimento de Cristo e à assimilação do carisma congregacional.

A antífona deste domingo, inspirada na Primeira Carta de Pedro, expressa com grande força essa realidade: “Como recém-nascidos, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação”. A imagem dos “recém-nascidos” estabelece um paralelo direto com as noviças: mulheres que estão no início de um caminho novo, chamadas a crescer, a nutrir-se da Palavra, da Eucaristia e da vida fraterna.

Na espiritualidade da Família Paulina, essa etapa não é apenas formativa, mas profundamente pascal: trata-se de aprender a viver “em Cristo”, configurando toda a existência ao Mestre, Caminho, Verdade e Vida.

Não por acaso, essa tradição foi iniciada por Timóteo Giaccardo, grande formador e colaborador de Tiago Alberione. Ele compreendeu que o Domingo in albis expressa, de modo exemplar, o que é o noviciado: um tempo de passagem da celebração à vida, da graça recebida à sua encarnação concreta.

Assim, celebrar o dia das noviças neste domingo é recordar que a vocação nasce da Páscoa e se desenvolve como caminho de crescimento contínuo. Como os neófitos da Igreja antiga, as noviças são chamadas a “depor a veste branca” exterior para revestir-se interiormente de Cristo, tornando-se, progressivamente, testemunhas vivas do mistério que celebram.




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Feliz Páscoa!

Queridos amigos e amigas que frequentam o nosso site,

Neste tempo sagrado de Páscoa, somos convidados a renovar em nossos corações a esperança que nasce da Ressurreição. A vida vence a morte, a luz dissipa as trevas, e o amor se revela mais forte que tudo aquilo que tenta nos desanimar.

Que a alegria do Cristo Ressuscitado alcance cada um de vocês, suas famílias e comunidades, fortalecendo a fé, reacendendo a esperança e inspirando gestos concretos de fraternidade e cuidado com a vida.

Vivamos esta Páscoa como um tempo de recomeço, permitindo que o Senhor transforme nossas dores em caminhos de vida nova e nos envie como testemunhas da sua paz.

Com carinho e bênção,

Ir. Cidinha
Provincial



Nascimento do Pe. Tiago Alberione: inspiração para evangelizar na comunicação

O dia 4 de abril marca o nascimento de Tiago Alberione, presbítero italiano e fundador da Família Paulina, uma das mais importantes obras da Igreja voltadas à evangelização por meio da comunicação.

Nascido em 1884, em San Lorenzo di Fossano, na Itália, o jovem Tiago Alberione desde cedo demonstrou sensibilidade espiritual e grande atenção aos sinais do seu tempo. Viveu em uma época de profundas transformações sociais e tecnológicas, e percebeu que os novos meios de comunicação poderiam se tornar instrumentos poderosos para anunciar o Evangelho.

Movido por essa inspiração, dedicou sua vida à missão de levar a mensagem de Cristo a todos, utilizando a imprensa, o cinema, o rádio e, posteriormente, outros meios modernos. Assim, deu origem à Família Paulina, composta por diversas congregações e institutos que continuam, até hoje, essa missão evangelizadora em todo o mundo.

Recordar o nascimento do Pe. Tiago Alberione é renovar o compromisso com uma comunicação que promove a vida, a verdade e o bem. Seu legado permanece atual, especialmente em um mundo cada vez mais conectado, onde a presença cristã nos meios de comunicação é essencial.

Que sua vida e missão inspirem todos aqueles que trabalham na evangelização a comunicar com criatividade, responsabilidade e profundo amor ao Evangelho.




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O TRÍDUO PASCAL

Ir. Penha Carpanedo, pddm

O Tríduo Pascal começa ao anoitecer da quinta-feira santa com a memória da Ceia do Senhor e do lava pés. Esta celebração da quinta à noitinha, é uma espécie de I vésperas da festa anual da páscoa celebrada em três dias: a sexta-feira da paixão, o sábado do seu repouso e o domingo da sua ressurreição. O ápice do Tríduo é a Vigília Pascal, início do domingo (cf. PS 27).[i]

O tríduo pascal tinha-se deformado de tal maneira que o domingo da Páscoa já não se configurava mais como parte do Tríduo. Progressivamente a celebração da ceia do Senhor ganhou tal relevância que desviou a atenção do verdadeiro ápice: a Eucaristia na noite da Páscoa. A Paixão passou a ser celebrada não mais como “Paixão gloriosa”, mas num clima de incontido sentimentalismo, exclusivamente como “Paixão dolorosa”, e assim se tornou o centro da piedade cristã. O sábado da sepultura desapareceu do horizonte espiritual da Igreja transformando-se em “Sábado de Aleluia”[1]. Ritos de caráter apenas prático ou de importância secundária, acabaram adquirindo importância maiores do que os ritos fundamentais. Por exemplo, no final da Eucaristia comemorativa da Última Ceia do Senhor, o rito da transladação do Santíssimo virou solene procissão com exposição do Santíssimo seguida de adoração dos fiéis ao longo de toda a noite. Na Sexta-feira Santa, a procissão do Senhor Morto e outras expressões da piedade popular deixa em segundo plano a Liturgia da Palavra e a adoração da cruz. A bênção da Água Batismal da noite da Páscoa se torna bênção da água para uso devocional (água benta).

A reforma do Tríduo Pascal era tão urgente que começou antes do Concílio, com o papa Pio XII (1876-1958), que incentivado pelos protagonistas do movimento litúrgico, propôs a Reforma da Vigília pascal em 1951 e a da semana santa em 1955. Introduziu mudanças que visava justamente reaproximar a memória do mistério ao evento histórico: a missa vespertina da ceia do Senhor não antes das 17 horas; a liturgia da Sexta-Feira Santa próximo às 15 horas, mas não além das 18 horas; a vigília, de preferência depois da meia noite de sábado para o domingo.  Esta mudança visava garantir a verdade da hora em relação aos fatos, de modo que a vigília pascal configurasse como celebração do domingo e não do sábado santo.

A reforma do Concilio Vaticano II, proposta nas Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário de 1969 [NALC], assumiu e completou o que Pio XII havia iniciado em 1951, dando ao Tríduo Pascal autonomia em relação à Quaresma e a Semana santa e tirando-o da sua condição de “exilado”.

Cada celebração do tríduo é entendido como momento progressivo da única festa: a páscoa da Ceia, a páscoa da cruz, a páscoa da sepultura e a Páscoa da ressurreição.

Memória da última Ceia do Senhor

Abertura do tríduo

A celebração da Ceia do Senhor ao anoitecer da quinta-feira marca o inicio das festas pascais: as flores, as luzes, a antífona de entrada, o canto do glória e a cor branca indicam que a quaresma ficou para trás para dar lugar à festa da páscoa. 

Nesta noite repetimos em memória da Páscoa de Jesus, os gestos da sua última ceia: “Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e passou aos seus”. Retomamos a eucaristia como ceia, cuja estrutura fundamental se apoia nestes gestos de Jesus: a preparação da mesa, a ação de graças, a fração da pão e partilhas do pão e do vinho [comunhão].

O simples gesto de passar ao outro um pedaço de pão é um gesto despojado de poder queaponta para uma espiritualidade da mesa, baseada na gratuidade, na partilha e no serviço fraterno. Eis os gestos de Jesus na noite em que foi entregue, tendo à mesa Judas, aquele que o iria entregar e Pedro aquele que o iria negar. 

O gesto do lava-pés – outra versão da Eucaristia. Jesus eterniza o gesto de Maria que ungiu os seus pés na ceia de Betânia, sem se deixar intimidar com a atitude de Judas.

Lembrete

A adoração eucarística depois da Ceia do Senhor é um desdobramento devocional da celebração desta noite, não o seu ápice. O catolicismo popular é particularmente sensível à adoração do Santíssimo Sacramento, mas é preciso proceder de tal modo, que não dê a esta oração um cunho devocional. Recomenda-se sobriedade para não ofuscar a densidade da própria Ceia do Senhor e seu caráter de Memorial: o Santíssimo seja conservado em tabernáculo ou cibório fechados, nunca exposto em ostensório (cf. PCFP, 55). A adoração não se prolongue depois da meia noite.

Memória da bem-aventurada Paixão do Senhor

Primeiro dia do Tríduo

A páscoa da cruz, de um lado, expressa a tristeza e o luto pela condenação e morte de Jesus. Frequentemente é com o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria integridade que contemplamos a tristeza solene destes ofícios. Há dois mil anos, homens “maus” mataram o Cristo. Mas o mal, que fez o justo inocente sofrer e morrer, parece não ter se acabado e se prolonga até os nossos dias. A sexta da paixão revela a verdadeira natureza do mundo que preferiu e continua a preferir as trevas à luz, o pecado ao bem, a morte à vida. E condenando o Cristo à morte “este mundo” condenou-se a si mesmo à morte. Este é o primeiro significado, terrivelmente realista, da Sexta-feira Santa: uma condenação à morte… A Sexta-feira Santa não concerne somente ao passado. É o dia do Pecado, o dia do Mal, pois o pecado e o mal não desapareceram: ao contrário, permanecem a lei fundamental do mundo e de nossa vida.

De outro lado, a celebração da Sexta-Feira Santa assume a dimensão de ação de graças pela fidelidade do Filho ao Pai, até à doação da sua vida. A morte do Cristo nos é revelada como uma morte para nossa salvação. O Cristo nos dá a sua morte porque na verdade é em nosso lugar que Ele morre. Ele quer assumir e compartilhar de nossa condição humana até o fim, menos no pecado, porque em Jesus Cristo, não há pecado, logo não há morte. É somente por amor a nós que ele aceita morrer. Sua morte é então a revelação suprema de sua compaixão e de seu amor. […] A condenação é transformada em perdão. [Cf. Alexandre Schmémann, Olivier Clément[

Por isso a Sexta-Feira da Paixão, em perspectiva bíblica, sobretudo do Evangelho de João, é “Paixão gloriosa”, celebra, o Amor Maior, que se manifestará vencedor na madrugada da Ressurreição. Ao fazer memória da bem-aventurada paixão do Senhor, a Igreja comemora o seu próprio nascimento do lado de Cristo na cruz (cf. PCFP, 58).

Lembrete

Muitas comunidades persistem em organizar grupos de adoração em plena sexta-feira da paixão, contrariando a norma que não prescreve tal prática [cf. PS n. 56]. Ou então, impõe costumes devocionais arcaicos, fora de contexto [“hibridismo distorcido” segundo o DPPL, n. 143). A orientação primeira é que se valorize o ofício divino, com a participação do povo, sugerindo que tais ofícios sejam sóbrios, realizados na igreja despojada [não na capela da reposição]. Com ofícios bem organizados em nossas comunidades, estaríamos oferecendo um precioso serviço aos “peregrinos” que visitam as Igrejas neste dia.

Memória da sepultura do Senhor Sábado santo

Segundo dia do Tríduo

No Sábado Santo, “a Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua descida à mansão dos mortos, e esperando na oração e no jejum a sua ressurreição” (PS 73. O foco é a sepultura do Senhor, certificação de sua morte, pertencente à forma mais antiga da fé: ‘Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’ (1Cor 15,3-4). Na liturgia ressoa o convite: “Cristo por nós padeceu, morreu e foi sepultado: vinde todos, adoremos!”

O ‘grande e santo Sabbat’ é o dia que liga a Sexta-Feira santa, à comemoração da Cruz, ao dia da Ressurreição. Para muitos, a verdadeira natureza e o sentido desta ligação, a necessidade real deste dia intermediário, permanece obscura. Para a grande maioria daqueles que vão à igreja, os dias “importantes” da grande semana são a Sexta-feira e o Domingo, a Cruz e a Ressurreição. Estes dois dias, entretanto, ficam de alguma forma distintos. Há um dia de tristeza e depois um dia de alegria. Nesta sucessão, a tristeza é simplesmente substituída pela alegria. Mas segundo o ensinamento da Igreja, expresso na sua tradição litúrgica, a natureza desta sucessão não é uma simples substituição. A Igreja proclama que o Cristo “venceu a morte pela morte”; isto quer dizer que, antes mesmo da ressurreição, coloca-se um acontecimento no qual a tristeza não é simplesmente substituída pela alegria, mas ela própria é transformada em alegria. O grande Sábado é precisamente este dia de transformação, o dia em que a vitória germina de dentro mesmo da derrota, uma vez que antes da ressurreição nos é dado contemplar a morte da própria morte. . . E tudo isso é expresso – mais ainda, tudo isso é realmente atualizado – a cada ano, no maravilhoso ofício matinal, na comemoração litúrgica que se torna para nós um “presente” salvador e transformador. [2]

Lembrete

Mesmo tendo de cuidar dos preparativos da grande vigília na noite pascal, é importante considerar o sábado como parte estruturante do tríduo pascal. A Igreja abstém-se absolutamente da Missa, nem celebra os sacramentos neste dia. Contudo, recomenda-se a Liturgia das Horas. A sua versão inculturada, o Ofício Divino das Comunidades, oferece uma proposta acessível ao povo. Tais ofícios celebrados na igreja despojada [não na capela da reposição] oferecem um ambiente contemplativo, como as mulheres portadoras dos perfumes [miróforas] à espera da madrugada.

Neste dia, os catecúmenos eleitos são convidados a participar do “recolhimento” de toda a comunidade. Há ritos previstos para eles [o “éfeta”, e a recitação do creio…].

Domingo da Ressurreição

Terceiro dia do Tríduo

A primeira celebração deste domingo maior é a Vigília Pascal na noite santa, Mãe de todas as Vigílias da Igreja. O ponto de referência é o êxodo, cumprido e realizado na Páscoa de Cristo. O ato de se reunir no meio da noite e a procissão luminosa, precedida pelo Círio pascal, como a antiga coluna de fogo que guiava os israelitas, torna-se sinal deste êxodo que se realiza na vida da comunidade reunida. A liturgia da Palavra, é um longo relato da história de Deus com o seu povo, cujas leituras fundamentais é a do Êxodo e o relato da ressurreição de Jesus. O batismo evoca a passagem do mar Vermelho, onde os cristãos atravessam as águas do mal e renascem para uma vida nova. A eucaristia, novo maná, alimenta o novo povo de Deus pelo deserto da vida. Nesta noite, os catecúmenos eleitos são batizados e crismados, tomam parte nas preces e levam os dons do pão e do vinho até o altar; participam, pela primeira vez, da Oração Eucarística, da recitação da Oração do Senhor e da Mesa do Pão da Vida e do Cálice da Salvação, ápice da iniciação cristã. Nesta noite, os fiéis renovam as promessas batismais, reafirmando a inserção no mistério do crucificado-ressuscitado por meio do Batismo e da Confirmação (cf. PCFP 80).

Na vigília pascal, nasce o dia novo, o Dia da Ressurreição, celebrado com grande solenidade (PS 97). Nele testemunhamos que o Senhor ressurgiu, como Maria Madalena, Pedro, João e os demais discípulos e discípulas. Eis o dia que o Senhor fez para nós. “Doravante a vida e a luz nos chegam mesmo pela morte e por todas as situações de morte de nossa existência se as “configuramos” pela fé na cruz do Cristo sobre a qual ele venceu a morte”. [3]

O domingo da Ressurreição é  prolongado por cinquenta dias de páscoa, “como um único domingo [santo Atanásio]. Tempo de mistagogia da vida batismal (RICA 37-40 e 235-239) para os fiéis e para os neófitos, na alegria de renascermos como filhos e filhas de Deus.

DICAS PARA A ORAÇÃO PESSOAL DURANTE O TRÍDUO

Se o silêncio é uma exigência de toda celebração litúrgica, as celebrações pascais com sua densidade espiritual, supõem que os momentos de silêncio sejam valorizados. Além disso, a oração pessoal antes e depois da celebração, garantem uma mais consciente e ativa participação.

Depois da celebração celebra-se o ofício da “Vigilância com Jesus” na capela da reposição fazendo memória da passagem de Jesus, da Ceia à Cruz. Esta oração comunitária requer bastante espaço de oração pessoal. Ao longo da oração pode ser sugerido: Ler pausadamente e com toda a atenção, o texto da segunda leitura 1Coríntios 11,23-26 [relato mais antigo da última ceia de Jesus]. Ou o evangelho de João 13,1-15.  Cantar salmos em comunhão com Jesus, salmos que o sustentou nesta passagem da ceia até a cruz, ele que fez dos salmos a sua oração. Ficar em silêncio, repetindo no coração alguma palavra, deixando que os sentimentos de Jesus habite o coração.

Na sexta feira da paixão, em algum momento do dia,tomar um tempo, para ficar em silêncio diante da cruz de Jesus, repetindo no coração as palavras que ele rezou: faça-se a tua vontade ou as palavras dom ladrão: Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. Ler pausadamente o quarto cântico do Servo sofredor, proposto como primeira leitura neste dia.

No sábado santo, reservar um tempo em algum momento do dia, para a oração silenciosa e para a leitura espiritual. Sugerimos os seguintes textos: Os relatos evangélicos referentes ao sepultamento de Jesus:João 19,38-42 e Lucas 23,50-56 [ver também Mateus 27,56-61 e Marcos 15,42-47].

Para completar a leitura:

a) O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical. Todos temos sentido alguma vez uma sensação espantosa de abandono. Isto é o que mais tememos da morte. Como os meninos, nos dá medo ficarmos sozinhos na escuridão. Só a presença de uma pessoa que nos ama nos dá segurança. Pois bem, isto é o que ocorreu no Sábado Santo: no reino da morte ressoou a voz de Deus. Aconteceu o inimaginável: que o Amor penetrou “nos infernos”: na obscuridade extrema da solidão humana mais absoluta. Também nós podemos escutar a voz que nos chama e a mão que nos toma e nos tira para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar. E se no espaço da morte penetrou o amor, então chegou ali a vida. Na hora da extrema solidão, nunca estaremos sozinhos. [Bento XVI [2/5/2010].

b) O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl. 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? Quê Deus não tem direito de guardar silêncio? Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Se não oramos a partir desse silêncio, é porque ainda não mergulhamos no mistério do Amor compassivo. […] O Pai está de luto; toda a natureza, em silêncio, acolhe a semente do Corpo do Verbo, na esperança de germinar Vida plena. O Sábado Santo, portanto, não é o mutismo de Deus, mas seu Silêncio, ou seja, a ação oculta de Deus estendida no tempo; morte e ressurreição são simultâneas no presente de Deus, mas no acontecer humano só podem ser sucessivas. [Padre Adroaldo Palaoro:]

No Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor.

a) Reservar um tempo para ficar em silêncio e repassar no coração a vigília, para agradecer pela graça do batismo renovado, para abrir o coração aos cinquenta dias de alegria e de contemplação do Espírito, na vida das comunidades que seguem Jesus. Começar a oração repetindo no coração a oração-coleta da vigília:

Ó Deus, que iluminais esta noite santa
com a glória da ressurreição do Senhor,
despertai na vossa Igreja o espírito filial para que,
inteiramente renovados, vos sirvamos de todo coração.

b) fazer a Leitura orante do evangelho de João 20 não só os versículos indicados  para este dia [1-10], mas até o versículo 18, que inclui o encontro com Madalena, a discípula amada.


[1] Até hoje, é comum, considerar a vigília do sábado à noite como pertencente ao sábado, quando na verdade pertence ao domingo e é ápice do tríduo pascal.

[2] Segundo Alexandre Schmémann, Olivier Clément, padres da Igreja Oriental.

[3] [Alexandre Schmémann, Olivier Clément].


[i] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Paschalis Sollemnitatis:sobre a preparação e celebração das festas pascais (16/01/1988), n. 38. É um documento que merece ser estudado pelas equipes de pastoral litúrgica. Sigla: PS.


Indições para a oração do Ofício Divino das Comunidades:




Tempo de escuta e comunhão marca Encontro das Coordenadoras

O Encontro das Coordenadoras das Pias Discípulas do Divino Mestre, realizado nos dias 29 e 30 de março de 2026, teve início com um momento profundamente significativo: a Celebração do Domingo de Ramos, que marca a entrada na Semana Santa, o tempo mais importante da espiritualidade cristã.

Celebrar a abertura do encontro nesse contexto litúrgico conferiu um sentido ainda mais profundo à reunião, situando-a no mistério pascal de Cristo e iluminando, desde o início, cada partilha e reflexão vivida ao longo dos dois dias.

Realizado na Comunidade Madre Escolástica, na Casa Provincial, em São Paulo, o encontro reuniu coordenadoras de diversas comunidades do Brasil, em um clima de escuta, comunhão e corresponsabilidade na missão.

A programação integrou momentos de oração, como o Ofício da manhã e da tarde, com espaços formativos e de partilha. Entre os destaques, esteve a partilha das coordenadoras sobre a realidade atual de suas comunidades, favorecendo a troca de experiências e o discernimento conjunto dos desafios vividos na missão.

A dimensão formativa também esteve presente com a assessoria da neuropsicóloga Matildes, que abordou a gestão de conflitos, oferecendo contribuições importantes para a vida comunitária. O encontro contou ainda com orientações nas áreas trabalhista e financeira, fortalecendo a organização e a gestão das comunidades.

Outro momento significativo foi a partilha sobre o Conselho de Instituto, que contribuiu para reforçar a unidade e a corresponsabilidade na condução da missão.

Como expresso na convocação, o encontro foi pensado como “um tempo bonito de partilha, escuta e fortalecimento da nossa missão”, objetivo que se concretizou na vivência fraterna e na profundidade dos momentos compartilhados.

Encerrado na segunda-feira com o Ofício da tarde, o encontro reafirmou a importância de cultivar espaços de encontro e discernimento, especialmente em um tempo tão significativo como a Semana Santa, fonte e centro da vida cristã.






Domingo de Ramos: por que se usa o vermelho neste dia?

Em tempos de forte polarização, é compreensível que algumas pessoas olhem para as cores e, quase automaticamente, façam associações políticas. No Brasil, o vermelho costuma ser identificado com determinados partidos ou correntes ideológicas. No entanto, ao entrar na igreja no Domingo de Ramos e ver o vermelho nos paramentos, é essencial recordar: ali não se trata de política, mas de fé.

A liturgia da Igreja possui uma linguagem própria, construída ao longo de séculos, na qual as cores desempenham um papel profundamente simbólico. Elas não expressam preferências humanas, mas comunicam mistérios da fé. Por isso, o vermelho usado no Domingo de Ramos tem um significado muito específico: ele remete à Paixão de Cristo.

O Domingo de Ramos, que abre a Semana Santa, une dois movimentos em uma única celebração. De um lado, recordamos a entrada de Jesus em Jerusalém, aclamado pelo povo com ramos e cantos de “Hosana”. De outro, proclamamos a narrativa da sua Paixão, como aparece nos Evangelhos, por exemplo no Evangelho segundo São Lucas. Aquele que é acolhido como rei é o mesmo que será conduzido à cruz.

É justamente essa unidade que o vermelho expressa. Na tradição litúrgica, essa cor está associada ao sangue derramado, ao martírio e ao amor levado até o fim. Ao usá-la, a Igreja não faz qualquer referência a ideologias, mas anuncia um mistério central da fé cristã: Cristo reina não pelo poder, mas pela entrega total de si.

Esse mesmo vermelho reaparece alguns dias depois, na celebração da Sexta-feira Santa. Nesse dia, a Igreja não celebra a Eucaristia, mas se reúne para contemplar a Paixão e adorar a cruz. Novamente, a cor vermelha manifesta o sentido profundo daquele momento: o sangue de Cristo derramado por amor, a entrega total que revela a salvação.

Percebe-se, assim, uma coerência litúrgica: o vermelho que aparece no início da semana, no Domingo de Ramos, aponta para o desfecho da cruz na Sexta-feira Santa. Não são dois momentos desconectados, mas um único mistério celebrado progressivamente. A cor, portanto, funciona como uma verdadeira pedagogia visual, conduzindo os fiéis ao centro da fé.

Essa compreensão está em sintonia com a renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, especialmente na Sacrosanctum Concilium, que destaca a liturgia como atualização do mistério pascal. Ou seja, não se trata apenas de recordar um acontecimento do passado, mas de participar, aqui e agora, da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

Diante disso, é importante evitar leituras reducionistas. Quando se confunde o simbolismo litúrgico com disputas políticas, corre-se o risco de empobrecer a experiência da fé e desviar o olhar do essencial. A Igreja, ao celebrar, não se alinha a partidos: ela anuncia o Evangelho.

O vermelho do Domingo de Ramos, portanto, não divide, ao contrário, convida à unidade. Ele nos lembra que todos somos chamados a seguir o mesmo Cristo, que entra em Jerusalém montado em um jumento e que entrega a própria vida por amor. É uma cor que fala de doação, de sacrifício e, sobretudo, de um amor que não conhece fronteiras.

Num mundo marcado por tensões e disputas, a liturgia oferece uma pedagogia diferente. Ela nos educa a ver além das aparências, a escutar mais profundamente e a reconhecer que há uma verdade que não se reduz às categorias políticas. Ao contemplar o vermelho neste dia, somos convidados a entrar no mistério da cruz, não como ideologia, mas como caminho de vida.

Assim, ao participar da celebração do Domingo de Ramos, vale a pena fazer um exercício interior: deixar de lado as associações imediatas e permitir que a linguagem simbólica da liturgia fale ao coração. Porque, ali, o vermelho é um anúncio de amor.



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DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR: A EPIFANIA DO REI HUMILDE

O Domingo de Ramos abre a grande Semana Santa, na qual a Igreja entra, pela liturgia, no coração do mistério pascal de Cristo. Não se trata apenas de recordar acontecimentos do passado, mas de participar sacramentalmente deles. Por isso, a celebração deste dia possui uma estrutura singular: inicia-se com a procissão dos ramos, marcada pelo Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-11), e culmina na proclamação solene da Paixão (Mt 26–27). Entre esses dois momentos, a liturgia nos conduz por um caminho espiritual denso, que vai da aclamação festiva ao silêncio da cruz.

Frequentemente, porém, passamos rapidamente da procissão ao relato da Paixão, sem nos deter na profundidade teológica da entrada de Jesus em Jerusalém. No entanto, este episódio não é apenas uma introdução narrativa, mas uma verdadeira epifania: uma manifestação do modo como Cristo se revela como Messias e Rei. É precisamente nesse gesto que se inaugura, de forma simbólica e profética, o mistério que será consumado na cruz e na ressurreição.

O relato de Mateus (Mt 21,1-11) é cuidadosamente construído. Jesus envia dois discípulos para buscar uma jumenta e seu filhote, cumprindo assim a profecia de Zacarias: “Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento”. Este detalhe não é secundário. Na tradição bíblica, o rei que entra montado em um jumento não é um guerreiro que vem impor sua força, mas um soberano que traz a paz. Jesus rejeita explicitamente qualquer imagem de messianismo político ou violento. Sua realeza se manifesta na mansidão.

A multidão, por sua vez, estende mantos pelo caminho e agita ramos, enquanto aclama: “Hosana ao Filho de Davi!”. Trata-se de um reconhecimento messiânico. No entanto, essa aclamação é ambígua. Como recorda o Pe. Adroaldo Palaoro, muitos esperavam um Messias triunfante, um novo Davi poderoso, capaz de restaurar a soberania de Israel, impor-se sobre as nações e instaurar um reinado visível de glória e domínio. Era o sonho de um êxito retumbante, de uma vitória segundo os critérios humanos.

Mas Jesus frustra radicalmente essas expectativas. Ao longo de toda a sua vida pública, evitou a fama fácil, recusou instrumentalizar seus milagres como propaganda e afastou-se de qualquer tentativa de fazê-lo rei. Sua subida a Jerusalém não é a marcha de um conquistador, mas o caminho exigente de quem permanece fiel ao projeto do Pai. Seus próprios discípulos, muitas vezes, não compreendiam essa lógica, presos ainda à ambição de lugares de honra.

Assim, sua entrada em Jerusalém é profundamente desconcertante. Trata-se de um gesto simbólico e provocativo: Jesus aceita ser aclamado, mas redefine completamente o sentido dessa aclamação. Seu “êxito” não consiste em triunfar segundo os critérios do mundo, mas em ser fiel até o fim. Ele não vem dominar, mas entregar-se. Como sublinha Palaoro, o verdadeiro êxito de Jesus é sua coerência, sua fidelidade à vontade do Pai, mesmo quando isso o conduz à cruz.

Aqui emerge um dos paradoxos centrais do mistério cristão: no horizonte da Paixão, o fracasso torna-se a outra face do êxito. A cruz, vista externamente, é o sinal do fracasso. No entanto, é precisamente nela que se manifesta o amor levado até o extremo. Esta inversão de lógica interpela profundamente também a nossa vida. Muitas vezes, medimos nossa existência por critérios de sucesso, reconhecimento e eficácia. No entanto, à luz de Cristo, os fracassos podem tornar-se lugares de verdade, de purificação e de abertura ao essencial. Eles nos libertam das ilusões e podem nos tornar mais humildes, mais compassivos, mais humanos.

A liturgia deste dia nos convida, portanto, a rever nossas expectativas. Que Messias buscamos? Um que confirme nossos projetos de êxito ou um que nos introduza na lógica do dom?

Essa mesma tensão aparece sob outra luz na reflexão do Pe. Enrique Bikkesbakke, que nos convida a contemplar a entrada em Jerusalém como um “duplo testemunho” realizado na própria procissão dos ramos. Ao levarmos ramos de oliveira, confessamos Cristo como o Ungido, o Messias, pois da oliveira vem o óleo da unção. Ao agitarmos palmas, proclamamos sua vitória. No entanto, esta vitória só pode ser compreendida à luz de um sinal decisivo: a ressurreição de Lázaro, que aponta para o mistério da vida que vence a morte.

Assim, entramos na Semana Santa por dois pórticos simbólicos: a unção e a vitória. Mas o caminho que se abre diante de nós é marcado por acontecimentos paradoxais e, muitas vezes, desconcertantes. Jesus entra como rei, mas montado num jumento; é aclamado, mas caminha para a rejeição; é reconhecido publicamente, mas sua glória se manifestará na solidão da cruz.

À luz do Evangelho de João, esta tensão se aprofunda ainda mais: “Se o grão de trigo, caído na terra, não morre, fica só; mas se morre, dá muito fruto” (Jo 12,24). A glorificação de Jesus não está separada de sua morte, mas acontece precisamente através dela. Este é o grande escândalo e, ao mesmo tempo, a grande revelação da fé cristã: a vida nasce da entrega.

As outras leituras do dia iluminam esse mesmo mistério. O Servo Sofredor de Isaías (Is 50,4-7) permanece fiel mesmo diante da violência, sustentado pela confiança em Deus. O Salmo 21(22) dá voz ao clamor do justo abandonado. E o hino da carta aos Filipenses (Fl 2,6-11) revela o movimento profundo de Cristo: ele se esvazia, assume a condição de servo e se torna obediente até a morte de cruz — e por isso é exaltado.

Do ponto de vista litúrgico, a força deste dia está justamente na unidade entre aclamação e Paixão. A Igreja não nos permite permanecer numa alegria superficial, nem nos introduz abruptamente na dor. Ela nos faz percorrer um caminho, no qual somos educados a reconhecer que a glória de Deus passa pelo amor que se doa até o fim.

No final do Evangelho da entrada em Jerusalém, Jesus começa a se retirar da multidão. Este detalhe, muitas vezes esquecido, é profundamente significativo. Aquele que foi aclamado publicamente caminha agora para um ocultamento progressivo. Sua vida pública se encerra, e a hora decisiva será vivida na intimidade do mistério, entre poucos. A maioria que hoje o aclama, amanhã pedirá sua condenação.

Diante disso, a liturgia nos propõe uma atitude espiritual concreta para esta Semana Santa: entrar com Cristo, mas também permanecer com Ele. Não apenas segui-lo exteriormente, mas deixar-se conduzir por sua lógica. Isso exige silêncio, escuta, disponibilidade interior. Como sugere Bikkesbakke, trata-se de fazer um “silêncio receptivo”, deixando de lado nossas expectativas, nossos esquemas e até mesmo nossa necessidade de compreender tudo.

Neste início da Semana Santa, somos convidados a acolher este Rei humilde, cuja glória passa pela cruz. A entrada em Jerusalém não é um momento passageiro, mas a chave de leitura de todo o mistério pascal. Nela já está contido o caminho que conduz da aclamação à entrega, do aparente êxito ao aparente fracasso, e deste à verdadeira vitória.

Que possamos, ao longo destes dias, caminhar com Cristo com um coração mais livre, mais silencioso e mais disponível, deixando que sua forma de amar transforme também a nossa maneira de viver. Afinal, é na lógica do grão de trigo que morre que se revela a plenitude da vida.

Entre ramos e cruz: a verdadeira vitória de Cristo e o clamor por uma paz desarmada

Neste contexto, o Domingo de Ramos adquire também uma forte ressonância para o nosso tempo. Vivemos em uma humanidade marcada por guerras, divisões e uma crescente “indústria da guerra” que ameaça a fraternidade entre os povos. Diante disso, o Papa Leão XIV tem elevado um insistente apelo à paz, recordando que ela não é uma palavra vazia, mas um caminho que exige “oração, compromisso, perseverança, encontro e escolha” (Vatican News). Em um mundo onde os conflitos se multiplicam, o Papa convida a humanidade a rejeitar a lógica da violência e a escolher o diálogo, a justiça e a fraternidade como fundamentos de uma paz verdadeira. Sua proposta de uma paz “desarmada e desarmante” recorda que a verdadeira transformação não nasce da força, mas do amor que reconcilia.

À luz do Domingo de Ramos, esse apelo ganha uma profundidade ainda maior. Cristo entra em Jerusalém não como um líder militar, mas como o Príncipe da Paz, desmontando toda lógica de dominação. Sua vitória não será a imposição sobre os inimigos, mas a entrega da própria vida. Assim, a liturgia nos revela que a paz que tanto buscamos não será fruto do poder, mas da conversão do coração. Seguir Jesus nesta Semana Santa é, portanto, acolher esse caminho: passar da lógica da violência à lógica do dom, do fechamento à fraternidade, do medo à confiança. Somente assim o “Hosana” que proclamamos com os ramos poderá tornar-se, ao longo da semana, uma verdadeira adesão ao Reino de Deus que se manifesta na cruz e floresce na ressurreição.



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A espiritualidade da Semana Santa: o mistério pascal vivido na liturgia

A Semana Santa constitui o coração do ano litúrgico porque nela a Igreja não apenas recorda, mas celebra sacramentalmente o mistério central da fé: a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. A espiritualidade desses dias nasce da própria liturgia e se enraíza na participação viva do fiel no mistério pascal. Por isso, compreender sua estrutura e seu desenvolvimento celebrativo é essencial para vivê-la em profundidade.

Essa grande semana se abre com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, que já contém, de modo condensado, todo o drama pascal. A procissão com os ramos recorda a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém, quando o povo o aclama como rei. No entanto, essa aclamação se entrelaça com a proclamação da Paixão, revelando a tensão que atravessa toda a semana: o reconhecimento e a rejeição, a glória e a cruz. Liturgicamente, não se trata de dois momentos desconectados, mas de uma única chave interpretativa: Cristo é rei precisamente porque entrega a sua vida.

Espiritualmente, esse dia inaugura um caminho de conversão do olhar. O Messias que entra em Jerusalém não corresponde às expectativas de poder humano. Ele vem humilde, desarmado, fiel à vontade do Pai. A Igreja, ao iniciar assim a Semana Santa, convida o fiel a entrar nesse mesmo movimento: seguir Cristo não segundo projeções pessoais, mas segundo o caminho do amor que se doa.

Historicamente, o nome “Semana Santa” deriva da antiga tradição cristã de designar como “santos” os dias diretamente ligados ao mistério da salvação. Já nos primeiros séculos, especialmente em Jerusalém, os cristãos começaram a viver esses dias com uma intensidade singular, acompanhando os lugares e os acontecimentos da Paixão do Senhor. Essa semana era chamada de Hebdomada Sancta (Semana Santa), não por uma sacralidade abstrata, mas porque nela se celebram os eventos mais santos da história da salvação: a entrega total de Cristo ao Pai pela humanidade.

Ao longo do tempo, essa vivência se estruturou liturgicamente, sobretudo a partir da tradição da Igreja antiga e foi profundamente renovada pelo Concílio Vaticano II, que recuperou a centralidade do mistério pascal como eixo de toda a vida cristã, conforme expresso na constituição Sacrosanctum Concilium. Assim, a Semana Santa não é apenas um conjunto de celebrações, mas uma verdadeira imersão no mistério da redenção.

Dentro dessa semana, o ponto culminante é o Tríduo Pascal. Como recorda a tradição da Igreja e o documento apresentado, o Tríduo não é uma preparação para a Páscoa, mas a própria celebração pascal em sua forma mais plena. Ele começa com a Missa da Ceia do Senhor, ao entardecer da Quinta-feira Santa, e se estende até as Vésperas do Domingo da Ressurreição. Trata-se de uma única ação litúrgica que se desenvolve em etapas, segundo uma lógica própria, que não corresponde à contagem cronológica comum, mas à dinâmica do mistério celebrado.

A Missa da Ceia do Senhor marca a abertura solene do Tríduo. Nela, a Igreja faz memória da última ceia de Jesus, na qual Ele institui a Eucaristia e antecipa sacramentalmente sua entrega na cruz. O gesto de “tomar, dar graças, partir e repartir” revela o sentido profundo de sua vida: uma existência entregue. O lava-pés torna visível essa lógica, mostrando que a Eucaristia é inseparável do serviço.

A espiritualidade que brota dessa celebração é profundamente eucarística: participar do Corpo de Cristo implica tornar-se corpo entregue para os outros. A celebração se prolonga na vigília e na adoração, convidando os fiéis a permanecerem com o Senhor, entrando no mistério de sua entrega.

A Sexta-feira da Paixão constitui o primeiro dia do Tríduo. Não é uma celebração isolada, mas continuidade da única ação iniciada na Quinta-feira. A Igreja contempla a Paixão do Senhor como revelação suprema do amor. A cruz não é apenas instrumento de morte, mas lugar onde o amor vence o pecado.

A liturgia desse dia, marcada pelo silêncio e pelo despojamento, convida a uma espiritualidade de contemplação e verdade. O fiel é chamado a confrontar-se com o mistério do mal. Não apenas como realidade histórica, mas presente no mundo e em si mesmo e, ao mesmo tempo, a reconhecer que esse mal é assumido e transformado pelo amor de Cristo.

O Sábado Santo é o segundo dia do Tríduo, caracterizado por um silêncio pleno de significado. A Igreja permanece junto ao sepulcro do Senhor, em oração e espera. Não se trata de um vazio, mas de um tempo em que a ação de Deus se realiza de modo invisível. Cristo desce à mansão dos mortos, alcançando toda a humanidade.

A espiritualidade desse dia é a da espera vigilante. É aprender a permanecer na esperança mesmo quando tudo parece encerrado. É confiar na ação de Deus mesmo quando ela não é perceptível. O silêncio torna-se, assim, lugar de encontro e de transformação.

A Vigília Pascal, celebrada na noite do Sábado, é o ápice de toda a celebração. Ela pertence já ao terceiro dia do Tríduo, o Domingo da Ressurreição. Nesta noite, a Igreja celebra a vitória definitiva da vida sobre a morte.

A riqueza simbólica da Vigília — a luz que rompe as trevas, a Palavra que narra a história da salvação, a água que gera vida nova, o pão e o vinho que se tornam presença do Ressuscitado — introduz o fiel no coração do mistério. Trata-se de uma espiritualidade profundamente mistagógica: não apenas compreender, mas experimentar o mistério.

O Domingo da Ressurreição, vivido tanto na Vigília quanto na celebração do dia, manifesta a plenitude da Páscoa. Em Cristo ressuscitado, a morte é vencida e uma nova criação é inaugurada. A alegria pascal não é apenas um sentimento, mas a experiência de uma vida nova que se comunica aos fiéis.

Assim, viver a espiritualidade da Semana Santa é deixar-se conduzir pela liturgia em sua unidade e profundidade. Não se trata de acompanhar exteriormente uma sequência de eventos, mas de participar de uma única ação salvífica que transforma a existência. Da entrada em Jerusalém à Ressurreição, a Igreja percorre o caminho de Cristo para que cada fiel possa, nele, passar da morte para a vida.

Em última análise, essa espiritualidade é um caminho de configuração a Cristo. Através das celebrações, o fiel aprende a lógica pascal: o amor que se entrega, o silêncio que espera, a esperança que renasce. É assim que a liturgia se torna vida e a Semana Santa, verdadeiramente, o tempo mais santo de todo o ano cristão.



Memória e testemunho: 39 anos da Páscoa de Escolástica Rivata

Hoje celebramos o 39º ano da Páscoa da Venerável Escolástica Rivata, em sintonia com a liturgia desta terça-feira, 24 de março de 2026, da 5ª Semana da Quaresma. À luz das leituras (Nm 21,4-9; Sl 101(102); Jo 8,21-30), recordamos com gratidão o testemunho daquela que se configurou profundamente a Cristo em sua peregrinação rumo a Jerusalém.

Neste mesmo dia, a Igreja na América Latina e no Caribe também faz memória de Dom Oscar Romero, pastor dos indefesos e mártir da justiça. Em comunhão com toda a Igreja, elevamos nossa ação de graças ao Pai pelo testemunho luminoso dessas vidas entregues ao Evangelho.

Nascida como Úrsula Rivata, em Guarene, no dia 12 de julho de 1897, foi a primogênita de quatro filhos de Antonio Rivata e Lúcia Alessandria. Desde cedo, enfrentou a dor da perda de sua mãe, falecida quando tinha apenas seis anos, sendo educada pelo pai em um ambiente familiar marcado por sólidos valores humanos e cristãos.

Ainda criança, destacou-se pela sensibilidade, inteligência e iniciativa. Aos sete anos recebeu a Primeira Comunhão e, em 1909, a Confirmação. Participativa na vida paroquial, integrou o coral e, ao longo da juventude, experimentou diversas atividades de trabalho — da lavoura à fábrica de seda —, o que contribuiu para sua maturidade humana e espiritual.

Diante da proposta de casamento apresentada por seu pai, Úrsula fez uma escolha decisiva que marcaria toda a sua existência. Em oração, diante do Sagrado Coração de Jesus, respondeu com firmeza: “Senhor, só Tu e basta”. Com esse “sim”, consagrou-se inteiramente Àquele que a havia chamado, abraçando uma vida de total entrega, mesmo diante das incompreensões familiares.

Sua busca por formação a levou ao encontro do Beato Tiago Alberione, figura central em seu caminho vocacional. A partir desse encontro, sentiu-se impulsionada a dar passos concretos rumo à vida consagrada.

No dia 29 de julho de 1922, ingressou na Casa São Paulo, iniciando sua jornada na missão paulina. Pouco tempo depois, em 21 de novembro de 1923, foi escolhida para integrar a nova fundação desejada por Padre Alberione. Em 10 de fevereiro de 1924, memória de Santa Escolástica, teve início oficialmente essa nova obra, que se consolidaria em 25 de março do mesmo ano, festa da Anunciação, com a profissão religiosa de oito jovens. Nesse momento, Úrsula recebeu o nome de Irmã Escolástica da Divina Providência.

Desde então, sua vida foi marcada pela Adoração Eucarística e pelo serviço como irmã e mãe junto aos sacerdotes e discípulos da Sociedade São Paulo. Como primeira entre as Pias Discípulas do Divino Mestre, tornou-se colaboradora direta na concretização do carisma paulino, assumindo com apenas 28 anos a responsabilidade pela nova comunidade.

No dia 24 de março de 1987, Madre Escolástica concluiu seu peregrinar terreno, deixando um legado de fé, entrega e profunda união com Cristo. Seu testemunho continua a inspirar a missão da Igreja. O processo de sua causa foi iniciado em 13 de março de 1993, em Alba, e, em 9 de dezembro de 2013, foi proclamada Venerável pelo Papa Francisco, permanecendo em caminho rumo à beatificação.

Neste dia, rendemos graças a Deus por sua vida e renovamos nosso compromisso de seguir o Mestre, à luz de exemplos tão fecundos de santidade e dedicação ao Evangelho.

Ó Trindade divina,
Pai e Filho e Espírito Santo,
Nós te adoramos e te agradecemos
Porque na tua infinita sabedoria
Suscitaste no tempo
MADRE ESCOLÁSTICA RIVATA,
Piedosa e fiel discípula
De Jesus Mestre Caminho, Verdade e Vida.
Ela foi a primeira, entre muitas,
A realizar a particular vocação e missão,
A serviço da Eucaristia, do Sacerdócio e da Liturgia.
Segundo o teu divino querer,
Te pedimos que ela seja glorificada,
A fim de que tenhamos no céu uma protetora
Que nos estimule a ser “em Cristo membros vivos e operantes na Igreja”.
Por sua intercessão, concedei-nos a graça que agora te pedimos (pedir a graça…

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Com aprovação eclesiástica
Para informações dirigir-se a:

Irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre
Rua Dr. José de Moura Resende, 323 – Jardim Caxingui
CEP 05517-000   São Paulo/SP
E-mail: secretaria@piasdiscipulas.org.br